29.1.17

O Ronaldo das piscinas tem 89 anos

É o mais velho nadador de sempre a competir em provas federadas. À beira dos 90 anos treina três vezes por semana durante uma hora. O “bichinho da água” não o larga. Ele que em novo não foi um atleta de eleição é agora um campeão nacional e um recordista.



Ronaldo é dos jogadores mais rápidos do mundo. Poiares Baptista não é, de longe, quem nada mais depressa. Ronaldo desde jovem que é o melhor ou pelo menos dos melhores do planeta. Poiares Baptista nunca esteve lá perto. Ainda assim, é como “Ronaldo das piscinas” que é conhecido pela família. Depois de meio século afastado da água das piscinas, regressou às competições aos 80 anos e começou a ganhar provas atrás de provas e a bater recordes nacionais.

António Poiares Baptista vai celebrar 90 anos em Setembro deste ano. Há um mês, atingiu um marco histórico: tornou-se no mais velho nadador de sempre a entrar em competições de natação em Portugal. Na Mealhada, no início deste ano, estabeleceu dois recordes nacionais.“Nunca pensei chegar a esta idade e andar a bater recordes”, confessa o atleta da Académica de Coimbra.

Este fim-de-semana, deverá ganhar tantos títulos nacionais quantas as provas que nadar em Sines. É o único, este ano, a nadar no escalão para atletas entre os 90-94 anos nos campeonatos nacionais “masters” de natação, nos quais competem os nadadores com mais de 25 anos.


“Os meus filhos até gozam comigo e chamam-me o Ronaldo das piscinas”, diz António, sonorizando a frase com uma gargalhada. “Não me zango e enquanto eu andar aqui não os ando a chatear”, brinca.

De nadador mais ou menos em novo a campeão em velho

Na vida foi várias vezes vencedor ou o primeiro: é ainda hoje o único clínico português inscrito na Academia Francesa de Medicina; terminou o curso de Medicina com uma das melhores classificações da época, superior a 18 valores; tornou-se no primeiro especialista em Dermatologia em Coimbra. Numa vida cheia e de sucesso, foi ainda director do Hospital Universitário de Coimbra e vice-reitor da Universidade de Coimbra.

Na natação nem sempre foi assim. Ainda é do tempo (década de 1930) em que o único sítio onde se podia nadar em Coimbra era numa piscina de madeira junto a uma margem do Mondego que só era montada no Verão. No Inverno não havia.

Poiares Baptista assume que era um nadador mediano. “Quando andava no liceu nunca ganhei uma prova, nunca fui grande nadador, não deslizava. E mesmo agora continuo a não deslizar como deve ser”, admite.

Acabou o liceu, foi para a faculdade, viajou para França onde se casou, teve uma carreira brilhante. E assim se passaram 50 anos. Não voltou a nadar regularmente. Até que se jubilou e, como ele refere, “o cutelo da idade” fez com que tivesse de deixar a universidade e o hospital. O tempo precisava de ser preenchido e meteu lá dentro a ida às piscinas. Era bom para o corpo. A imaginação ficou para a pintura e o estudo para os livros da história da Dermatologia.


Para quem nunca parou durante toda a vida, também não foi a velhice a consegui-lo. Começou por ir nadar uma vez por semana. Era o seu momento de paz. “Estamos sozinhos, não falamos com os companheiros e se falamos com alguém morremos. Andamos sozinhos e pensamos que temos de fazer isto ou aquilo. É um momento de reflexão.”

O bichinho da competição

Os ex-colegas da Académica de Coimbra que pertenciam à equipa de “masters” (destinada a atletas com mais de 25 anos) desafiaram-no a juntar-se a eles. Muitos até foram alunos dele na faculdade.

“No início, ia uma vez por semana. Depois, comecei a entusiasmar-me. Passei a vir duas vezes. E depois de ser campeão senti-me obrigado a vir três vezes por semana”, explica. É o estatuto que obriga? “Não, é o bichinho. Podia vir todos os dias, mas venho três vezes por semana. E ando aqui para trás e para diante, em regra nado 1.200 a 1.300 metros, uma hora. Faço umas piscinas em crawl e outras em bruços”, diz.

Há quase um milhão de portugueses com mais de 75 anos e poucos serão os que fazem desporto. A constatação leva normalmente a fazer a pergunta sobre a fórmula para se conquistar o lugar de excepção.

Poiares Baptista faz, primeiro, o diagnóstico do fenómeno. “Ainda há a ideia de que a pessoa a partir dos 70 ou 75 anos é velho e o velho é para pôr de parte. Felizmente, isso está a mudar. Estou convencido de que se uma pessoa não exercer qualquer actividade depois da reforma afunda-se. Enquanto tiver pernas para andar e cabeça para pensar, vou andar por aqui”, conclui.

