8.11.17

Conferência tem de superar saída dos EUA de Paris

Síria anuncia intenção de aderir ao acordo assinado em França na cimeira de 2015.

Parece uma ironia que as conversações do clima desde ano, a COP 23, que arrancaram esta semana em Bona, ocorram a escassos 50 quilómetros de uma das minas de carvão a céu aberto mais poluidoras da Alemanha. Mas é a realidade, talvez a lembrar que na batalha para travar as alterações climáticas há muito ainda por fazer. Uma luta que ganhou ontem mais um apoio: a Síria anunciou a intenção de aderir ao Acordo de Paris contra as alterações climáticas, ficando os Estados Unidos sozinhos na decisão de abandonar o compromisso assinado em dezembro de 2015.

A coincidência já serviu, aliás, para os ambientalistas saírem à rua na antiga capital da Alemanha Ocidental (dos tempos da Alemanha dividida), exigindo o encerramento da mina e o fim da utilização do carvão, que é uma das principais fontes das emissões de gases com efeito de estufa que estão a acumular-se na atmosfera e a causar as alterações climáticas - o CO2 bateu este ano novo recorde, chegando a 403,3 ppm, algo que já não se via há mais de 800 mil anos. Descarbonizar, portanto. É isso, afinal, que está em causa para as próximas décadas. Começar a definir esse roteiro, no âmbito do Acordo de Paris, é a questão em cima da mesa na conferência do clima deste ano.

Ainda a ganhar balanço, depois de ter arrancado na segunda-feira, a COP 23, de Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, tem agora pela frente uma semana e meia de trabalhos, e se tudo correr bem poderá desembocar, no dia 17, num primeiro esboço do que há de ser o programa detalhado para concretizar o Acordo de Paris, que terá de ficar selado dentro de um ano, na COP 24, na Polónia, para começar a ser aplicado a partir de 2020.

Numa conferência que tem a particularidade de ser presidida pelo representante de um dos pequenos estados do Pacífico, os que são mais vulneráveis à subida do nível do mar por causa das alterações climáticas, o primeiro-ministro da República das Fiji, Frank Bainimarama, os participantes terão de unir-se em torno do Acordo de Paris. Esse espírito ficou expresso nestes primeiros dias, quando o presidente da conferência se dirigiu aos delegados, afirmando: "Este é o nosso momento da verdade, para nos unirmos com todas as outras nações e para avançarmos juntos."

Avançar significa começar já a desenhar os mecanismos do Acordo de Paris: estabelecer o esquema para no próximo ano cada país estabelecer metas mais ambiciosas de corte de emissões e definir os mecanismos e os financiamentos para a adaptação e a compensação por danos decorrentes da mudança do clima. Esta é uma COP de transição, mas para ser produtiva terá, no dia 17, de mostrar um primeiro esboço de programa para o futuro.


Filomena Naves

Ler mais em DN, 08-11-2017