8.1.16

Quem mudará Belém?

Interpelados de vários ângulos, os candidatos à Presidência da República ainda não falaram da organização do Palácio de Belém. Não será fácil emagrecer o número de funcionários ao serviço da Presidência da República, nem tão pouco reduzir drasticamente aquilo que se gasta em eventos e deslocações e muito menos ainda reformar o modo como se encara o cargo, mas convém, pelo menos, iniciar esta discussão.

É certamente familiar a imagem do corrupio de carros que regularmente acompanha as deslocações de um presidente da República. Seguranças, conselheiros, assessores de diversas áreas e funções... Há uma vasta equipa que sai do Palácio de Belém e que, dentro de viaturas de alta cilindrada conduzidas por motoristas bem treinados, percorre o país e o Mundo. A viagem é sempre pormenorizadamente preparada com bastante antecedência, pensando-se espaços, cenografias para discursos, menus para refeições e convidados para acompanhar o presidente. Aqui importa perguntar quem são essas pessoas, o que fazem, quanto custam ao erário público, que funções distintivas desempenham. Normalmente, são rostos sem notoriedade pública, mas que, na sombra, vão abrindo caminhos. São, pois, imprescindíveis. O problema é quando estão em número excessivo e as despesas que o seu trabalho implica parecem excessivas... Eis um tópico que nunca se puxou para debate público.

Também seria importante perceber em que áreas e de que modo o futuro presidente da República irá recrutar os seus conselheiros e os comissários de eventos com projeção pública. Fazendo uma retrospetiva do passado recente, somámos um conjunto restrito de nomes que se constituem numa espécie de confraria que sempre bajula o poder dominante. Os escolhidos não correspondem aos melhores que Portugal acolhe, mas aos mais hábeis em exibir uma imagem daquilo que não são. Belém e S. Bento encheu-se, nestes anos, de gente bolorenta dos aparelhos dos partidos e de falsos independentes sem rasgo e sem brilho.

Olhando para as várias presidências da República, há poucos marcos verdadeiramente reformadores daquilo que um presidente da República pode ser. Nos últimos 20 anos, a sociedade portuguesa mudou muito. Temos estilos de vida diferentes, empresas com outros modos de gestão e de operação, universidades com investigações mais avançadas, escolas com um ensino mais diferenciado, mas paradoxalmente pouco transformámos as possibilidades práticas de fazer política. É, sobretudo, por aqui que temos de começar a interpretar o desinteresse que os portugueses vão manifestando em relação a cada ato eleitoral.

Estamos a poucos dias das eleições presidenciais. Já não há paciência para ouvir os candidatos falar dos tópicos do costume (da nova maioria de Esquerda, do sistema bancário, do Orçamento do Estado...). É urgente introduzir outros temas, motivando-os a falar de que modo podem criar uma nova agenda política, que estratégias vão adotar para neutralizar os enormes desequilíbrios regionais, o que irão fazer para dar mais visibilidade a outras elites e, claro, como pensam organizar a sua casa, ou seja, o Palácio de Belém.

Não será simples reestruturar a Presidência da República. Mas é imperioso. Porque o Palácio não pode cheirar a mofo. É preciso promover canais de cooperação e de comunicação mais ágeis e profícuos com os diferentes poderes instituídos. É igualmente urgente abrir portas a outras pessoas que pensem Portugal a partir de diversos pontos e perspetivas. É ainda imprescindível criar novos itinerários e companheiros de viagem que levem o presidente a conhecer verdadeiramente os locais por onde passa. A caravana presidencial que visita o país e o estrangeiro não pode ser uma espécie de corte móvel que transporta o rei num pedestal. Deveria ser, acima de tudo, um conjunto de pessoas que, comandadas pelo presidente da República, procura fazer crescer Portugal. Há ainda muito caminho para fazer até chegar aí... Talvez um bom ponto de partida fosse trocar umas ideias sobre o assunto.

Felisbela Lopes
Opinião JN 08.01.2016