31.10.13

Luísa Cabral


ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO

COMPANHEIROS e AMIGOS, 

A luta faz-se na rua e a rua tem de ser nossa. Mas saúdo com especial carinho os mais idosos, aposentados e reformados sobre os quais este Governo tem feito abater as mais iníquas medidas sociais e económicas. São medidas selectivas, porque é mais fácil, porque esperam ter alguns por eles e porque esfrangalha a coesão social. O que leva o Governo a escolher como alvo fácil este grupo social? Não é só a cobardia que explica a opção tomada; é também a soberba de quem se acha iluminado e imbuído de uma missão transcendente da qual não deve nenhuma explicação. Mas eu digo-vos qual é a transcendência; a transcendência deles é mesquinha e limita-se a uma opção ideológica: tirar, rebaixar, quebrar os costados, empobrecer. Os pobres têm menos capacidade de luta. A barriga vazia tem limites. A saúde pela qual não se cuida retira a energia. Muitos idosos não poderão vir para a rua; estão em casa, envergonhados, por trás de uma cortina de silêncio, escondem a humilhação que sentem e nós temos dificuldade em chegar até eles. Mas esta luta também é por eles. Nós não permitiremos que a coesão social seja destruída; com todas as nossas forças temos de nos opor a este estilhaçar e para isso precisamos de trabalhar nas juntas de freguesia, nas câmaras, nas associações cívicas, nos bairros. Utilizemos estas estruturas para impor a nossa vontade e as nossas escolhas.
O Governo utiliza uma linguagem perversa, mentirosa e descarada. Para eles os cortes querem dizer reforma; ao nivelamento por baixo chamam-lhe convergência. Onde diabo aprenderam a língua portuguesa?! Como os próprios têm o atrevimento de dizer, não se percebe porque andamos, nós os que estamos contra estas medidas autoritárias e autistas, tão açodados a gritar contra a reforma do Estado porque ela já está feita. Como se afoitam a dizer estas provocações? Não têm pudor e afrontam tudo e todos. Mas qual reforma? A única reforma que conhecemos é a nossa, aquela pela qual suámos e que nos é entregue como se fosse um favor, reforma que, por este andar, deixaremos de reconhecer porque qualquer semelhança entre o que nos foi prometido e o que recebemos é pura ilusão. O contrato foi quebrado; este Governo não merece a confiança do povo português e se houvesse alguma honra nem dos parceiros europeus mereceria confiança.
COMPANHEIROS, o Governo tem tentado dividir os portugueses e para isso avança com as medidas às pinguinhas, hoje uma amanhã outra, uma que vai ser assim mas afinal sai de outra forma, uma medida anunciada por um governante e desdita por outro governante, a fazer de conta que há fugas de informação. Tudo combinado, nada acontece por acaso. De publicidade e manipulação sabem muito mas de estratégia, de planeamento, dos verdadeiros interesses do país, não sabem nada. O Governo ora ataca os pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, ora os da Caixa Nacional de Pensões, ora os trabalhadores da Função Pública no activo. E os cortes não servem rigorosamente para nada; o deficit apesar dos milhões de euros que nos foram retirados não pára de crescer. Então, Companheiros, para onde vai o dinheiro? A quem serve o dinheiro? Onde se prepara o Governo a aplicar o dinheiro que quer arrecadar com mais cortes? Da direita à esquerda ouvem-se vozes contra esta política e estes cortes retroactivos com indubitáveis efeitos recessivos a agravar uma economia em espiral recessiva; é uma medida ilegítima e anticonstitucional; quem actua fora da lei tem de prestar contas, seja o Zé, o Manel, o Pedro, o Hélder ou a Maria. Tanto faz e como eles próprios diziam a lei é dura mas é a lei. Lutemos, então, pela aplicação da lei e pelo seu cumprimento.
COMPANHEIROS e AMIGOS, este Governo mente e já ultrapassou a linha vermelha que um dos seus personagens jurava que nunca cruzaria. Quem mais jura mais mente. Pisaram a linha vermelha, a partir daqui tudo é possível. Mas se é possível para eles, então, também tem de ser possível para nós. Não podemos permitir que esta questão de princípio seja posta em causa porque é a própria democracia que está ameaçada. Não nos deixemos enganar: mesmo que apenas meia dúzia de aposentados fossem atingidos, como miseravelmente alguém dizia serem apenas 10% dos reformados, porque se trata de um problema de ética diz respeito a todos, sobretudo aos que se remetem à cultura do silêncio por já não terem força física ou anímica para o combate. Eu responderia a esse comentador futebolístico lembrando-lhe o lema de um grande clube que diz ser o seu: todos por um, um por todos.
Os mais idosos entre nós, aguentaram o rescaldo da 2ª guerra, sofreram o fascismo, a guerra colonial, a imigração, as crises académicas; juntos fizemos o 25 de Abril, construímos este País. Construímo-lo uma vez, vamos voltar a construi-lo depois de ganharmos esta luta. O caminho será longo e duro mas no final só poderemos sair pela porta da frente; este Governo será vencido, na rua e nas urnas, e nós temos de ter forças para chegar a esse dia glorioso e, então, contribuir para repor a justiça e a equidade.
COMPANHEIROS e AMIGOS, termino com uma frase que explica porque chegámos até aqui e porque estamos determinados a prosseguir a nossa luta; uma frase que nos dá força e convicção e que cada um de nós personifica. Um grande artista, Almada Negreiros, disse um dia ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO. Ora, nós, quando jovens, fomos futuro; agora que temos menos força continuamos a acreditar que o futuro pode ser justo e os jovens merecem que lhes passemos o testemunho. Não nos deixaremos dobrar! PORQUE NÃO HÁ BECOS SEM SAÍDA!

Vivam os Idosos e Aposentados por muitos e bons anos!

Intervenção lida na Manifestação do QSLT, Lisboa, 26 de Outubro de 2013
Maria Luísa Cabral