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UMA ADSE JUSTA E SUSTENTADA, Composição da Lista

Composição da Lista Candidata ao Conselho Geral e de Supervisão da ADSE apoiada pela APRe! Candidatos Efectivos 1º Crisóstomo Teixei...

31.12.15

Um ano que finda e outro que começa!


Para fecharmos o ano e iniciarmos um novo, dois belos poemas de dois nossos maiores.

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga


Ano Novo

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro.

Fernando Pessoa

30.12.15

Tempo de esperança

Um homem de 74 anos morre no hospital de Coimbra vítima de um AVC isquémico. Não seria notícia, naturalmente, se o doente não tivesse sido transferido do hospital de Faro de ambulância para o hospital de S. José, em Lisboa, o mesmo onde David Duarte morreu devido à rotura de um aneurisma. Tal como no caso de David, no "S. José" não havia equipa para tratar o idoso, sendo "empurrado" para Coimbra, onde viria a falecer. Provavelmente morreria, mesmo se tivesse sido tratado no Algarve. Mas a dúvida subsistirá. O importante aqui é perguntar: que país é este em que um cidadão residente no Algarve acaba internado em Coimbra por falta de condições hospitalares na região onde vive? Que país é o nosso em que um hospital transfere doentes por não ter médicos aos fins de semana?

É legítimo, sem dúvida, o protesto dos médicos contra os cortes sofridos no pagamento de horas extras. Estranho seria que ficassem quietos. Mas há muitas formas de protesto. Virar costas a um doente em risco de vida não é um gesto digno, sobretudo por quem jurou fazer da sua missão na sociedade uma luta contínua pela vida dos outros.

Alguém terá de explicar o que levou os profissionais do hospital de S. José a resignarem-se. E, em vez de pedir apoio a um hospital da área (ao "Santa Maria", por exemplo) para prestar auxílio a David Duarte, optarem, numa noite de sexta-feira, por esperar pela manhã da segunda-feira seguinte. Tarde de mais.

Com um novo ano à porta, muitos portugueses espreitam nos tempos que se aproximam largos sinais de esperança. Nos últimos meses, vivemos em Portugal momentos julgados impensáveis, por isso mesmo momentos fora do comum. O movimento está feito, resta esperar pela mudança. Esse é o grande desafio dos que conseguiram desenhar e concretizar um acordo histórico. O entendimento à esquerda, no Parlamento, que conduziu António Costa, contra a opinião dos mais céticos, à liderança do país .

É preciso, no entanto, que tudo não fique na mesma. Casos como os do hospital de S. José são inadmissíveis num país da União Europeia: morrer por falta de assistência, devido a cortes cegos no Serviço Nacional de Saúde, é intolerável. Não basta, todavia, atribuir as culpas aos cortes feitos pelo anterior Governo PSD-CDS. É necessário que os profissionais de saúde assumam também as suas responsabilidades. A profissão deles não é uma qualquer. Foram formados para salvar vidas - e, parece, nem todos apresentam a preparação moral desejável.

Paula Ferreira
Opinião JN 29.12.15

29.12.15

Semear alegria de viver pelos montes


Projecto de apoio psicológico ao domicílio da associação Odemira+ foi criado para combater a solidão e o isolamento social e territorial dos idosos.


Ti Francília está em casa. Uma casa térrea, de paredes grossas, caiada de branco, no topo de um monte. “Posso dizer que vivo sozinha. Está para aí um velho …. É um homenzito que também não tem ninguém e eu … para não estar aqui sozinha… Olhe, faz de conta que o ajustei, faz de conta que é meu empregado. É para ir à água, para ir à lenha, e mais nada, a bem dizer.”

Nem era preciso o psicólogo Fábio Medina explicar que sentir solidão não é estar desacompanhado. Bastaria ouvir ti Francília falar no companheiro. “Passa-se dias sem me dizer nadinha!” Mas o isolamento social e territorial é um caso sério no mais extenso (1 720 km²) e menos povoado município do país (22 mil). Os habitantes de Odemira estão mal distribuídos – 70% moram nas freguesias na faixa litoral, que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, enfatiza o técnico d’ A Vida Vale, um projecto destinado a combater a solidão e o isolamento social e territorial. E não dispõem de uma rede de transportes públicos capaz de atenuar tanta distância.

É grande o apego ao lugar. “Fui nascida e criada nesta ramadinha”, diz ti Francília. “Era casa de meus pais, casa de meus avós. O meu marido morreu há 30 anos. Duas filhas já eram casadas. Uma ainda era solteira. Ela casou-se e eu fiquei sozinha. Tinha aí uma remessa de reses. E regadio. E sozinha não dava conta. Aquele homenzito até tinha fama de ser bom trabalhador. Estava sempre se oferecendo para vir pôr adubo, semear batatas, carregar lenha, ainda a minha filha aí estava. Eu pensava que ele estava livre de todo o interesse, mas ele já andava era pensando: ‘vou ver se agarro aquilo!’”

Fábio Medina ouve-a, atento, empático. Está experimentado. O projecto, da associação Odemira +, começou na freguesia de Sabóia e avançou para outras três: Luzianes-Gare, São Martinho das Amoreiras e Santa Clara-a-Velha. “Visito uma média de seis pessoas por dia”, revela. Articula-se com a Guarda Nacional Republicana (GNR) e com a unidade móvel, projecto do Centro de Saúde, da Câmara Municipal de Odemira e da Santa Casa da Misericórdia, para acompanhar 240 idosos isolados. Quando trabalhavam de costas voltadas, acontecia as três equipas passarem na mesma semana pela mesma casa. Agora, partilham informação, para que todas saibam quando cada pessoa foi visitada e actuem de acordo com um sistema de prioridades. Uns idosos têm prioridade alta (devem ser vistos todas as semanas); outros, média (a cada duas ou três semanas) ou baixa.

Muito gosta Ti Francília destas visitas. “Com o senhor Fábio estou à vontade”, diz ela, convidando a entrar na sala de jantar. “Faz de conta que ele é uma pessoa da minha família.” Confiança é tudo. Ele não se atreve a ir sozinho pela primeira vez a casa de alguém. Já lhe aconteceu ser recebido de espingarda na mão por idosos fartos de ouvir falar nas manhas de burlões e de assaltantes. Prefere ser apresentado por um familiar, um vizinho, um elemento da GNR.

Irmão da cunhada da ti Francília, o ti José, tem uma espingarda guardada dentro de casa, não vá o diabo tecê-las. Mora sozinho desde que os pais morreram, já lá vão 28 anos. Sozinho, sozinho não. Tem o cão “Joly”, a gata “Chica” e umas quantas galinhas sem nome, que se empoleiram numa pereira e numa oliveira em frente à casa. Nunca teve companheira. “Não tem calhado. Vai passando tempo, vai passando tempo. Agora, tenho 76 anos. Já não vale a pena criar mulher.”

