Publicação em destaque

Portugal de Luto

Neste momento de consternação e dor que Portugal vive, endereçamos a todas as vítimas e seus familiares afectados pelos violentos incêndios ...

30.6.17

A cultura da moleza e do achismo

1. Só alguns exemplos, aparentemente banais. Onde eu vivo, há uma rua com uma placa bem visível a ordenar que é proibido estacionar. Pois não, senhor, essa rua está, noite e dia, com carros estacionados em fila. Acontece-me frequentemente ver por ali agentes da polícia e dá-me vontade de parar para lhes dizer que, uma vez que não fazem nada, era preferível mandar retirar a proibição, pois, na situação com a qual pactuam, dá para pensar: se aqui, na presença da polícia, se pode transgredir, porque é que não se pode transgredir sempre?

Vivo perto de um excelente passadiço junto ao mar. Que delícia andar por ali e à noite contemplar o céu estrelado ("Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim", texto do filósofo Immanuel Kant, na sua pedra tumular, em Königsberg). Nesse passadiço, há placas, bem visíveis e espalhadas por muitos sítios, a dizer que são proibidas as bicicletas e a presença de animais. Pois não, senhor, lá andam as bicicletas e cães com fartura (estes estão sujeitos às necessidades das leis da natureza e fazem, com alegria dos donos, abundante cocó; julgam que alguém limpa?; puro engano!). E já ninguém se atreve a chamar a atenção ou a avisar, porque considera inútil e também para não correr o risco de vitupérios, que poderão ir além dos meramente verbais.

É assim. Os portugueses, mal pressentem que o perigo do castigo abranda, entram no laxismo e põem-se a transgredir. É a cultura da moleza. Este tipo de cultura anda ligado à irresponsabilidade. E é assim que acontecem tragédias como esta, indizível, porque não há palavras, que nos aconteceu em Pedrógão Grande e não só. Há alguém que assuma alguma responsabilidade? Está no Evangelho uma palavra que bem se aplica a toda esta nossa situação: "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito." Aí está a razão por que o Papa Francisco acaba de denunciar esta "sociedade líquida e volátil", pedindo que os filhos sejam educados "na austeridade". E o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez bem ao exigir, face à tragédia, que "é tempo de apurar tudo sem limites nem medos". Porque isto não vai lá só com afectos, pois somos seres rácio-emocionais, de afectos e razões. E que se tire todas as consequências. Mas alguém acredita, lá bem no fundo, que isso vai mesmo acontecer, com todas as consequências?

2. A questão é que a cultura da moleza anda em conexão com a cultura do achismo. Houve um tempo em que as pessoas eram recatadas nos seus juízos e receosas quanto ao valor das suas opiniões. Por isso, com facilidade reconheciam não terem capacidade para se pronunciar sobre temas que não dominavam. Esse tempo passou. Agora, do alto do atrevimento da sua ignorância, praticamente toda a gente acha que... tem direito a opinar sobre tudo, sem fundamentos nem razões. "Eu acho que...", e praticamente toda a gente, sobre qualquer assunto, acha que... É o achismo. Naqueles fóruns da rádio, seja qual for o tema, há sempre alguém que acha que... Ponham inclusivamente como tema, por exemplo, a questão da mecânica quântica. Julgam que haverá falta de achistas, ficando o programa no silêncio? A situação agravou-se com as novas tecnologias, nomeadamente, com a internet, pois qualquer um poderá fazer o seu comentário, publicitando a sua ignorância supina, para não falar na estupidez e má-criação. Mas, nisto, confesso o meu desconhecimento, não frequento esses territórios, dado que, felizmente, não sou dado à coprofilia.

Os perigos do achismo são terríveis. Porquê? Já não se procura a verdade e o ambiente criado é de confusão, de lamaçal. Tudo se equivale. Tudo vale. Ora, quando vale tudo, nada vale, e o perigo é o abismo. Já Hegel se queixava dizendo que de noite todas as vacas são pardas. No primeiro livro da Bíblia, o Génesis, está escrito que no princípio, quando Deus criou, separou a luz das trevas, fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento das que estavam por cima do firmamento, chamou terra à parte sólida e mar ao conjunto das águas, etc., e viu que era bom. A unidade no diferente. Para lá da indistinção e da confusão. No meio da indistinção e da confusão, é a noite e a desorientação, sem horizonte de transcendência. Porque não se pensa.

3. Estava eu neste meu pessimismo triste quando apareceu o bálsamo de uma entrevista iluminante do querido amigo Eduardo Lourenço, no Expresso. "Não sei fazer outra coisa a não ser pensar." É um homem crente? "Esta é uma questão que, uma vez posta, não pode ter uma resposta. Porque é "a" questão. Não concebo uma explicação do mundo que dispense a referência a uma acção transcendente. Nós figuramos como sendo de um ente que criou o mundo, e isso pode ser uma coisa infantilizante. Mas faz parte das nossas referências na tradição ocidental." Concebe então um mundo criado? "Só mesmo um Deus poderia explicar o que aconteceu. Que palavra foi pronunciada. Essa é a questão para a qual não tenho resposta e em que a educação que tive mais pesa. Porém, sei muito menos hoje do que quando esse ensino era para mim claro como a verdade e absolutamente essencial como referência. Não há questão mais importante do que esta: ter uma resposta para o enigma do que existe e que essa resposta contenha ou não todo o sentido que podemos dar à vida e a nós mesmos. (...) Porque a única coisa que nos distingue é sermos conscientes. Não só morremos como temos consciência disso." Gostava de pensar em si como alguém que faz pensar? "Gostava de fazer pensar era a mim mesmo. Bem preciso, nesta fase da vida em que estou. Não sei fazer outra coisa a não ser pensar."

Anselmo Borges
Ler mais em : DN Opinião 30.06.2017

29.6.17

Dois milhões de pensionistas com aumentos extra em agosto

O conselho de ministros aprovou a atualização extraordinária das pensões que vai afetar cerca de dois milhões de pessoas, no valor de 13 milhões de euros só em agosto.


Cerca de dois milhões de pensionistas serão afetados pela atualização extraordinária das pensões, a ser concretizada já em agosto. A atualização extraordinária das pensões vai custar 194 milhões de euros adicionais, anualmente, ao Estado.

Os valores foram avançados pelo ministro do Trabalho e da Segurança Social, Vieira da Silva, numa conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros desta quinta-feira, onde foi aprovado o decreto-lei que regulamenta esta atualização extraordinária.

Todos os pensionistas com as pensões mais baixas estão incluídos nesta atualização extraordinária. Aqueles cujas pensões já tinham sido atualizadas entre 2011 e 2015 terão um aumento mais baixo: contando já com a subida atribuída em janeiro, passarão a receber agora mais seis euros. Quem não teve aumentos no Governo de Passos Coelho vê a pensão subir 10 euros, incluindo também o valor da atualização de janeiro. O valor extraordinário começará a ser pago já em agosto, em conjunto com a pensão.

O Estado gasta 13 milhões de euros no mês de agosto com os 1.994.990 pensionistas que serão abrangidos. No total, o custo da medida em 2017 é de 83 milhões de euros, “próximo daquilo que tinha sido estimado”, afirmou Vieira da Silva. A despesa anual, por sua vez, ascenderá a 194 milhões de euros a partir de 2018.

“São abrangidos os pensionistas de invalidez, velhice e sobrevivência do sistema de Segurança Social e os pensionistas por aposentação, reforma e sobrevivência do regime de proteção social convergente cujo montante global das pensões em julho de 2017 seja igual ou inferior a 1,5 vezes o valor do Indexante dos Apoios Sociais (IAS), ou seja, 631,98 euros”, lê-se num esclarecimento distribuído aos jornalistas após o Conselho de Ministros.

