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29.12.15

Semear alegria de viver pelos montes


Projecto de apoio psicológico ao domicílio da associação Odemira+ foi criado para combater a solidão e o isolamento social e territorial dos idosos.


Ti Francília está em casa. Uma casa térrea, de paredes grossas, caiada de branco, no topo de um monte. “Posso dizer que vivo sozinha. Está para aí um velho …. É um homenzito que também não tem ninguém e eu … para não estar aqui sozinha… Olhe, faz de conta que o ajustei, faz de conta que é meu empregado. É para ir à água, para ir à lenha, e mais nada, a bem dizer.”

Nem era preciso o psicólogo Fábio Medina explicar que sentir solidão não é estar desacompanhado. Bastaria ouvir ti Francília falar no companheiro. “Passa-se dias sem me dizer nadinha!” Mas o isolamento social e territorial é um caso sério no mais extenso (1 720 km²) e menos povoado município do país (22 mil). Os habitantes de Odemira estão mal distribuídos – 70% moram nas freguesias na faixa litoral, que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, enfatiza o técnico d’ A Vida Vale, um projecto destinado a combater a solidão e o isolamento social e territorial. E não dispõem de uma rede de transportes públicos capaz de atenuar tanta distância.

É grande o apego ao lugar. “Fui nascida e criada nesta ramadinha”, diz ti Francília. “Era casa de meus pais, casa de meus avós. O meu marido morreu há 30 anos. Duas filhas já eram casadas. Uma ainda era solteira. Ela casou-se e eu fiquei sozinha. Tinha aí uma remessa de reses. E regadio. E sozinha não dava conta. Aquele homenzito até tinha fama de ser bom trabalhador. Estava sempre se oferecendo para vir pôr adubo, semear batatas, carregar lenha, ainda a minha filha aí estava. Eu pensava que ele estava livre de todo o interesse, mas ele já andava era pensando: ‘vou ver se agarro aquilo!’”

Fábio Medina ouve-a, atento, empático. Está experimentado. O projecto, da associação Odemira +, começou na freguesia de Sabóia e avançou para outras três: Luzianes-Gare, São Martinho das Amoreiras e Santa Clara-a-Velha. “Visito uma média de seis pessoas por dia”, revela. Articula-se com a Guarda Nacional Republicana (GNR) e com a unidade móvel, projecto do Centro de Saúde, da Câmara Municipal de Odemira e da Santa Casa da Misericórdia, para acompanhar 240 idosos isolados. Quando trabalhavam de costas voltadas, acontecia as três equipas passarem na mesma semana pela mesma casa. Agora, partilham informação, para que todas saibam quando cada pessoa foi visitada e actuem de acordo com um sistema de prioridades. Uns idosos têm prioridade alta (devem ser vistos todas as semanas); outros, média (a cada duas ou três semanas) ou baixa.

Muito gosta Ti Francília destas visitas. “Com o senhor Fábio estou à vontade”, diz ela, convidando a entrar na sala de jantar. “Faz de conta que ele é uma pessoa da minha família.” Confiança é tudo. Ele não se atreve a ir sozinho pela primeira vez a casa de alguém. Já lhe aconteceu ser recebido de espingarda na mão por idosos fartos de ouvir falar nas manhas de burlões e de assaltantes. Prefere ser apresentado por um familiar, um vizinho, um elemento da GNR.

Irmão da cunhada da ti Francília, o ti José, tem uma espingarda guardada dentro de casa, não vá o diabo tecê-las. Mora sozinho desde que os pais morreram, já lá vão 28 anos. Sozinho, sozinho não. Tem o cão “Joly”, a gata “Chica” e umas quantas galinhas sem nome, que se empoleiram numa pereira e numa oliveira em frente à casa. Nunca teve companheira. “Não tem calhado. Vai passando tempo, vai passando tempo. Agora, tenho 76 anos. Já não vale a pena criar mulher.”

Não convida a entrar. “Não quis arranjar isto antes e agora está a cair”, justifica-se. Não tem casa-de-banho, nem água canalizada. Vai buscar água ao poço para tomar banho e cozinhar. “Ainda hoje fiz uma couvita com um bocadito de carne que a minha irmã me deu ontem. Bebe-se um copo de vinho. Está a bucha feita. Do meio-dia ficou para a noite. É só aquecer e baldear.”

Quando a noite cai, o crepitar da lareira faz-lhe companhia. “Estou ali, ao fogo, aquecendo os pés. Tenho aí lenha. Acendo.” Não tem televisor, nem rádio. “Tinha ali um. Avariou [já lá vão seis anos].Também ouço mal…” Se passar alguém pela estrada estreitinha, o “Joly” dá logo sinal. De dia, anda entretido. “Sento-me aqui, como uma bucha e vejo passar o trânsito. Tem ocasiões que passavam aí sete ou oito jipes.” Há familiares por perto. E ainda trabalha no campo. “Agora, andei 15 dias a apanhar azeitonas com um sobrinho meu. Apuramos 60 litros de azeite.”