Não convida a entrar. “Não quis arranjar isto antes e agora está a cair”, justifica-se. Não tem casa-de-banho, nem água canalizada. Vai buscar água ao poço para tomar banho e cozinhar. “Ainda hoje fiz uma couvita com um bocadito de carne que a minha irmã me deu ontem. Bebe-se um copo de vinho. Está a bucha feita. Do meio-dia ficou para a noite. É só aquecer e baldear.”

Quando a noite cai, o crepitar da lareira faz-lhe companhia. “Estou ali, ao fogo, aquecendo os pés. Tenho aí lenha. Acendo.” Não tem televisor, nem rádio. “Tinha ali um. Avariou [já lá vão seis anos].Também ouço mal…” Se passar alguém pela estrada estreitinha, o “Joly” dá logo sinal. De dia, anda entretido. “Sento-me aqui, como uma bucha e vejo passar o trânsito. Tem ocasiões que passavam aí sete ou oito jipes.” Há familiares por perto. E ainda trabalha no campo. “Agora, andei 15 dias a apanhar azeitonas com um sobrinho meu. Apuramos 60 litros de azeite.”

Se pudesse, ti José ia até Vale Touriz, à escola primária que o projecto transformou em centro comunitário. A associação Odemira + não tem transporte, depende da boa-vontade da Escola Profissional de Odemira, que empresta uma carrinha. “Tinha uma bicicleta a motor. Antes de cair, dei ao meu sobrinho para vender. Há quatro anos deu-me um AVC. Fui apanhado num braço e numa perna…”

O companheiro de ti Francília, o Ti António, costuma estar no centro comunitário. Serve-se do seu microcarro, um quadriciclo mais conhecido por "mata-velhos" ou "papa-reformas". “Vai jogar às cartas de segunda a sexta. É um belo trabalho”, ri-se a mulher. Ela pouco vai. “Comecei a não ter saúde. Ando toda coxa. Tenho uma dor nesta perna. Tenho pena de estar assim e de não poder ir para lado nenhum.”

As horas podem ser animadas em Vale Touriz. Ali, recolhem-se histórias de vida, organizam-se passeios pelo concelho, actividades, a começar pelas rendas. Nada atrai tanta gente como os churrascos quinzenais. Está tudo mais parado desde que a animadora socio cultural, Tânia Mestre, entrou de licença de parto.

Tratam o psicólogo por “senhor Fábio”. Ele dispensaria o “senhor”, como dispensou o “doutor”. Andar de casa em casa é diferente de trabalhar num gabinete ou num consultório. “Aqui não podemos ter a mesma distância”, explica, estrada fora. Tem de quebrar as barreiras tradicionais, de ir para lá das suas funções. Um exemplo? “Uma vez fui ver um senhor. Fazia quatro dias que comia comida fria. O gás tinha acabado. A marca da garrafa tinha mudado. Ele já não sabia como mudar a garrafa.” Outro exemplo? “Um senhor ligou, chorando. ‘O meu pai, o meu pai. Não sei o que fazer.’ Eu disse: ‘Daqui a 20 minutos estou aí. Pensava que o pai dele tinha falecido, mas não. Tinha tido alta. Estava em casa dele. Tinha uma algália. E ele estava desesperado. Nunca tinha lidado com uma coisa daquelas. Tinha de trocar a fralda. Ensinei-o. Voltei no dia seguinte com uma enfermeira [da unidade móvel] para o ensinar melhor.” Faz tudo com sentido profissional. “São estes pormenores que fazem a diferença, que ajudam a ganhar a confiança.”

Num mundo cada vez mais rendido à tecnologia, fala-se muito na teleassistência, mas todo esse discurso esvazia-se no interior de um concelho com grandes falhas na cobertura de rede. Ti Francília não tem teleassistência, mas ti Odete tem. O telefone, com um visor e umas teclas enormes, está num cantinho da sala, coberto com um pano bordado. O marido passa os dias sentado mesmo ao lado, com uma manta colorida sobre as pernas. É ele quem usa a pulseira, dotada de um botão de emergência. Se o premir, disparará um alarme numa central de atendimento.

O cuidado de Fábio é mais contínuo. Quer saber como está ti Odete, como está o marido, como está o cunhado, que foi hospitalizado. “Olhe, eu nem sequer lhe sei dizer”, diz ela. “Contratei o táxi que era para a gente ir levantar a reforma. Esta manhã, estava-me com diarreia. ‘Não posso ir.’ Dei-lhe pequeno-almoço. Dei-lhe medicamentos. Ele ficou na cama. E eu fui. Não demorei muito. Quando cheguei, estava sentadinho ali no sofá, muito sossegadinho. Eu disse-lhe: agora vou fazer o almoço. ‘Não faças que eu não tenho fome.’ Não tens fome? O que comeste? ‘O que tinhas em cima da mesa.’ Tudo que faz mal! Alheira, bolo, torresmo. Tudo a eito!”

Fábio Medina não se atreve a dizer que com isto se está a reduzir o número de suicídios em Odemira, cenário de uma das taxas mais elevadas do país. Nem lhe parece que esse deva ser o mote. “As pessoas ligam-nos em caso de necessidade. Estão cada vez mais envolvidas. Já dinamizam actividades” – por exemplo, festas de santos populares. E isso ajuda a criar alegria de viver.

ANA CRISTINA PEREIRA (texto) e ADRIANO MIRANDA (fotos)
Público 27.12.2015






















28.12.15

Serviços básicos subiram 25% desde 2011. Salários nem 2%

Os preços de eletricidade, saneamento básico, recolha do lixo ou mesmo para andar de comboio dispararam


A partir de 2011 Portugal viveu um período marcado pela entrada da troika e o avanço de uma austeridade sem paralelo. A culpa do resgate foi atribuída "aos portugueses" que teriam "vivido acima das possibilidades". Agora, volvidos mais de quatro anos, há uma mudança evidente: hoje é mais difícil viver em Portugal sem ser acima das possibilidades. Perceber esta afirmação obriga a olhar além da inflação geral e a entrar na evolução específica dos preços de certos bens, sobretudo os incontornáveis, comparando-os depois com a evolução registada nos rendimentos.

