23.3.17

A Europa que faz sentido

Ao recordar, um ano depois, os atentados de Bruxelas, a Europa viu-se novamente atacada. No momento em que a Grã-Bretanha se prepara para nos deixar não podia ser mais Europa, na solidariedade que lhe é devida, na luta contra o terrorismo, que é uma luta de todos.

Fica pequena a discussão sobre o Norte e o Sul da Europa, com base nas baboseiras que disse Jeroen Dijsselbloem, assente no preconceito de que há uns eleitos que, fazendo parte do pelotão da frente, estão a ser atrasados por quem não quer assumir responsabilidades. A Europa que é atacada é a Europa mais desenvolvida, em Londres, em Paris, em Bruxelas... Mas quando a Europa rica é atacada, é toda a União que é atacada. E não será de modo diferente quando o brexit for consumado. O Reino Unido será sempre parte desta ideia de liberdade e solidariedade.

Esta é a Europa que faz sentido, assente na ideia de liberdade em que todos queremos viver. Não há maneira de erradicar os ataques terroristas, menos ainda quando eles são concretizados por lobos solitários. Temos de insistir na ideia de liberdade, de solidariedade entre todos os que fazem parte da União Europeia, mas também com os que estão fora.

A Europa que faz sentido é a que tem orgulho do caminho percorrido, a Europa que não retrocede nas conquistas civilizacionais com medo dos que apostam no terrorismo para tentar provar que o mundo não pode ser livre e solidário.

Como dizê-lo? Se, cada vez que nos atacarem, nos pusermos a defender a necessidade de reduzir a liberdade de circulação e a liberdade de expressão, poderemos criar uma sensação momentânea de maior segurança, mas estaremos a destruir o modo de vida europeu. Um modo de vida que sobrevive aos populismos, à parvoíce de Dijsselbloem, que sobrevive até aos preconceitos entre gente do Norte e gente do Sul. Ainda assim, a Europa não se vai unir em torno de um projeto de vida só porque um dos seus foi atacado, outra vez, e isso só pode significar que os terroristas estão a vencer. A Europa que faz sentido não é a das declarações de circunstância.

Paulo Baldaia
DN 23.03.2017