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11.7.16

Lágrimas de campeão

Esta crónica é só para quem não percebe de futebol. Quem desconhece o lugar de um trinco, ignora o que é isso do fora de jogo, pensa que uma trivela é uma embarcação quinhentista e imagina que a conversa de ter pé quente é resultado de muito chuto na bola.

Pão e circo, dizem os poucos que ontem não ficaram com pele de galinha a ver o cordão de emigrantes de sorriso rasgado à volta da seleção. Os que não sentiram o poder do orgulho. Os que não se arrepiaram com palavras como as do filho de Manuel Dias, morto há oito meses a poucos metros da porta D do estádio em que ontem dois países mediram forças. Numa Europa que anda à procura de si mesma, assustada com o terrorismo, houve quem não se esquecesse de lembrar que o caminho só pode ser o respeito pela identidade de cada um. E que dentro de campo, como fora dele, nascidos em berços diferentes vestem a mesma camisola.

Esta crónica é só para quem acha que a euforia da bola nos distrai das coisas realmente importantes, como a reunião dos ministros das Finanças europeus que amanhã vão decidir se merecemos sanções. Quem acha que assuntos a sério são (apenas) os do PIB e das exportações aquém do necessário, da cultura que valorizamos tão pouco, das desigualdades sociais e de tantos problemas que o futebol não ajuda a resolver - nadinha mesmo.

Esta crónica é para quem se indigna com páginas dedicadas aos craques pagos a peso de ouro e tão pouca visibilidade dada a Sara Moreira a cortar a meta de bandeira nacional ao vento, a Patrícia Mamona também campeã da Europa, a Rui Costa numa difícil escalada pelos Pirenéus rumo ao segundo lugar da etapa no competitivo Tour.

Esta crónica é para quem valoriza o esforço, a exigência e a ambição. Mas acha pouco, num país em que a afirmação de metas ambiciosas é tantas vezes confundida com arrogância, um engenheiro ter assegurado que só hoje voltaria para casa numa altura em que ainda ninguém acreditava. Ou encontra tanto motivo de crítica no percurso brilhante de um miúdo a quem a maturidade deu a fibra de um capitão. Na incerteza, em lágrimas e na vitória.

Esta crónica é toda sobre futebol. Sobre suor, tática, coesão. Se saltarmos juntos. Se gritarmos com os nossos políticos até ficarmos roucos. Se exigirmos a cada profissional, na sua área, a perfeição. Se ambicionarmos o primeiro lugar nos rankings da saúde e da educação. Se no campeonato da União Europeia acreditarmos que os pequenos podem lutar taco a taco com os grandes. Se deixarmos de menosprezar as emoções que nos unem e os heróis de todas as modalidades ou áreas de atividade. Somos campeões. Como fomos ontem.

Inês Cardoso
Opinião JN 11.07.2016