Os valores globais para a evolução anual dos preços apontam para uma relativa contenção nos preços, com a inflação a variar entre a taxa de 3,7%, de 2011 e os -0,3% de 2014 - em 2015, e até novembro, a inflação rondava os 0,6%. Mas estes valores anuais referem-se a um cálculo que engloba várias classes e subclasses de produtos e serviços, cálculo que acaba por ocultar o jogo de "compensação" entre os bens que registam fortes subidas - os essenciais - e os que sofreram fortes descidas.

Serviços básicos

Entre aumentos de impostos, taxas e atualizações tarifárias, a austeridade incidiu com maior força nos bens essenciais e ligados à habitação, precisamente aqueles de que é mais difícil - ou impossível - fugir.

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), desde 1 de janeiro de 2011 e o final de novembro de 2015, os residentes em Portugal viram a fatura associada ao saneamento básico disparar 53% e a relativa aos serviços de "recolha de lixo" a subir perto de 30%. Já a conta da luz, entre atualizações anuais e a passagem do IVA da eletricidade para os 23%, acumulou uma inflação de 35% de 2011 a 2015.

Além do aumento do preço da luz, sublinhe-se a velocidade com que aconteceu: de janeiro de 2011 a
janeiro de 2012, a eletricidade subiu mais de 20%, acumulando nos anos seguintes atualizações anuais de 3% ou superiores. Neste capítulo, há ainda a destacar a evolução do preço do gás (13%) e da água (7,7%) verificada entre 2011 e 2015.

Já do outro lado da balança, e enquanto tinham de enfrentar estes aumentos, os trabalhadores viram os salários líquidos em Portugal subir 1,59%, ou mais 13 euros entre o início de 2011 (altura em que o salário médio era de 816 euros) e setembro de 2015 (salário de 829 euros). É nesta diferença entre evolução de preços e salários que se encontra a razão para a subida da pobreza em Portugal.

Transportes

À imagem do que aconteceu na energia, os transportes públicos foram outro dos setores atacados pela austeridade desde o primeiro dia. Sérgio Monteiro, hoje responsável pela venda do Novo Banco, deu a cara por estes aumentos: em agosto de 2011 as tarifas subiram em média 15%, depois de em janeiro do mesmo ano já terem aumentado 4,5%. Em 2012 voltaram a subir 5%.

Segundo o INE, desde o início de 2011 e novembro de 2015, andar de comboio ficou 27% mais caro, e de autocarro 17% mais dispendioso. O cenário também tem sido agressivo para quem usa títulos combinados, cujos preços subiram 26% em cinco anos. Ou seja, os preços dos meios de transporte mais utilizados e, para muitos indispensáveis, dispararam. Em sentido oposto, o transporte aéreo: sendo um sector de forte concorrência e dado o reforço das low-cost em Portugal, os preços acabaram por recuar 19,7% desde 2011.

Educação, comida e futuro

Portugal é um dos raros países europeus que cobram pela frequência universitária, detalhe que, nestes anos de crise, tem impulsionado as desistências - Porto, Coimbra, Minho e Algarve contabilizavam duas mil desistências por motivos financeiros a meio do ano letivo de 2013--14. Mesmo assim, as propinas também aumentaram nos últimos anos: segundo o INE, frequentar o ensino superior ficou 6,93% mais caro desde o início de 2011, evolução que supera a registada na inflação contabilizada no nível de ensino pré-primário e primário (5%) e secundário (2,6%).

A saúde viu os preços crescerem 1,72% nos últimos anos, com destaque para o salto expressivo de 16% no custo dos serviços hospitalares.

Destaque final para a "alimentação" que, tanto devido à concorrência entre a grande distribuição como graças a uma maior procura - menos idas a restaurantes -, apresenta uma inflação acumulada de 1,62% desde 2011, com bens como o pão (0,8%), a carne (-3,6%) mas também o peixe, o leite ou o queijo (-2,3%) a tornarem-se mais acessíveis para as famílias.

Apesar de todos estes aumentos, certo é que nem a "saída limpa" nem a eleição de um governo de esquerda levaram ao seu desagravamento. Antes pelo contrário: a luz, que subiu 35% desde 2011, vai subir mais 2,5% já em janeiro de 2016. Já em termos políticos, o governo socialista deu antes prioridade à redução do IVA na restauração, mantendo a cobrança de 23% de IVA na eletricidade, um bem essencial que, a pouco e pouco, se foi tornando um luxo.

Filipe Paiva Cardoso
DN 26.12.2015

27.12.15

Banif no sapatinho

Um dia, acaba-se a paciência para as perguntas. E é nesse dia que os regimes começam a soçobrar. O nosso vai por esse caminho. Porque não há uma única pergunta sobre o Banif que tenha uma resposta decente. É tudo demasiado mau, demasiado esquivo, demasiado pormenorizado nos milhões para sabermos o que verdadeiramente sucedeu aos milhares de milhões.

O que é que sabemos, mas que sabemos mesmo? Que o Governo teve que vender à pressa o Banif. Que este negócio de venda (sim, de venda, não de compra) custará aos contribuintes pelo menos três mil milhões. Que o Banif foi intervencionado pelo Estado, que detinha 60% do controlo do banco, que por sua vez tinha as contas todas controladas. Segundo a administração, o anterior Governo e o Banco de Portugal, claro. Sabemos que a fatura que temos vindo a pagar pelos desmandos da banca (BPP, BPN, BES e mais) já ultrapassa uns simpáticos 40 mil milhões. (É obra, mais de metade do que pedimos à troika.) E sabemos que nunca se apuram os responsáveis.

Vamos lá a este: o primeiro-ministro dizia ontem, em entrevista ao JN, que a herança do Governo anterior foi pesada e que a troika andou mais empenhada em revirar as contas das juntas de freguesia do que em vigiar a banca. E que a solução que encontrou foi a melhor.

O ex-presidente do Banif, Jorge Tomé, confessou que ficou surpreendido com a venda e que o processo foi desastroso. Também não sabia de nada. O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho não diz grande coisa sobre o que andou a fazer, mas não teria solução melhor. A ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, terá tentado tudo, mas Bruxelas não deixou. O atual ministro diz que falou com toda a gente, administração incluída. A administração afirma que foi apanhada de surpresa e que desconhecia tudo. Paulo Portas, claro, votou contra a solução do PS. Mas também não devia saber de nada. O governador do Banco de Portugal, quem verdadeiramente tem a responsabilidade de vigiar, que gere 1600 funcionários justamente para vigiar (sim, também estão atentos à cotação do ouro), emite uns comunicados, seguramente comunicando que fez tudo o que estava ao seu alcance.

Confusos?

