28.7.17

E se se calassem?

Estamos todos fartos de especialistas de pacotilha, desmentidos no momento seguinte pelos acontecimentos. E também dos que acham que têm de… achar


Eu sei que pode parecer, mas parecer não é ser. Aliás, parecer pode ser, mas não é obrigatório. Pode ser só um parecer, que não é o que parece. Ou seja, é apenas uma ilusão. Isto tudo também não pretende ser filosofia pura, embora muita dela passe por aqui. E também não é teoria do conhecimento, embora todos os tratados da sua história pudessem ser revistos através do que vamos aqui falar.

Porque do que vamos aqui falar é da nossa relação com o saber. E do parecer que sabemos, sem sabermos mesmo. E do que mostramos saber, sem que isso tenha nenhuma aderência à realidade dos factos, como se diz hoje. As redes sociais abriram-se a qualquer um que queira mandar uns bitaites, dando palco igual a quem sabe e a quem não sabe da matéria – a origem das famosas notícias falsas é precisamente essa, e a aparência da verdade é idêntica à aparência do saber. Mais, as redes cibernéticas permitem dar mais audiência a quem sabe, mas também a quem não sabe da matéria. É como se fosse uma conversa de café com amplificador.

Esta nova forma de comunicação tornou-se de tal modo avassaladora que levou atrás os meios de comunicação tradicionais. Antigamente, uma crónica ou uma notícia que era publicada era o fim de uma comunicação. Agora é o princípio de uma conversa. Que segue por aí fora em pontos e contrapontos. Muitos dos quais não se baseiam em nada de muito sólido, mas apenas em opiniões que pretendem rebater outras, como se fôssemos todos miúdos da escola primária, amuando, fechando os braços, olhando para o lado e dizendo: «É a tua opinião, eu tenho a minha.»

As redes sociais passaram a acolher todos os que queiram, basicamente, dizer coisas. E na voragem os factos passaram a estar em pé de igualdade com as opiniões. Antigamente – oh, como é terrível usar esta expressão – quem escrevia, por ter essa forma cinzelada, ainda que a tinta em página, procurava uma certeza sobre algo. Procurava uma opinião avalizada. Procurava um especialista que não pudesse ser desmentido. Agora, os jornalistas embarcam na corrente que segue conforme o achismo do momento, transformando-se a eles próprios e aos seus alter egos nas redes em amplificadores.

Hoje, somos todos especialistas. Saltamos de um assunto para outro sem nunca entrarmos em grandes profundidades, vade retro o conhecimento verdadeiro que anula o aparente. Qual é o sabor do dia? – podia ser a pergunta que aparece no início do nosso mural do Facebook. Pode ser algum assunto económico, da dívida externa aos ratings das agências de notação, o segredo de justiça num processo judicial, as falhas de uma gestão bancária, os perigos do turismo e a desertificação das cidades, ou os buracos de uma lei… Mas também vale incêndios e o seu combate e prevenção, armamento militar, paióis, ou as várias formas do racismo e da xenofobia.

Que saudades de um não sei. De um recuo cético, que é o princípio de todo o conhecimento verdadeiro. De todos termos noção de que a maior parte do que nós não sabemos nem sequer sabemos que não sabemos. Que saudades, na verdade, de um silêncio.

Catarina Carvalho
Notícias Magazine 24.07.2017