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Por que é importante garantir serviços de pagamento no retalho acessíveis, no contexto europeu de envelhecimento demográfico?

A Europa está a envelhecer rapidamente. De acordo com as últimas projeções do EUROSTAT, em breve uma em cada quatro pessoas que vivem na...

20.2.17

Bill Gates diz que robots deveriam pagar impostos

Para Gates, o valor arrecadado deveria reverter para a criação de emprego em áreas em que as características humanas não podem ser substituídas.


O fundador da Microsoft, Bill Gates, defende que os robots deveriam compensar fiscalmente os trabalhadores que substituíram para garantir um abrandamento, ainda que temporário, da automação de postos de trabalho. Para Gates, o valor arrecadado deveria reverter para a criação de emprego em áreas em que características humanas como a empatia e a sensibilidade não podem ser substituídas por máquinas, como os cuidados infantis ou a idosos.

Em entrevista ao Quartz, o homem mais rico do mundo defendeu que a automação de postos de trabalho está a afetar uma série de profissões em simultâneo e que é importante saber gerir esta substituição.

O trabalho de armazém, a condução ou as limpezas são algumas das atividades que, para Bill Gates, serão asseguradas por robots nos próximos 20 anos. O fundador da Microsoft alertou também para a necessidade de avaliar as comunidades onde a automação terá maior impacto e preparar programas de transição, sobretudo ao nível do financiamento. É a este nível que a tributação do trabalho dos robots pode ser investida.

“É muito mau que, no geral, as pessoas tenham mais receio do que entusiasmo em relação à inovação”, diz Bill Gates, para quem os governos devem assumir o papel ativo na preparação para a robotização do trabalho, sobretudo ao nível da requalificação dos trabalhadores dos postos de trabalho eliminados para profissões que ajudem os mais desfavorecidos.

Joana Rebelo Morais

Por que é importante garantir serviços de pagamento no retalho acessíveis, no contexto europeu de envelhecimento demográfico?

A Europa está a envelhecer rapidamente. De acordo com as últimas projeções do EUROSTAT, em breve uma em cada quatro pessoas que vivem na União Europeia (UE) terá 65 anos ou mais. Paralelamente, a sociedade está a mudar rapidamente e a digitalização dos serviços está a espalhar-se em todos os domínios - incluindo os serviços bancários e os pagamentos a retalho. Cada vez mais aos clientes, não são oferecidos outras escolhas para além de pagar usando cartões, dispositivos de pagamento online ou móveis. Alguns Estados-Membros da UE estão mesmo a tentar deliberadamente tornar-se sociedades sem dinheiro e, nestes países, os retalhistas têm o direito de recusar pagamentos em numerário.


Embora esta tendência de utilizar plenamente as potencialidades das novas tecnologias no domínio dos pagamentos a retalho seja bem acolhida pela maioria, suscita preocupações fundamentais entre alguns grupos da população, nomeadamente as pessoas idosas e as pessoas com deficiência que enfrentam barreiras causadas pela falta de acessibilidade de muitos retalhistas a dispositivos de pagamento. Em essência, a acessibilidade dos pagamentos é importante para todos os consumidores.

Na sequência da Acta Europeia sobre a Acessibilidade apresentada em Dezembro de 2015, a Comissão Europeia continua a tentar cumprir o compromisso jurídico de melhorar a acessibilidade que a UE assumiu quando ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Ninguém vai negar que os serviços de pagamentos desempenham um papel crucial nas nossas sociedades. Contudo, no contexto atual de digitalização rápida dos pagamentos de retalho, as pessoas com deficiência e as pessoas idosas lutam cada vez mais quando querem pagar bens e serviços que desejam comprar, ou quando tentam retirar dinheiro de uma ATM ou gerir os seus ativos online .

O resultado é que todos estão a perder: o sector retalhista da UE perde oportunidades de negócio e os clientes com deficiência e os idosos sentem-se cada vez mais afastados como consumidores por lhes ser negado o direito de participarem plenamente na vida económica da sua comunidade. No século XXI, existem soluções técnicas para combater a exclusão financeira de consumidores com necessidades especiais e não é mais aceitável negar-lhes o direito de realizar os seus pagamentos de retalho de forma independente.

Por que motivo é necessária uma ação a nível da UE?
Iniciativas interessantes foram implementadas em alguns países para facilitar o acesso a serviços bancários e de pagamentos, quer fornecendo ajuda ad-hoc a clientes com necessidades especiais ou incorporando recursos de acessibilidade com base no conceito de design para todos nos dispositivos técnicos que suportam pagamentos e caixas eletrónicas. Embora estas iniciativas sejam bem-vindas e demonstrem que é tecnicamente viável melhorar a acessibilidade dos serviços de pagamentos de retalho, as necessidades e barreiras específicas destes grupos ainda não foram abordadas de forma coordenada na UE, dez anos após a adoção da Convenção das Nações Unidas Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

É por isso que as organizações que representam pessoas com deficiência, pessoas idosas e outras pessoas juntaram forças para apoiar a campanha “Pay-Able”, que se esforça por ter terminais de pagamento acessíveis, porque "milhões de cidadãos europeus estão excluídos de efetuar pagamentos em lojas, restaurantes, máquinas e outros terminais de acesso público. Este problema é ainda mais urgente agora que a nossa sociedade está em transição para um ambiente “menos dinheiro” .

Deixar aos bancos ou aos retalhistas individuais ou mesmo às autoridades nacionais para encontrarem soluções para melhorar a acessibilidade dos pagamentos de retalho conduzirá a uma maior fragmentação e obstáculos adicionais aos consumidores com necessidades especiais que viajem para outro Estado-Membro para trabalhar ou em lazer.

No quadro do mercado único europeu, se quisermos garantir a liberdade de circulação de bens e serviços e dos cidadãos - incluindo os que têm necessidades especiais - é crucial tomar medidas a nível da UE para assegurar que o sector dos pagamentos de retalho e as organizações de consumidores desenvolverão conjuntamente características comuns de acessibilidade que serão coerentes e interoperáveis ​​em todo o mercado único.

O melhor lugar para este debate e trabalho conjunto a ter lugar é o Euro Retail Payments Board (ERPB)[ criado em Dezembro de 2013 pelo Banco Central Europeu. Este grupo de alto nível reúne todos os sectores de pagamentos de retalho, tanto do lado da oferta como da procura. O seu mandato é identificar e estudar obstáculos e encontrar formas de ajudar a promover o desenvolvimento de um mercado integrado, inovador e competitivo para pagamentos de retalho em euros na UE.

A AGE Platform Europe e o banco central holandês De Nederlandsche Bank propuseram recentemente a criação de um grupo de trabalho informal para elaborar uma proposta sobre o que poderia ser feito a nível da UE para melhorar a acessibilidade dos pagamentos de retalho. Esta proposta foi apoiada por vários membros do ERPB e os trabalhos começarão em breve.

Estamos convencidos de que qualquer medida adotada a nível da UE para melhorar a acessibilidade dos pagamentos de retalho beneficiará tanto os consumidores como os intervenientes da oferta em toda a Europa.

Anne-Sophie Parent
Secretária Geral da AGE Platform Europe

19.2.17

A APRe! esteve em Vila Pouca de Aguiar a convite da Universidade Sénior das Terras de Aguiar

No passado dia 17 de Fevereiro, realizou-se no auditório da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, uma conferência promovida pela Universidade Sénior das Terras de Aguiar, que teve como tema: “Desafios para o Envelhecimento Activo", em que para além de um público numeroso e interessado, estiveram presentes elementos da Direcção Universidade Sénior, designadamente a sua Presidente Dr.a Teresa Gonçalves e o Vereador da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, Eng. Duarte Marques.

A APRe! esteve representada por Rosário Gama e Ângela Dias da Silva.

