20.3.16

Idosos com demências graves em lares são o dobro dos que vivem na comunidade

Coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental sublinha que "as pessoas institucionalizadas correm maior risco de demenciarem". Estudo feito na região Norte vai ser alargado ao resto do país.



A percentagem de idosos que vivem em lares e que sofrem de demências graves é o dobro da encontrada entre os que vivem na comunidade, referem dados preliminares de um estudo realizado na região Norte, financiado pela Direcção-Geral de Saúde. Este será um dos dados constantes do relatório anual que faz o balanço da saúde mental no país e que vai ser apresentado na quinta-feira em Lisboa.

“A percentagem de demências graves em pessoas na comunidade é de 7.8%, valor que duplica relativamente aos residentes em lar, 15.7%”, referem os dados preliminares do Estudo sobre as necessidades das pessoas com demência, realizado por uma equipa do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto. O estudo assenta numa amostra aleatória de 572 pessoas, escolhida entre idosos com problemas de saúde mental na região Norte.

“O que se sabe internacionalmente é que as pessoas institucionalizadas correm maior risco de demenciarem,” sublinha o psiquiatra Álvaro de Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental. Uma das razões é o facto de, quando em contexto de lar, os idosos “deprimirem mais facilmente e de a depressão não tratada potenciar a demência".

A permanência em lares como factor de risco da demência está também ligada ao facto de as pessoas "não serem estimuladas". “Muitos idosos passam a manhã a ver o [programa do] Goucha e à tarde a Júlia Pinheiro. Estão para ali. Suspeita-se também que muitas vezes são sobremedicados com sedativos. As benzodiazepinas também contribuem para o aparecimento das demências.”

Álvaro de Carvalho nota que está mais que provado que é vantajoso em termos financeiros e de saúde mental que é melhor manter as pessoas em meio familiar do que em lares. “Os estudos vão todos dar ao mesmo. Em Portugal continuamos a ter uma atitude tipo avestruz em relação a este problema.”

Nos centros de saúde da região Norte que participaram no estudo foi encontrado défice cognitivo ligeiro em 44,8% dos idosos estudados. Os autores realçam que, nestes casos, “é importante actuar preventivamente para retardar ou impedir a evolução para a demência”.

Este estudo, que agora vai ser alargado às restantes regiões do país, pretende reunir dados científicos para pôr em prática o já há muito falado Plano Nacional para as Demências que, nota o médico, "depende de decisão política" e ainda não tem data certa. Há já muitos anos que a Alzheimer Portugal defende a urgência da sua implementação.

O relatório anual vai também dar conta do aumento aparente do número de suicídios em 2014, tendo-se passado de uma taxa de suicídio de 10,1 por 100 mil habitantes para 11,7 por 100 mil habitantes. O Alentejo, mas também o Algarve, e o centro e interior Norte registam uma maior número de casos, coincidindo estas duas últimas regiões “com zonas com maior índice de ruralidade”.

O psiquiatra lembra que um estudo recente, coordenado pela investigadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra Paula Santana, identificou um aumento de suicídios no centro e no interior Norte de Portugal junto à fronteira com Espanha. O estudo defendeu o desenvolvimento de políticas específicas [de prevenção do suicídio] nestas regiões por parte do Governo, lembra.

Mas Álvaro de Carvalho ressalva que o aumento do número de suicídios pode não ser real, uma vez que o método de recolha mudou – com a introdução da plataforma informática Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) – tendo-se tornado mais exigente.

Os últimos dados estatísticos de mortes por suicídio em Portugal do SICO referem que 1218 pessoas morreram por esta causa em 2014, um aumento de 16% face ao ano anterior. Foram 920 homens e 298 mulheres. O psiquiatra assinala ainda a subida de casos no sexo feminino: 24% de aumento face a 2013. Existe ainda “a percepção”, mas não há dados que o sustentem, de que as mulheres estão a recorrer a métodos mais violentos do que era habitual, nomeadamente, a arma de fogo ou enforcamento, diz.

Catarina Gomes
Público 20.03.2016