23.2.15

A sociedade dos velhos


A sociedade dos velhos é paralela. No cansaço físico dos velhos há um mutismo que parece tornar as suas questões assuntos para-humanos. Os velhos existem constantemente no absurdo. Rejeitados e habituando-se à rejeição. Como a serem levados a pensar que valem menos e que representam menos a humanidade. Começar a perder direitos acontece no instante em que alguém se diminui diante dos outros. É a aceitação tácita de que se pode ser preterido, esquecido ou abreviado.

Todos nos acostumamos à dor. Em certa medida, buscamos uma estabilidade que se paga com o ganhar tolerância até àquilo que nos faz mal. Contudo, o pressuposto de que a velhice normaliza a desgraça é do foro da pura violência, do terror, e nenhuma sociedade estará madura sem obstinadamente corrigir isso.

A simples convicção do Estado de que alguém pode sobreviver com 150 euros num mês é fundadora de todos os preconceitos. Nenhum Estado com pensões de velhice desta ordem pode arrogar-se à ínfima ética no cuidado com os mais velhos.

E digo que a sociedade dos velhos é paralela porque ela decorre à margem de todas as grandes decisões. As televisões são lugares plásticos para figuras que aludam a uma generalidade da população activa. Vemos o que se supõe interessar a quem paga. Se retiramos o poder de compra dos reformados, retiramo-los das estatísticas do conforto, deixam imediatamente de ser alvo da grande maioria das empresas e das boas intenções.

O mais grave é que transformamos a velhice num não assunto, pejados de medo pela antevisão do nosso próprio futuro, e induzimos os mais velhos à vergonha e, depois, à culpa. A vantagem que lhes levamos na robustez física, e supostamente mental, cria a covardia com que tantas vezes actuamos, pressupondo que o padrão da normalidade diz respeito a idades jovens. A velhice, tão simples, tem de ser normalizada. Nem tanta conquista da medicina, e de todas as ciências quantas nos cuidam, seria coisa interessante se não houvesse uma lúcida ética em torno da oportunidade de se viver mais tempo.

A impressão de que os velhos vivem culpados é a que mais me magoa. O modo cordeiro como agem para que a família não se canse deles, para que não lhes gritem, para que lhes sirvam uma sopa que não se entorne, que não tenha demasiado sal, que não ferva como lava de comer à pressa. Impressiona-me que já entrem nas salas como meninos malcomportados, acanhados porque lhes dizem que só fazem asneiras. Tantas vezes escutando as coisas mais cruéis. Para que morram mais cedo, deixem de herança dois ou três pertences com valor comercial, para que não ocupem o espaço onde as crianças querem brincar. Porque as crianças são todas elas esperança e direitos.

A ridicularização dos velhos, guardados como animais domésticos de manta nas pernas diante da televisão, é um flagelo da contemporaneidade. Num tempo de tão grandes consciências e desenvolvimentos, não entendermos que as pessoas que temos em casa são o puro ouro da vida é um tiro no nosso próprio pé. Compactuamos com uma mentalidade que nos predará. Seremos nós, depois, aqueles que se sentam de manta nas pernas afundando a voz mais e mais por perder a vez. Como aberrações que teimam em perdurar.

Gloriosos os que conseguem perdurar. E, se emudecerem, espero que imaginem conversas exuberantes que os divirtam e instruam sempre, secretamente. Porque, no interior das ideias, a idade é uma equação que pode resultar em muita novidade e juventude. Sobretudo, espero que seja possível encontrar ideias que curem a violenta tristeza de se perceber a família como demasiado atarefada para o afecto. Demasiado urgente para dar espaço a quem, por definição, se espreme contra o tempo.

Gloriosos os que conseguem ainda amar. De sorriso transparente, como se, depois de tanta coisa, tivessem descomplicado a vida. O que vale a pena é invariavelmente cristalino. Turvos só mesmo os olhos de quem vê.

Valter Hugo Mãe
Opinião Público 22.02.2015