28.11.16

O ovo da serpente

Em sociedades onde opinião e interpretação se sobrepõem a tudo, o apego aos factos deixa de contar como recurso de autoridade e passa a ser encarado como uma excrescência


Enquanto “pós-verdade” ganha o prémio de palavra do ano, todos ficamos a perder. Talvez colocar a questão em termos de vitória e derrota seja adequado e, por isso, recupero a declaração de Steve Kerr, treinador de uma equipa habituada a vencer, os Golden State Warriors, no rescaldo da eleição de Trump: “O principal desapontamento com estas eleições foi o nível do discurso. Deve existir algum decoro, respeito e dignidade associados à eleição de Presidente. E foi como se tudo tivesse sido deitado janela fora. Talvez devêssemos ter visto isto a chegar ao longo dos últimos dez anos - quando se olha para a sociedade, quando se olha para o que é popular. As pessoas recebem milhões de dólares para irem para a TV gritarem umas com as outras, seja no desporto, na política ou no entretenimento. Parece-me que era apenas uma questão de tempo até contaminar a política.”

Esqueçamos por um momento o basquete exuberante dos Warriors e as palavras sensatas do seu treinador e atravessemos o Atlântico, até Portugal. Esta semana, as televisões entretiveram-se a passar em loop um filme mudo de uns quantos segundos. Comentário ad nauseam foi dedicado a apurar se o que era expelido da boca do presidente de um clube era apenas vapor ou incluía algo de corpóreo. Que não nos apercebamos da degradação do espaço público que daqui resulta e que esta seja ativamente promovida, em lugar de ser posto um travão ao processo, só pode ter consequências mais vastas, que não se limitam ao futebol. A banalização da vulgaridade terá custos.

Bem sei que não têm faltado análises sofisticadas que visam perceber o crescimento do populismo — fatores económicos, novas clivagens e o regresso de fantasmas que julgávamos terem sido afastados das nossas sociedades (uma vez mais, num sintoma assustador, o antissemitismo reemerge das profundezas do ressentimento). Todas estas causas ajudam a compreender os nossos dias, mas a degradação do espaço público desempenha um papel fulcral.

E, a este propósito, não estamos apenas a repetir a história. Em sociedades onde opinião e interpretação se sobrepõem a tudo, o apego aos factos deixa de contar como recurso de autoridade e passa a ser encarado como uma excrescência. As redes sociais e as caixas de comentários dos media tradicionais transformaram-se em espaços nos quais as pessoas, enquanto desistiram de ler, não se coíbem de opinar, reforçando preconceitos e alimentando uma ilusão de participação. Este novo mundo pós-factual representa uma derrota da racionalidade e uma vitória dos discursos contraditórios, que perderam a urbanidade e abdicaram do conhecimento como pré-requisito para a formação de um espaço público liberal.

Hoje discutimos se o que foi expelido num túnel de um estádio era vapor ou escarro. Não demorará muito a que a política seja debatida nos mesmos termos. Porventura já o é. Nem a liberdade nem a democracia vão resistir à ofensiva.

Pedro Adão e Silva
Expresso, Opinião 19.11.2016