Não se macem muito. Ficarão mais. A Procuradoria há de investigar alguma coisa. Uma comissão parlamentar de inquérito fará brilhar um ou dois deputados mais afoitos. E, um dia desses, um qualquer governo há de aprovar um regime extraordinário de exceção para que empresários, administradores, intermediários, e outros, cá coloquem o dinheiro que literalmente saquearam com uns projetos imobiliários que ou não saíram do papel ou nunca lá estiveram. Há muito disso no Banif. Alguém os aprovou. Alguém os financiou. Alguém os assinou.

E alguém os devia ter vigiado.

E dizem que o Pai Natal não existe. Existe, pois, mas só para alguns.

Domingos de Andrade
Opinião JN 26.12.2015

25.12.15

Idosos: A importância de ter companhia

Nasceu em Seia, mas do que Fernanda Cardoso se lembra bem é de estar em Lisboa logo desde a "instrução primária". Hoje, a viúva de 77 anos, a morar no bairro de Alvalade, em Lisboa, mantém-se bastante lúcida, com um discurso leve e articulado. Sem queixume nem presa ao passado, recorda os tempos em que saía à noite e andava na rua sem medo. Não fossem as complicações respiratórias de um enfisema pulmonar, que a reformaram por invalidez aos cinquenta e poucos anos, e Fernanda continuaria a dar o seu passeio noturno como aos 19 anos, quando se estreou no teatro, numa revista do ABC, no Parque Mayer.

Na década de 1960, o marido não gostava nada que trabalhasse nas lides artísticas, por isso mudou-se dos palcos para o comércio, onde foi responsável pelo setor dos frescos num supermercado. Não teve filhos mas criou uma sobrinha, desde os sete anos até esta ir para a faculdade. Continuam a falar ao telefone mas a vida profissional da advogada não deixa muito tempo para visitar a tia.

A curta reforma que a viúva recebe, atualmente, permite-lhe pagar 64 euros pela comida, higiene e companhia disponibilizadas pelo Centro Social Paroquial do Campo Grande (CSPCG). É com dois estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa, que a visitam todas as quintas-feiras à tarde, que Fernanda Cardoso põe a conversa em dia. "Prefiro conviver com estes jovens do que com as pessoas da minha idade. Para velha já basto eu", brinca.

As conversas com Miguel Sousa e Silva e Inês Ferreira giram à volta das notícias de atualidade e, sobretudo, do interesse que tem pela vida dos futuros médicos. Miguel, 22 anos, e Inês, 21, inscreveram-se no programa "Saúde e Companhia", criado há três anos pela associação de estudantes daquela faculdade. Para Miguel, no quinto ano e a fazer a tese sobre cuidados paliativos, "é um privilégio passar este tempo com pessoas com mais experiência". Já Inês, no quarto ano, quer seguir uma especialidade médica para ter um contacto mais próximo com os doentes. Como eles, há cerca de 20 rapazes e raparigas a fazerem visitas domiciliárias, enquanto outros dão formação sobre diabetes ou doenças cardiovasculares.


Miguel Sousa e Silva e Inês Ferreira, alunos da Faculdade de Medicina, dão um pouco do seu tempo ao projeto Saúde e Companhia
Marcos Borga

AMIGOS IMPROVÁVEIS

Fernanda Cardoso é uma das 90 pessoas que por razões de doença ou acessibilidade não conseguem
sair de casa, numa freguesia onde foram identificados pela polícia mais de 300 casos em situação de isolamento. "Programas como este, que devolvem significado à vida dos seniores, são importantes para que sintam que fazem parte da sociedade. A dignidade humana depende de ter opinião, de partilhá-la e de poder fazer escolhas", argumenta Helena Presas, 58 anos, diretora executiva e coordenadora da área sénior do CSPCG.

Há 25 anos, a fisioterapeuta, que depois de tirar o curso de Teologia se dedicou à paróquia, criou o primeiro grupo de visitadoras. Para ela nada é mais importante do que o trabalho de equipa. "Trabalhamos muito em rede, não temos a pretensão de fazer nada sozinhos", refere. "Há dez anos a consciência de cidadania era muito menor e os grupos organizados não existiam. Dantes tínhamos de chamar as pessoas, agora a sociedade mobiliza-se." Na sua equipa trabalham 16 ajudantes de ação direta, mais 63 voluntários no apoio domiciliário.

"Amigos Improváveis" é outro dos programas que também atua na paróquia do Campo Grande. Há dois anos, Maria Almeida e Brito, aluna da Universidade Nova, quis replicar em Lisboa a "Missão País" projeto universitário que leva um grupo organizado, durante uma semana, até uma vila de média dimensão, onde porta a porta fazem companhia aos idosos. Já presente em dez zonas de Lisboa, chegando até Algés, uma das funções dos coordenadores de zona Gonçalo Barbosa, 22 anos, e Gonçalo Cabral, 21, é fazer o encontro perfeito entre os perfis dos jovens e os dos mais velhos.


Gonçalo Cabral e Gonçalo Barbosa fazem parte do grupo de voluntários Amigos Improváveis, fundado por uma aluna da Universidade Nova de Lisboa
Marcos Borga

Além disso, não abdicam de fazer as suas visitas. "É aquele momento da semana em que nos sentimos realizados", concordam em uníssono. "A primeira abordagem é a mais difícil, mas também a mais desafiante. São pessoas que têm muito para contar mas nem sempre é fácil falar", explica Gonçalo Cabral, aluno de mestrado em Finanças. "À nossa geração falta-lhes o convívio com os mais velhos. Para convencer os meus amigos a fazerem voluntariado digo-lhes 'o vosso tempo é agora'".

Já Helena Presas não tem dúvida de que as pessoas com mais atividades são as que se organizam melhor e conseguem dar mais aos outros. Gonçalo Cabral, por exemplo, acabou o curso com uma boa média, faz surf, joga ténis duas vezes por semana, tem aula de francês e almoço com a avó todas as semanas. No mês passado, com o dinheiro que lhe sobrou do Erasmus, foi a São Tomé dar aulas de português. "Vivo obcecado com o voluntariado."

Em 2014, os "Amigos Improváveis" chegaram a ter excesso de voluntários. "Há muitas pessoas com vergonha e que não reconhecem que precisam de ajuda", lamenta Gonçalo Barbosa, que em breve vai lá para fora seguir Relações Internacionais. Os amigos consideram que "não há desculpas: todos podemos sair da nossa zona de conforto e encontrar outro tipo de consolo quando damos um pouco de nós aos mais velhos".