A receita? Qual receita?

Depois, a receita. A resposta desarma: não existe receita. “Sempre fiz uma vida normal. Nunca fiz dieta nenhuma, só procurava não engordar. Quem queria namorar tinha de ser elegante [risos]”, resume.

“O meu colesterol e a minha glicemia? Não sei. Já não faço análises há quatro ou cinco anos”, atira ao mesmo tempo que recorda os almoços com os amigos da juventude dos quais já restam apenas poucas dezenas. “Dizem-me sempre: ‘E a bengala, pá?’ Felizmente não preciso”, sorri.

António fica admirado com tudo o que lhe está a acontecer. “Dá-me a sensação de que vou ser mais conhecido por bater recordes do que por ter sido professor universitário, director da Faculdade de Medicina, vice-reitor e presidente dos Hospitais da Universidade de Coimbra.”


A segunda estupefacção tem que ver com ele próprio. “Isto nunca me passou pela cabeça. Chegar a esta idade e andar a bater recordes, e essas coisas... Mas dá-me um certo gozo”, reconhece.

Ao entrar no Complexo Olímpico das Piscinas de Coimbra percebe-se que ele faz parte da família. As funcionárias cumprimentam-no e metem-se com ele devido ao interesse dos jornalistas na história. São pouco mais de 11h00 e Poiares Baptista encontra os companheiros de braçadas.

O frio não o atrapalha. “Não gosto de entrar na água devagarinho. É logo tudo de uma vez. Saltar lá para dentro”, atira.

Vossa excelência já ia levando falta

Olha para a pista ao lado e parece-lhe reconhecer uma cara conhecida. “Não vejo bem, mas pelo barrete [touca] parece… Já sei, é o juiz Serafim”. O jurista, cerca de 20 anos mais novo, chega ao cais e logo inicia a conversa.

-“Seja bem-vindo. Já lhe ia marcar falta”.

- “Vamos embora?”, pergunta António antes de saltar.

- “Já estava à espera de Vossa Excelência”, afirma o juiz Serafim.

- “Obrigado, Vossa Excelência. Não está cá mais ninguém?”, diz, com uma elegância quase fidalgal, Poiares Baptista.

- “Hoje somos só nós, isto está por conta dos velhos.”


O homem de 89 anos entra na água e vê-se que os ensinamentos com mais de 70 anos ficaram. O estilo está lá e a velocidade cruzeiro faz inveja a nadadores mais novos que por ali andam.

Uma volta para lá, outra para cá, a primeira paragem. Normalmente faz 500 metros de seguida, mas desta vez encurta para falar connosco. Fica muito cansado a nadar? “Depende do dia, hoje por acaso não estou num dos meus dias”, responde. Revela que não treina à tarde com o resto da equipa da Académica de Coimbra porque prefere ir bem mais cedo.

“De manhã o meu trabalho intelectual não rende e gosto de ter tempo até à 1h00 para estar a ler ou pintar”, diz.

Sem cambalhotas e sem rodeios

Confessa que não salta do bloco, nem dá a cambalhota. “Desequilibro-me, uma vez tentei e fui parar à outra pista”, conta.

António mantém-se muito cioso das capacidades que tem para fazer o que quer que seja e crítico em relação aos outros. Não quer fazer nada para a qual já não tenha capacidade.

“Competir é fazer o melhor, quando andamos a arrastar-nos andamos a fazer o quê?”, questiona.


Mas continua a valorizar uma boa competição. O seu maior rival é Leonel Gomes, nadador do Algés e Dafundo, de 86 anos.

“Ele é mais pequeno do que eu, mas é três anos mais novo. Quando ele entra no meu escalão [na natação ‘master’ os atletas competem por categorias etárias], papa-me os recordes, o que é natural porque ele arrasta muito menos peso do que eu tenho. Eu tenho de arrastar 80 quilos, ele só 70”, diz. Segue-se uma bela gargalhada de “fair play”.

António pontuou toda a conversa de mais de duas horas com sonoras risadas, como se tudo lhe desse vontade de rir ou sorrir. Uma atitude perante a vida?

A impressão deu origem a uma pergunta ainda à volta das receitas para a longevidade. “Sempre fui bem-disposto. Eu e os meus colegas, já somos poucos, rimo-nos com isso. Não sou um indivíduo tristonho, isso não.”

João Carlos Malta , Joana Bourgard (fotografias)
Renascença 27.01.2017