Marta Santos Silva
Ler mais em: eco 29.06.2017

Segurança na reforma começa no emprego

Os debates em torno do sistema de Segurança Social oscilam muitas vezes entre um discurso demasiado técnico e pormenorizado, que acaba por não ser acompanhado por todos, e um discurso quase escatológico, cheio de ameaças sobre um futuro próximo no qual supostas inevitabilidades demográficas e económicas ditariam o fim da segurança na reforma. Se o primeiro discurso tem estado ao serviço do distanciamento dos cidadãos em relação à compreensão deste subsistema, o segundo tem actuado no sentido de favorecer a sua privatização ou, pelo menos, de que lhe sejam aplicadas complexas engenharias neoliberais.

Hoje, com a Segurança Social a registar saldos positivos em Portugal, e depois da experiência acumulada com as falências de fundos de pensões e com a crise financeira, não é fácil convencer os cidadãos a desistirem de um sistema de previdência público e assente na solidariedade inter-geracional entre trabalhadores e pensionistas. Mas, depois de revertidos os cortes nas prestações e de serem resolvidas situações de evidente injustiça social, como as que penalizam as carreiras contributivas mais longas, há ainda muito a reflectir e a fazer para tornar o sistema mais justo e mais sustentável. É aqui que as evoluções na Segurança Social e no campo do emprego são determinantes, e interagem umas sobre as outras.

Na sequência do trabalho em curso na maioria que sustenta o governo sobre a Segurança Social e as novas regras para as pensões antecipadas (acesso, penalizações e bonificações) [1], multiplicaram-se no mês de Maio notícias que vieram lembrar uma norma em vigor: a idade legal da reforma sobe todos os anos, em virtude de ter sido indexada ao aumento da esperança de vida, através de uma fórmula que define também o montante das penalizações que se aplicam em caso de ser accionada a reforma antecipada. Esta alteração não é nova. Foi a Lei n.º4/2007, de 16 de Janeiro, que aprovou as bases gerais do sistema de Segurança Social, que introduziu (artigo 64ª) esta indexação, por via do chamado «factor de sustentabilidade». Passados dez anos, quando a idade da reforma está já nos 66 anos e 3 meses, e quando é previsível um aumento de um a dois meses, a cada ano que passa, para que um trabalhador atinja a idade legal de se aposentar, o que mudou talvez foi o olhar que os cidadãos têm sobre esta construção social. Com efeito, esta construção envolve muito mais do que a Segurança Social e induz a que se pense toda a organização social.

A primeira interrogação prende-se com o rumo de uma sociedade em que as escolhas políticas parecem ser crescentemente substituídas por decisões técnicas. Num passado ainda recente, os trabalhadores e os seus movimentos sociais tinham bandeiras claras como a diminuição da idade da reforma, traduzível num número redondo que era facilmente comunicável. Agora, a complexidade técnica da medida – desta como doutras – parece desenhada para a ocultação da realidade e para a dificuldade de a transformar. Mas há mais: de repente, parece que, sem proposta nem conflito dignos desses nomes numa sociedade democrática, uma «indexação» decidiu que todos os ganhos em tempo de vida colectivamente conseguidos pela sociedade – e que não são fáceis nem adquiridos para sempre, como se vê pelas regiões do planeta em que a esperança média de vida está a regredir –, ganhos esses que se medem em avanços científicos, na melhoria do saneamento básico ou do Serviço Nacional de Saúde, têm de ser entregues, de bandeja, ao tempo de trabalho. É como se o combate pela repartição dos ganhos de produtividade que ocorrem na esfera laboral tivesse dado mais um salto, surdo, em prejuízo dos trabalhadores. Achamos mesmo que o tempo de vida colectivamente arrancado à morte deve ser gasto a trabalhar?

A questão torna-se hoje particularmente pertinente, quando surge a jusante de uma paisagem social que, a montante, padece do desequilíbrio oposto. A sociedade que obriga os mais velhos a trabalharem até cada vez mais tarde é exactamente a mesma que obriga os mais novos (e muitos já não assim tão novos) a terem carreiras contributivas marcadas por períodos de trabalho e períodos de inactividade, bem como por descontos tendencialmente baixos, quando não mesmo inexistentes durante longos anos. Para os mais velhos, o período da reforma já é tantas vezes vivido como um tempo de redução dos rendimentos, e portanto de maior risco de pobreza, que não podem verdadeiramente colocar a hipótese da antecipação e consequentes penalizações. Indexar a idade da reforma à esperança média de vida é, em países de baixos salários como Portugal, impor um aumento da idade da reforma; não é proporcionar a escolha da reforma antecipada – e sê-lo-á cada vez menos para os futuros pensionistas. Para os mais novos, pensar no momento da reforma assemelha-se cada vez mais a imaginar um futuro de pobreza, risco que aumentará se se afrouxar a vinculação das pensões a um direito formado a partir do trabalho e garantido de forma incondicional aos trabalhadores, rumo que depressa levaria a derivas assistencialistas.

Apetece dizer que não há racionalidade nesta contradição entre fazer trabalhar demais e durante demasiado tempo uns, por um lado, e fazer com que outros sejam sistematicamente arredados de empregos com direitos, com rendimentos estáveis e ritmos de trabalho razoáveis, reproduzindo do mundo do trabalho até à formação das pensões as situações de desigualdade e de pobreza que continuam a marcar dramaticamente a sociedade portuguesa. Mas, em rigor, alguma racionalidade existe: trata-se é da racionalidade neoliberal e não da que orienta objectivos de justiça social. E o que une a condição imposta a todas as gerações envolvidas é a fabricação de modos de degradar o seu rendimento disponível e as suas condições de vida.

As formas de solidariedade que importa pensar se queremos defender uma maior justiça e sustentabilidade na Segurança Social passam, por isso, por articulações entre o que se passa no seu interior e o que ocorre no mundo do trabalho. Não é possível fazer muito mais do que remendos no sistema de Segurança Social sem regressar a objectivos de pleno emprego e sem colocar no centro das políticas de emprego o combate a um sistema que continua a estar assente em baixos salários, em trabalho sem direitos, em carreiras contributivas interrompidas, em baixos descontos, em sindicatos frágeis e em ataques à negociação colectiva. Não é este o retrato que continua a caracterizar o país quando, mesmo no actual contexto de aumento do emprego, olhamos para o tipo de emprego criado e vemos salários a aproximarem-se do salário mínimo, contratos precários, etc.? Ou quando olhamos para um desemprego que baixa, é certo, mas continua próximo dos 10%, mesmo com o quadro de emigração maciça que conhecemos nos últimos anos?

A vinculação da segurança na reforma à segurança no trabalho, com a correspondente articulação de políticas públicas nas duas áreas, vai sem dúvida continuar a suscitar a oposição de instituições europeias e internacionais, marcadamente neoliberais. Mas sem essa vinculação a orientar as escolhas políticas depressa se resvala para a substituição do Estado social por um regime assistencialista. Um regime que começa por trocar o direito ao trabalho digno, e para todos, pela exploração crescente de um exército de desempregados, precários e trabalhadores pobres, para acabar a gerir uma sociedade com cada vez mais pobres, quando em vez disso devia ter sido travado, logo no emprego, um combate tenaz às desigualdades.

Sandra Monteiro
quarta-feira 7 de Junho de 2017
Texto original Aqui

Notas
[1] Ver, por exemplo, Elisabete Miranda e Catarina Almeida Pereira, «Pensões antecipadas: o que há de novo na proposta do Governo?», Jornal de Negócios, 6 de Maio de 2017.

28.6.17

Reforma aos 60 anos sem cortes custaria 730 milhões em 2019


Até outubro carreiras com mais de 48 ou 46 anos dão acesso à reforma sem corte. Generalizar a medida custaria mil milhões em dois anos.

