31 de agosto de 2020

Covid-19. É "uma bancarrota moral": diretor-geral da OMS condena a desvalorização da morte de idosos

 "A morte dos nossos idosos é uma bancarrota moral", afirmou, enfatizando que "aceitar que a morte dos idosos não é tão importante é a maior baixeza moral". "Não podemos permiti-lo, temos que cuidar uns dos outros", sustentou."Temos de fazer tudo ao nosso alcance para nos protegermos e para protegermos os outros", acentuou, reiterando o apelo à solidariedade de todos os países para travar a pandemia, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde 


  O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) condenou esta segunda-feira a desvalorização da morte de idosos por covid-19, considerando o falecimento dos mais velhos "uma bancarrota moral" e que é preciso "cuidar uns dos outros". Tedros Adhanom Ghebreyesus falava na habitual videoconferência de imprensa transmitida da sede da OMS, em Genebra, na Suíça.




  "A morte dos nossos idosos é uma bancarrota moral", afirmou, enfatizando que "aceitar que a morte dos idosos não é tão importante é a maior baixeza moral". "Não podemos permiti-lo, temos que cuidar uns dos outros", sustentou.
 

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https://expresso.pt/coronavirus/2020-08-31-Covid-19.-E-uma-bancarrota-moral-diretor-geral-da-OMS-condena-a-desvalorizacao-da-morte-de-idosos?  
 

 

21 de agosto de 2020

Velhos e sem dentes

Daniel Deusdado
Morrer num lar, em circunstâncias miseráveis, deve ser o pior pesadelo que se pode ter sobre o fim da vida. Talvez não haja pobreza maior que esta. Mas sabemos que é o reflexo de um país onde as famílias tentam sobreviver desesperadamente para pagar contas e onde não há nem tempo, nem espaço, e às vezes nem saúde, para cuidar dos mais velhos.
Sabe-se que há bons lares, há os mais ou menos e há a maioria - sítios onde qualquer pessoa não gostaria de ficar dependurado até parar de respirar. A tragédia de Reguengos de Monsaraz é, por isso, uma possibilidade real, quotidiana, desta vez detetada por força da atenção da covid e do elevado número de vítimas em simultâneo. Um acaso.
Todos sabemos qual a solução dada ao problema: mais dinheiro do Orçamento para haver mais gente a apoiar os utentes. É bom, mas apenas um curativo mínimo numa ferida gigantesca. Realmente, a verdadeira solução, mais justa e transversal, seria aumentar o valor das pensões de sobrevivência (e das outras pensões de valores mais baixos). Isso tornaria possível que houvesse outras condições económicas para que muitos idosos, afinal, não tivessem de sair de suas casas ou da casa das famílias e pudessem ter, até, prestadores de cuidados no seu próprio domicílio. Contudo, se os lares fossem a melhor ou única solução, as pensões dessas pessoas financiariam de forma mais adequada as suas permanências nessas instituições


Ler mais aqui: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/daniel-deusdado/velhos-e-sem-dentes

17 de agosto de 2020

Pandemia e deveres humanos

Os tempos do pós-pandemia apresentam-se indecifráveis e pressente-se um clima de aumento de perigos. A incerteza e a insegurança tornam-se mais profundas para a maioria dos seres humanos, à medida que persistem políticas que nos convidam a fugir para o passado.

 A pandemia surgiu como um ferimento num corpo e infetou mais do que era previsível. Porém, para além disso, a pandemia realçou males bem maiores que tolhem o futuro da Humanidade. O modelo de desenvolvimento dominante é insustentável. Não sabemos até quando uma ínfima minoria de seres humanos será capaz, como acontece hoje, de se apropriar da riqueza e do poder impondo à esmagadora maioria injustiças e sofrimento através da intolerável apropriação de poderes e instrumentos dos estados, da violação de deveres jurídicos e obrigações éticas. Entretanto, não será necessário regressarmos à visão do mundo como mistério absoluto, para concluirmos que a Natureza não se submeterá à arrogância e agressões com que tem sido tratada e nós, humanos, somos de corpo frágil carregado de limitações.
O combate articulado pelos Direitos Humanos e por compromissos que procuram salvaguardar a relação metabólica Homem/Sociedade/Natureza tornou-se uma premência e um dever muito desafiador: não como sobrecarga de exigências às pessoas, já massacradas pelo sistema que as isola e responsabiliza por tudo, mas sim colocando cada ser humano como o sujeito de direitos de que não abdica.


