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20.6.15

A metáfora do burro do moleiro


Tocado que sou pelo ADN dos velhos sábios transmontanos que esgrimem as metáforas quase tão bem como os sábios gregos, há sempre uma que me ocorre, quando se perfilam cenários de novos cortes em pensões e aumento da carga tributária sobre os portugueses, especialmente quando, como agora, a realidade das famílias mostra já a exaustão no seu limite.

Neste contexto, ocorre-me, pois, a metáfora do burro do moleiro, narrada pelo povo antigo nos seus impulsos ajuizadores do descaminho a que a governação leva o país. Conta-se em Trás-os-Montes que havia um moleiro que, ao sentir o seu negócio a andar para trás, lembrou-se de que a culpa era do burro. Dizia que lhe andava a comer de mais. Achou, por isso, conveniente habituá-lo a comer menos. E foi o que fez. Todos os dias lhe ia diminuindo à ração, embora o trabalho continuasse a ser o mesmo. O moleiro, é claro, cada vez estava mais animado com os resultados, até porque, nesse andar, o burro acabou por se desabituar de comer, o que o deixou ainda mais satisfeito. O negócio agora era só lucro. Por fim, sem forças, pois já não se alimentava, o burro morreu. E que aflição agora a do moleiro! Pôs-se então em altos gritos: "Ai, meu burrinho, meu burrinho, / quando me estavas a render / é que te lembrou de morrer!"

Sábio e mordaz, este povo, no uso das alegorias, há sempre nelas um sugestivo quadro de metaleituras que assenta bem na realidade que se vive. Uma realidade que demonstra em absoluto o destempero, ou o masoquismo, das medidas avulsas de austeridade que nem sequer impedem a dívida pública de continuar a aumentar. Uma realidade que levou, há dias, Adriano Moreira a apelar à meditação dos agentes políticos, assinalando as exemplares provas de civismo da população em relação ao resto da Europa, mas lembrando que a "fadiga tributária" chegou ao limite.

E quando agora se apresenta um Programa de Estabilidade 2015-2019, para cujo cumprimento se anunciam mais cortes, especialmente nas pensões, a pergunta que se faz é: cortar mais em quê e em quem? Continuar a tirar a quem menos pode, a quem não tem armas nem corporações para se defender, a quem já não pode emigrar para assegurar o seu sustento... já não é só desumano, é infernal.

Continuar a tirar a quem menos pode, a quem não tem armas nem corporações para se defender, a quem já não pode emigrar para assegurar o seu sustento... já não é só desumano, é infernal.

Alexandre Parafita
Escritor
Opinião JN 20.06.2015