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19.9.16

Envelhecendo por aí

Nunca és velho demais para nada. Se o teu corpo já não te deixa correr, tens sempre a oportunidade de dar força para que alguém corra mais


Tenho imenso orgulho em ter amigos com 70 anos que olham para a vida com os mesmos olhos que eu. Não abdicam de se divertir, não param de ter objetivos e motivações, não se lamentam da idade nem deixam de ir a algum lado por se acharem velhos demais para estarem ali. Se eu pudesse, vivia até aos 500 anos. Acho sempre que terei alguma coisa que fazer por aqui, quanto mais não seja aproveitar a vida, trocar experiências com os mais novos, criar conteúdos que me surpreendam. Há quem tenha medo de morrer; eu só tenho medo de não conseguir viver tudo num só dia. Será porventura a mesma face da moeda, só muda o ângulo. Sermos todos obrigados, numa determinada altura, a viver com o que somos, e não com a pele que “vestimos”, é das características mais nobres que a natureza nos dá.

Ninguém cria raízes nem está por aqui a mais. Não há quem já tenha feito tudo. Todos temos, por mais que a idade nos entrelace, algo a acrescentar ao mundo, nem que esse mundo seja o desconhecido que passou por ali. Quem aprende precisa de quem ensina; para quem precisa de ajuda tem de existir alguém disposto a ajudar; quem merece uma oportunidade tem de ter quem a dê. Crescer é também perceber e gerir os momentos da vida, mas não acho que os mais velhos tenham de saber obrigatoriamente mais que os mais novos, nem que quem é novo seja mais merecedor de conquistar sonhos do que quem tem uma idade mais avançada.

É evidente que os gostos e interesses vão mudando consoante a idade, que o físico exige outra criatividade. Quando és novo fixas-te na miúda mais gira do liceu, vais crescendo e procuras alguém que te acrescente e faça feliz, e depois o que mais queres é alguém que esteja ao teu lado e que não te deixe sozinho. Todas as razões são válidas porque partem daquilo que é a nossa visão do que nos rodeia, porque procuramos preencher os sentimentos que em determinado momento nos absorvem. Não acredito, no entanto, na monotonia, no marasmo, na falta de ambição, porque é isso que nos mata por dentro, e não a idade. Essa está na cabeça, no espírito que impões às tuas atitudes, na alegria que sentes quando fazes algo de que gostas ou quando contribuis para alguém.

Nunca és velho demais para nada. Se o teu corpo já não te deixa correr, tens sempre a oportunidade de dar força para que alguém corra mais; se já não consegues saltar, podes ser importante para que outro salte mais alto. Mas há sempre espaço para ti: se já não dás para jogador, que sejas treinador, e se não serves para isso vai para a bancada e apoia. Todos fazem parte do circo da vida e nem todos têm de ser atores principais: o facto de alimentares bem o leão e de o tratares com carinho vai permitir ao domador ter mais sucesso no seu número. Não aches, porque já não consegues fazer uma coisa, que não possas ser importante noutra. Há sempre um espaço para nós no coração de alguém.

Gostava de dizer às pessoas com mais idade que fazem parte da minha vida e da dos outros o quão importante elas são para nós. Às vezes só por estarem ali, outras porque com uma simples palavra conseguem fazer a diferença. Enquanto houver alguém que continue a achar que “está cá a mais, que já só dá trabalho”, existirá algo para melhorar na forma como nos relacionamos e como nos posicionamos perante os outros. É o que tu fazes e as expectativas que crias dentro de ti, as motivações que persegues e o sucesso que tens em fazer os outros mais felizes que determina o teu papel por aqui. Não um cartão de cidadão com uma data de nascimento.

José Paulo do Carmo
Jornal i 16.09.2016