Texto publicado na página do Facebook da autora

Carmen Garcia
Corria o ano de 2010 e eu, para além do trabalho no hospital, acumulava umas horas num lar cujo nome não importa para o caso.
Um dia, em pleno Julho, com temperaturas muito elevadas, apercebi-me que não estávamos a conseguir hidratar convenientemente os nossos utentes. Como a administração não permitia que se ligasse o ar condicionado fora da hora das visitas, a temperatura na sala onde a maioria dos idosos passava parte do dia era assustadoramente elevada. Vai daí tive uma ideia. Pedi que fosse comprada uma garrafa de água pequena para cada idoso e fiz um rótulo personalizado para cada uma, com o nome e um desenho de alguma coisa que permitisse ao dono identificá-la (uma boa parte dos nossos idosos não sabia ler). Depois combinei com todos que no período da manhã queria ver as garrafas ficarem vazias e a mesma coisa no período da tarde. Parecendo que não, só isto já me garantia que cada um ingerisse meio litro de agua por dia, fora do período das refeições.
Deixem-me dizer-vos que estamos a falar de menos de cem utentes e de garrafas que devem custar cerca de quinze cêntimos. Mas o que é que eu fui fazer? Só vos digo que esta ideia me custou uma chamada "ao gabinete" e um puxão de orelhas por parte da direcção. Gastava-se dinheiro (mesmo que a garrafa fosse sempre a mesma e cheia na torneira), dava trabalho, alguns velhotes entornavam, não sei quem tinha feito queixa, enfim... Argumentos completamente idiotas que fizeram com que a minha ideia estivesse em prática menos de uma semana.
Um mês mais tarde, em meados de Agosto, estava eu novamente de serviço e um utente veio dizer-me que queria ir para a horta. Reparem, era um homem de 84 anos, que toda a vida trabalhou no campo e era ali que encontrava a felicidade. Como o sol estava forte e ele tinha um sinal estranho no nariz, coloquei-lhe no rosto um protector 50+ que encontrei no armário. Não sei quem mais viu, mas sei que menos de uma hora depois estava de volta ao gabinete a ouvir gritos enfurecidos. Porque o protector é caro, porque tinha que ser bem gerido, porque o senhor tinha oitenta e tal anos... Olhem, já nem sei. Sei que, para mim, foi a gota de água e que tomei ali mesmo a decisão de me despedir.
E serve este relato para quê? Para vos dizer que, em Portugal, a maioria dos lares funciona francamente mal. Quem os gere está quase exclusivamente preocupado com números e é muito difícil romper com práticas hediondas que, por serem tão comuns, passaram a ser encaradas como normais.
Por mais que os estudos nos mostrem que as imobilizações não diminuem o risco de quedas e acidentes, um número gigante de idosos continua a permanecer dias inteiros amarrado a cadeiras de rodas e cadeirões. Por mais que se fale em respeito pela individualidade de cada um, há centenas de camaratas de seis e oito camas espalhadas pelos lares deste país. Por mais que se abomine a infantilização e se fale na sabedoria da idade, milhares de idosos são tratados como crianças incapazes de decidir por si mesmas.
A maioria dos lares deste país tem funcionárias incríveis, acreditem. Mas em número muito inferior ao mínimo admissível. E elas correm de um lado para o outro, num trabalho com uma carga física brutal, mas é impossível chegarem a todo o lado. Os rácios de enfermeiros também são coisa que não passa do papel, porque na prática os enfermeiros são poucos, forçados a trabalhar sem condições e mal pagos.
Eu cá, se fosse a ministra, dava um olhinho ao relatório de Reguengos. E pedia aos serviços distritais de Segurança Social que levassem a sério as queixas que lhes chegam diariamente. Também deixava de fechar os olhos a tudo e mais um par de botas porque, afinal, temos que escoar os idosos para qualquer lado.
É que os idosos são, não só o lugar de onde viemos, mas também o lugar para onde vamos. E merecem, eles e nós, muito melhor do que aquilo que lhes damos neste momento.