Sónia Calheiros
Visão 24.12.2015

24.12.15

O presépio somos nós


O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça

BANIF: ainda a factura pública vai no (qu)adro privado…

Entalado entre oito (!) planos de reestruturação não aceites pela Comissão Europeia, a breves dias de entrar em vigor a directiva de resolução bancária pelo mecanismo de resgate interno (bail-in), entre informações e contra-informações que fizeram voar quase 1.000 milhões de depósitos e transformar a cotação das suas acções numa montanha russa sem a imediata suspensão pela CMVM, eis que, num domingo outonal, nos é apresentada a factura violenta do fim do BANIF, ainda que imprecisa, e que vai ser debitada aos actuais e futuros contribuintes. Com um paradoxo inusitado: um banco público (o Estado detinha 60% do capital) entregue a uma gestão privada, ainda que com administradores por parte do Estado (não executivos) que, em tese, fazem lembrar aqueles árbitros-múmia que, nos jogos europeus, estão na linha de cabeceira.

Por outro lado, a pressa nunca foi boa conselheira. Sobretudo para quem vende. E a irracionalidade aí está em todo o seu esplendor: os portugueses contribuirão com mais 2.000 milhões de euros para o banco comprador ficar com o “filet mignon”!

Entretanto, assistimos aos habituais passa-culpas, à confusão de responsabilidades políticas, institucionais e gestionárias e à tomada de posições partidárias prenhes de solenidade algo postiça. Os números, ainda que esparsos, dão-nos a dimensão de mais um “desfalque sem rosto”. Um banco com 4% do mercado vai-nos custar, em versão conservadora, não menos do que 3.000 milhões de euros. Um “assalto à mão armada” a quem paga honradamente os seus impostos, vistos sempre como primeiro e único recurso. Para os contribuintes a solução é sempre TINA (There Is No Alternative).

O Governo entendeu tomar a decisão que, obviamente, é respeitável no difícil contexto em que foi deliberada. É certamente a decisão mais popular no sentido de trocar problemas directos e imediatos por soluções diluídas nos impostos e na criação de dívida. E felizmente a Comissão Europeia recusou a integração na CGD que seria simpática aos olhos do cidadão comum, mas contaminaria a frágil saúde do banco do Estado. Aliás, sobre as várias alternativas em tese, Ricardo Cabral sumariou-as exaustivamente no seu último post.

Mas, nós — os pagadores — precisamos de saber tudo ao detalhe. A Comissão de Inquérito que vai ser constituída é, nesse contexto, bem-vinda. Como é que em 3 anos um apoio em capital e obrigações convertíveis de 1.100 milhões se “transforma”, por alquimia, em, pelo menos, 3.000 milhões de buracos? Como foi possível este “milagre” da multiplicação dos danos? Para além do Banco de Portugal regulador e supervisor (que nunca teve cultura transaccional e negocial que agora sobre ele impende), como foi a relação, por via da governação, entre o Estado accionista (mais de 60%) e o Banco? Quais as consequências para o sistema bancário de um Fundo de Resolução que vai obrigar os bancos a pendências e custos futuros que podem comprometer a sua saúde económica? Quem nos faz este balanço a prazo e geracional para vermos para além do dia seguinte? Quem é responsável por quê? Como se pode garantir que esta é uma situação excepcional não repetível, como antes sempre nos foi afirmado peremptoriamente o mesmo com o BPN, BPP e BES? Quem pode acreditar em testes de resistência, em auditorias troikianas, em certificações a la minute, em ratings?

Também precisamos de saber porquê esta opção, a dias de entrar em vigor o bail-in. Vale a pena sumariar as regras do resgate interno da União Bancária a partir de 1 de Janeiro de 2016:

A recapitalização através da redução do valor contabilístico do passivo e/ou da sua conversão em capital próprio deverá permitir que a instituição assegure a continuidade das actividades. Deverá evitar a perturbação do sistema financeiro que seria provocada pela cessação ou interrupção dos seus serviços essenciais e dar às autoridades tempo para a reorganizar ou liquidar partes da sua actividade de forma disciplinada.

Em síntese: se um banco tem de recorrer ao resgate interno, as autoridades terão de apelar em primeiro lugar a todos os accionistas, seguindo em seguida uma ordem pré-estabelecida para o resgate interno dos passivos. Os accionistas e outros detentores de instrumentos financeiros, como por exemplo obrigações convertíveis e obrigações não prioritárias, seriam os primeiros a suportar as perdas.

Os depósitos inferiores a 100 000 euros nunca seriam afectados. Tanto quanto possível, a responsabilidade pela cobertura das perdas do sector bancário é colocada sobre os investidores privados nos bancos e sobre o sector bancário no seu conjunto, e não sobre os contribuintes.


Tenho lido que há 2.000 milhões de euros em depósitos no BANIF acima de 100.000 euros. É muito, reconheço. Mas, pergunto o que é mais justo (ou menos injusto)? Fazer recair sobre os (fiscalmente ricos) contribuintes de baixos e medianos rendimentos e sobre pensionistas o custo deste sério problema ou fazê-lo suportar pelos accionistas (aqui seria inevitável a factura fiscal pelo facto de o Estado ser accionista maioritário, uma espécie de resolução pelo Estado a si próprio…), obrigacionistas e depositantes na parte acima do valor garantido de 100.000 euros? Bem sei que a solução adoptada é mais anestesiada, mas os clientes bancários têm que saber olhar para o mercado não de uma maneira indiferenciada, mas sabendo que o risco não é igual. Daí a necessidade de uma mais contínua e fidedigna informação ao mercado sobre a situação do sistema bancário. Tenho consciência de quão difícil é dar resposta a esta questão que oscila entre o benefício do infractor e a injustiça do pagador.

No seu conjunto, o Tribunal de Contas estimou o apoio (líquido) à banca entre 2008 e 2014 em cerca de 12.000 milhões de euros (BPN, BPP, BES, BANIF e CGD). Valor que corresponde a um ano de pensões contributivas da Segurança Social.

Têm-nos sido dito e redito que o principal problema do País são os velhos, pensionistas e aposentados, quase grupos de elevada toxicidade. Porque os problemas bancários, tóxicos ou não, resolvem-se de uma “penada”. Como se tem visto. Em parte significativa recorrendo aos tais reformados. E não só. Entretanto, a banca nacional, para além da CGD, já foi.

António Bagão Félix

23.12.15

A geringonça ainda vai no adro

Não basta anunciar que se vende um banco, praticamente em ruína, por essa ser a solução que melhor defende o interesse nacional. Quando se vende um banco por 150 milhões de euros e se entra com 2 mil milhões para guardar os seus ativos tóxicos - aquilo que ninguém quer, aquilo que contamina - é preciso explicar aos cidadãos a opção. E em detalhe.

Não é a primeira vez, em poucos anos, que os portugueses são chamados a pagar os erros de gestão da banca nacional. Banca privada, dirigida por gestores privados bem pagos. Muitos dos ativos que ficaram no Banif "mau" (o filme repete-se) são o resultado de crédito concedido, sem o mínimo critério de exigência, e corporizado por imóveis altamente desvalorizados. Algum gestor assume essa responsabilidade?