O tema da conferência foi um excelente motivo, para através das intervenções da Presidente da USTAG, do Vereador da Câmara, da Dr.a Alice Mártires da UTAD, das intervenções das representantes da APRe! e do período de discussão que se seguiu, poderem contribuir para uma reflexão sobre algumas respostas que o poder autárquico e a sociedade civil, em conjunto, podem desenvolver para tornarmos a sociedade cada vez mais consciente dos problemas da população mais idosa e, também, cada vez mais atenta ao cumprimento dos direitos sociais da população sénior.

Falámos também da missão e valores da APRe! e, do livro “Os Sonhos Não Têm Rugas”.

A APRe! agradece à USTAG e à Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar o acolhimento e deixamos também o nosso reconhecimento por sentirmos que é através de iniciativas como esta que todos contribuímos para um envelhecimento activo e, sobretudo, participativo.







18.2.17

Robôs no Parlamento

Assembleia da República promove na próxima terça-feira um debate sobre as implicações da robótica, inteligência artificial e, em geral da automação, nas sociedades desenvolvidas.


Organizado por quatro Comissões, as dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, da Educação e Ciência, do Trabalho e Segurança Social e da Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, mostra a importância do tema e é também revelador da outra faceta da política menos valorizada pelos media e pela população em geral. Para além das tricas do dia a dia, a política é cada vez mais uma atividade informada, atenta, capaz de responder aos desafios do nosso tempo.

Acrescente-se a atualidade do assunto, já que este debate está a acontecer neste preciso momento no Parlamento Europeu com base num relatório produzido por um grupo de trabalho. Tive a oportunidade de o ler. É um documento bem estruturado e culto que merece atenção.

Uma das propostas mais interessantes prende-se com o ser robótico. Não sendo da espécie humana ou animal, os robôs têm muitas características similares às nossas e capacidades que se equivalem ou mesmo nos excedem. À medida que ganham autonomia, inteligência, capacidade de decisão e a caminho de terem alguma consciência dos seus atos, colocam várias questões éticas e de direitos. O documento propõe que os mais avançados passem a ser designados por "pessoas eletrónicas", tenham bilhete de identidade e paguem impostos através de quem os emprega. Apesar desta visão algo burocrática, típica da Europa, alguma coisa tem de ser feita para garantir os direitos destas entidades inteligentes e reconhecer o seu contributo social como força de trabalho.

Outras ideias prendem-se com questões legais. Se um robô causar um acidente, quem é responsável? O próprio robô, o fabricante ou o utilizador? Em breve, iremos certamente ter uma nova polícia científica dedicada a desvendar estes imbróglios.

Para efeitos práticos o documento enumera um conjunto de recomendações que pretende ver implementadas no curto prazo. Escolhi cinco:
  • a) Criação de uma Agência Europeia para a Robótica e a Inteligência Artificial;
  • b) Definição legal para os robôs autónomos inteligentes, com um sistema de registo dos mesmos;
  • c) Código de conduta para os criadores de robôs no sentido de garantir uma produção e utilização ética dos mesmos;
  • d) Um novo tipo de relatório empresarial que mostre a contribuição da robótica e da inteligência artificial nos resultados, para fins de tributação e contribuições para a Segurança Social;
  • e) Um novo regime de seguro obrigatório para as empresas para cobrir danos causados pelos seus robôs.
São ideias controversas que para já têm a oposição dos fabricantes de robôs e das empresas que os usam, sobretudo pelo aumento da carga fiscal. Ainda que alguém tenha de pagar o crescente desemprego. Pelo menos até se encontrar outra solução, do tipo do Rendimento Universal que mesmo assim necessita de financiamento. De notar que um dos mais destacados proponentes desta ideia é Elon Musk, o dono da Tesla. Não admira, é uma questão de matemática. Se as pessoas não tiverem emprego, nem dinheiro, quem resta para comprar os produtos fabricados pelas empresas? Os robôs?

A maioria dos portugueses pode estar alheada destas questões. Não temos uma indústria significativa e o desemprego causado pela automação não é, nem será, muito relevante nos próximos tempos. Mas, como tudo, um dia esta vaga chegará às nossas praias. É bom estarmos preparados.

Leonel Moura
Artista Plástico

17.2.17

AGE Platform Europe, Manifestação em Bruxelas dia 6 de março de 2017 sobre a diretiva da UE sobre a acessibilidade

APELO DA AGE – Platform Europe
Diretiva europeia sobre a acessibilidade: manifestação prevista para 06 de março de 2017, em Bruxelas.


O Fórum Europeu das Pessoas com Deficiência prevê realizar uma manifestação sobre a diretiva da UE sobre a acessibilidade a 06 de março de 2017 em Bruxelas e apela aos seus parceiros para aderir ao movimento.

Esta proposta legislativa está a ser discutida no Parlamento Europeu e as nossas preocupações foram expressas sobre o projeto de relatório da Comissão do Mercado Interno. Por conseguinte, o Fórum Europeu das Pessoas com Deficiência planeia uma manifestação em frente ao Parlamento Europeu para chamar a atenção da necessidade de uma legislação forte. O objetivo é pedir à Comissão de Mercado Interno para adotar uma posição ambiciosa para que esta diretiva europeia possa realmente fazer a diferença para milhões de pessoas na Europa.

A AGE trabalha em estreita colaboração com o Fórum Europeu das Pessoas com Deficiência sobre esta questão e apoia esta ação como fizemos em 2010 com a corrente humana coordenada pela Rede Europeia contra a Pobreza (EAPN). Foi então, que alguns membros da AGE se juntaram ao movimento.

A organização prática deste evento está em preparação e vamos mantê-lo informado.

Que papel pode desempenhar?
  • Se tem uma reunião agendada em Bruxelas para 6 de Março, ou se tiver a sua sede perto de Bruxelas, é convidado a participar na manifestação. Na verdade, a AGE não tem capacidade financeira para pagar as despesas de deslocação para esta manifestação.
  • Pode apoiar o evento divulgando esta mensagem através da imprensa e dos outros meios de comunicação social, locais, regionais ou nacionais. Toda a contribuição ajuda.
Consulte as informações complementares em:
http://www.age-platform.eu/policy-work/news/age-contribution-eu-consultation-european-accessibility-act

16.2.17

A dúvida

Durante um período de séculos, a ideia de unidade europeia foi sonho de doutrinadores e apóstolos, até que a experiência que se viveu de 1914 a 1945 pareceu ter implantado - pelo sofrimento global vivido em resultado de duas guerras mundiais que pareceram vésperas do Apocalipse - e definitivamente adotado o credo da unidade europeia, parcela do globalismo nascido das interdependências. Infelizmente, o ano de 2016 parece ter acabado assombrado por uma nova temática dominada pela questão de saber se a União, dificilmente conseguindo forma legalmente consagrada pelo Tratado de Lisboa, conseguirá manter-se.

O desenvolvimento da globalização, menos determinada pela política e mais consequência dos avanços da ciência e da técnica, qualquer que tenha sido a causalidade, obrigou à redefinição das soberanias ocidentais, submetidas a uma nova hierarquia de modelos inscrita na Carta da ONU. Tudo parecia aconselhar a União, como resposta pela articulação de esforços, valores e objetivos, a aceitar a regionalização que também surgia no antigo "terceiro mundo", ou mundo hegemonizado pela Frente Atlântica. A metamorfose soberana dos Estados da União, abrangendo seis em 1950 e 28 em 2013, não conseguiu que as populações compreendessem que o interesse comum tinha nos Conselhos uma espécie de câmara alta, no Parlamento uma câmara baixa, e na Comissão um ensaio de executivo, maneira verbal imperfeita de se aproximar a estrutura da compreensão das populações. Acontece porém que a mundialização, ao contrário dos Estados, que estão definidos por fronteiras territoriais, defina centros decisórios, e intervenções dos decisores, que muitos deles são centros não identificados, são antes, como já foi dito, nómadas, como por vezes as empresas, com pelo menos dois efeitos negativos: que as populações reconheçam que as políticas europeias foram furtivas porque os eleitorados não se sentiram envolvidos; em consequência, procuraram nos populismos crescentes reformulações inspiradas pela memória das antigas soberanias, parecendo ignorar que a circunstância mundial não é de regra regressível.

