21.12.14

Quem morrer com mais brinquedos ganha


Há uma pandemia na sociedade mundial. A globalização e a crise apenas serviram para acelerar o contágio desta doença que corrói a vida colectiva e destrói o ambiente e os meios de subsistência de longo prazo. Esta doença chama-se desigualdade e, além de contagiosa, é estúpida. Não há nenhuma outra doença que explique tão bem todos os problemas das sociedades em que vivemos: desde a destruição do ambiente à criação do desemprego e precariedade, das crises económicas às guerras.

Vejamos: o produto mundial bruto per capita é de 12400 dólares por ano, isto é, a riqueza produzida no mundo por ano é de 9296,35 euros por pessoa. Números redondos 774,7 euros/pessoa/mês. Ora, apesar de a riqueza produzida ser suficiente para cada um dos 6,9 mil milhões de habitantes do planeta poder viver com 25,8€/dia, sabemos que isto está longe de ser verdade. 5,52 mil milhões vive com menos de 7,5 euros por dia. 2,8 mil milhões vivem com menos de 1,5 euros por dia e 1,2 mil milhões com menos de 75 cêntimos. Isto não é um acaso. E algum constrangimento logístico na deslocação de bens e serviços não explica tamanha miséria.

Thomas Piketty, que tanta indignação tem provocado naqueles que defendem que vivemos no melhor dos mundos possíveis e que nada é possível fazer para alterá-lo, abordou no seu livro “Capital no séc. XXI” a questão da desigualdade e a maneira como a concentração da riqueza nos mais ricos do mundo é o principal motor da reprodução da pobreza. Olhando para a sociedade do séc. XIX, o economista francês recorda como nessa altura a riqueza transmitida por heranças e casamentos era 90% de todo o capital existente, concentrada nos 10% mais ricos.

Piketty identifica o que chama de Contradição Central do Capitalismo na oposição directa entre os rendimentos atribuídos ao trabalho e aqueles atribuídos ao capital. Quanto maior é a diferença entre a importância que se atribuiu ao trabalho e ao capital, maior a desigualdade gerada nas sociedades. Embora o economista não apresente nenhuma proposta concreta acerca de como combater esta diferença que faz explodir as desigualdades, assinala a importante contradição que originou a pergunta “quantos pobres são necessários para fazer um rico?”.

Depois de quase 100 anos desde o “crash” da Bolsa em 1929, hoje os mais ricos voltam ao nível de riqueza que tinham nos loucos anos 20. As 85 pessoas mais ricas do mundo possuem o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da população, 3,5 mil milhões de pessoas. O 1% mais rico do mundo, como identificava o Occupy Wall Street, possui mais de 50% de toda a riqueza do mundo. E dentro quer dos países mais ricos (nos EUA os 90% mais pobres possuem apenas um quarto de toda a riqueza do país) quer dos mais pobres, a desigualdade extremou-se com a crise. Que é uma crise para os pobres mas não para o sector económico da banca e da finança que a criou. Em Portugal há 870 multimilionários que possuem oficialmente 75 mil milhões de euros. Hoje há mais multimilionários do que há três anos e estes possuem mais dinheiro do que possuíam na altura. E há consequentemente muito mais pobres, muito mais desempregados, muito mais precários.

Esta pandemia transmite-se através de uma casta de auto-proclamados semi-deuses que naturalmente constituíram as suas cortes e apaniguados, defendendo e promovendo as políticas que mantêm o status quo e insistem em todas as políticas que promoveram a desigualdade total. Um mundo em que os de cima vivem no paraíso, implicando para tal que os de baixo vivam no inferno. Mesmo que possuam muito mais dinheiro e riqueza do que aquela que poderão alguma vez utilizar em vida. A sua ambição é morrer com mais “brinquedos” do que os outros multimilionários.

“A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos”, dizia Mia Couto. A maior doença deste pobre planeta é exactamente a mesma.

João Camargo

P3 PUBLICO 16/10/2014