As pessoas, as mesmas de sempre, agora chamadas a entrar com dois mil milhões de euros, não entendem e perguntam com toda a legitimidade: "Por que raio não deixam os bancos ir à falência?" Ao longo de seis anos, entre 2008 e 2014, os portugueses contribuíram com quase 20 mil milhões de euros para suster instituições bancárias. A troco de quê? Da estabilidade financeira, dizem-nos. Algo pouco concreto. Real, bem real, foi aquilo que sentimos. Mais impostos, mais e mais austeridade. Disseram-nos: era preciso cortar salários, apoios sociais, subsídio de férias e de Natal. A nossa vida piorou. E afinal não andávamos a gastar acima das nossas possibilidades. Outros andariam. O povo português, isso sim, anda a pagar (por erros que não comete) acima das suas possibilidades.

Valerá a pena? Temo que não. Já vão quatro. Primeiro foi o BPN, depois o BPP, o BES e agora o Banif. Fica por aqui cortejo fúnebre da nossa desgraçada banca? As autoridades fiscalizadoras, reguladoras, as altas figuras do Estado nunca falaram com clareza aos portugueses. Pelo contrário. Até fomentaram o engano. Antes da derrocada do BES, o Banco de Portugal autorizou um aumento de capital, conduzindo os pequenos acionistas do banco para um beco sem saída. Na madrugada de ontem, ficámos a saber mais do rigor de quem regula o nosso sistema bancário. O caso Banif deveria ter sido atacado há um ano! Em vez disso, foi escondido: comprometia a saída limpa do plano de resgate. Não comprometeu, mas que benefícios trouxe esse jogo de sombras, esse silêncio cúmplice? O problema irrompe, agora, em todo o seu esplendor.

Havia eleições à porta, e isso, pelos vistos, tinha muita força. Tal como nos mentiram com a fábula da sobretaxa, também nos enganaram com o Banif. Temos muitas razões para desconfiar - e a geringonça ainda vai no adro.

Paula Ferreira
Opinião JN 22.12.15

Acordo celebrado entre a APRe! e os Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa


COMUNICADO


1 - Entre a Direcção da APRe! e a Administração do Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa foi estabelecido um protocolo de acordo em que os Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa se comprometem, independentemente do seu local de residência, a conceder aos Associados da APRe! e seus familiares, incluindo descendentes em 1º grau, os serviços de :
  • CONSULTAS MÉDICAS
  • MEIOS COMPLEMENTARES DE DIAGNÓSTICO E TERAPÊUTICA
  • OS ACTOS MÉDICOS DE ÂMBITO CIRÚRGICO E OS CUIDADOS DE ENFERMAGEM
2 - Para poderem ter acesso aos serviços disponibilizados, os nossos associados deverão contactar os SS CML mediante a apresentação do respectivo cartão do Cidadão / Bilhete de Identidade e do Cartão de Associado da APRe! em vigor e, se possível, de uma fotografia tipo passe, a fim de lhes ser conferido um cartão de utente daqueles serviços. Na falta da foto, os próprios SS CML farão na ocasião a fotografia.

Na falta do cartão, ou nos casos dos familiares dos associados com acesso aos serviços disponibilizados, os mesmos só serão prestados mediante a apresentação do respectivo documento de identificação e de uma Credencial a passar pela APRe!, assinada por um membro da Direcção.

3 - O pagamento dos serviços prestados pelos SS CML é da responsabilidade dos nossos associados e dos seus familiares nos termos definidos na tabela anexa ao protocolo, que poderá ser consultada no portal e no blog da APRe! .

4 – No caso dos nossos associados e/ou seus familiares serem, simultaneamente, beneficiários de qualquer outro sistema com o qual os SS CML tenham estabelecido ou venham a estabelecer qualquer tipo de acordo ou equivalente, aplicar-se-ão as condições que se apresentem mais favoráveis para o utente, não sendo possível, em qualquer circunstância, a acumulação de benefícios.

Por exemplo, no caso dos associados e/ou seus familiares serem beneficiários da ADSE, deve esse facto ser referido aquando da inscrição inicial para poderem usufruir das condições mais vantajosas que resultam do protocolo já existente entre os SS CML e aquela Instituição.

2015/12/21

A DIRECÇÃO



Serv. Sociais da C. Municipal de Lisboa Av. Afonso Costa, 41 1900 032 LISBOA
Telefone - 21 844 77 10 / 21 844 77 00 - 2.ª a 6.ª feira das 08h00 às 20h00

 

22.12.15

A pouca vergonha que continuamos a pagar

Agora foi o BANIF. Pequenos, médios e grandes bancos não resistem. BPN, BPP, BES e BANIF são o rosto visível do iceberg da debilidade do sistema bancário em Portugal. Por diferentes razões é certo, nuns casos criminosas, noutros de incompetência danosa.

Gigantes com pés de barro, por esse mundo fora e também aqui. Consequência directa ou indirecta do primado financeiro que domina a economia e a sociedade, da falta de escrúpulos e de ética empresarial, da visão excessiva do curto-prazo que beneficia os espertos e arrivistas, da incompetência de funcionários transformados em banqueiros e de banqueiros alcandorados a senhores do poder quase absoluto, perante os quais as autoridades democráticas se curvam em constantes salamaleques.

Não escrevo ainda sobre os detalhes da situação do BANIF, da incapacidade preventiva do Banco de Portugal, BCE, CMVM, auditores, raters e revisores, nem das manobras políticas para esconder a podridão. Vou aguardar por mais detalhes para além do que se sabe pelo comunicado semítico do Banco de Portugal e pela declaração selectiva do Primeiro-ministro. Estranhamente tudo num banco que, há 4 anos, tem tido o Estado como detentor da maioria do capital, até com administradores nomeados pelo governo.

Tudo vai à conta dos portugueses. Sempre se invoca o risco sistémico para nacionalizar erros, danos, prejuízos e desfalques privados, assim se gerando outro risco sistémico: o benefício do infractor. Sempre beneficiando do privilégio bancário da intervenção pública pela circunstância de os bancos terem como credores os depositantes. Mas, claro está, alguém já ganhou ou vai ganhar.

Muitos dos responsáveis desta calamidade passam entre os pingos da chuva. Alguns são reciclados para outras prebendas e pavoneiam-se na praça dos interesses. Continuam a achar-se grandes gestores pagos a preço de ouro. Outros vieram encartados pela política para servirem, promiscuamente, interesses estranhos à actividade. Todos se especializaram em capitalistas de passivos. Triste e degradante miséria, num país em que 20% da população é pobre ou em risco de severa pobreza, e o desemprego atinge transversalmente a esperança de muitas vidas.