O ano de 2016 somou vários fatores que todavia implicam a pergunta da dúvida sobre a inevitabilidade de reforma e a avaliação da possibilidade. Pode começar-se pelo crescimento do que Charles Derber chamou "a maioria deserdada", sendo inquietante a diferença do rendimento por cada habitante; a abstenção crescente torna-se evidente nas obrigações eleitorais; a radicalização do discurso político cresce, como acontece na Hungria e na Eslováquia; e finalmente a crise e a diversidade das respostas às migrações, ao mesmo tempo que a própria unidade interna de mais de um país é posta em causa, como acontece em Espanha, na Itália, em França, e teve sério agravamento com o resultado do referendo inglês no sentido de abandonar a União. Neste caso, não são apenas as questões financeiras e económicas que aumentam as preocupações, é a segurança em conflito com os deveres humanitários que levam a responsável pela segurança e defesa comum europeia a declarar que a União precisa de um exército, sem referir que o brexit inglês implica que a definição da pretendida autonomia de segurança e defesa europeia perde o maior exército e a maior esquadra do conjunto.

Parece mais inquietante do que apaziguador o recente discurso de Putin, alegadamente preocupado com o que considera, para o resumir, a degradação dos valores das sociedades civis europeias, tendo em vista as reformas que se vão tornando comuns na Europa quanto ao reconhecimento legal de alterações referentes à família e à disposição final da vida. Para um responsável que na sua terceira definição de governante se apresentou como o guia do Império do Meio, parece mais uma tentativa de reforço de poder interno pacificado por assumir, como guardião, o anúncio da Igreja Ortodoxa de que a Terceira Roma não cairá, feito quando os turcos submeterem parte do território europeu cristão, perfilando-se assim como guardião confiável da boa ordem. Por tudo, e o mais que pode ser acrescentado, cresce a inquietação sobre se o projeto europeu tem futuro, se os Estados europeus são viáveis sem projeto unitário, se as migrações são uma agressão da solidariedade interna e assim por diante. A questão talvez possa reduzir-se a discutir se o projeto em curso pode ser corrigido ou não terá viabilidade; ou se a multiplicação dos chamados populismos (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Grécia, Letónia, Holanda, Eslováquia) vão destruir os valores em que os estadistas fundadores, sem sucessores, quiseram que a solidariedade assegurasse a paz e o desenvolvimento.

Adriano Moreira
DN 15.02.2017

15.2.17

"A Máquina de Emaranhar Paisagens", divulgação/ informação espectáculo no Teatro Carlos Alberto

Ao abrigo do protocolo celebrado entre a APRe! e o Teatro Nacional de S. João (TNSJ) Porto, nos termos do qual os associados da APRe! passaram a usufruir de descontos na compra de bilhetes para os espectáculos, fazemos a divulgação do espectáculo "A Máquina de Emaranhar Paisagens", a partir de textos de Herberto Helder com direção e interpretação de Dinarte Branco.

Este espectáculo será apresentado no Teatro Carlos Alberto, de 23 a 26 de Fevereiro.

quinta-feira a sábado, às 21h00

domingo, às 16h00

Teatro Carlos Alberto

23| 26 Fevereiro

A Máquina de Emaranhar Paisagens

a partir de textos de Herberto Helder

direção e interpretação Dinarte Branco

co-produção Dinarte Branco, Centro Cultural de Vila Flor e TNSJ

Para reservas e informações sobre o espectáculo, por favor, contacte a bilheteira:
Tel.: 22.340 19 00
Linha verde: 800 10 8675 (grátis a partir de qualquer rede)
E-mail: bilheteira@tnsj.pt
www.tnsj.pt

13.2.17

Tirar o rabo da cadeira

Os números oscilam de país para país, mas têm um denominador comum: é nas camadas mais jovens que a taxa de abstenção atinge valores mais elevados. Nos Estados Unidos, os níveis de participação em eleições presidenciais variaram, desde 1980, entre 48% e 59%. Mas na faixa dos 18 aos 29 anos chegaram a baixar a cerca de 32%.

Num ano de escolhas relevantes para a Europa, em França, Alemanha e Holanda, é tempo de olhar com outro entusiasmo para o ato eleitoral. Quem não vai às urnas sente que o seu voto não irá mudar nada. Ou que nenhuma das opções em apreciação vale a sua escolha. Ou, em último caso, que os políticos são todos iguais.

Os chavões só nos distanciam cada vez mais de uma intervenção cívica que não é apenas um direito, mas um dever. Os vícios de quem ocupa o poder são incontáveis e as razões para a desconfiança mais do que muitas. E o sistema afigura-se de tal modo enferrujado que vale a pena, a todo o momento, fiscalizar e procurar melhores formas de expressão democrática. Mas a verdade é que os políticos não são todos iguais. E cada vez que ficamos parados em casa, em dia de eleições, contribuímos para legitimar as escolhas de quem vai votar. Que outros decidam por nós.

Donald Trump está apenas a começar o seu mandato mas já deixou bem claro que é um político que cumpre. Se alguém está surpreendido com medidas como o decreto anti-imigração, só pode ter estado desatento durante a campanha eleitoral. Mas é provável que se a geração mais jovem, aquela em que Trump teve a taxa de aceitação mais baixa, tivesse saído mais de casa para votar, os resultados pudessem ter sido outros.

Estamos a falar de uma geração particularmente ativa nas redes. Que se manifesta ao segundo, domina as tecnologias e a ação digital. Uma geração que deve questionar-se sobre o papel que quer ter na comunidade. Um "gosto" não muda o Mundo. E esse é um erro que todos, em qualquer idade, estamos a cometer. Comovemo-nos muito, protestamos, partilhamos vídeos virais, mas tiramos muito pouco o rabo da cadeira.

Marine Le Pen, a líder da extrema-direita que aspira vencer as presidenciais e tem bandeiras eleitorais como reduzir a imigração a dez mil pessoas por ano ou introduzir a prisão perpétua, disse esperar que este ano a Europa acorde. Eu também, embora a minha noção de despertar seja outra. Que a Europa mostre, nas urnas, que escolhe a coesão, a tolerância e a entreajuda como caminhos para o futuro. Para muros, já temos um Trump de sobra.

Inês Cardoso
JN 06.02.2017
Leia mais: Tirar o rabo da cadeira

12.2.17

Somos Homens ou rinocerontes?

Vejo por cá quem alinhe com Trump. Uns às claras, com elogios à “coragem” de rasgar com o statu quo e defender a pátria e “os seus”; outros de forma mais velada, fazendo ver os “erros” dos antecessores, criticando os “excessos” na comparação com Hitler ou sublinhando os “perigos” dos imigrantes e refugiados

Tenho de confessar que vai para três semanas que a minha cabeça anda praticamente em modo monotema. Deito-me com as últimas notícias sobre Trump, tenho pesadelos com um certo ser cor de laranja a espumar da boca num púlpito, acordo com mais notícias sobre Trump, passo o dia a ler as histórias e comentários sobre mais uma das suas sucessivas decisões imorais e/ou inconstitucionais ou sobre mais um dos seus vis ataques, seja aos media de referência, a um juiz que ousou fazer valer a lei ou aos muçulmanos (terroristas ou gente de bem, que para ele é tudo a mesma coisa). Espanto-me. Indigno-me. Horrorizo-me. Tento não ceder à tentação de normalizar a minha repulsa, de acomodar a indignação, habituar-me à ideia. Afinal o ser humano habitua-se a tudo, não é verdade?

