3.10.17

QUANDO EM DÚVIDA, DIGA A VERDADE

Para falar verdade, não recordo a última manifestação em que participei. Não falo de ‘passeatas’. Falo de manifestações em que não era conveniente aparecer de saltos altos ou desembarcar de táxi. Indiscutivelmente, uma das últimas teve que ver com a Rádio Renascença. Deu-se em Lisboa ali ao Chiado e, mal era chegada, perguntaram-me: “Vens para a manifestação?” Com certeza, disse eu. Deram-me um capacete e mandaram-me para o piquete das pedras. As pedras, ao contrário do que sucedia em “A Vida de Brian”, dos Monty Phyton, eram de borla. E, como no filme, os participantes eram maioritariamente barbudos, embora estes fossem de barba rija e não mulheres a querer passar por homens. Indo sem mais rodeios ao assunto: não tendo aparecido ninguém para ser apedrejado, não houve apedrejamento. Ressalve-se: não houve apedrejamento, mas havia pedras. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...” (cito respeitosamente Camões) e passou-se à inversa: não há pedras, mas há apedrejamentos. A lei mosaica ressuscitou virtualmente no mundo civilizado, legitimada agora não pela Torá, mas as mais das vezes pela ‘pós-verdade’, essa expressão que fez parangonas aquando da eleição de Trump e que, como tudo, ao banalizar-se se vai esvaindo de sentido (cf. o caso do political correctness que de tão elástico significa tudo, incluindo o seu contrário). Se fizermos equivaler pós-verdade e propaganda não podemos dizer que a coisa seja nova. Já Goebbels (que por vezes imagino a bater palmas no túmulo...) estava farto de saber que a (boa) propaganda se mede pelo seu êxito sem que a verdade seja chamada à conversa. O que parece fazer hoje toda a diferença é a velocidade da propagação. Se no tempo de Goebbels a medida era a velocidade do som — é difícil imaginar o sucesso das infâmias nazis sem a rádio — nos dias que correm é difícil conceber o sucesso da(s) pós-verdade(s) sem as redes sociais, essa entidade virtual que, no entanto, esbraceja, esperneia, grita e (se for preciso) apedreja com consequências tangíveis. Se lhes somarmos a falência acelerada dos jornais, é lícito interrogarmo-nos sobre a relação entre verdade e palavra impressa. A questão sugere um tema psicológico interessante: será que é mais fácil mentir virtualmente do que num meio com existência palpável? Sendo assim, a quem interessa o desaparecimento dos jornais e dos jornalistas e a redução da informação ao show business?

Ana Cristina Leonardo