9.12.15

Portugueses reformados passam mais tempo em casa “mas abertos ao mundo”

Estudo da demógrafa Maria João Valente Rosa assinala 80 anos do INATEL e compara actividades de lazer dos reformados de hoje com as dos reformados de ontem.


Mais fechados em casa, mas abertos ao mundo. Os portugueses reformados e com mais de 65 anos dedicam-se a menos actividades de lazer do que acontecia há 16 anos. Passam mais tempo em casa, onde a televisão cimentou o seu papel de destaque. Porém, agora, contam cada vez mais com o uso de novas tecnologias, como a Internet, o que não acontecia em 1998. Além disso, as diferenças entre os interesses de homens e de mulheres e de quem vive em meios rurais ou em meios urbanos estão cada vez mais esbatidas – com as idas ao café ou os jogos de cartas a perderem força. As conclusões fazem parte de um trabalho de Maria João Valente Rosa, demógrafa da Universidade Nova de Lisboa, e são apresentadas nesta quinta-feira sob a forma de um livro que assinala os 80 anos da Fundação INATEL.

Em 1999, num trabalho semelhante para o INATEL, a investigadora tinha já publicado um estudo com base em dados recolhidos em 1998. A ideia foi fazer o mesmo com dados que recolheu em 2014 e perceber o que mudou em quase duas décadas, explicou ao PÚBLICO. No total foram feitas 656 entrevistas presenciais com base num inquérito estruturado. Foram incluídos reformados com mais de 65 anos de todo o continente, numa amostra representativa da população portuguesa.

Para Maria João Valente Rosa, o livro Os Reformados e os Tempos Livres, Resultado do inquérito à população reformada sobre actividades de lazer é revelador de uma sociedade em mudança. “Em 2014, apenas 10% dos inquiridos declaram ocupar os tempos livres em actividades de lazer fora de casa, quando esse valor foi de 17% em 1998” e “a percentagem das pessoas que declaram passar o tempo de lazer exclusivamente dentro de casa aumentou: de 53%, em 1998, para 64%, em 2014”. Actividades como o cinema ou o teatro e ver desportos ao vivo caíram quase totalmente em desuso, enquanto a leitura de revistas, jornais e livros cresceu. Os policiais eram líderes há 16 anos, mas agora a preferência recai na ficção, livros históricos e de poesia.

Maria João Valente Rosa lembra que esta alteração nos tempos livres é acompanhada por outras mudanças na sociedade portuguesa. “Em 2001, pela primeira vez, o número de pessoas com 65 e mais anos ultrapassou o número de pessoas com menos de 15 e desde 2012 que o número de pessoas com 65 e mais anos ultrapassou a fasquia dos dois milhões”, exemplifica, lembrando ainda que os reformados de hoje estão mais escolarizados e ligados às novas tecnologias.

Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística reafirmam a ideia de um país a envelhecer e a encolher. Em 2014, nasceram menos bebés do que em 2013. Também morreram menos pessoas, mas mais do que as que nasceram. A população residente em Portugal continuou, pois, a diminuir, numa tendência constante desde 2010, também explicada pelo crescimento da emigração e os níveis mais baixos da imigração. No ano passado existiam menos 245.676 pessoas entre os 15 e os 64 anos a viver em Portugal do que em 2009, e esse decréscimo é explicado, em parte, pela emigração.

Também em cinco anos, em resultado dos baixos índices de natalidade, Portugal perdeu 128 mil crianças e jovens com menos de 14 anos: passaram de 1,62 milhões para 1,49 milhões. De acordo com os dados de 2013 do Eurostat incluídos na publicação do INE, Portugal era o quarto país com maior proporção de idosos, apenas ultrapassado pela Grécia, pela Alemanha e pela Itália. E estava entre os oito países dos 28 da União Europeia com a proporção mais baixa de jovens na população total, além de estar abaixo da média desse indicador.

Apesar das mudanças e do reforço do papel da casa, o aumento da televisão por cabo e da Internet levam a socióloga a dizer que o aumento do tempo na habitação não é sinónimo de solidão. “Estes resultados são surpreendentes e obrigam-nos a desembaciar os óculos que trazemos do passado. A mudança ao nível das actividades de tempos livres acabam por ser um excelente observatório do que está a mudar em termos de comportamentos. Há uma série de dicotomias que acabam por cair por terra, como a casa ser um espaço de recolhimento e de solidão e a rua um espaço de interacção”, justifica.

A investigadora defende que estas mudanças devem ser tidas em conta mesmo pelo poder político, quando desenha medidas que têm como alvo os reformados. “Os avanços tecnológicos vão transformar aquilo que nas nossas cabeças estava arrumado de determinada maneira. Posso estar em casa a ver televisão ou na Internet e com isso chegar muito mais longe do que chegava no passado. Não é por estarmos em casa que estamos menos interessados no mundo que nos rodeia”, diz, ressalvando que no estudo foram incluídas apenas as chamadas actividades relacionais – onde não se inclui, por exemplo, a prática de alguns desportos que podem ser feitos apenas por recomendação médica.

Maria João Valente Rosa destaca também que há cada vez menos diferenças nos interesses de homens e de mulheres, ainda que estas últimas continuem a dedicar muito mais tempo a áreas como as actividades religiosas. A dicotomia rural/urbano também se esbateu desde 1998: “Viver em meio urbano ou rural faz cada vez menos diferença e o que começa a marcar a diferença de comportamento joga-se cada vez mais em termos da posição sócio-económica das pessoas, tendo especial peso o nível de instrução e não o local em que se vive”. Mesmo assim, “as mulheres continuam a claramente dominar esse privilégio do espaço doméstico”.

O livro avança também com a ideia de que os reformados se dedicam agora a menos actividades do que acontecia em 1998 e mesmo do que quando eram activos: “Os reformados de hoje dedicam-se, em média, a menos actividades de lazer relacionais do que no passado. Em média, os reformados de 1998 dedicavam-se regularmente a quase quatro actividades de lazer (3,8) cada um, valor médio que baixa para 2,8 em 2014. Por outras palavras, diminuiu a diversidade de interesses pelo leque de modalidades de lazer relacionais que eram importantes no passado”.

“É enganador pensar-se que os idosos não mudam. Mudam e muito, tal como qualquer outra idade. Mas as escolhas e decisões de cada um sobre a ocupação do tempo livre, tenham estas como ponto de referência o espaço doméstico ou não, prescindirão, cada vez menos, da dupla: tecnologia e conhecimento. A era dos reformados idosos tecnológicos, audiovisuais e curiosos pelo saber está em curso. Resta saber aproveitá-la”, desafia Maria João Valente Rosa.

Romana Borja-Santos
Público 07.12.2015