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3.4.17

Esta não é a primavera que esperávamos

Deixem de sorrir com o calor fora de tempo e de se queixar com o frio glaciar. É preciso fazer qualquer coisa, ou as mudanças do clima vão ser imprevisíveis.


A fazer valer pelos dados estatísticos por estes dias no mural do Facebook e pelas conversas de café, há muita gente sensível à chegada da primavera. Há um inevitável gosto que todos os seres humanos têm, sobretudo os que já ganharam a noção de que estão em processo de envelhecimento, no renascer que a primavera suscita. Todos os anos, seja a primavera a 21 de março, como nos habituámos, ou a 20, como manda agora o equinócio, o dia em que saímos de casa e reparamos que as árvores estão floridas é como o primeiro do resto das nossas vidas.

As estações devolvem-nos ao que temos de mais básico e humano. E se é verdade que já não somos esses seres naturais, dependentes delas, também não é menos certo de que a nossa vida, como seres vivos mas também como comunidades, depende do tempo que faz e, sobretudo, do clima. Por isso este começo de primavera foi o mais negro dos últimos anos.

Talvez esta frase soe brutal a quem estava a gostar do tom poético da crónica. Lamento desiludir. Falo das estações e do clima para chamar a atenção para a maior ameaça à humanidade como a conhecemos – muito maiores do que as que atualmente nos preocupam, seja o Trump ou o radicalismo de direita ou esquerda. Quer dizer, no caso de Trump, estão ambas ligadas.

O clima está mesmo a mudar e, segundo um relatório terrível da Organização Meteorológica Mundial divulgado nesta semana, de forma que já não podemos prever as consequências. «Entrámos em território desconhecido», disse o diretor da WMO, David Carson. E foi mesmo para assustar. As temperaturas subiram, o nível das águas também. O degelo está tão rápido, no Polo Sul, que já tem efeito, por exemplo, nas temperaturas extremas do verão australiano. E também nas cheias que afetam o Peru. Mudanças destas podem levar a catástrofes civilizacionais – agrícolas, de migrações, económicas. Todas essas que, sabemo-lo da História, são razões de guerra, fome, pestes.

Isto só não dá dores de cabeça a quem a tem envolta em cor de laranja. Sim, falo de Donald Trump: não é o protecionismo, os muros nem o estrabismo ideológico o que na estratégia do presidente americano mais nos pode afetar. É a sua política míope sobre controle de emissões de carbono e a aposta – essa, cega, mesmo – nos combustíveis fósseis. Trump já propôs cortar para um terço – um corte de 2,6 mil milhões – o valor concedido à Agência Americana de Proteção do Ambiente. Robert Watson, antigo líder do comité da ONU para o clima, explica a estupidez da medida: «Os nossos netos vão olhar para quem negou o aquecimento global e vão perguntar como puderam sacrificar o planeta em função da energia fóssil barata, quando os custos da inação nesta matéria excedem o custo de uma transição para uma economia de baixo-carbono.»

A todos os que não têm uma auréola cor de laranja a proteger o cérebro de pensar, chegou a hora de olhar o problema de frente. Deixem de assistir ao calor ou ao frio fora de tempo como se fosse um desígnio divino – com comentários de elevador. Não é: a causa somos nós e só nós podemos fazer qualquer coisa. Aliás, devíamos já todos saber o que fazer para reverter o que é, atualmente, certo como o destino. Esta deve ser, de longe, a causa das nossas vidas. Nas escolhas do dia-a-dia e também, já agora, na dos nossos votos e até ideologias.

Catarina Carvalho
Notícias Magazine 26.03.2017