4.8.15

Perder a democracia em nome das boas maneiras?

O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho dá uma entrevista e, ostentando o olhar mais cândido que consegue, mente sobre uma questão fundamental - os dados do desemprego - para tentar convencer os portugueses de que as coisas estão no bom caminho, de que a economia está a recuperar, de que a austeridade funcionou e de que o seu governo merece ser reeleito em Outubro.

O irrevogável vice-primeiro-ministro Paulo Portas repete a mesma mentira em todos os púlpitos da pré-campanha que encontra pela frente, mas com um dedo esticado de autoridade e a voz pausada que Portas sabe que se podem fazer passar por gravitas e com os fatos de bom corte que Portas sabe que se podem fazer passar por seriedade.

Escândalo, porque os chefes do governo mentem? Escândalo porque não se trata apenas de uma declaração que não corresponde à realidade, mas de uma operação de manipulação da opinião pública, com estágios inventados para fingir que milhares de pessoas não estão no desemprego, com milhares de desempregados transformados em não-pessoas para os apagar das listas do desemprego, com os emigrantes varridos para debaixo do tapete? Sim, um pequenino escândalo. Vinte vozes indignadas. Os partidos da oposição, uns quantos investigadores não suspeitos de simpatia pelo governo, umas organizações de esquerda, uns blogs que salvam a honra do convento, um ou outro artigo nos media. Passos Coelho calou-se, envergonhado? Portas desculpou-se? O PSD vem embaraçado corrigir os dados com o argumento de que um súbito golpe de vento baralhou as notas do seu líder? Um frisson no meio político? Não. A mentira será repetida tantas vezes quantas câmaras e quantos microfones forem apontados a Passos Coelho e Portas. A oposição cansa-se. Afinal, já todos sabem que os membros do governo são uns aldrabões, para quê insistir? Os telespectadores não reparam, a mentira fica. Parece que o desemprego está a diminuir. Talvez eu afinal tenha emprego e ainda não tenha dado por isso. Não iam mentir na TV pois não? O governo não ia mentir, ia?

O FMI diz que, a este ritmo, só daqui a vinte anos a emprego atingirá os níveis de 2008? Que vamos precisar de 27 anos para ficarmos de novo na casa da partida? O saltitante Mota Soares explicará, sem pudor, que não se pode dar demasiada importância ao FMI porque está farto de se enganar. O mesmo FMI cuja receita de austeridade o governo seguiu com a obediência de um poodle amestrado, jurando que as suas mezinhas eram bafejadas pelo Espírito Santo? Sim. Mas ninguém perguntou isso ao ministro ou, se perguntou, não apareceu nas televisões, que é o mesmo que não perguntar.

A mentira tornou-se não uma parte integrante do discurso político (sempre o foi), mas o cerne do discurso do poder. Todo o discurso do poder é uma mentira porque se articula em torno de mentiras nunca denunciadas pelo que são. Nunca ninguém dirá em público a Passos Coelho ou a Portas, como alguém disse a Joseph McCarthy, "Será que você não tem um mínimo de decência?" E nunca ninguém o dirá porque a força capturou a política. O medo capturou a dignidade.

Achamos que é falta de educação dizer a alguém que mentiu mesmo quando essa pessoa mente descaradamente e há milhões que sofrem por isso. E os jornalistas vivem no pavor de ser considerados "parciais", de "ter uma agenda". Não tem importância mostrar Passos Coelho três vezes num telejornal a debitar propaganda, mais dois ministros e dois secretários de Estado, como numa típica ditadura sul-americana (para usar o cliché). Isso não é parcialidade. Preocupar-se com a veracidade dos factos é "ter uma agenda". "Ter a agenda" do governo não é ter uma agenda, é citar fontes institucionais. Denunciar falsidades no discurso do poder passou a ser considerado militância de esquerda. Pode fazer-se às vezes, uma vez. Mas não se pode fazer de cada vez que uma mentira sai da boca de Passos Coelho. Seria impensável, inaceitável, uma perseguição. Por isso, a propaganda ganha sempre. Por isso a democracia perde sempre.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi responsável pelo maior esquema de fuga ao fisco na história da Europa, roubando milhares de milhões de euros aos contribuintes europeus? O presidente do EuroGrupo, Jeroen Dijsselbloem, inclui no seu CV um mestrado inexistente que apagou quando foi descoberto? O FMI sofre de esquizofrenia financeira, impondo à força aos países medidas que condena nos seus documentos internos? Que importa. Pode falar-se nisso uma vez nos jornais, mas insistir seria falta de educação, "ter uma agenda". Dizemo-nos indignados mas não queremos ser considerados indelicados.

Rimbaud perdia a vida por delicadeza. Estaremos dispostos a perder a democracia em nome das boas maneiras?

José Vítor Malheiros
Opinião Público 04.08.2015