Por mais que me espante, tenho de gastar o meu latim a explicar a diferença entre legitimidade democrática de uma eleição (neste caso beliscada pelo facto de ter perdido o voto popular, coisa que Trump ainda não conseguiu digerir) e a ilegitimidade democrática dos atos do homem eleito. Nem uma eleição é um banho purificador do candidato, nem garante o direito ao eleito de fazer o que lhe apetece, mesmo que em campanha tenha dito estas e outras alarvidades. Na tomada de posse, o Presidente dos Estados Unidos jura obediência à Constituição e tem de a cumprir, ao mesmo tempo que se submete aos famosos checks and balances, os freios e contrapesos que Montesquieu tão bem urdiu para obstar a prepotências.

E, por mais que me espante, também vejo por cá – até entre os meus amigos e conhecidos – quem alinhe com ele. Uns às claras, com elogios à “coragem” de rasgar com o statu quo e defender a pátria e “os seus”; outros de forma mais velada, fazendo ver os “erros” dos antecessores, criticando os “excessos” na comparação com Hitler ou sublinhando os “perigos” dos imigrantes e refugiados. E não, não são os desempregados fora do sistema e ignorantes que simpatizam com Trump em Portugal. São também juristas, são católicos (que certamente não praticam os valores cristãos), são uma certa direita conservadora que partilha o temor pelos "invasores" e que gosta dessa ideia de nos voltarmos para dentro.

Onésimo Teotónio de Almeida, pensador e ensaísta sobre a identidade nacional, residente nos EUA, não acha inconcebível: até podíamos ver um Trump eleito por cá. “Não se recorda de um concurso na televisão portuguesa em que os portugueses elegeram Salazar como o melhor português de sempre? Em Portugal costumamos ser sempre bons seguidores de modas. Por isso...”, argumenta em publicada nesta edição da VISÃO.

Já lá vão três semanas, mas ainda estou em choque. Não, não podemos normalizar o horror de ver a nação mais poderosa do mundo entregue a um bully xenófobo, racista e misógino, a um narcisista impreparado, ao rei da propaganda de discurso básico e simplista. A um homem a quem escasseiam os mais elementares valores humanistas, que desconhece as mais elementares regras democráticas, que passa por cima dos mais elementares princípios constitucionais. Trump é tudo isto, e quiçá pior ainda, e nós a ver, com minucioso detalhe, este tenebroso reality show de um pequeno ditador em construção.

Lembro-me do fantástico texto de Eugène Ionesco, Rhinocéros, e do horror com que o protagonista Bérenger assiste a todos os humanos à sua volta a transformarem-se em rinocerontes brutais. “Não vou capitular!” grita epicamente o improvável herói (um alcoólico desmazelado) no fim da peça, ele que é o último resistente. Nos dias de hoje, vale a pena regressar a Ionesco e à sua alegoria aos tempos do nazismo. Porque esta é também a altura em que temos de escolher: afinal, somos Homens ou rinocerontes?

Mafalda Anjos
Visão 10.02.2017

11.2.17

A aflição europeia

A minha geração, e a mais nova, estão muito habituadas a viverem “na Europa”; não se lembram das imensas dificuldades e incertezas de quando ela não existia ou de quando Portugal lhe estava à porta.


Houve um tempo em que a UE fazia parte da solução. Para os países ricos do norte e para os países pobres do sul (de adesão mais recente), a União Europeia era o caminho – para que os ricos continuassem a liderar o mundo e os pobres beneficiassem da convergência que melhoraria as suas vidas. Mas desde há uns anos, com a burocratização das instituições comunitárias, com a crise das dívidas soberanas e com o assalto dos populismos e terrorismos, parece que a UE passou a fazer parte do problema. Os mais críticos dirão até que a UE é o problema – e que as lideranças europeias são a encarnação disso mesmo.

Em 2016, o eurocepticismo transformou vários actos eleitorais em testes à ideia do projecto europeu. E muitas eleições aprazadas para este ano de 2017 seguirão tal senda. Cada derrota do sistema foi saudada pelas franjas euro cépticas; e a cada vitória magra deste, deu-se um suspiro de alívio. Não sou tão euro entusiasta quanto outros, porque não posso ver sem reserva a forma como a União se vai fechando e entregando poderes e soberanias a entidades (como o todo-poderoso Eurogrupo) não fiscalizáveis pela democracia ou pelo voto. Mas reconheço facilmente que a construção europeia foi um dos maiores projectos políticos e de relações internacionais da segunda metade do século XX, dando ao velho continente décadas de paz e prosperidade. Talvez o problema seja de memória.

A minha geração, e a mais nova, estão muito habituadas a viverem “na Europa”; não se lembram das imensas dificuldades e incertezas de quando ela não existia ou de quando Portugal lhe estava à porta. E da mesma maneira que só apreciamos a saúde quando estamos doentes, corremos bem o risco de só apreciar a Europa se, ou quando, já não a tivermos.

Em 2016, a UE tremeu a cada eleição. Trata-se de uma situação abstrusa, porque é ilógico que as democracias temam o mecanismo de base que as funda, justifica e alimenta. E tudo foi pior no caso dos referendos – que os próprios governos transformaram em plebiscitos, e que serviram de pasto fácil às demagogias e aos populismos. A imprudência de David Cameron, em luta doméstica contra o UKIP, atirou o Reino Unido para fora da UE. Depois, a precipitação de Matteo Renzi (propondo uma revisão constitucional destinada a blindar o executivo), atirou a Itália para a incerteza.

De governo em governo, e se estes durarem até às eleições de 2018, Beppe Grillo vai ficando mais perto do Palazzo Chigi. Na Áustria, Norbert Hofer quase conseguiu a Presidência para uma ultra direita pouco europeísta e muito nacionalista – o que não pouco assustaria Bruxelas. Finalmente, o fracasso de François Hollande (depois de um mandato castigado pelo terrorismo), levou-o a desistir da recandidatura ao Eliseu, um abandono que François Fillon ou Benoît Hamon tentarão preencher este ano, mas que, por ora, só traz contente Marine le Pen. Como esperançado anda Geert Wilders, que vai em breve a eleições na Holanda.

Por toda a parte, líderes democráticos europeus arriscaram demais, chantagearam eleitorados (ou não os compreenderam), amuaram e foram embora, ou desistiram. A hora não está fácil para políticos euro entusiastas que sejam em simultâneo democratas, carismáticos e populares. E nunca a Europa precisou tanto deles. Sobretudo neste ano de 2017, quando demagogos de toda a espécie espreitam a cada esquina, e quando o velho mundo vai ficar mais sozinho perante a anunciada deserção isolacionista dos EUA de Trump ou uma possível pressão imperialista de Putin – dois dos grandes, senão mesmo os maiores, euro críticos com mais poder.

José Miguel Sardica

10.2.17

Acordai, acordai!

Como chegámos aqui?! Pela insidiosa desatenção dos governantes face aos governados, pela captura dos valores da política pelos interesses do capital financeiro


Passou devagarinho, como se não fosse nada, o 110.o aniversário (17 de dezembro p.p.) de Fernando Lopes Graça, falecido a 27 de novembro de 1994. Intelectual insigne, antifascista convicto, atravessou o século xx deixando atrás de si obra literária e, sobretudo, musical – compositor e maestro – inapagável, de altíssimo gabarito, se não a maior do seu tempo. Datam de meados desse século as conhecidas “Canções heroicas”, musicando poemas de, entre outros, José Gomes Ferreira. É o caso de “Acordai” – “Acordai/ acordai/ homens que dormis/ a embalar a dor/ (...)” –, verdadeiro hino à resistência, à não resignação.

