28.4.17

A GBU-43/B e uma cidade basca num quadro de Picasso

Uma similitude política, outra militar, a reforçar a ideia essencial, e perigosamente esquecida, de que o conhecimento do passado é o que melhor ilumina o presente e o futuro. A que podemos acrescentar mais duas evidências negligenciadas: 1937 ou 1939 não foram assim há tanto tempo e o Afeganistão não é assim tão longe


Ainda antes da Páscoa, na mesma semana em que os noticiários davam conta do lançamento, pelos norte-americanos, da “mãe de todas as bombas” no Afeganistão, algumas páginas culturais de jornais e revistas lembravam que em Madrid, no Museu Rainha Sofia, era inaugurada a exposição “Piedade e Terror em Picasso: o Caminho até Guernica”. Pelos mistérios da associação de ideias, o lançamento da GBU-43/B, nestes princípios do séc. XXI, sobre terra e pedras e algumas dezenas de militantes do Estado Islâmico – ao que parece, trata-se da mais potente bomba não nuclear até agora construída, e os americanos tê-la-ão experimentado por estes dias “em cenário real” e “com êxito” – fez-me pensar no destino de Guernica em abril de 1937. Parece que abril pode ser um mês calhado para bombardeamentos, seja neste, seja no século passado. Como diria o outro, farsas e tragédias estão sempre a repetir-se.

Bem sei que são situações completamente diferentes, o Afeganistão de agora e a Espanha dos anos 30 do século passado. Sei bem que o Estado Islâmico e a resistência republicana a Franco nada terão que ver um com a outra. Et cetera. Não é daí que vem a associação de ideias. Vem de outras similitudes, porventura mais elaboradas, mas bem mais importantes. Duas, mais exatamente, uma similitude política, outra militar – e uma e outra a reforçar a ideia essencial, e perigosamente esquecida, de que o conhecimento do passado é o que melhor ilumina o presente e o futuro. A que podemos acrescentar mais duas evidências negligenciadas: 1937 ou 1939 não foram assim há tanto tempo e o Afeganistão não é assim tão longe.

A similitude política leva-nos a pensar em nacionalismo, isolacionismo e outros ismos, e em demagogia – coisas que teimam em atravessar os tempos e em contaminar os lugares, como se fossem vírus resistentes e insinuantes. E a similitude militar conduz-nos ao experimentalismo. Por muito que, com “generosidade” intelectual ou geopolítica, se possa dizer ou pensar que era preciso lançar esta bomba contra o terrorismo, um ignorante destas coisas como eu duvida, e parece-me que há aqui uma dose tão grande de experiência quanto de simbolismo e aviso. Ora, a Legião Condor alemã, com apoio italiano, bombardeou durante horas a pequena cidade basca de Guernica, causando um número de mortos que ainda hoje não está determinado. O ataque, para além do alegado objetivo que teria no que toca ao curso da Guerra Civil Espanhola, tinha como grande fito constituir um ensaio para a aviação e, também, para a colaboração entre as tropas alemãs e italianas, cujo belicismo ia em crescendo. Correu bem o ensaio, e Guernica foi, desse ponto de vista, “um êxito”. E cerca de dois anos depois começou a II Guerra Mundial, e o resto é (será?) História. Existe o celebrado cliché que nos diz que não devemos regressar a lugares onde fomos felizes. Talvez seja verdade, não estou certo. Mas estou seguríssimo de que não devemos repetir os motivos da nossa infelicidade.

Rui Patrício