1.8.16

Desculpem qualquer coisinha

O relatório, pedido pelo FMI, sobre o programa da troika em Portugal não diz nada que muita gente já não tivesse dito. Foram muitas as vozes a chamar à atenção dos erros flagrantes do chamado plano de resgate, das prioridades trocadas, da destruição do tecido económico que inevitavelmente aconteceria, do desemprego e emigração que provocaria, da negligência criminosa com que olhava para o sistema financeiro.

Essas e muitas outras críticas foram feitas antes da sua implementação e, sobretudo, durante, quando eram já mais que óbvias as falhas do programa. O próprio Vítor Gaspar, campeão do projeto, as reconheceu na sua célebre carta de despedida. Mais, o próprio FMI já tinha noutras ocasiões admitido vários erros.

Tudo isto será verdade, mas não chega para evitar um novo arrepio quando se lê o dito relatório. Não é bem um arrepio, é um enorme murro no estômago.

Em poucas palavras o que lá está é o seguinte: o programa da troika falhou em toda a linha. Os pressupostos estavam errados (não se conhecia minimamente o país, nem tecido económico, nem realidades sociais), enganaram-se na fórmulas e nos seus efeitos (o caso multiplicador é de bradar aos céus) e, claro, nenhum dos problemas estruturais da nossa economia melhorou, a sustentabilidade da dívida pública e da balança líquida continua tão débil como antes e até o crescimento das exportações - visto como um dos sucessos do programa - ou o celebrado regresso aos mercados - os autores do relatório com uma mal disfarçada vergonha sugerem que não será evidente que isso não tenha sido consequência das políticas do BCE - em nada esteve relacionado com a malfadada receita. O óbvio ululante também é dito, ou seja, ajudou-se a destruir o nosso sistema bancário e, surpresa das surpresas, chega-se à conclusão de que uma restruturação da dívida teria sido uma medida avisada. Lembro-me bem da chuva de insultos que caíram sobre quem subscreveu um documento que pedia exatamente essa negociação. Enfim.

O pior de tudo não é perceber que se mandaram para o desemprego milhares de pessoas, não foi termos perdido 600 000 jovens para a emigração, não foi só ver o trabalho degradado a apenas mais um fator de produção, não foi só ter-se apostado em salários baixos, não terá sido a aposta no empobrecimento, não foi por a receita ter produzido um país ainda mais desigual e mais injusto.

Sim, cada uma destas razões seria suficiente para chegarmos à conclusão de que o programa da troika tinha sido um desastre, seria bastante para não perdoarmos aos executores políticos nacionais dessas políticas que, é bom lembrar, queriam ir para além das políticas troikianas. Mas não seria a primeira vez que os decisores políticos se enganavam, que, com as melhores intenções, se causavam verdadeiros desastres.

O que mais choca no relatório não é a assunção dos erros, é perceber a descontração com que se fizeram experiências com as vidas pessoas, como se decidiu verificar como uma comunidade reagiria a um plano revolucionário nunca testado, como se decidiu friamente perceber se nós aguentávamos, como nos trataram como meras cobaias ao serviço de uns senhores que nunca tinham testado uma fórmula e que encontraram os ratinhos certos: obedientes, submissos e a sentir-se culpados (alguém os tratou de convencer) porque tinham feito muitas maldades, plasmas, viagens, carros fantásticos e por aí fora.

Sabendo e voltando a saber tudo isto, surge ainda mais insultuoso que se tenham discutido as sanções, que tenham existido representantes de países a insistir em penalizar países por, tão-somente, terem sido sujeitos a testes lunáticos e a receitas comprovadamente erradas. É verdade que a não aplicação de sanções e a nova tolerância do défice podem ser considerados sinais de que algo pode está a mudar, mas é pouco, muitíssimo pouco. O essencial continua lá. Quem, de facto, manda na Europa continua a acreditar em soluções que destruíram e continuam a destruir países como Portugal.

Contra todas as evidências, contra até as suas próprias grelhas de análise. Ou é loucura ou fanatismo. Não sei o que será o pior.

Pedro Marques Lopes
Opinião DN 31.07.2016