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18.1.15

Simples de mais para ser verdade?



Uma imensidão de "verdades instituídas" nas governações neoliberais a que estamos sujeitos, no país e na União Europeia, não passam de aldrabices bem camufladas por pronunciamentos de "especialistas", ancorados em "estudos científicos", repetidos até à exaustão nos grandes meios de informação. Quem se atrever a interpretações e explicações alternativas é alcunhado de irresponsável, de não ter em conta a "realidade que vivemos" e corre o risco de ser aconselhado a um qualquer internamento hospitalar.

É esse o risco que corro neste artigo porque em diálogo recente com economistas bem preparados e não submetidos às verdades oficiais, sobre, nomeadamente, a origem do dinheiro e a atuação do Banco Central Europeu (BCE), eles me mostravam haver coisas que de tão simples é difícil nelas acreditar. Por exemplo: quando um banco comercial concede crédito, normalmente não entrega um maço de notas ao cliente, credita-lhe a conta. De um lado do balanço fica um registo de depósito, do outro, um registo de crédito concedido. O dinheiro que estava nos depósitos dos outros clientes não diminuiu nem aumentou. O banco criou dinheiro. Dir-me-ão, há limites! Sim, os que o Banco Central impõe e os que os bancos impõem uns aos outros. Se emprestassem de mais ninguém estaria disposto a pagar um juro.

Os bancos centrais também criam dinheiro sem ter por detrás de cada euro um bocadinho de ouro, de prata, ou de outra coisa qualquer aferrolhado no cofre, embora muitas pessoas pensem o contrário. Na maior parte dos casos, o Banco Central nem precisa de papel. Basta-lhe uma transferência eletrónica para uma qualquer conta bancária.

Observaram-me que o professor de Economia da Universidade de Cambridge, John Muellbauer, escreveu a 23 de dezembro passado no portal VOX: o que o BCE devia fazer agora era "imprimir largas somas de dinheiro e distribuí-lo ao público". Ora, se o depositasse nas contas bancárias de todos os cidadãos, ficava distribuído.

Se toda a gente tivesse emprego, todas as máquinas estivessem a trabalhar 24 horas por dia e os campos cultivados, havendo mais dinheiro, o preço das coisas produzidas aumentaria porque não seria possível produzir mais coisas, logo, criar mais dinheiro seria estúpido e prejudicial. Mas, numa crise económica há muitas pessoas e máquinas paradas, há campos por cultivar porque não há procura, e não há procura porque as pessoas não têm dinheiro. E há muita pobreza e fome. Neste caso, imprimir dinheiro e distribuí-lo bem, ajuda. Claro que também são necessárias políticas novas noutras áreas.

Por que é que eles (BCE, etc.), apesar da crise, não querem que o dinheiro chegue às pessoas? Porque, sendo escasso, quem o tem pode empresta-lo com um juro elevado. Quem o não tem é obrigado a arranjar o indispensável para viver ou sobreviver, trabalhando pelo salário que lhe aparecer, logo aumentando o seu aprisionamento.

Custará a acreditar, mas é verdade: se há alguma coisa na economia que não é necessariamente escassa, essa coisa é o dinheiro. E o BCE passa a vida a "imprimir" dinheiro para alimentar um sistema de acumulação de riqueza instalado a favor de alguns e não para, como era preciso, servir as pessoas e resolver a crise.

Há mais coisas simples para descobrir. Quando as pessoas têm pouco dinheiro, as coisas não se vendem e os preços baixam. Os vendedores têm perdas e despedem trabalhadores. Com mais desemprego os salários baixam ainda mais e as pessoas ficam com menos dinheiro. Os vendedores são de novo obrigados a baixar os preços. Isto chama-se deflação e é sobre este risco que nos encontramos.

Em deflação, quem ainda tem algum dinheiro tende a não o investir e até o poderá guardar debaixo do colchão, ou num buraco no chão dentro de uma panela, dado que amanhã esse dinheiro poderá comprar mais coisas, entretanto mais baratas.

Há dias o INE anunciou que os preços tinham caído em 2014. E constata-se um agravamento do desemprego e da qualidade do emprego, bem como redução dos salários. Se houvesse mais dinheiro nas carteiras, de quem utilmente precisa dele, isto não aconteceria: haveria mais emprego, melhores salários e desenvolvimento.

Carvalho da Silva
Opinião JN 17.01.2015