Publicação em destaque

Solidariedade da APRe!

A Direcção da APRe! está a contactar telefonicamente, através do seu Vice-Presidente Fernando Martins, todos os associados residentes n...

13.2.15

Um ilustre devedor na pele de credor é sempre comovente


Quando se cai em desgraça perde-se o respeito dos pares. A natureza humana e os interesses em presença não costumam surpreender-nos. São, muitas vezes, os mais próximos da desgraça que mais rapidamente viram as costas aos desgraçados. Não será apenas uma questão de graça ou desgraça, será porventura mérito ou demérito. Em qualquer caso, incluindo as relações internacionais, a solidariedade não se substitui aos interesses. Costuma enroupar-se de boas palavras e de algumas cautelas. Costuma. Os que acabaram de aliviar os apertos são os mais implacáveis. Não resistem a dar lições de sacrifício e sapiência. A desgraçada Grécia está a perturbar a ordem estabelecida. Por isso, o não muito menos desgraçado Portugal já está a dar-lhe lições de moral. Enquanto em Bruxelas se exercita a retórica da tolerância – “temos que os ouvir” – em Lisboa sobressai a arrogância e a sobranceria. Assumindo o seu estatuto de Presidente e de economista, Cavaco Silva espera que a Grécia “corrija posições”. É tudo uma questão de aprendizagem. E, afinal, diz o Presidente de Portugal, o governo grego “já aprendeu bastante”… Provavelmente connosco, que já lhe emprestámos tantos milhões. Um ilustre devedor na pele de credor é sempre comovente.

A História presta-se a muitas histórias. O problema grego, que também é o nosso problema por mais que o não queiramos, pode ser menorizado. Têm taxas de juro dos empréstimos muito baixas, pagamentos a longo prazo, já tiveram «essa coisa» (como lhe chamou Cavaco Silva) do perdão de dívida… Ou seja, será tudo uma questão de aprendizagem ou de disciplina. A dívida e o desemprego brutais não são para aqui chamados. Gastaram demais, têm de gastar menos. Esta história ignora que o superavit orçamental e o baixo nível da dívida da Espanha não evitaram a depressão e as dificuldades financeiras provocadas pela crise de 2008. Como ignora o enorme fracasso da terapia imposta à Grécia e, sobretudo, a depressão que atravessa a Europa em geral, não apenas a do Sul. Um credor inteligente está interessado em que o devedor continue a pagar, que tenha condições para honrar os seus compromissos. A respiração do devedor é a segurança do credor.

A boa notícia é que a revolta grega fez renascer a política na Europa. É preciso continuar a trabalhar em melhores soluções.

Nestas histórias da História, as narrativas ou o storytelling, se preferirem, criaram lacunas propícias à gestão do poder. Há mal-entendidos que têm servido de álibi para políticas nacionais contrárias ao interesse comunitário. A ideia de que foi a inflação que favoreceu a ascensão de Hitler na Alemanha é falsa, mesmo que tenha sido repetida à exaustão. Uma leitura atenta do tempo constataria que foram os cortes orçamentais, o desemprego e a austeridade que criaram as condições para o triunfo nazi. Também se têm tentado confundir as políticas de austeridade com os valores de sobriedade e de bom governo dos recursos públicos. Não são a mesma coisa. Como não é a mesma coisa confundir a virtude de um excedente orçamental com o superavit recorde alemão. Os desequilíbrios orçamentais na zona euro fragilizam-na. E não se diga que a solução é sermos todos alemães. Talvez a Alemanha possa fazer um esforço (confortável) para diminuir este contraste. E não seja um exagero dizer que os défices de uns são os excedentes de outros.

O grandiloquente discurso da solidariedade e da responsabilidade deve servir, desde logo, para não iludirmos os factos. Como já repetiu várias vezes o economista britânico Philippe Legrain, que foi conselheiro de Durão Barroso na Comissão Europeia, os empréstimos concedidos à insolvente Grécia “foram, principalmente, um resgate aos seus credores, nomeadamente aos bancos alemães”. A interdependência em que vivemos não ignora as relações de poder entre os mais fortes e os mais fracos. Mas tende a desvalorizar o curso da política e o seu impacte social. A cegueira, que ignora a paralisia e o descontentamento, o crescimento dos extremismos, a falência da austeridade e a descrença no projeto europeu, não é bom augúrio. Como não é bom augúrio deixar a política entregue a contabilistas e economistas pouco predispostos a abrir os olhos aos efeitos sociais das suas decisões. Nem todos têm padecido do mesmo mal. O economista e conselheiro de Estado Vítor Bento, nomeado por Cavaco Silva, acaba de fazer um balanço exaustivo da política de ajustamento europeia. Cito apenas duas conclusões: “Após seis anos de crise, a zona euro está pior. O seu mau desempenho não era inevitável e poderia ter sido melhor. Se não foi, tal decorre de uma política económica desadequada. (…) A zona euro dedicou mais de um terço da sua vida a um ajustamento desequilibrado, que empobreceu toda a zona. Os custos desse ajustamento recaíram quase exclusivamente sobre os países mais pobres.” Perante uma política errada, que deu maus resultados, porquê insistir? A boa notícia é que a revolta grega fez renascer a política na Europa. É preciso continuar a trabalhar em melhores soluções. E, já agora, é preciso que Portugal também se empenhe em melhores políticas em vez de repetir lições de moral alheias.

António José Teixeira
Expresso Diário 12.02.2015