Bagão Félix

Notícias APRe!


16ªs Notícias APRe!

21 de Dezembro de 2015



21.12.15

Envelhecimento quê? – relato político-pessoal de uma noite à porta do hospital

Aqueles que tratam das funções sociais do Estado vejam lá como se tira um velho acamado de uma urgência hospitalar, à noite.


Imagine-se ontem, perto da meia-noite, na entrada das urgências de um grande hospital. Reina a calma, não há grande afluência. Tudo parece bem organizado e, dos seguranças, aos maqueiros e aos polícias, todos são diligentes e cordiais. Fazem o que devem com bom ar. No guichet você é atendido por pessoas simpáticas que, com vários números de telefone num papel, ligam para todos aqueles que o podem ajudar a resolver o seu problema. Estes, ou não atendem, ou não estão por perto, ou estão desligados, ou não fazem àquela hora o serviço pedido, ou estão ocupados com outros utentes... Inicialmente você tem dificuldade em perceber como se age numa situação nova e desconhecida para si. Tenta fixar alguns pontos básicos para se orientar e procurar resolver o assunto. O cenário tem todas as condições para um daqueles filmes de grande qualidade, de natureza antropológico-urbana, em que uma estória quotidiana se desenrola em contexto real e adverso e em que pessoas comuns tentam situar-se e agir. Miguel Gomes ou João Canijo podiam ser para ali chamados, em registo lento, que fixasse caras e ações. Uma câmara deste novo cinema ficava ali bem. De facto, circula muito gente e você começa a ver que quase todos prestam o serviço que resolvia o seu problema. Nessa altura, também já percebeu que o melhor é começar você mesmo a tentar encontrar uma solução por mão própria. Na realidade, o assunto está apenas nas suas mãos, apesar da simpatia das pessoas do guichet. Vai falar com vários bombeiros das ambulâncias que lá estão: não, não é a zona deles; não, o veículo é para outras funções; não, o comando não deixa; não, têm antes de ir a Leiria, ou a Aveiro. “Amigo, eu fazia, mas não posso...” Até de “parâmetros” me falaram, o que tornou uma recusa definitivamente convincente a uma hora daquelas... Como o problema se resolve com as própria mãos, a solução tem de nos vir parar às mãos. E assim foi. Uma jovem bombeira diligente, com quem eu devia ter falado primeiro se soubesse que ela existia, deu-me um toque no braço e disse-me: “Senhor José, fique descansado, eu trato-lhe disso. Tenho é que ir primeiro a Aveiro. Pela meia-noite e 45, ligue, que eu venho cá, se ainda precisar”. E assim foi. Perto das 2 da manhã estava a chegar e até estava disponível, ela, para ajudar outros Senhores Josés que ali estivessem. E estavam. Estava uma senhora, já de idade madura, que ali vai frequentemente com o marido, e que precisava, para uma distância de minutos como a minha, de conseguir chegar a casa durante essa noite, para não esperar pela manhã. A competência que, entra as 11 e a meia-noite, eu tinha adquirido acerca daquele mundo – daquele “mercado”, dira quem usa termos muito em voga – permitiu-me estabelecer o contacto necessário e ser parte da solução do problema da senhora. Entretanto as pessoas do guichet já tinham sido substituídas mas a simpatia e a vontade de ajudar permanecia.

Pelas três da manhã a minha mãe já estava na sua cama, depois de ter tido alta nas urgências cerca das 23h. O marido da senhora deve ter chegado pouco depois ao 2º andar sem elevador, do bairro ali ao pé do hospital. Os dois bombeiros devem ter transportado a maca escada acima e resolvido a preocupação maior da senhora, aquelas escadas.

O que estava em causa, como já terão descoberto, era só transportar pessoas acamadas que tinham saído da urgência já noite e que não podiam vir nos carros dos familiares que estavam à porta.

Entretanto eu percebi que sim, que para aquele assunto talvez não seja errado falar de um “mercado”. Identificam-se players, presentem-se normas “regulatórias”, há “ativos específicos” e é preciso negociar, embora em posição assimétrica. É um mercado em que há meia dúzia de privados e umas instituições daquelas que vivem na orla do Estado, com relevo para os bombeiros que segmentam esse mercado e tornam o acesso difícil. É disto que numa noite fria depende transportar um doente acamado, que é preciso colocar na sua cama depois de ter tido alta de uma situação aguda às 11h da noite nas urgências de um hospital, para onde foi pelo INEM. De um doente cuja família ali estava, podia fazer tudo, mas não tinha um carro com maca, diacho...

O envelhecimento ativo e saudável é um tema do mais moderno que há. Contemporâneo, estratégico, perspicaz. É um “desafio societal” da União Europeia na atual fase de programação das suas políticas estruturais. Convoca conhecimento científico do melhor que há, é matéria de grandes reuniões internacionais, as mais sonantes instituições (incluindo a minha universidade) colocam-se na grelha de partida para tratarem do assunto, há inúmeras cidades que já se consideram “capital” disto mesmo. Os discursos de muitos stakeholders revelam bem as coisas fundamentais. Eu próprio já me pronuncie sobre isso com pertinência e, vamos supor, elegância. Se tivesse a palavra numa dessas grandes reuniões procuraria não deixar por mão alheias a possibilidade de ser veemente, estratégico e de vistas largas. Bruxelas, Berlim, sei lá o quê... Sonho aliás com o futuro “campus da vida” pensado para Coimbra, onde tudo estará sistemicamente presente e os velhos terão aquilo que os farão felizes, para que a sua vida siga um linha só com um declínio e uma ruptura, lá longe. E em tudo isto sou e serei muito sincero. Não tenho dúvida que este assunto é importante.

Aqueles que tratam das funções sociais do Estado vejam lá como se tira um velho acamado de uma urgência hospitalar, à noite. Vejam que poder entregaram à “indústria” dos bombeiros, vejam que lugar público deixaram vazio.

Eu não sou de dizer a frase batida “só neste país...”. Não a digo nem a repito. Nem a respeito. Porque, por exemplo, sei que sabemos levar rapidamente a gente que precisa até ao hospital. E trata-la bem. E prolongar-lhe a vida. O serviço do INEM mostra isto. Mas há sempre, neste país capaz, uma parte esquecida (o raio das coisas pela metade...). Uma parte esquecida ou apropriada por alguém, sorrateiramente. Neste caso, trata-se apenas de saber trazer para casa, para as suas camas, porventura às 3 da manhã de uma noite fria, pessoas indefesas. Contra quem é que é preciso fazer alguma coisa? Com quem é que é preciso fazer o que falta?

