Hoje temos direito a dizer obrigado e a responsabilidade de não nos extinguirmos num lamento
O que nos dói se choramos? Que parte do nosso corpo descarnou subitamente? O que nos falta se ele nos deu tudo o que era? Se não há tragédia nem surpresa? É o adeus. O adeus dói. Mário Soares morreu hoje e hoje autorizamo-nos à emoção da perda. Virá a análise, virá o obituário, virá até o futuro, mas o nosso primeiro sopro depois do seu último é este que dói.
Mário Soares foi o maior. O maior político, o maior português do século XX, o lutador mais permanente pelas liberdades democráticas, o homem que nunca quebrou, como se sempre soubesse que a conquista da liberdade era certa e a sua prevalência é incerta.
O pensamento é sempre livre mesmo na reclusão forçada. Mas Soares fez do pensamento o prefácio da ação, impaciente por fazer e paciente pela vitória desse fazer. Como se a sua força tivesse vontade própria. Talvez por isso nos pareça que nunca se sacrificou, mesmo se foi perseguido, preso, deportado, exilado. Talvez porque ele era sempre vida, fosse na zanga do confronto, na calma do debate ou na alegria surpreendente daquela gargalhada larga.
| João Carlos Santos |
Hoje temos direito ao nosso luto, a banalidade da morte não pode aplanar a excecionalidade de uma vida. Hoje temos direito a dizer obrigado e a responsabilidade de não nos extinguirmos num lamento. Hoje temos a obrigação de não diluirmos a nossa posição entre prós e contras, argumentado um equilíbrio que seja uma forma de relativismo. A neutralidade é uma covardia. Soares nunca foi neutro. Portugal não poderá ser neutro em relação a Soares, ou sê-lo-á em relação a si próprio.
| João Carlos Soares |
Pedro Santos Guerreiro
Expresso 07.01.2017
http://expresso.sapo.pt/politica/2017-01-07-A-alegria-de-termos-vivido-contigo-somos-livres-Soares