15 de agosto de 2020

"Alma Grande" A crónica do convidado MARIA DO ROSÁRIO GAMA "Não é fácil envelhecer!"


Rosário Gama
A presidente da Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados (APRe!) escreve sobre o impacto da pandemia entre as pessoas mais velhas e lamenta a segregação de que estão a ser alvo a pretexto do vírus
«Já devíamos estar habi­tuados a este caminho que começamos a percorrer ainda antes do nascimento! À pressa que temos em ter mais idade quando somos jovens, segue-se, por contraste, o desejo de que o tempo não passe tão depressa quando o vemos a passar cada vez mais rápido. Raramente pensei no que seria ser velha quando estava na vida activa, cheia de sonhos e de projectos e com muita energia para os concretizar.
Mas chegou a idade de “sair de cena” e de colocar um ponto final na actividade profissional até então desenvolvida. Foram significativos os efeitos dessa mudança nas relações sociais: a percepção de que os outros passam a olhar-nos de modo diferente, avaliando-nos de outra maneira, a tendência para uma desvalorização social baseada na imagem até então construída, com base no reconhecimento profissional... Os efeitos psicológicos não são menores: progressivamente, amigos e colegas vão partindo, os filhos casam-se e seguem a sua vida, os núcleos familiares refazem-se, tem-se a sensação de uma progressiva solidão familiar e social, que se vai instalando, a par de um futuro cada vez mais exíguo... Há ainda os efeitos na saúde: manifestam-se as progressivas debilidades fisiológicas que diminuem o bem-estar pessoal, surgem os constrangimentos físicos que nos fazem ter consciência aguda dos nossos limites... Estas sensações são muito significativas (e variáveis nos seus efeitos) em cada projecto de vida, mesmo quando ainda nos sentimos saudáveis e apesar de termos a noção do aumento da esperança média de vida.
Foi posta em causa a autodeterminação dos mais velhos, como se não tivessem capacidade de se proteger e de proteger os outros
A minha geração foi uma geração corajosa que viveu e lutou contra a ditadura e a guerra colonial, que a contestou com risco de vida, combatendo ou desertando, que lutou nas universidades, nos campos, nas fábricas, que contribuiu com essas lutas para a revolução de Abril. Hoje, apanhados de surpresa pela “onda gigante” que se abateu sobre nós, sobre as nossas famílias, sobre o país, sobre o mundo, vemo-nos confrontados com um inimigo sem rosto que alterou profundamente o nosso modo de viver. De um momento para o outro, fomos chamados a reaprender tudo o que pensávamos já ter aprendido e a rever os nossos conceitos de comunicação, de solidariedade, de partilha e de confiança. A vulnerabilidade associada à idade constituiu argumento para discursos segregadores e práticas discriminatórias, tendo mesmo sido anunciado um possível confinamento até à existência de uma vacina que permitisse um regresso a uma pretensa normalidade. Este preconceito contra a idade — idadismo —, apesar de não ter evoluído para medidas concretas, causou efeitos psicológicos difíceis de ultrapassar. Foi posta em causa a capacidade de autodeterminação das pessoas mais velhas, como se elas, autónomas e conscientes, não tivessem capacidade de se proteger e de proteger os outros. Assim, é de saudar a reabertura faseada dos centros de dia, a iniciar-se neste sábado, dia 15 de agosto, com a segurança necessária, para que não tenhamos de assistir a relatos como os que têm sido divulgados sobre lares, em que surtos epidémicos com alguma gravidade causaram um número significativo de contaminações e de óbitos, quer entre os residentes quer entre as/os profissionais que ali trabalham.