O fim dos cortes das pensões a todas as pessoas que têm 60 anos de idade e 40 de carreira contributiva custaria 357 milhões de euros em 2018 e o dobro (730,7 milhões) no ano seguinte. Os números foram apresentados ontem aos parceiros sociais por Vieira da Silva, tendo o ministro assinalado que, para fazer face a um impacto orçamental desta dimensão, seria necessário subir a taxa social única (repartida entre trabalhadores e empregadores) dos atuais 34,75% para 41,44%. Só assim, a sustentabilidade da Segurança Social ficaria acautelada.

A despenalização da idade da reforma a quem reúne aquela dupla condição tem sido reivindicada pela CGTP e UGT – e até pelos patrões. Ontem, perante o impacto da medida, o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, reconheceu que “os números são avassaladores” e que a ordem de grandeza em causa é motivo para “ficarmos preocupados”. As confederações patronais, numa primeira reação, recusam qualquer agravamento dos custos com a TSU.

O enorme impacto financeiro anual da medida – que em 2025 chegaria já aos 1147 milhões de euros – levou Vieira da Silva a reconhecer que “a possibilidade de antecipar a idade da reforma sem pôr em causa os equilíbrios estruturais da Segurança Social vai dar um pouco mais de trabalho” e prolongar mais a discussão. O regime voltará assim a ser discutido pelos parceiros sociais numa reunião que ficou já marcada para 13 de setembro. O ministro do Trabalho e da Segurança Social espera que seja possível dar um primeiro passo “logo no início de 2018”.

As contas que Vieira da Silva apresentou baseiam-se no facto de atualmente existirem cerca de 340 mil trabalhadores com idades entre os 60 e os 65 anos, entre os quais se incluem um grupo de 60 mil com uma carreira mínima de 40 anos e que, assim, estariam em condições de avançar para a reforma antecipada. Os valores assumem que estes 60 mil se reformariam em 2018 e contabilizam ainda a perda de contribuições associada a estas saídas e uma substituição de 90% destas pessoas por jovens com salários 10% mais baixos.

Reformas sem cortes em setembro/outubro
Mais consensual e com o acordo generalizado dos parceiros para avançar já estão as saídas antecipadas de todas as pessoas que neste momento têm pelo menos 60 anos de idade e 48 de descontos ou os mais 46 anos de carreira e começaram a descontar antes dos 16 anos de idade. Para estes, garantiu, o ministro, a saída para a reforma sem qualquer corte vai ser possível a partir de setembro ou outubro, o mais tardar. “O governo decidiu avançar desde já com a iniciativa legislativa que aprovará brevemente”.

O governo estima que cerca de 15 mil pessoas possam beneficiar deste regime em dois anos e que o custo anual da medida rondará os 49 milhões de euros. As pessoas que reúnem condições para se reformar ainda este ano sem penalização mensal ou pelo fator de sustentabilidade têm direito, por isso, à chamada pensão por inteiro, mas esta pode ser ser bonificada em 1% por cada mês de descontos que tenham para além dos 63 anos e três meses de idade.

O consenso em torno destas carreiras contributiva muito longas vai agora ser tentado em torno das regras que em 2018 irão definir o novo regime de carreiras contributivas longas que acaba com o fator de sustentabilidade para todos os que têm pelo menos 60 anos de idade e 40 de descontos e atribui uma idade personalizada de reforma a cada pessoa nestas condições. Veria da Silva mostrou disponibilidade para “alguns acertos” face à proposta inicial, mas longe do cenário de despenalização generalizada, que a CGTP voltou ontem a exigir .

Uma das matérias que não está ainda fechada é a imposição de que apenas os que aos 60 têm 40 de descontos possam beneficiar do regime.

Reformas por invalidez
O ministro salientou, por outro lado, disponibilidade para corrigir a regra legal que agora vigora e que aplica o corte do fator de sustentabilidade às reformas por invalidez a partir do momento em que os beneficiários atingem a idade da reforma por velhice. A proposta foi feita pela CGTP e Vieira da Silva referiu “admitir a possibilidade de reverter esta situação” e que isso será feito ainda em 2017.

Propostas
1ª fase 
O governo dividiu em 3 fases o novo regime de reformas antecipadas. A 1ª entra em vigor entre setembro e outubro e dirige-se às pessoas com mais de 48 anos de descontos e aos que começaram a trabalhar antes dos 16 anos e têm já 46 anos de descontos. Para estes o acesso á reforma não tem qualquer penalização, desde que tenham já 60 anos de idade.

2ª e 3ª fases 
As fases seguintes chegarão em 2018 e vão primeiro abranger os que têm 63 ou mais anos. Para a 3ª ficam os que têm mais de 60 anos.

Regras da Idade
O novo regime acaba com o corte pelo fator de sustentabilidade (que agora é de 13,88%), e atribui uma idade «‘’pessoal’ de reforma a cada pessoa em função dos anos de descontos, que aumenta todos os anos tal como a idade legal. A penalização mensal é feita em função desta idade pessoal.

Lucília Tiago

27.6.17

Fim dos cortes nas pensões para carreiras muito longas em vigor em Outubro


A legislação que prevê o fim dos cortes nas pensões antecipadas de quem tem, por exemplo, 48 anos de carreiras contributivas, ou 46 anos tendo começado a trabalhar aos 15 anos, vai entrar em vigor em Setembro ou Outubro, anunciou o Governo.

Os trabalhadores que tenham mais de 60 anos de idade e 48 anos de carreira contributiva poderão reformar-se sem qualquer penalização a partir de Setembro ou Outubro. O mesmo acontecerá a quem tenha 46 anos de carreira contributiva e mais de 40 anos de idade, desde que tenha começado a descontar para a Segurança Social aos 15 anos.

É essa a data prevista pelo Governo para a entrada em vigor da primeira fase da nova legislação sobre pensões antecipadas, que abrangerá estes dois grupos, segundo anunciou esta terça-feira à saída de uma reunião de concertação social Vieira da Silva.

O ministro da Segurança Social estima que a alteração abranja cerca de 15 mil pensionistas e que tenha um custo anual de 49 milhões de euros.

Nos documentos que estiveram em discussão é explicado que, quem tenha carreiras contributivas muito longas (com as características acima descritas) poderá reformar-se sem qualquer penalização desde que tenha entre 60 anos e 63 anos e 3 meses. Se for mais velho, terá uma bonificação que segundo explicou o ministro será de 1% por cada mês além dos 63 anos e 3 meses.

O Governo tinha ainda anunciado um desagravamento generalizado das penalizações para quem se reforme antecipadamente, nomeadamente através da progressiva eliminação do factor de sustentabilidade, conjugado com outras regras que vão restringir o acesso à pensão antecipada. Contudo, esta segunda e terceira fase da alteração às regras ainda será discutida em Setembro, não tendo data certa para avançar. Vieira da Silva admitiu, contudo, que uma parte desta segunda fase da reforma possa entrar em vigor em Janeiro.

Catarina Almeida Pereira
Ler mais em: Jornal de Negócios 27.06.2017

As histórias de Pedrógão são do arco-da-velha

Quando me ligam a dizer que tenho de ir para Pedrógão, na mochila há espaço para água, muita água, um lenço para tapar o nariz do fumo, telemóvel para gravar conversas e imagens, um bloco e uma caneta. Vou à caixa onde guardo os cadernos e pego no primeiro que me chega às mãos. Reparo que a capa diz “As minhas histórias do arco da velha”. Rio-me com a ironia ao antever que, no regresso, estas páginas – que, aliás, não chegaram – vinham cheias delas.

Foi estúpido pensar que as histórias do arco-da-velha destes dias iam caber neste caderno minúsculo. Quase tão estúpido como reduzir Pedrógão a canadairs que afinal não caíram, à descoordenação no combate ao fogo ou ao ódio desmedido ao trabalho dos jornalistas.

Pedrógão não é isso. Pedrógão é a Dona Cristina do café, que oferece o chão de sua casa para os vizinhos lá dormirem. Pedrógão é a Marta da Conceição, que me mostra as nódoas negras por, aos 84 anos, ter sido levada em braços para dentro de um tanque, onde passou horas a ver tudo à volta desaparecer. Pedrógão é a Isabel, que mesmo dois dias depois de o filho Diogo ter saído de casa sem voltar, ainda acredita que ele pode estar num hospital. “É por isso que ele não atende, não é?”.

