29.9.17

Eleições na ADSE, o desastre anunciado

Não admira que o resultado tenha sido digno de figurar num livro de recordes: 98,8% de abstenção.


Em 19 de Setembro, conforme estava legalmente previsto, decorreram as eleições para o Conselho Geral e de Supervisão da ADSE, IP. Em causa estava a eleição de quatro elementos para representar os beneficiários naquele importante órgão de acompanhamento da gestão deste novo instituto público.

Para que os leitores menos familiarizado com o tema possam perceber melhor a dimensão deste acto eleitoral, importa dizer que o número dos potenciais eleitores — mais de 831 mil, distribuídos por todo o continente e ilhas — é sensivelmente igual ao dos que estão recenseados para votar nas próximas autárquicas no conjunto das cidades de Lisboa, Porto e Coimbra.

Imagine-se agora que, para um universo eleitoral desta grandeza, apenas foram previstos locais de votação presencial em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Faro, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Funchal, e que estes só funcionavam das 9h às 17h (o horário em que a maioria dos potenciais votantes estava a trabalhar). Para lá da votação presencial, havia a possibilidade do voto electrónico, usando uma plataforma cuja performance se desconhecia em situações de esforço extremo, como seria o caso do dia da votação. Para completar o quadro, havia a possibilidade de votar por correspondência num processo tão kafkiano que, em certos casos, obrigava ao reconhecimento notarial da assinatura.

Do exposto facilmente se conclui que existiam demasiados pontos fracos no processo, capazes de criar condições para que este corresse mal. E assim foi! Tudo o que podia ter corrido mal, correu mal! Desde o sistema informático que esteve inoperacional durante algum tempo, ou extremamente lento quando estava a funcionar, até filas de grandes dimensões para votar presencialmente, que chegaram a obrigar a uma espera de duas horas, tudo concorreu para que se criasse “um inferno, uma tremenda confusão”, segundo palavras de um dos representantes da comissão eleitoral, citado pela imprensa. Não admira, portanto, que o resultado tenha sido digno de figurar num qualquer livro de recordes: 98,8% de abstenção!

Em 25 de Agosto, três semanas antes das eleições, alertei o ministro da Saúde — em artigo publicado neste mesmo jornal — para o erro colossal que era levar por diante um processo eleitoral pejado de tantos e tão graves problemas, solicitando-lhe que o suspendesse, dando ouvidos às críticas que iam surgindo de vários sectores.

Face à confirmação de um resultado absurdo, consequência de um desastre anunciado, e a menos que queira entrar para a História como alguém que ratificou os resultados de um arremedo de eleição, só resta ao Ministério da Saúde reconhecer o erro e extrair a única conclusão possível: recomeçar o processo a partir do seu início, começando por nomear uma nova comissão eleitoral para gerir de forma profissional e competente um processo tão complexo como este.

José Mário Martins
Médico Estomatologista; presidente da APCMG – Associação de Medicina de Proximidade