Em tempos de incerteza e de horizontes negros, como são aqueles que vivemos, “acordai!” é o grito que se nos escapa quando ainda não nos tolhe o medo e enquanto a insensibilidade, à força de dissimulada desinformação, não nos toma de todo. Explicam-nos que os populismos não são necessariamente xenófobos ou racistas, até os há de direita e de esquerda, são antes a inevitável consequência de governos que se afastaram do povo que governam. E eis que emergem os novos salvadores do mundo, heróis de pátrias sitiadas por elites desonestas e corruptas, que prometem voltar a dar ao povo o que é do povo, devolver-lhe o poder de escolher e decidir. Que jactância!

Acaso se presume que o tresloucado presidente americano, que está a pôr o mundo em polvorosa, age com até agora impune arrogância em nome do povo com quem se diz irmanado? Ele emparelhado com os esquecidos da política, os deserdados da economia capitalista?! Ora, basta ver quem ele é e de onde vem, c’os diabos! E como os acasos não acontecem por acaso, o sinistro Vladimir Putin aplaude a chegada ao poder do amigalhaço – bem ao gosto da sua personalidade esquizoide-czarista – e, coincidência, recrudesce a guerra na Ucrânia por ação dos rebeldes pró-Rússia. Bem aqui ao pé – i.e., num Estado-membro da UE –, que da distante Síria já pouco se fala, a guerra continua, a matança também, e os amigos improváveis – Putin e o turco Erdogan, da mesma igualha – esfregam as mãos de contentes: este Trump veio mesmo a calhar! E de Israel, acossado pela recentíssima resolução da ONU contra os colonatos, veio um entusiástico “bem-vindo” de Benjamin Netanyahu. E como se não bastasse, o britânico Nigel Farage, campeão do Brexit e que faz questão de manter – enquanto puder – o lugar de eurodeputado, provocou tudo e todos ao fazer o elogio, rasgada e descaradamente, de Donald Trump num discurso no Parlamento Europeu. Topete não lhe falta, para mais ciente de que colhe louvor junto dos seus compinchas europeus, nem todos com a mesma tribuna ao dispor. Mas com crescente, preocupante e assustadora audiência, entendamo-nos...

Como chegámos aqui?! Pela insidiosa desatenção dos governantes face aos governados, pela captura dos valores da política pelos interesses do capital financeiro, essa entidade sem rosto, omnipresente e poderosa. E que mais? Não adianta chorar sobre o leite derramado, tampouco alijar-se das responsabilidades ou efabular conspirações secretas. A propalada “crise da democracia” deixou de ser um problema conceptual, é um risco iminente.

Acordai! Acordai! Acordai! Enquanto é tempo...

Maria Helena Magalhães
Jornal i Opinião 08.02.2017

Conferência "Desafios para o Envelhecimento Activo" em Vila Pouca de Aguiar

A APRe! vai estar presente na conferência “Desafios para o Envelhecimento Activo” que vai decorrer no próximo dia 17 de Fevereiro, no Auditório da Assembleia Municipal de Vila Pouca de Aguiar, através da presença de dois elementos da Direcção da APRe!, a Presidente Rosário Gama e a Secretária Ângela Silva.

A conferência contará igualmente com a participação da Dr.ª Alice Mártires, docente da UTAD.

Este evento pretende promover a informação das pessoas e compreender melhor o fenómeno do envelhecimento da população, no sentido de contribuir para a sua qualidade de vida, dignidade, direitos sociais e participação nas políticas locais.

A sessão é de entrada e participação livre, estando todos convidados a participar na Conferência.

9.2.17

Não, a pobreza não é culpa dos pobres

Todos os dias, hora de almoço, lá está ele, do outro lado da rua, junto ao café onde os que trabalham deste lado, terciários clássicos, fato e gravata ocasional, enfiam uma bucha para regressar rapidamente ao escritório. Pede, de mão estendida, rugosa, já passou há muito a meia-idade. Não é o clássico pedinte, não tem ar miserável. Parece só alguém a quem a vida tramou. O que anuncia, o desemprego, uma mulher doente, pode ou não ser verdade – a vida já me mostrou que não há demasiadas tragédias para uma pessoa só, quando o azar chega não tem medida certa. Alguma coisa lhe aconteceu que o trouxe até aqui. Onde ninguém devia estar.

O mundo contemporâneo espelha-se bem nas reações que tenho visto a este homem. Há os que dão qualquer coisa, nem que seja para alargar o garrote que se aperta no coração. Os que não ligam, anestesiados pela vida deles. E os que, sacudindo a má consciência, fazem acusações, que é para o álcool, ou pior. Como se a desgraça fosse autoinfligida. Como se a condição de ser pobre tivesse de funcionar sempre como acusação.

É mais ou menos o mesmo com o problema que aflige o mundo: a desigualdade. Há os que a percebem e os que a ignoram. Há os que acham que é inevitável e os que estão dispostos a arregaçar as mangas para encontrar uma solução. E há ainda os que estão dispostos a aproveitar-se dela para ganhar poder e influência. Entre todos está o nosso futuro a ser definido. Veja-se o caso de Donald Trump e dos populistas que ganham influência nas democracias ocidentais prometendo mundos e fundos aos deserdados da globalização: os novos pobres, os pobres trabalhadores, os sujeitos da «carnificina» americana de que Trump falou no discurso de tomada de posse.

Por cá, sempre com o atraso do costume, passámos a semana ao arrepio dos tempos, a levar com polémicas sobre o aumento do salário mínimo. Um padeiro moderno – mais preocupado com conceitos do que com a farinha dos pães que vende – criticou a subida e pediu mais formas de, aparentemente, explorar quem trabalha. Sinal de que os tempos mudaram, o discurso do rapaz foi acolhido com mais críticas do que aplausos. A seguir veio a líder de uma organização que ajuda os no fim da linha, o Banco Alimentar, a duvidar do interesse da subida do salário mínimo. Idem, a indignação.

Quem quiser compreender o mundo – e os políticos e os empresários são dos que mais têm interesse em fazê-lo – terá de ter em conta o que se está a passar. Não se engrossa uma multidão de descontentes impunemente, ou sem acarretar com as consequências. E esta, a multidão dos deserdados do liberalismo, da globalização selvagem está cada vez maior, sem esperança de diminuição: o trabalho escasseia, o bem remunerado ainda mais, as oportunidades aparecem a quem está dentro do circuito. Não há inquietação, apenas estagnação.

Que ninguém se engane, isto não é linguagem bafienta. É da mais moderna análise social. O mundo está a mudar – e já há quem se esteja a aproveitar disso.

Catarina Carvalho
Notícias Magazine 05.02.2017
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8.2.17

Almaraz, não passarás!

Há 15 dias o Governo português apresentou (finalmente!) uma queixa em Bruxelas contra a construção de um armazém de resíduos nucleares em Almaraz, aprovada por Espanha sem dar cavaco a Portugal e sem um estudo de impacte transfronteiriço tal como as diretivas europeias obrigam.

Um armazém de resíduos radioativos sobre o Tejo é muito grave, mas o pior é que isso significa o prolongamento encapotado da velha central nuclear até para lá de 2020, quando ela já deveria ter encerrado um reator em 2011 e outro em 2013.

Almaraz é uma central antiga, com problemas de construção nunca resolvidos desde o início, pelo que já teve inúmeros avarias traduzidas em interrupções frequentes. Hoje, depois das regras de segurança inspiradas nos acidentes de Chernobyl (1986) e de Fukushima (2010), nunca seria licenciada.

Espanha especializou-se em instalar as suas centrais nucleares junto a rios que vêm para Portugal e de preferência bem perto da fronteira. Se algo de mais grave acontecer em Almaraz, a nuvem radioativa, poderá até dirigir-se para Madrid, o que será sempre péssimo, mas a água contaminada do rio Tejo, essa correrá sempre para o lado de cá. Tudo isto exige particular atenção da parte portuguesa e grande sentido de coordenação ibérica e integração de políticas. E este é mais um problema: com muito pouco dinamismo e visão geoestratégica, Portugal, defendeu sempre mal os seus interesses básicos nesta matéria e arrastou as negligências do costume durante muitos anos e vários governos — fosse no nuclear, fosse na monitorização das águas.