Pedrógão é ver um comandante dos fuzileiros que, mesmo depois de décadas de missões em Timor e no Afeganistão, me diz a chorar que ninguém merece ver aquilo que ele encontrou na nacional 236. Pedrógão é ver a Diana a beber RedBull atrás de RedBull para se aguentar com três horas de sono em quatro dias, a organizar refeições para todos os bombeiros que chegavam ao quartel. Pedrógão é ver os ingleses Julie, Cris e Liz a agradecer aos portugueses, “os melhores vizinhos do mundo”.

Pedrógão é vir com a roupa do corpo e ter de comprar todos os dias uma t-shirt numa loja dos chineses. Pedrógão é tomar banho e, mesmo assim, ver a toalha preta de sujidade. Pedrógão é largar o gravador para abraçar os poucos que sobraram de Nodeirinho ou pousar o bloco e a caneta para entregar água aos bombeiros.

Pedrógão é receber dezenas de mensagens quando a “última hora” das televisões diz “jornalistas cercados pelo fogo”. Pedrógão é passar três dias a comer fruta roubada no pequeno-almoço de um hotel que serve apenas para descansar o corpo. A cabeça, essa, não se desliga destas histórias do arco-da-velha.

Marta Cerqueira
Ler mais em: Jornal i Opinião

26.6.17

Um país de incendiários

A vida é uma interminável tentativa de entender. E quando não nos dão respostas, temos tendência a lançar os nossos próprios palpites. Sobre incêndios, há um quase universal. Ano após ano, ouvimos repetidas declarações de populares convictos de que o país arde porque estamos rodeados de incendiários. Pior, a mesma convicção é gritada por decisores políticos e dirigentes de entidades do setor.

Há, sobre o incêndio de Pedrógão, uma investigação em curso. Ministério Público e Polícia Judiciária terão de ouvir todas as testemunhas com relevância e informação. Mas espera-se que quem na praça pública tem repetido não ter dúvidas de que houve origem criminosa tenha dados concretos para apresentar. O contrário seria de uma irresponsabilidade preocupante.

Já foram reveladas imagens daquele que a PJ acredita ter sido o ponto de ignição. Mas há, a complementar a investigação sobre a origem e a propagação, muitas fontes e registos tecnológicos que vão além da observação do terreno. Há, por exemplo, registos de descarga de um raio positivo (com 10 vezes mais potência do que os negativos) da agência EUMETSAT, através do satélite Meteosat. Bem como dados do sensor VIIRS (também por satélite) que comprovam ter havido uma propagação muito rápida das chamas, com ventos rápidos que potenciavam projeções de fogo a longas distâncias.

O verão está apenas a começar e todos devemos fazer perguntas sobre Pedrógão. Queremos saber se os meios de combate eram adequados, se foi feito tudo o que era possível para proteger os aglomerados populacionais, ou qual a falha exata das comunicações. Mas depois de fazermos as perguntas temos de saber escutar quem sabe e esperar o tempo adequado para que as respostas sejam fundamentadas. Lançar palpites e fazer acusações incendiárias é não apenas inútil como um erro que impede as mudanças necessárias.

Já agora, convém não perdermos de vista que a tragédia de Pedrógão não terminou com a extinção do incêndio. Continua a haver dúvidas sobre pessoas desaparecidas. Moradores que ficaram sem casa, sem bens e sem emprego. Há roubos e fraudes que revelam o pior da natureza humana e campanhas de solidariedade que não estão a ser úteis nem devidamente coordenadas. Antes de nos dedicarmos, na praça pública, a incansáveis trocas de acusações em busca de culpados, convém manter o foco nas verdadeiras prioridades.

Inês Cardoso
Ler mais em: JN Opinião 26.06.2017

25.6.17

Resiliência na velhice

As pessoas mais resilientes têm mais possibilidades de “escaparem” a doenças. O envelhecimento saudável e a longevidade também se encontram associados à resiliência.


”... Ultimamente têm-me acontecido muitas coisas... na mesma altura perdi o meu marido, parti uma perna, estive algum tempo internada e tive de deixar a minha casa. Penso muitas vezes que se isto me acontecesse noutra fase da vida, quando era mais nova, não aguentaria. E agora aqui estou, consigo estar bem...” Maria, 85 anos

O envelhecimento implica mudanças, muitas delas perdas e adversidades. Contudo, estas perdas não significam que o bem-estar das pessoas mais velhas esteja “comprometido”. A resiliência centra-se, precisamente, nos fatores e processos que fazem com que as pessoas resistam em circunstâncias difíceis, especialmente nas associadas aos desafios do envelhecimento. Trata-se de uma perspetiva positiva do envelhecimento, mais centrada nas potencialidades do que nos déficits. De facto, alguns estudos, tais como o Berlin Ageing Study, centram-se no elevado nível de bem-estar das pessoas idosas, que sugerem que, ao envelhecer, se conseguem ativar recursos adicionais que podem não estar presentes noutras etapas da vida.

Interessa então perceber que características se associam à resiliência. A resiliência psicológica começou por ser estudada em crianças e jovens expostos a adversidades para se compreender o que é que contribui para que alguns recuperem e resistam a traumas e outros não, desenvolvendo, inclusivamente, psicopatologia. Com o “despertar” da importância do envelhecimento bem sucedido na década de 60 e com um grande e crescente desenvolvimento durante e após a década de 90, surgiu um marcado interesse em se saber quais as características e dinâmicas explicativas da felicidade e da saúde na velhice. As pessoas mais resilientes têm maior possibilidade de “escapar” a doenças. O envelhecimento saudável e a longevidade também se encontram associados à resiliência.

Apesar de diferentes estudos indicarem que a maioria das pessoas mais velhas são resilientes, é fundamental termos em consideração que existe, também, um elevado e preocupante número de pessoas idosas com sintomatologia depressiva. Segundo os dados do Eurostat, em Portugal, em 2014, uma em cada 5 pessoas entre os 65 e os 74 anos relata ter depressão crónica. Sendo que, muitos dos casos, não estão diagnosticados e/ou não são tratados. Os motivos são vários, entre eles os ainda persistentes estereótipos em torno da doença mental, que tendem a desvalorizar este tipo de sintomatologia (“isso logo passa...” “são manias” ...) e /ou os mitos que ainda insistem em se considerar que a tristeza é normal na velhice e que não é necessário intervenção. A desconstrução deste tipo de falsas crenças é um eixo central para que se valorizem e mobilizem intervenções não farmacológicas e farmacológicas para o tratamento da sintomatologia depressiva e para a promoção da resiliência, quando esta não se manifesta de forma mais espontânea ao se envelhecer.

De que fatores depende a resiliência?

Há características que predispõem a pessoa a ser mais ou menos resiliente: a um nível mais individual, o tipo de funcionamento fisiológico; personalidade, como o facto de a pessoa ser aberta a novas experiências e o grau de extroversão; sentir ou não controlo; ter autoestima, autoeficácia e autodeterminação. A existência e desenvolvimento da espiritualidade também se tem revelado como um fator protetor relevante.

Em relação à forma como a pessoa lida com o processo de envelhecimento, as atitudes de autocuidado, aceitação de mudanças, otimismo e existência de emoções positivas tornam a pessoa resistente.

Numa vertente mais social, destacam-se as competências para exprimir opiniões e sentimentos, a existência de uma rede de apoio social e relações de intimidade e proximidade.

Estas características, entre outras, interagem de forma complexa, gerando dinâmicas que funcionam como “amortecedores” do impacto que as mudanças possam ter à medida que a pessoa vai envelhecendo.

E pode desenvolver-se?

