26.6.17

Um país de incendiários

A vida é uma interminável tentativa de entender. E quando não nos dão respostas, temos tendência a lançar os nossos próprios palpites. Sobre incêndios, há um quase universal. Ano após ano, ouvimos repetidas declarações de populares convictos de que o país arde porque estamos rodeados de incendiários. Pior, a mesma convicção é gritada por decisores políticos e dirigentes de entidades do setor.

Há, sobre o incêndio de Pedrógão, uma investigação em curso. Ministério Público e Polícia Judiciária terão de ouvir todas as testemunhas com relevância e informação. Mas espera-se que quem na praça pública tem repetido não ter dúvidas de que houve origem criminosa tenha dados concretos para apresentar. O contrário seria de uma irresponsabilidade preocupante.

Já foram reveladas imagens daquele que a PJ acredita ter sido o ponto de ignição. Mas há, a complementar a investigação sobre a origem e a propagação, muitas fontes e registos tecnológicos que vão além da observação do terreno. Há, por exemplo, registos de descarga de um raio positivo (com 10 vezes mais potência do que os negativos) da agência EUMETSAT, através do satélite Meteosat. Bem como dados do sensor VIIRS (também por satélite) que comprovam ter havido uma propagação muito rápida das chamas, com ventos rápidos que potenciavam projeções de fogo a longas distâncias.

O verão está apenas a começar e todos devemos fazer perguntas sobre Pedrógão. Queremos saber se os meios de combate eram adequados, se foi feito tudo o que era possível para proteger os aglomerados populacionais, ou qual a falha exata das comunicações. Mas depois de fazermos as perguntas temos de saber escutar quem sabe e esperar o tempo adequado para que as respostas sejam fundamentadas. Lançar palpites e fazer acusações incendiárias é não apenas inútil como um erro que impede as mudanças necessárias.

Já agora, convém não perdermos de vista que a tragédia de Pedrógão não terminou com a extinção do incêndio. Continua a haver dúvidas sobre pessoas desaparecidas. Moradores que ficaram sem casa, sem bens e sem emprego. Há roubos e fraudes que revelam o pior da natureza humana e campanhas de solidariedade que não estão a ser úteis nem devidamente coordenadas. Antes de nos dedicarmos, na praça pública, a incansáveis trocas de acusações em busca de culpados, convém manter o foco nas verdadeiras prioridades.

Inês Cardoso
Ler mais em: JN Opinião 26.06.2017