O confinamento sem fim à vista é o caminho mais curto para a demência ou para uma sentença de morte antecipada
O caso mais paradigmático é o de Reguengos de Monsaraz, onde a falta de cuidados oportunos, cuja responsabilidade está em investigação, terá provocado a morte de pessoas idosas, não pela covid-19 mas por causas atribuídas ao abandono a que foram sujeitas. Apenas 2% do universo total de lares foi notícia, devido à facilidade de propagação do vírus e suas consequências.
Contudo, tem sido dada pouca atenção aos utentes da generalidade dos lares, que, desde o início de Março, se encontram em regime de “prisão domiciliária”, impedidos de sair para um passeio ou um qualquer encontro, no uso da sua autonomia e de todas as suas capacidades. Um tal confinamento contribuiu para um agravamento da sua saúde mental e da sua própria segurança, uma vez que a redução forçada da sua mobilidade aumenta o risco de acidentes. Esse “resguardo” a que estão sujeitos não lhes permite sequer a proximidade física com familiares, muito menos “as mãos entre as mãos” ou o abraço calmante das angústias que os atormentam. A perspetiva dum período de quarentena para alguém que persista em sair, por manifesta vontade ou por vontade dos familiares, é desmotivadora.
Ao não se vislumbrar o fim da pandemia no curto prazo, continuaremos a manter esta “prisão”, com todas as consequências físicas, psicológicas e cognitivas que já se fazem sentir? O confinamento sem fim à vista e sem medidas complementares não é solução, muito pelo contrário, é o caminho mais curto para a demência senil ou para uma sentença de morte antecipada para idosos que hoje têm autonomia. Ele configura um grave atentado aos Direitos Humanos, consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição da República Portuguesa, se não forem encontradas soluções alternativas que conjuguem a proteção sanitária com a liberdade de comunicar e de conviver. Este quadro de angústia e de incerteza exige uma profunda reflexão sobre o que se passou de menos positivo, para se retirarem daí as melhores soluções para o futuro. Vamos, em primeiro lugar, evitar discursos estigmatizantes sobre as pessoas mais velhas em geral e, sem deixar de cuidar delas devidamente, seguindo as normas sanitárias recomendadas pela DGS, não repetir práticas de isolamento e de confinamento desnecessárias e traumatizantes que só podem provocar o pânico e a instabilidade emocional. Para isso, é necessário preparar estratégias eficientes, em diálogo com os dirigentes ou representantes das instituições, para as proteger dos contágios com origem no exterior e que ali se podem multiplicar. Os hospitais de retaguarda ou unidades de cuidados continuados integrados devem receber as pessoas infectadas, mesmo não tendo sintomas graves. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem de ser reforçado em meios humanos, técnicos e financeiros, de modo a que, em todas as suas valências, se articule eficientemente com as unidades de acolhimento de pessoas idosas. As respostas da Segurança Social têm de ter o devido suporte financeiro da parte do Orçamento do Estado e dos fundos europeus, para que pandemias ou emergência sociais futuras, sanitárias ou outras, não coloquem em causa a sua sustentabilidade.
Perante a liberdade que nos foi retirada, não abdicamos de ser mulheres e homens livres! Continuaremos a lutar por melhores condições de vida para as pessoas idosas!»