A resiliência desenvolve-se ao longo da vida através de experiências, da educação, da comunidade e do amplo processo de desenvolvimento pessoal. Por exemplo, se a pessoa não teve de lidar com problemas de saúde ao longo da vida, terá mais dificuldade em se adaptar às alterações normais associadas ao processo de envelhecimento.

Algumas estratégias para o desenvolvimento da resiliência


  • Centrar-se no “lado positivo” – ser mais optimista.
  • Cuidar-se.
  • Ter relações sociais de qualidade.
  • Preservar a sua autonomia.
  • Treinar/exercitar competências.
  • Selecionar objetivos e atividades adequados às competências da pessoa.
  • Compensar possíveis défices.
  • Mobilizar as novas tecnologia como “apoio” para envelhecer bem.
  • Ser criativo e aberto a experiências.
  • Valorizar história de vida e experiências positivas.
  • Procurar emoções positivas.
  • Ser protagonista do seu próprio envelhecimento.

A resiliência pode, também, desenvolver-se através de intervenções psicológicas específicas, tais como a restruturação cognitiva, o treino na focalização nos aspetos mais positivos, o desenvolvimento de intervenções motivacionais e na redução da sintomatologia depressiva. O desenvolvimento de competências sociais e de assertividade e uma revisão de vida orientada que capacite a pessoa a ter uma visão mais positiva de si, capaz de integrar erros e rejeições, são alguns exemplos de intervenções psicológicas promotoras da resiliência na velhice.

Um foco central no estudo da resiliência na velhice tem sido, assim, o de perceber: como é que podemos tornar a pessoa mais resiliente ao longo do processo de envelhecimento?

Apesar da grande e crescente heterogeneidade das pessoas idosas, partir da experiência subjectiva de envelhecimento parece ser um eixo central para que a pessoa valorize e mobilize recursos para ser resiliente sentindo-se protagonista de uma história de vida única em que o envelhecimento é uma fase que se pode desfrutar e viver bem.

Rosa Marina Afonso

24.6.17

Direitos humanos primeiro, capitalismo depois

Para alguém que acredite que os seres humanos devem ter direitos fundamentais salvaguardados, esse é o fim ao qual tudo o resto deve estar subjugado.


Um dos grandes equívocos da contemporaneidade é a ideia de que o capitalismo global é inevitável e a origem última de todo o bem.

Esta ideia está duplamente errada.

Primeiro, porque o capitalismo não é inevitável. Olhando para a história da humanidade percebe-se bem quão diminuto é o tempo durante o qual a sociedade se tem organizado segundo esse padrão. Mesmo sendo o modo corrente, nada impede que outros modos dominem o futuro – o fim da história não existe;

Segundo, embora o estado actual de desenvolvimento material da sociedade humana tenha muito a ver com o desabrochar do capitalismo, aquilo que verdadeiramente interessa – a felicidade humana – não surge automaticamente com o capitalismo.

Desde a queda dos regimes ditos comunistas que se tem assistido a um alastrar progressivo do modo de funcionamento capitalista a todo o mundo. Ao mesmo tempo, e desde a revolução industrial, o progresso tecnológico tem crescido exponencialmente. Tudo conjugado, vivemos na época de maior abundância material da história da humanidade, o que nos permitiu aumentar a esperança média de vida da população mundial e diminuir o número de pobres absolutos.

É verdade, também, que há uma coincidência temporal entre o iluminismo, o humanismo (que influencia a posterior consagração dos direitos humanos), a revolução industrial e a propagação do capitalismo. Mas não há uma relação causal definitiva entre capitalismo e tudo o resto. Em concreto, importa perceber quais são os fins e quais são os meios.

Para alguém que acredite que os seres humanos devem ter direitos fundamentais salvaguardados – como o acesso a bens e serviços essenciais, liberdades políticas, sociais e económicas, enfim, o direito real a perseguir a felicidade –, esse é o fim ao qual tudo o resto deve estar subjugado.

No caso do capitalismo, devemos enquadrá-lo precisamente nessa perspectiva: aproveitar o seu funcionamento para garantir os direitos humanos e a felicidade.

Na prática, tudo isto se traduz em opções políticas muito concretas: legislação laboral que equilibre os direitos dos empregadores e dos empregados, legislação ambiental que salvaguarde o planeta, legislação fiscal que permita a redistribuição da riqueza e do rendimento, legislação política que ponha o poder da democracia acima dos outros poderes e legislação social que proteja os desempregados, os doentes, os reformados, as minorias e os discriminados.

Um capitalismo assim enquadrado, e disseminado à escala global, é capaz de gerar riqueza que chegue para a realização dos objectivos acima propostos e para a concretização do potencial e felicidade humanos. Pelo contrário, um capitalismo desregulado diminui o potencial social, cria injustiças e viola os direitos e liberdades básicas dos seres humanos.

Gabriel Leite Mota

23.6.17

Clima do futuro pode trazer até mais 50 dias de calor extremo

O interior do país será mais afetado e as ondas de calor serão mais frequentes. Um cenário que aumenta o risco de incêndio na floresta


As tendências estão lá todas: chuva a menos no inverno e na primavera, temperaturas muito acima da média para época, e em número de dias consecutivos para ser onda de calor, a maior parte do território em seca meteorológica. E, na sequência de tudo isso - e de muitos outros fatores que são estruturais à floresta e circunstanciais ao momento, e sobre os quais ainda falta muita informação -, a deflagração de um dos mais violentos incêndios de que há memória em Portugal, e o mais trágico em número de vítimas. A pergunta é inevitável: é disto que se fala quando se fala de alterações climáticas?

A resposta não é taxativa - nem pode. Um fenómeno isolado não é suficiente para declarar uma certeza, ainda que o calor nos dias 17 e 18 deste mês (marcados pelo violento incêndio que teve origem em Pedrógão Grande) tenha sido muito anormal para um final de primavera (ver texto na página ao lado). Como dizia ao DN o físico e especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que estuda há duas décadas as alterações climáticas em Portugal, "é muito difícil medir de forma definitiva" se isto é já consequência da mudança climática. O que se pode dizer é que "no contexto das alterações climáticas, o risco de incêndios florestais vai aumentar em toda a bacia mediterrânica e também em Portugal, porque é isso que os modelos climáticos indicam", sublinha o especialista.

O aumento no final do século do número de dias com temperaturas extremas, acima dos 35 graus, que podem chegar a ser, no pior cenário até mais 50 dias (ver gráfico), em relação aos que hoje já se verificam, em algumas zonas do interior, ou um maior número de ondas de calor, que podem ser nesse futuro até 12 vezes mais frequentes em relação à atualidade, vão potenciar o risco dos fogos florestais, mas terão também impactos na saúde, na biodiversidade, na agricultura, nos recursos hídricos...

Aquilo a que vamos assistir, na prática, é "ao aumento progressivo destes fenómenos ao longo do século", explica o investigador Luís Dias, da Universidade de Lisboa, que coordenou as estratégias de adaptação às alterações climáticas para 26 municípios do país no âmbito do Climadapt. Este projeto, que durou dois anos e terminou no fim de 2016, fez o diagnóstico das principais vulnerabilidades climáticas para cada um dos territórios, elaborou as respetivas estratégias de adaptação e formou 52 técnicos municipais nesta área nas autarquias envolvidas.

Perante as vulnerabilidades identificadas, que vão do aumento dos fenómenos extremos como ondas de calor e secas mais intensas, tempestades mais devastadoras, mais cheias e inundações ou aumento da erosão costeira, com todos os seus impactos na saúde e nas atividades humanas, as ações de adaptação serão inevitáveis - e têm de ser encaradas desde já.

Florestas Risco de incêndio aumenta


A floresta, com a previsão do aumento do risco de incêndio, é um dos calcanhares de Aquiles do país, sobretudo nas regiões Norte e Centro, onde existem problemas complexos de gestão e ordenamento florestal e que, a par da desertificação do interior do país, contribuem há três décadas para o agravamento dos incêndios florestais.