No caso de Almaraz, a denúncia desta infame decisão política foi feita durante meses por associações cívicas, jornais e alguns autarcas revoltados com a displicência a que as suas populações fronteiriças eram votadas. Demorou tempo demais até que o Governo acordasse e, quando o fez, o processo já ia avançado.

Um risco enorme pode agora vir a ser imposto às populações ibéricas para que um consórcio privado de eletricidade continue a alegrar os seus acionistas ganhando, ao que consta, um milhão de euros por dia. Adiar o inevitável encerramento desta central, exponenciando o risco e empurrando para mais tarde os custos económicos que tal implica — e para os quais deveria estar já criado um fundo de reserva obrigatório —, é de uma imoralidade inaceitável e irresponsável. E não se diga que isto é catastrofismo. A Alemanha, entre outros países, decidiu encerrar a totalidade destas centrais até 2020.

Temos, pois, dois problemas: o problema formal do desrespeito pela diretiva europeia e pelos impactos transfronteiriços; e um problema substantivo, que é conseguir que a central de Almaraz encerre e o armazém não se construa. Noutros casos conseguiu-se: o aterro de resíduos nucleares em Aldeadavilla projetado em 1986 para cima da fronteira a norte, não se construiu; e o Plano Hidrológico Espanhol do Governo de Aznar, em 1993, cujos transvases iriam secar os nossos rios comuns, não foi para a frente. Isto porque em ambos os casos houve uma forte mobilização política e cívica integrando movimentos de Portugal e de Espanha. Quando queremos, podemos!

Claro que Almaraz cai, antes de mais, nas mãos dos ministros do Ambiente e dos Negócios Estrangeiros. Mas o assunto interpela a totalidade do Governo e dos órgãos de soberania, incluindo os Parlamentos de ambos os países e o diálogo político ao mais alto nível.

O problema que está a adensar a gravidade de um outro já de si gravíssimo, é o patético exercício de sobranceria imperial com o que o Governo minoritário de Rajoy pretende tomar uma medida que é um verdadeiro ataque ao seu próprio país e ao país vizinho.

Luísa Schmidt
Expresso 28.01.2017

7.2.17

Vossa Excelência é execrável


Chamemo-lo pelo nome. Um tipo arrogante, que discrimina com base na nacionalidade, na raça, na religião, é um tipo execrável. Um tipo assim, legitimamente eleito chefe da mais poderosa nação, é um pesadelo, a previsão de um Mundo construído sobre o ressentimento e o medo, o que não queremos, e nem cremos, porque tudo nos parece ficção. Passaram apenas duas semanas desde a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Na vertigem, o Mundo à nossa volta está como aquele indivíduo que se precipita, desenfreado e em queda, desde o 33.º andar. Ao passar pelo 11.º, alguém lhe pergunta: "Oi, tudo bem?" Ao que ele responde: "Até agora ..."

Com Trump, a relação umbilical de mais de dois séculos de história partilhada com os europeus não conta para a nova conduta americana, agressiva e intimidatória, hostil ao livre comércio e alheia aos valores humanistas que estão na base das democracias de ambas as margens do Atlântico. Isolacionista, a nova política externa dos Estados Unidos é também contranatura. Porque a América, continente de todas as imigrações, só foi grande quando se abriu ao Mundo.

A atual tensão não tem precedentes, e a Europa encontra-se pela primeira vez na sua história com a estranha inversão da sua aliança com os Estados Unidos: o aliado que a libertou do nazismo, que a defendeu da ameaça soviética e promoveu a sua unidade e alargamento, de repente despreza-a, hostiliza-a e quer vê-la dividida.

O populismo e a pulsão ultranacionalista de Trump, que governa a golpes de impulso nas redes sociais, têm discípulos e intérpretes europeus. E, até nisso, servem o terrorismo que alegam repudiar. Porque também este se alimenta das desigualdades, do preconceito, do ódio e do fanatismo. Inimigos da liberdade, interessa-lhes que voltemos a fechar fronteiras, destruamos a livre circulação, endureçamos as políticas de imigração, e que demos rédea solta à xenofobia. O delírio totalitário de Trump parece ficção, mas tem fiéis em governos e oposições de diversos países da União Europeia. Victor Orbán, na Hungria, ou Jaroslaw Kaczynsky, na Polónia, não propugnam coisas muito distintas. Uns e outros são o partido da guerra. Não podemos ceder-lhes! A começar pelos que nos estão mais próximos. A resposta dos cidadãos europeus só pode estar na defesa de uma Europa mais unida e solidária, que regresse à trincheira dos seus valores fundacionais. Quando passam, em breve, 60 anos do Tratado de Roma, eis o que devemos exigir dos nossos líderes. É agora ou... quando?

Afonso Camões
Opinião JN 05.02.2017
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Fórum organizado pelos TSD Distrito do Porto sob o tema “Envelhecer é um privilégio”

A convite da Coordenadora do Núcleo Distrital dos Reformados, Aposentados e Pensionistas da Distrital dos TSD Porto, a Presidente da APRe! Rosário Gama, vai participar num Fórum subordinado ao tema: “Envelhecer é um privilégio”, que os TSD Distrito do Porto vão promover no próximo dia 11 de Fevereiro de 2017 pelas 10h, no Hotel Vila Galé Porto, Avenida Fernão de Magalhães, nº7, Porto.

A sessão é de entrada e participação livre, estando convidados a participar no Fórum.

6.2.17

Não branquear Trump

O novo presidente dos EUA já mostrou os valores pelos quais se rege. Não são os que levaram à afirmação da democracia liberal.


Acabada a campanha eleitoral, Donald Trump foi um presidente eleito muito interventivo, contra a tradição americana. E na Casa Branca continuou a actuar, não como chefe de Estado, mas como líder de um pequeno grupo de familiares e amigos.

Viu-se quando há uma semana proibiu a entrada nos EUA de refugiados sírios e suspendeu a proveniente de sete países de maioria islâmica. Não informou (e muito menos consultou) os departamentos competentes da Administração americana, gerando a maior confusão nos aeroportos. E teve que recuar, quando percebeu que não podia impedir pessoas com licença de residência nos EUA de entrarem no país.

Escreveu o "Financial Times" em editorial: “Se Trump está preocupado com países cujos nacionais estiveram envolvidos em atrocidades recentes, a ausência (na lista das nacionalidades que não podem entrar nos EUA) de nações como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão é difícil de explicar. Que o presidente tenha interesses empresariais em vários países que curiosamente não figuram na lista, e não tenha interesses em qualquer dos incluídos, não dá à lista qualquer legitimidade”.

Cumprir as promessas

Elogia-se Trump por estar a cumprir o que anunciou na sua campanha eleitoral. Só que muitas dessas promessas são sinistras e aceder ao poder não deu a Trump um pouco mais de bom senso.

Mas não falta, mesmo em Portugal, quem ainda alimente esperanças de que o homem poderá vir a revelar-se não tão mau como isso. E quem peça mais tempo para ter uma opinião fundamentada sobre o novo presidente americano.

Sublinha-se, por exemplo, que tendências políticas, como o isolacionismo ou o proteccionismo, têm uma larga presença na tradição e na história norte-americana. Ou que o sistema político americano, com os seus “freios e contrapesos” (checks and balances), limitará o poder presidencial de Trump. É verdade, mas Trump é uma novidade absoluta.

Claro que outros políticos, que criticam o novo presidente, também mentiram; é um problema da política, desde sempre. E os adversários de Trump nem sempre têm manifestado um grande respeito pela tolerância. Mas isso não justifica Trump, que é o líder da única superpotência mundial e – até há pouco – o grande baluarte da democracia liberal e do Estado de direito.