Se pudesse, ti José ia até Vale Touriz, à escola primária que o projecto transformou em centro comunitário. A associação Odemira + não tem transporte, depende da boa-vontade da Escola Profissional de Odemira, que empresta uma carrinha. “Tinha uma bicicleta a motor. Antes de cair, dei ao meu sobrinho para vender. Há quatro anos deu-me um AVC. Fui apanhado num braço e numa perna…”

O companheiro de ti Francília, o Ti António, costuma estar no centro comunitário. Serve-se do seu microcarro, um quadriciclo mais conhecido por "mata-velhos" ou "papa-reformas". “Vai jogar às cartas de segunda a sexta. É um belo trabalho”, ri-se a mulher. Ela pouco vai. “Comecei a não ter saúde. Ando toda coxa. Tenho uma dor nesta perna. Tenho pena de estar assim e de não poder ir para lado nenhum.”

As horas podem ser animadas em Vale Touriz. Ali, recolhem-se histórias de vida, organizam-se passeios pelo concelho, actividades, a começar pelas rendas. Nada atrai tanta gente como os churrascos quinzenais. Está tudo mais parado desde que a animadora socio cultural, Tânia Mestre, entrou de licença de parto.

Tratam o psicólogo por “senhor Fábio”. Ele dispensaria o “senhor”, como dispensou o “doutor”. Andar de casa em casa é diferente de trabalhar num gabinete ou num consultório. “Aqui não podemos ter a mesma distância”, explica, estrada fora. Tem de quebrar as barreiras tradicionais, de ir para lá das suas funções. Um exemplo? “Uma vez fui ver um senhor. Fazia quatro dias que comia comida fria. O gás tinha acabado. A marca da garrafa tinha mudado. Ele já não sabia como mudar a garrafa.” Outro exemplo? “Um senhor ligou, chorando. ‘O meu pai, o meu pai. Não sei o que fazer.’ Eu disse: ‘Daqui a 20 minutos estou aí. Pensava que o pai dele tinha falecido, mas não. Tinha tido alta. Estava em casa dele. Tinha uma algália. E ele estava desesperado. Nunca tinha lidado com uma coisa daquelas. Tinha de trocar a fralda. Ensinei-o. Voltei no dia seguinte com uma enfermeira [da unidade móvel] para o ensinar melhor.” Faz tudo com sentido profissional. “São estes pormenores que fazem a diferença, que ajudam a ganhar a confiança.”

Num mundo cada vez mais rendido à tecnologia, fala-se muito na teleassistência, mas todo esse discurso esvazia-se no interior de um concelho com grandes falhas na cobertura de rede. Ti Francília não tem teleassistência, mas ti Odete tem. O telefone, com um visor e umas teclas enormes, está num cantinho da sala, coberto com um pano bordado. O marido passa os dias sentado mesmo ao lado, com uma manta colorida sobre as pernas. É ele quem usa a pulseira, dotada de um botão de emergência. Se o premir, disparará um alarme numa central de atendimento.

O cuidado de Fábio é mais contínuo. Quer saber como está ti Odete, como está o marido, como está o cunhado, que foi hospitalizado. “Olhe, eu nem sequer lhe sei dizer”, diz ela. “Contratei o táxi que era para a gente ir levantar a reforma. Esta manhã, estava-me com diarreia. ‘Não posso ir.’ Dei-lhe pequeno-almoço. Dei-lhe medicamentos. Ele ficou na cama. E eu fui. Não demorei muito. Quando cheguei, estava sentadinho ali no sofá, muito sossegadinho. Eu disse-lhe: agora vou fazer o almoço. ‘Não faças que eu não tenho fome.’ Não tens fome? O que comeste? ‘O que tinhas em cima da mesa.’ Tudo que faz mal! Alheira, bolo, torresmo. Tudo a eito!”

Fábio Medina não se atreve a dizer que com isto se está a reduzir o número de suicídios em Odemira, cenário de uma das taxas mais elevadas do país. Nem lhe parece que esse deva ser o mote. “As pessoas ligam-nos em caso de necessidade. Estão cada vez mais envolvidas. Já dinamizam actividades” – por exemplo, festas de santos populares. E isso ajuda a criar alegria de viver.

ANA CRISTINA PEREIRA (texto) e ADRIANO MIRANDA (fotos)
Público 27.12.2015