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4.4.17

Este país não é para velhos

Uma sociedade que não sabe aprender com os mais velhos é uma sociedade sem memória e sem capacidade de crítica.


(À laia do habitual disclaimer, deixo desde já registado que a alusão a velhos constante destas linhas é feita em sentido altamente irónico. A experiência dos mais velhos, chamemos as coisas pelos nomes, é um tesouro que estamos a desperdiçar.)

Tornou-se pública a intenção de alterar a legislação sobre reformas, no sentido de, entre outras, facultar o acesso sem penalizações aos cidadãos que tenham 48 anos de descontos e, pelo menos, 60 anos de idade. Trata-se, como se afigura evidente, de algo da mais elementar justiça, até porque as pessoas abrangidas por estas alterações terão iniciado a sua vida de trabalho aos 12 anos, maioritariamente em tarefas manuais.

Contudo, o que parece não ser discutido por quase ninguém é o fenómeno expulsivo dos mais velhos do mercado de trabalho, muitas vezes sob a justificação de que “ganham demais” e que “há que dar lugar aos outros”. Vivemos num país em que a taxa de natalidade é baixa mas nem por isso o grosso dos anúncios de emprego permite candidaturas a maiores de 35 anos, pairando o mito que, aos 50, quando não mesmo aos 40, uma pessoa “está velha para trabalhar” no mesmo transe que se sabe ser nova para a reforma.

Sob a égide da flexibilidade, o que temos vindo a assistir é à substituição dos contratos ditos de “efectivos” por vínculos precários, em que todos são descartáveis a todo o tempo, uma vez volvido o brilho inicial do “vestir a camisola” e à primeira reclamação sobre condições de trabalho.

Numa sociedade frenética, em que quase tudo se reduz ao movimento, ao brilho efémero, à novidade, o que se passou a pretender foi um permanente exército de “carne fresca”, movido pela esperança da entrada no famoso mercado de trabalho e disposto a quase tudo para nele poder permanecer, incluindo a trabalhar quase de graça. Uma geração que por vezes se permite assistir impávida à discriminação e à expulsão dos mais velhos da vida activa, na expectativa de que, com tal, possa subir um degrau na hierarquia, está esquecida que a máquina irrevogável do tempo não deixa ninguém incólume e um dia lhe tocará.

Uma sociedade que não sabe aprender com os mais velhos, que os remete para um mero papel de espectadores e de cuidadores dos netos (porque os filhos estão, por seu turno, demasiado ocupados a fazer o trabalho de três) é uma sociedade sem memória e sem capacidade de crítica. Em suma: o campo ideal para gerações inteiras que se substituem umas às outras a uma velocidade feroz, correndo como hamsters na roda colocada na gaiola.

Este país não é, de facto, para velhos. Por este caminho, não é, também, para os novos.

Rita Garcia Pereira