Por cá, o Presidente da República relativizou o distanciamento de Donald Trump quanto à Europa, afirmando que existe “uma tradição isolacionista” dos presidentes norte-americanos quando iniciam funções. Só que este presidente é radicalmente diferente dos presidentes que o precederam. De Truman a Obama, os presidentes dos EUA apoiaram a integração europeia; Trump saúda o Brexit e dá-o como exemplo a seguir por outros membros da UE.

Decerto que Trump, contradizendo posições suas anteriores, criticou, com brandura, a multiplicação de colonatos por Israel; e a sua embaixadora na ONU disse que seriam mantidas as sanções à Rússia por causa da anexação da Crimeia. Resta saber qual é, de facto, a política externa de Trump, que parece algo variável e imprevisível, sem estratégia clara.

O problema fundamental está no carácter de Trump e nos valores que preza. Ele é presidente da mais poderosa nação do mundo; a “pós-verdade” funciona como um manto de ilusão que o faz viver num mundo virtual. Viu-se quando se empenhou em garantir que na sua tomada de posse tinha estado presente mais gente do que em qualquer outra – uma ridícula falsidade, na qual ele provavelmente acreditava.

Falta de sentido ético

Trump revela uma sensibilidade destituída de um mínimo de ética. Repare-se na questão da tortura, em que ele já teve várias e contraditórias opiniões. Só que essas opiniões nada têm a ver com os direitos humanos ou com a dignidade das pessoas, mesmo suspeitas. Para Trump, trata-se apenas de saber se a tortura é ou não eficaz (muitos militares, incluindo felizmente o novo ministro da Defesa, general Mattis, entendem que não, pois muitos torturados dizem o que for preciso para se livrarem do sofrimento). Aliás, também existem convenções internacionais que proíbem a tortura, mas direito e organizações internacionais pouco valem para Trump.

O novo presidente foi eleito graças à revolta de um grande número de americanos que se sentem marginalizados, com os seus rendimentos quase estagnados desde há décadas, enquanto um pequeno número (o tal 1%) vê a sua riqueza aumentar em flecha. Mas neste governo de multimilionários que é o de Trump não se vislumbram pessoas preocupadas com as crescentes desigualdades; ou com melhorar a vida dos pobres. O próprio Trump elogiou-se a si próprio pela sua esperteza em encontrar esquemas de fuga legal aos impostos, que outros menos ricos tiveram pagar por eles e pelo que faltou a Trump pagar.

Mais: Trump quer baixar impostos aos mais ricos e deitar para o lixo muitas das regulamentações financeiras criadas após a crise global desencadeada pelo crédito de alto risco (subprime). E houve quem se mostrasse perplexo com a alta das acções em Wall Street após a eleição de Trump…

O homem não pode ser considerado um débil mental ou pouco inteligente. É tudo menos isso, o que o torna particularmente perigoso. Há que levar a sério a ameaça que ele representa, não o branqueando.

Francisco Sarsfield Cabral
http://rr.sapo.pt/artigo/75224/nao_branquear_trump

5.2.17

14 banqueiros portugueses ganharam mais de um milhão

Crise obrigou banca a cortar nas remunerações em 2015. Mas, mesmo assim, foi mais generosa para os administradores do que os bancos da Suécia, Noruega ou Dinamarca


Catorze banqueiros portugueses receberam, em 2015, mais de um milhão de euros de remunerações; no ano anterior, os banqueiros com salários milionários apenas eram dez. E em 2013 eram somente sete. Mas, apesar da subida do total de banqueiros a ganhar mais de um milhão, a remuneração média caiu a pique, devido à crise, que deixou muitas instituições financeiras a braços com prejuízos e milhões em crédito malparado nos seus balanços: os executivos da banca mais bem pagos em Portugal receberam em média 1,5 milhões de euros entre salário fixo e variável, menos 32% do que em 2014, ano em que a remuneração média rondou 2,25 milhões de euros.

Os dados dos banqueiros mais bem pagos da Europa - "Report on high earners 2015" - foram agora divulgados pela Autoridade Bancária Europeia (ABE), ou EBA na sigla em inglês. A nível europeu, mostram os números, há 5142 banqueiros remunerados com mais de um milhão de euros anuais, um crescimento de 33% face ao total apurado em 2014. Um salto justificado pela valorização da libra face ao euro, o que fez disparar o número de banqueiros milionários no Reino Unido. Em média, estes banqueiros levaram para casa nada menos de 1,98 milhões de euros em 2015.



A conjugação entre o aumento do total de banqueiros portugueses a receber mais de um milhão de euros em 2015 e a redução do valor médio que cada um destes levou para casa fez que se registasse uma ligeira descida na despesa dos bancos com estes high earners: no total, os bancos gastaram 21,3 milhões de euros com as remunerações dos seus gestores de topo, contra 22,5 milhões inscritos nas folhas salariais em 2014.

Apesar da remuneração média dos banqueiros mais bem pagos em Portugal ficar relativamente aquém da média europeia - de 1,98 milhões de euros em 2015 -, há um detalhe dos dados publicados pela Autoridade Bancária Europeia que merece destaque: os países que menos pagam aos seus gestores bancários são precisamente aqueles que lideram os rankings do Banco Mundial relativos ao equilíbrio na distribuição de rendimentos.

Na Noruega, na Suécia e na Dinamarca, por exemplo, os bancos remuneram os seus melhores gestores com médias inferiores às pagas pelos bancos portugueses: os noruegueses pagaram em média 1,4 milhões de euros anuais a 11 banqueiros. É a 19.ª média mais baixa entre os 22 países considerados pela EBA. Atrás dos noruegueses surgem os suecos, a quem os bancos pagam 1,4 milhões anuais aos seus 28 executivos mais bem remunerados.

Já na Dinamarca o salário médio dos 41 gestores mais bem pagos da banca foi de 1,3 milhões - o valor mais baixo de todos -, ao passo que na Finlândia a questão é outra: só houve um banqueiro finlandês a ganhar mais de um milhão de euros em 2015, à imagem do que ocorreu na Grécia e na Letónia. Mas, se o finlandês em questão levou para casa 1,8 milhões, o grego levou 2,17 milhões e o letão 2,6 milhões.

Os valores publicados pela EBA abrangem os salários de banqueiros de 22 países europeus. A Bélgica é o país que mais dinheiro dá a ganhar a um gestor de um banco (18 profissionais receberam, em média, 5,8 milhões de euros cada um em 2015), com a banca espanhola, cada vez mais dominante sobre o setor português, a surgir na quinta posição, pagando, em média, 2,24 milhões de euros aos seus 126 executivos bancários mais bem remunerados.

A remuneração média anual de 1,5 milhões de euros para os banqueiros mais bem pagos deixa Portugal na 18.ª posição, tendo atrás de si, e além das já citadas Noruega, Suécia e Dinamarca, a Roménia - onde dois banqueiros ganharam 1,09 milhões de euros em 2015.

Em termos desagregados, os dados da Autoridade Bancária Europeia mostram que entre os 14 banqueiros mais bem pagos do país houve um que levou para casa mais de três milhões de euros ao longo de 2015, com os restantes a receberem entre um e dois milhões de euros anuais. Os nomes dos banqueiros nunca são revelados.

Este "gestor-exceção" acabou por levar para casa 3,55 milhões de euros em 2015 e, tal como a maioria dos high earners identificados pela EBA em Portugal, é membro de uma administração bancária - são sete ao todo. Além dos administradores, entre os executivos mais bem pagos pela banca portuguesa apenas um se dedicava à banca de investimento e outros três eram da banca de retalho. Os restantes três são colocados pela Autoridade Bancária na rubrica "outros".

Filipe Paiva Cardoso
DN 05.02.2017

4.2.17

Precisamos de rugas

Só há bem pouco tempo percebi que estou a envelhecer. Acontece a todos, eu sei, mas um olhar mais atento ao espelho revelou-me inesperadamente a inevitabilidade. Pela primeira vez vi a verdadeira cor dos meus cabelos brancos. Algo que já lá está há algum tempo mas que os meus amigos têm disfarçado dizendo-me que são apenas sinais de charme. Não são! São sinais de envelhecimento. E porque é que isso tem que ser mau?