Estudos realizados ainda no início da década passada já apontavam essa tendência. Em 2002, os resultados do estudo integrado liderado por Filipe Duarte Santos "Alterações climáticas em Portugal: Cenários, impactos e medidas de adaptação", o primeiro sobre as alterações climáticas em Portugal, era claro: "Prevê-se um aumento substancial do risco meteorológico de incêndio em todo o país. Nas regiões do Norte e Centro, espera-se um aumento de três a cinco vezes do número de dias com valores do índice climático de risco de incêndio, correspondentes a situações de risco muito alto e extremo."

Estudos mais recentes confirmam e tornam mais precisas as estimativas. Dados do IPCC, o painel intergovernamental para as alterações climáticas da ONU, publicados em 2014, estimam um aumento entre três a cinco vezes dos incêndios florestais na região do Sul da Europa, que inclui Portugal. E um estudo publicado em 2013 por investigadores portugueses da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Universidade de Lisboa, liderado por Mário Pereira, mostra que os grandes fogos, como agora o de Pedrógão Grande, vão aumentar já em meados do século e que a ocorrência de fogos com maior área ardida poderá passar de 51 para 158, em média, no final do século. O aumento do número de dias com calor extremo e baixa humidade e o prolongamento da época de incêndios, que será antecipada e prolongada pelo outono dentro, favorecerão esse cenário, pelo que o ordenamento florestal é urgente, para fazer face a esse mundo mais quente - e mais perigoso.

Ondas de calor Vão ser mais frequentes


Uma onda de calor ocorre quando, pelo menos durante seis dias consecutivos, a temperatura máxima é superior em cinco graus, ou mais, à média da máxima para a região e para a época. Tal como aconteceu agora em quase todo o território do continente. Algumas regiões do interior estiveram 14 dias em onda de calor, um fenómeno que se sabe ter um importante impacto na saúde, já que está geralmente associado um pico de mortalidade nas populações mais vulneráveis, como os idosos e as pessoas com doenças crónicas. No pior dos cenários, e com a a Península Ibérica a ser uma das regiões da Europa mais afetadas pelas alterações climáticas, o aumento da temperatura média por cá pode chegar aos seis graus. Nesse patamar, as ondas de calor serão ainda mais mortíferas.

Filomena Naves
Ler mais em: DN 23.07.2017

22.6.17

Notícias APRe!



5ªs Notícias APRe!
Junho 2017






As Notícias APRe! em PDF podem ser descarregadas aqui.

"A Diabetes, prevenção e acompanhamento", colóquio promovido pelos Núcleos do Seixal e de Almada da APRe!

Os Núcleos do Seixal e de Almada da APRe!, promovem um colóquio subordinado ao tema "A Diabetes, prevenção e acompanhamento", que se vai realizar no próximo dia 1 de Julho pelas 15:00h, no auditório da Junta de Freguesia da Amora.

Serão oradores o Dr. José Manuel Boavida, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) e o Dr. João Batalheiro, da Unidade de Saúde da Amora.

Temos o apoio da APDP-Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal.

É uma iniciativa com muito interesse, considerando que há uma percentagem elevada de diabéticos entre as pessoas da terceira idade.

Vem participar. Traz um amigo. Divulga esta iniciativa.

A tua saúde é importante.

Núcleos de Seixal e Almada da APRe!

Núcleo da APRe! em Coimbra visitou o Museu da Cidade

O Núcleo da APRe! em Coimbra organizou uma visita ao Museu Municipal da Cidade, à exposição "O Indizível". Esta exposição é a expressão moderna de "imagens com base em sensações ou raciocínios complexos, assumindo que nenhuma pintura pode ser inteiramente explicada por palavras".

Uma exposição que se adequou bem ao momento terrível que vivemos porque, de facto, há coisas (trágicas, neste caso) que não se explicam de forma alguma.

21.6.17

Solidariedade da APRe!


A Direcção da APRe! está a contactar telefonicamente, através do seu Vice-Presidente Fernando Martins, todos os associados residentes nos concelhos de Pedrogão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Góis e Pampilhosa da Serra para se inteirar da situação física e patrimonial dos nossos associados, das respetivas famílias e resultante da tragédia que assolou aquela região.

A Direcção remeteu hoje aos Presidentes das cinco Câmaras a seguinte carta: 


"Exmo. Senhor Presidente da Câmara 

A APRe! Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados vem apresentar a V. Exa. as nossas mais sentidas condolências pelas consequências da terrível tragédia que atingiu o concelho a que V. Exa. preside e manifestar-lhe a nossa profunda solidariedade para com todas as famílias atingidas e residentes no seu concelho. 

Tem V. Exa. pela frente dias difíceis, com o rescaldo da tragédia, o cuidado com os feridos, o realojamento dos seus munícipes e a reintegração serena de todos, bem como o ressarcimento dos danos materiais e morais de que foram vítimas. 

Permita V. Exa. que a nossa Associação, que tem como missão a defesa dos Aposentados, Pensionistas e Reformados, venha apelar a V. Exa. a sua particular atenção, carinho e dedicação com os idosos do seu concelho que constituem mais de 30% da totalidade dos munícipes. 

Desejamos a V. Exa. as maiores felicidades para o árduo trabalho que se aproxima e vimos manifestar toda a nossa disponibilidade para o que V. Exa. julgar necessário. 

Apresentando os nossos cumprimentos 

Maria do Rosário Gama 
Presidente da APRe!"

As vítimas dos incêndios e da televisão

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime.


Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.

Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.

Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.

António Guerreiro

20.6.17

A devastação de um país


Todos os anos temos visto as chamas, na época ou no defeso, a consumir hectares e hectares de floresta. Nuns anos mais, em outros menos. Sempre demasiado. E muitos de nós observam essa tragédia quase como uma fatalidade. E não pode ser. Independentemente de quem esteja no poder, promete mudar, promete pôr um ponto final nas imagens de devastação. Nada muda. E a catástrofe, enfim, irrompe com muitos mortos, de aldeias perdidas, deste Portugal desordenado.

Talvez, solenemente, venham anunciar um novo plano de combate à desertificação do interior do país. Talvez esbocem mais uma reforma para transformar a gestão da floresta nacional. Ninguém, por certo, dará mais ouvidos a palavras vãs. O que se espera dos responsáveis, perante tamanho drama, é a apresentação de medidas credíveis, exequíveis, capazes de inverter os constantes reacendimentos da fatalidade. E, até agora, fica-se com a sensação de quem está a presenciar uma interminável peça de teatro de cordel. Até ao momento, nada ou quase nada do que é apresentado tem qualquer ligação à realidade, como se tudo acabasse quando as cortinas são fechadas. No mundo real, a vida continua envolta numa terrível normalidade. As 64 vítimas mortais de Pedrógão Grande, os relatos de horror de quem viveu o inferno, terão de inverter a narrativa de quem tem poder, conferido pelo povo, para mudar as coisas.

Custa aceitar, sem incómodo, as palavras, naturalmente bem-intencionadas, do presidente da República. "Não há nem falta de competência, nem falta de capacidade, nem falta de imediata resposta". Afinal, "o que se fez foi o máximo que se podia fazer". Marcelo Rebelo de Sousa é incansável a dar ânimo aos portugueses, mas é difícil acreditar que nada pudesse ter sido feito. Como foi possível a morte de 47 cidadãos numa estrada aparentemente esquecida no furacão do fogo, e centenas de pessoas sós a combater as chamas e o medo de ser engolidas por elas?

Pelos que morreram, nada se poderá fazer. Pela frente há a obrigação moral de impedir a "fatalidade". Temos de exigir um Portugal olhado como um todo; que a formação dos bombeiros, de uma vez por todas, seja assumida como questão fundamental, e que a floresta tenha, por exemplo, a mesma importância do turismo ou da indústria. É tempo de as universidades lançarem o seu saber no terreno, e não apenas ser chamadas em situação de tragédia ou quando é decidido elaborar mais um plano estratégico. Florestas desordenadas, aldeias sem gente continuarão a arder. Em memória das vítimas, temos de impedir a devastação de um país.