Envelhecimento quê? Envelhecimento ativo e saudável? OK, vamos a isso...

José Reis
Prof. da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, membro da Assembleia Municipal de Coimbra pela candidatura independente Cidadãos por Coimbra
Opinião Publico 20.12.2015

19.12.15

#roncocaridoso

Tem sido um fartote de ceias de Natal oferecidas a sem-abrigo. E quase sempre para além da centena. Ele é empresas, ele é grupos de amigos, ele é associações, ele é iniciativas de ocasião. Tudo a dar bacalhau e rabanadas a quem tem a rua como casa. É meritório? É. Melhor isto do que nada? Sim. É preciso anunciar aos quatros ventos e pedir fotos, notícias? Não. A não ser que seja necessário para que fiquem mais compostas as consciências de quem considera que tempo de Natal é oportunidade para fazer boas ações. Lembra-me a história do menino que obrigou a velhinha a atravessar a rua para ficar bem visto. Dar ceias 15 dias antes da consoada é o quê? Uma forma de dizer que se ajudou, que se matou a fome, que se foi... caridoso? E no dia propriamente dito? No dia do nascimento de Jesus? Ficam no seu conforto, à volta da mesa farta, quiçá a contar pormenores da ceia para sem-abrigo onde estiveram há uma ou duas semanas. E os sem-abrigo na rua a recordar o belo cheiro que vinha de mesas postas e a ouvir o ronco da fome. Se calhar, a coisa correria melhor se distribuíssem umas embalagens herméticas para as sobras. Apontem.

Margarida Fonseca
Opinião JN 19.12.15

18.12.15

Risco de pobreza aumentou nos idosos e desempregados

O risco de pobreza manteve-se em 19,5% em 2014, mas aumentou na população idosa e nos desempregados, revela o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento divulgado esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Segundo o inquérito, realizado em 2015 sobre rendimentos do ano anterior, a taxa de risco de pobreza para a população idosa fixou-se nos 17,1% em 2014, mais dois pontos percentuais (p.p) face ao ano anterior (15,1%).

Apesar de o risco de pobreza na população idosa ter aumentado pelo segundo ano consecutivo, manteve-se “a evolução no sentido decrescente observada na série para este indicador: menos 11,8 p.p. desde o início da série em 2003 e menos 2,9 p.p. desde 2010”, refere o INE.

A população em situação de desemprego registou uma taxa de risco de pobreza de 42% em 2014, mantendo-se a tendência de aumento registada nos anos anteriores (40,5% em 2013, 40,3% em 2012, 38,3% em 2011 e 36% em 2010).

Em 2014, foi sobretudo a população reformada aquela que viu aumentar o risco de pobreza, com uma taxa de 14,5% face a 12,9% no ano anterior.

Já o risco de pobreza para a população empregada aumentou de 10,7% para 11,0%, refere o inquérito do INE, realizado anualmente junto das famílias residentes em Portugal.

De acordo com o inquérito, 19,5% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2014, igual ao valor estimado para 2013, continuando a atingir com “maior impacto” as mulheres: 20,1% face a 18,8% para os homens.

A taxa de risco de pobreza em 2014 correspondia à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos anuais, por adulto equivalente, inferiores a 5.059 euros em 2014 (cerca de 422 euros por mês).

O estudo do INE aponta também que as famílias com crianças dependentes mantiveram em 2014 um risco de pobreza (22,2%) superior ao das famílias sem crianças dependentes.

Tal como nos anos anteriores, as taxas de risco de pobreza mais elevadas foram estimadas para os agregados constituídos por um adulto com pelo menos uma criança dependente (34,6%) e pelos constituídos por dois adultos com três ou mais crianças dependentes (37,7%).

O risco de pobreza para os agregados constituídos por três ou mais adultos com crianças dependentes foi de 26,3%, refere o INE.

No ano passado, os menores de 18 anos e os adultos em idade ativa registaram riscos de pobreza (respetivamente, 24,8% e 18,8%) ligeiramente inferiores aos de 2013 (25,6% e 19,1%).

Segundo o INE, o contributo das transferências sociais, relacionadas com a doença e incapacidade, família, desemprego e inclusão social para a redução do risco de pobreza em 2014 foi de 6,9 p.p., reduzindo-se face ao ano anterior.

O INE sublinha que se fossem considerados apenas “os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, 47,8% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza em 2014”.

Os rendimentos provenientes de pensões de reforma e sobrevivência contribuíram em 2014 para um decréscimo de 21,4 p.p. do risco de pobreza, resultando assim numa taxa de risco de pobreza após pensões e antes de transferências sociais de 26,4%.

A insuficiência de recursos da população em risco de pobreza foi de 29% em 2014, reduzindo-se em 1,3 pontos percentuais (p.p.) face ao ano anterior.

http://www.tvi24.iol.pt/economia/18-12-2015/risco-de-pobreza-aumentou-nos-idosos-e-desempregados

DELEGAÇÃO DE LISBOA CELEBRA O III ANIVERSÁRIO DA APRe!


Tal como noutras zonas do País, os Núcleos da APRe! da Região de Lisboa, promoveram um almoço comemorativo do terceiro aniversário da Associação, no dia 17 de Dezembro, em Lisboa.

Ao longo destes três anos a APRe! fez um percurso de que se pode orgulhar, vindo a ocupar desde o seu nascimento, uma papel de especial importância na defesa dos aposentados, pensionistas e reformados. 

Pretendia-se com esta jornada de convívio, contribuir para o fortalecimento dos laços que nos ligam, razão porque se convidaram todos os associados para nos acompanharem neste dia.

O almoço decorreu em ambiente amigável, houve ocasião para palavras de balanço e amigas de Vitor Ferreira da Silva, Delegado de Lisboa da APRe!, que salientou o empenho de todos que tem permitido o reforço do papel da APRe! em defesa dos reformados e pensionistas, apelando à intensificação do esforço de cada um e de Maria Rosário Gama, Presidente da APRe! que salientou o facto de as velas serem bem compridas tal como a existência da APRe!, apesar de ainda curta, nos parece bem mais longa pela intensidade com que tem sido vivida.

No final o convidado Vitor de Sousa leu poemas de Miguel Torga, António Gedeão, Rosa Lobato Faria, Pedro Homem de Mello, Vasco Lima Couto e Manuel Alegre, O almoço terminou em ambiente festivo, com todos a secundar a canção com que nos brindou a nossa consócia Maria da Graça Serrão.

Esperemos festejar o Aniversário da APRe! por muitos e bons anos!