A notícia foi dada como uma tragédia nacional esta semana. Portugal é dos países com maior percentagem de idosos na Europa. A manchete foi copiada e reproduzida como mais uma desgraça deste país desgraçado. Quase ninguém a questionou ou contrariou, porque há muito que se criou a ideia errada de que ser velho, é mau. Aceitamos estupidamente este preconceito e são, por essa razão, cada vez mais os que tudo fazem para camuflar os sinais da idade. Compreendo que seja assustador perceber que não se renovam as gerações, mas ter um país com muitos velhos não é mau. Vergonhoso sim é a forma como eles são ignorados, tratados e retratados. 

Cresce em Portugal a ideia de que ser velho é perder a utilidade para tudo. Alguém a quem o prazo de validade já expirou e que não pode ser utilizado para mais nada. Deixam de pertencer às categorias que a sociedade de consumo considera relevantes e quase desaparecem. Deixam de interessar como trabalhadores, como consumidores, como leitores, como espectadores. Na procura apenas da frescura da juventude, não percebemos que desta forma estamos a perder o que de mais valioso temos. Os mais velhos.

Ao contrário de Portugal, em muitas outras partes do planeta pensa-se exatamente o contrário. Os jornais, as televisões, a publicidade e até o mercado de trabalho começam a valorizar os que têm mais idade. Numa sociedade com menos filhos, os mais velhos passaram a ser necessários. São eles que ainda têm algum poder de compra, descobriram e utilizam a internet de forma mais eficaz e intensiva, consomem mais jornais e televisão e os que ainda podem viajam e gastam muito em lazer. 

A publicidade e a televisão foram as primeiras a perceber isso. Nos Estados Unidos há cada vez mais marketing dirigido aos maiores de 60 anos. Nas televisão as personagens principais passaram a ter mais idade, e até a Jane Fonda, com uns magníficos 77 anos, é a vedeta de uma das principais séries e fechou um contrato milionário com uma marca de produtos de beleza. Em Portugal é exatamente o oposto. Aqui vergonhosamente os mais velhos são rotulados, esquecidos e apenas servem para pagar a pesada dívida pública. 

Em vez de estigmatizarmos os mais idosos deveríamos pedir a ajuda deles, ajudando-os. Têm muito para nos ensinar e alguns são quadros experientes num país de onde quase todos fogem. Podem não ser os mais rápidos e ágeis, mas a sua sabedoria e experiência ajudam-nos a evitar erros e a ultrapassar dificuldades. Em vez de os abandonarmos à sua sorte e solidão devíamos contratar avós e avôs. Pessoas que o mercado de trabalho estupidamente rejeitou, não por falta de competência mas simplesmente pela idade. 

É urgente! Portugal tem de deixar de esconder as rugas e de pintar os cabelos. Precisamos e muito dos mais idosos. E já agora não se esqueçam que os próximos velhos… somos todos nós.

João Adelino Faria
Pivô e jornalista da RTP
Dinheiro Vivo 03.10.2014
Veja mais em: https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/precisamos-de-rugas/

3.2.17

Imprensa livre uma vez mais

A saúde da democracia depende da saúde do jornalismo. A sociedade necessita que a imprensa respeite a verdade


“Nada existe, exceto átomos e vazio, tudo o demais é opinião” Assim resumia Demócrito de Abdera, filosofo grego, as suas ideias sobre a estrutura da matéria às uns 2.500 anos.

Demócrito, para muitos considerado o pai da ciência moderna, também era conhecido pelo filósofo que ri, mas o sábio estaria longe de imaginar, como a sua sentença se viria a comprovar de forma tragicamente distorcida.

É verdade, a opinião, nos dias de hoje, mais que em qualquer outra altura da história, assume um atributo identificador de personalidade e de direito, mesmo para os que não têm opinião sobre coisa nenhuma, e uma velocidade para se difundir e arregimentar seguidores em todo o planeta, que a torne elemento decisivo para o julgamento de qualquer pensamento politicamente mais elaborado.

Hoje, as ideias, foram substituídas por opiniões bastardas de pais incógnitos, são populares porque afinal todos temos opiniões. A ideia precisa de reflexão e estar suportada átomo sobre átomo, até à construção da matéria que apaixone e mobilize.

A opinião atrevida e ignorante, sustenta-se de frenesim e crença, lança-nos sobre o vazio onde ficamos iludidos e indefesos. Os sound bites onde se refugia não são mais que onomatopeia.

A imprensa tem um desafio tremendo e uma enorme responsabilidade. Em todos os momentos de grande tragédia humana, os jornalistas foram sempre chamados e estiveram presentes a dar o melhor das suas convicções e coragem.

Responderam muitas vezes em circunstancias dificílimas, a um verdadeiro sentido de missão, de procurar e escrever a verdade. Mais que uma classe, são a extensão natural da liberdade e a palavra que é a sombra da ação.

Quando homens e mulheres resistiam enterrados vivos em celas, entre as trevas e o horror dos esbirros, mas os jornais talhados a chispas de luz e esperança, nos esperavam cúmplices a cada amanhecer, então sabíamos que tínhamos ganho.

A saúde da democracia depende da saúde do jornalismo. A sociedade necessita que a imprensa respeite a verdade. A diferença entre jornalismo e a informação cidadã, é que o jornalista tem a obrigação de corroborar os dados. Só assim os meios de comunicação terão credibilidade.

Estamos imersos numa mentira global. A internet permite a falsificação da informação, desde da mentira do sujeito que finge aquilo que não é no Facebook, até à construção de uma realidade paralela, sustentada na repetição e em uma adesão massiva que confirma mais que nunca a velha teoria da espiral do silencio de Noelle Newman.

O Papa Francisco, afirmou que produzir e consumir noticias falsas é como praticar coprofagia, ou seja comer fezes e pediu maior compromisso entre a verdade e os meios de comunicação.

Agradeço muito ao Papa que tenha falado sem receio e para abanar as consciências, independente do mal-estar hipócrita dos poderes instalados.

Estamos em plena época de mudanças vertiginosas provocadas pelos ratos dos computadores. A revolução digital, depois das “primaveras”, degenerou em reações nacionalistas e xenófobas.

Nas manifestações misturam-se, os partidos, os indignados, provocadores, antissistema, e também psicopatas que praticam o ódio em relação ao outro.

Para Zygmunt Bauman, filosofo polaco, socialista: “as redes sociais são uma armadilha que expressam a desconfiança dos cidadãos não só dos políticos corruptos ou estúpidos, mas também dos que simplesmente só são incapazes”.

Gurus e utilizadores usam as redes para se encerrarem em zonas de conforto onde o único som que escutam é o eco da sua voz, e onde o único que vêm são os reflexos da sua própria cara.

Muitos dos utilizadores da “nuvem” virtual, são como o galo que acreditava que o Sol nascia só para o ouvir cantar, sentem-se enormes na sua arrogante ignorância. São reis do mambo digital.

São narcisos que se olham ao espelho dos seus écrans e em vez de caçar javalis caçam pessoas, com a metralhadora das teclas, acoberto da anónima impunidade.

A ignorância, a vaidade, a pósverdade, e a fake news são irmãs e filhas do populismo.

Falar com alguém a quem vemos os olhos, é mais instrutivo de que com um anónimo cibernético. Um provérbio chinês diz que “é melhor ver a cara que escutar o nome.”

Desta luta que se adivinha, pela liberdade e pelos direitos, vencemos se formos armados da luz das ideias contra o nevoeiro impreciso onde se acoita o caudilho de traje populista seguido da procissão de cegos que já não querem ver.

Artur Pereira
Consultor de comunicação
Jornal i 02.02.2017