Paula Ferreira

19.6.17

Informação/divulgação de espectáculos no Teatro da Trindade em Lisboa

Ao abrigo do protocolo celebrado entre a APRe! e Fundação INATEL, nos termos do qual os associados da APRe! passaram a usufruir de condições preferenciais, nas quais está englobada a entrada no Teatro da Trindade, em Lisboa, e em outros locais onde se realizem espectáculos de música, dança, ópera e teatro promovidos pela Inatel, com a aquisição dos respectivos bilhetes ao mesmo preço praticado para os beneficiários associados da INATEL, fazemos a divulgação dos espectáculos a realizar no Teatro da Trindade.


HÁ MÚSICA NO TRINDADE!
Um programa que traz uma grande diversidade musical de géneros e de criadores ao palco do Trindade, reforçando o lugar de destaque que a música portuguesa e em português tem, este ano, na nossa atividade.

TATANKA «O IMPÉRIO DOS PORCOS» 


23 JUN
SALA EÇA 

SEX 21h30 
Desc. 10 % (equiparado a associado INATEL)

Pedro Tatanka é o rosto dos muito amados Black Mamba, projeto com que percorreu o país e o mundo (apresentou-se, ao lado de Áurea, no Rock In Rio Brasil, por exemplo) colecionando um volume invejável de experiência. Vocalista de méritos reconhecidos, guitarrista de exceção, Tatanka tem sabido dividir palcos com algumas das maiores estrelas da música portuguesa – além de Áurea já se cruzou com António Zambujo, Dengaz ou Rui Veloso, para mencionar apenas alguns exemplos – repartindo com todos o brilho da apresentação.

A capacidade de dialogar com artistas tão diferentes é apenas um sinal claro da largueza de vistas que define Tatanka como artista: é um cantor e músico de mão cheia que alterna entre o rock e a soul, entre o jazz e as influências que chegam de África ou do Brasil com uma naturalidade singular.
Beber de todas essas fontes dá-lhe uma visão única e profunda da música.

Ao Trindade, Tatanka trará um espetáculo especial: vai apresentar-se primeiro a solo, acompanhado apenas pela sua guitarra, desfiando canções e histórias, melodias nuas e acordes como quem se revela ao mundo. Na segunda parte será com banda que desfilará argumentos, procurando mostrar outras dinâmicas e energias num concerto pensado especialmente para esta ocasião. 


YAMANDU COSTA «BEM VINDO»


24 JUN
SALA EÇA
SÁB 21h30
Desc. 10 % (equiparado a associado INATEL)

Yamandu Costa é um dos grandes tesouros do Brasil contemporâneo: apontado como um dos mais reputados músicos da sua geração, Yamandu especializou-se no exótico violão de sete cordas, instrumento de que se tornou um dos maiores expoentes vivos.

Em 15 anos, desde que começou a editar no arranque deste milénio, Yamandu Costa, que nasceu em 1980, colecionou uma discografia de cerca de duas dezenas de títulos, entre trabalhos de estúdio, gravações ao vivo, DVDs e projetos divididos com outros artistas como Paulo Moura, Dominguinhos ou Hamilton de Holanda. O seu último registo, de 2015, encontra-o em diálogo profundo com a Orquestra do Estado de Mato Grosso para um Concerto de Fronteira. Premiado internacionalmente, este músico nascido no seio de uma família de artistas, que cedo descobriu a obra de gente como Baden Powell ou Tom Jobim, desenvolveu uma linguagem própria no seu instrumento que é reflexo de uma profunda genialidade.

A Portugal, Yamandu trará a beleza e magia do seu violão de sete cordas e um variado reportório que navega as ricas águas da bossa nova e do choro, do jazz, do tango e da milonga, do samba ou do baião, tudo linguagens que domina com mãos de mestre e de forma apaixonada num espetáculo inédito que certamente converterá à sua música todos os que porventura ainda desconheçam este tesouro nacional do Brasil.

participação especial RICARDO RIBEIRO 
direção artística AMG MUSIC
promotor TEATRO DA TRINDADE INATEL


CICLO MUNDOS

O Ciclo Mundos da Fundação INATEL associado ao Festival Músicas do Mundo volta a dar força, espaço e lugar à world music.


MÁRIO LÚCIO (CABO VERDE)


28 JUN
SALA EÇA
QUA 21h30

Desc. 30 % (equiparado a associado INATEL)

Figura central das artes cabo-verdianas — cantor, compositor, arranjador, escritor, ministro da Cultura entre 2011/16. Vai apresentar o seu novo disco, dedicado ao Funaná.

«Funanight» vai às raízes e às irmandades transcontinentais de um dos mais populares estilos cabo-verdianos. «Funaná transcendente», escreveu o seu compatriota Vasco Martins.

parceiro FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO | MUNICÍPIO DE SINES 
produção FUNDAÇÃO INATEL


BANDA SINFÓNICA DO EXÉRCITO
Concurso de Composição para Orquestra de Sopros 


20 JUN
SALA EÇA
QUA 21h30

Entrada livre

A colaboração entre as Bandas Militares e a Inatel faz parte da história da Fundação, quer seja na ocupação dos tempos livres através de concertos, ou no incentivo à formação e ao estímulo criativo dos jovens músicos através de Concursos de Composição.

parceria BANDA DO EXÉRCITO
produção DEPARTAMENTO DE CULTURA DA FUNDAÇÃO INATEL


DOMINGOS COM MÚSICA


25 JUN
SALA EÇA
QUA 11h30

Bilhete 2€ (equiparado a associado INATEL)

Projeto do Departamento de Cultura realizado em articulação com Teatro da Trindade que visa criar,
juntamente com os CCD, associações parceiras da Fundação INATEL, concertos e recitais.

CULTIVARTE – Projeto Pedagógico Sinfonix
Duo de Violino e Flauta Transversal

produção DEPARTAMENTO DE CULTURA – FUNDAÇÃO INATEL


Bilheteira / Teatro da Trindade INATEL
tel: 213 420 000 | email: bilheteira.trindade@inatel.pt
Horário:Terça a sábado: 14:00 às 20:00 | Segunda: encerrada 
Domingo: 14:00 às 18:00 | Dias de espetáculo até 30 min após o início

Bilheteira online: BOL | Fnac - Tel: 760 309 330

Informação/divulgação de espectáculos no Teatro da Trindade em Lisboa

Ao abrigo do protocolo celebrado entre a APRe! e Fundação INATEL, nos termos do qual os associados da APRe! passaram a usufruir de condições preferenciais, nas quais está englobada a entrada no Teatro da Trindade, em Lisboa, e em outros locais onde se realizem espectáculos de música, dança, ópera e teatro promovidos pela Inatel, com a aquisição dos respectivos bilhetes ao mesmo preço praticado para os beneficiários associados da INATEL, fazemos a divulgação dos espectáculos a realizar no Teatro da Trindade.

teatrotrindade.inatel.pt | Facebook | bilheteira.trindade@inatel.pt | Tel. Bilheteira 213 420 000 | BOL

LEITURAS
CICLO DE LEITURAS E CONVERSAS


TEXTOS DO TRINDADE


21 jun | M12
quarta 18:30
ENTRADA LIVRE
(sujeita à lotação da sala) mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 14h00

O Ciclo «Textos do Trindade» promove a leitura de textos que subiram à cena nestes 150 anos do Teatro, acompanhados de um enquadramento e de uma conversa com os espectadores.


AUTO PASTORIL PORTUGUÊS de GIL VICENTE

A Companhia Rey Colaço/ Robles Monteiro no Trindade

Convidada: CATARINA AVELAR

A 26 de Novembro de 1928, estreava-se no palco do Teatro da Trindade, o “Auto Pastoril Português” escrito por Gil Vicente em 1523 e representado pela primeira vez “ao muito alto e poderoso Rei nosso Senhor Dom João Terceiro em Portugal deste nome, na sua cidade de Évora pelo Natal”.

Era o primeiro ano em que a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro assentava arraiais no Trindade, depois de épocas vibrantes no Teatro Ginásio e no Politeama.

Aqui se manteve por duas épocas antes de se sediar no Teatro Nacional Almeida Garrett e aqui regressou em 1949 e em 1970 no mais longo período em que se manteve no Trindade. Foi aqui que, numa encenação de Pedro Lemos, estreou a 22 de Fevereiro de 1974 o último espectáculo da companhia - “Sábado, domingo e segunda” de Eduardo de Filippo.


coordenação TIAGO TORRES DA SILVA
comunicação MARIA JOÃO TABORDA
parceria SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES | ACT — ESCOLA DE ACTORES
produção TEATRO DA TRINDADE INATEL


CARMO / TRINDADE
NOITE DA LITERATURA EUROPEIA



5.ª Edição de uma noite que vem sendo um fenómeno de animação e divulgação cultural através da Literatura.

Entre o Carmo e a Trindade 11 escritores europeus, lidos por atores portugueses.

As sessões, de entrada livre, têm a duração de 15 minutos e repetem-se de meia em meia hora, para o público poder assistir a todas as sessões nos diversos espaços.


TEATRO DECOMPOSTO ou O HOMEM-LIXO


24 JUN
SALÃO NOBRE
SÁB 18h30-23h30
ENTRADA LIVRE


Os textos aqui reunidos são, na verdade, módulos para composição teatral. Nenhuma ordem é imposta pelo autor. São como pedaços de um espelho quebrado. Houve uma vez o objeto em perfeito estado. Ele refletia o céu, o mundo e a alma humana. E houve, não se sabe quando nem por quê, a explosão. Os pedaços de que dispomos hoje fazem parte sem dúvida da matéria original. E é nesse pertencimento à matéria original que reside sua unidade, seu perfume, sua identidade de atmosfera. Com esses monólogos, que convidam a construir um conjunto, o autor quis impor ao diretor uma única restrição: a liberdade absoluta.

país ROMÉNIA
autor MATÉI VISNIEC
leitura NUNO PINHEIRO 

Bilheteira / Teatro da Trindade INATEL
tel: 213 420 000 | email: bilheteira.trindade@inatel.pt
Horário:Terça a sábado: 14:00 às 20:00 | Segunda: encerrada 
Domingo: 14:00 às 18:00 | Dias de espetáculo até 30 min após o início

Bilheteira online: BOL | Fnac - Tel: 760 309 330

Portugal de Luto

Neste momento de consternação e dor que Portugal está a viver, endereçamos a todas as vítimas e seus familiares, afectados pelos violentos incêndios que atingiram o Interior Centro de Portugal, sentidos pêsames e um abraço de solidariedade, agradecendo também a todos os envolvidos no combate à catástrofe que nos atingiu, com especial relevo para os bombeiros, todo o empenho, esforço e dedicação demonstrado no salvamento de animais e bens materiais, mas acima de tudo no salvamento de vidas Humanas.

18.6.17

Pedrógão Grande, um desastre a interpelar o nosso futuro

A ameaça que impende sobre a nossa floresta tem de ser vista como uma ameaça ao futuro do país. Está na hora de tomarmos consciência do que nos espera.


Nas próximas horas, nos próximos dias, vai ser necessário encontrar respostas para as causas da morte de tantas pessoas. A emoção, a consternação e o sentimento de revolta que um desastre como o de Pedrógão Grande suscita impõem perguntas e exigem esclarecimentos. Como foi possível que uma população, corpos de bombeiros, forças policiais ou responsáveis políticos habituados a lidar com a devastação dos incêndios florestais não pudessem prever o que aconteceu? Como foi possível que se tenham deixado aldeias remotas sem evacuação? E por que não foi suspenso o trânsito em vias de risco? Por que razão não houve socorro de outras corporações de bombeiros? Ainda que justas, imperiosas ou evidentes, todas estas perguntas passam ao lado da questão essencial.

As alterações climáticas que produziram um dia como o de sábado em meados de Junho ameaçam destruir a floresta portuguesa. E perante a iminência de um cataclismo desta dimensão, o país tem de ir muito para lá das perguntas de contexto ou da justa expressão das dores do momento: precisa de uma energia, de uma determinação e de um conjunto de meios para debelar o problema que parece estar para lá das nossas capacidades actuais.

As autoridades podiam ter iniciado mais cedo a fase crítica de combate aos incêndios e, perante as previsões meteorológicas de dias como o de sábado, seria recomendável que os meios de prevenção e combate tivessem sido extraordinariamente accionados. Mas, sejamos justos, só quem não viu ao vivo a fúria de um incêndio num pinhal ou no eucaliptal carregado de mato é que acredita no poder da intervenção humana para o travar. É neste ponto da equação que entra o interminável debate em torno do ordenamento florestal. Que raramente existiu nas últimas décadas. Que sucumbiu à tentação de alocar verbas a uma guerra liderada com bombeiros, uma forma de os decisores políticos mostrarem serviço e empenho nos dias de estio depois de passarem as três outras estações do ano em estado de demissão ou letargia.

Ainda assim, parece cada vez mais claro, a intervenção no ordenamento florestal tal como a conhecemos parece cada vez mais condenada a resumir-se a uma medida paliativa para um problema de dimensões colossais. O planeta está a aquecer, Portugal está a aquecer e as nossas florestas, altamente vulneráveis ao fogo, parecem ser as primeiras vítimas dessas mudanças profundas. Um incêndio com as proporções do deste sábado em meados de Junho é algo inimaginável na geração dos nossos avós. E um dia nesta estação com tão altas temperaturas e zero humidade é uma circunstância meteorológica que vai tornar-se num novo normal. O pinhal em Pedrógão ardeu como ardeu porque não há defesa natural possível a um fenómeno desta intensidade.

Depois de no ano passado o drama dantesco dos incêndios florestais ter regressado à ordem do dia, depois de o Governo se ter empenhado pela primeira vez desde meados dos anos 1990 em produzir um corpo de leis para acudir às ameaças à floresta, sabemos com a dor do desastre de Pedrógão que tudo o que está pensado para se fazer conta pouco ou nada. O desafio que se impõe exige muito mais. Exige o esforço que uma ameaça colectiva requer. A floresta, quase toda privada, só será salva se o Estado assumir a sua defesa como uma necessidade estratégica fundamental. Há um terço da área do país em risco. Há milhares de pessoas das zonas mais vulneráveis em causa.

Não sabemos se teremos recursos, energia, meios humanos, ciência ou perseverança para responder a esse dramático desafio. Soubemos sim com o fogo descontrolado deste sábado no Pinhal Interior que o aquecimento global está a tornar a aposta em leis avulsas para os proprietários ou estratégicas de combate com o nome de grandes operações militares num esforço condenado a fracassar. Não está em causa a culpa ou a omissão dos políticos, dos proprietários florestais ou dos bombeiros: está em causa a constatação de que há uma ameaça que elevou a sua escala de periculosidade e de destruição e a noção de que, nas circunstâncias actuais, não temos forma de a travar.

Portugal depende muito da floresta, o seu mais importante recurso natural renovável. Seja pela sua dimensão ambiental, seja pelo seu impacte na economia, a floresta é crucial para o nosso destino colectivo. A ameaça que sobre ela impende tem por isso de ser vista como uma ameaça sobre o futuro do país. Está na hora de tomarmos consciência do que nos espera. De ano para ano a temperatura vai subir e cada vez mais horrores como o de Pedrógão hão-de repetir-se. Não está em causa uma fatalidade. Está apenas em cima da mesa a pergunta dolorosa: seremos, colectivamente, capazes de encontrar meios para enfrentar um tão grande desafio?

Manuel Carvalho