Maria do Rosário Gama escreve de acordo com a antiga ortografia

Expresso - 15.08.2020

10 de agosto de 2020

Vamos sequestrar os velhos por quanto tempo?

Luís Aguiar - Conraria





 
 
Esta ausência de choque com a morte de velhos abandonados à sua sorte mostra que não eram eles a nossa preocupação quando tirámos as crianças e jovens das escolas e nos enfiámos em casa. Mostra também que tão perigoso como a covid (ou, na verdade, mais) é o nosso medo 
 
Ainda nos idos de março, estava a pandemia no início, fiquei comovido com a forma como os portugueses se mobilizavam para proteger os seus mais velhos e doentes, que são os principais grupos de risco da covid. Rapidamente passou a comoção. Dada a histeria coletiva e a perceção totalmente distorcida do risco envolvido com a doença, convenci-me de que, afinal, a generalidade dos portugueses estava era preocupada consigo mesma ou, vá lá, com os seus familiares. Nada disto é científico, claro, eram perceções.

A reação pública, ou a falta dela, às mortes no lar de idosos de Reguengos de Monsaraz aumenta a minha convicção. Nesse lar houve um surto de covid, vários foram os infetados, não apenas entre os idosos, e acabaram por morrer 18 pessoas. No entanto, ficámos a saber, a maioria das mortes não resulta dessa doença, mas sim da falta de cuidados médicos. Os velhos morreram desidratados e, quando finalmente receberam assistência médica, tinham as suas doenças crónicas agravadas. Morreram porque foram abandonados à sua sorte. O que se seguiu? Gritos histéricos nas redes sociais? Não. Gritos histéricos dos partidos da oposição? Não. Palavras de conforto de Marcelo Rebelo de Sousa? Não. Mensagem grave, em direto para o telejornal das 20h, da Ministra da Saúde, da diretora-geral da Saúde ou da ministra do Trabalho e da Segurança Social? Não. Admito que me possa ter falhado alguma notícia, mas de facto não assisti a nenhuma comoção nacional. Nem pouco mais ou menos. Apenas nos disseram que o Ministério Público ia abrir um inquérito.

Esta ausência de choque com a morte de velhos abandonados à sua sorte mostra que não eram eles a nossa preocupação quando tirámos as crianças e jovens das escolas e nos enfiámos em casa. Mostra também que tão perigoso como a covid (ou, na verdade, mais) é o nosso medo. Mostra também o quão certeiro foi o Gato Fedorento quando em 2007 nos disse que os velhos não deviam ser despejados nas ruas, mas sim no Velhão, “o sítio onde deitamos os velhos fora quando já não precisamos deles.” Neste momento, muitos velhos estão num regime de sequestro nos lares de terceira idade. Não podem, de facto, sair, porque se saírem a sua reentrada está vedada. Não podem receber visitas a não ser à distância, pelo que não podem sentir sequer um toque ou um carinho dos seus filhos. 

Como as visitas estão altamente condicionadas, a sua frequência é agora muito menor, apenas podendo ver os seus familiares de forma muito espaçada. Pelo menos em alguns lares, não sei se todos, a entrada está vedada a crianças até aos 12 anos de idade, pelo que nem grande parte dos netos podem ver.

O caso de Reguengos de Monsaraz leva-me a desconfiar que todas estas medidas não são para proteger os velhos, mas sim para preservar os responsáveis dos lares de eventuais chatices. Assim, podem sempre alegar que fizeram tudo o que era possível.

Não sei se não seria preferível a morte a tal sorte. De qualquer forma, seja com que intenção for, está na altura de perguntarmos com cada vez mais insistência: e se não houver vacina eficaz? Vamos manter os velhos sequestrados no lar durante quanto tempo? Até deixarem de reconhecer os netos?»

https://expresso.pt/opiniao/2020-08-10-Vamos-sequestrar-os-velhos-por-quanto-tempo


Idosos sozinhos à espera de reabertura de centros de dia. “Se estou triste? Estou. Isto anda muito difícil”

Reabertura dos Centros de Dia,  reportagem  da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira, com fotografias de Paulo Pimenta.
 
Centros de Dia preparam-se para começar a abrir a partir de dia 15. No Centro Social de São Martinho de Aldoar, no Porto, como em muitos outros, houve um esforço para domiciliar os serviços mais básicos, mas isso não apagou os efeitos do isolamento prolongado.




 É assim há quase cinco meses. “Sou muito pouco de ir à rua”, diz, numa voz vagarosa e profunda. “Sou muito caseira. Limpo a minha casinha. Trato da minha pessoa também. Faço um bocadinho de croché. Penso muito.”
Uma enorme imagem de Maria parece guardar a entrada no pequeno apartamento térreo, no bairro das Campinas, na zona Ocidental do Porto. À esquerda, o quarto limpo e arrumado. À direita, a sala. No armário, molduras com fotografias de filhos e netos sorridentes e bem vestidos. Na mesa, folhas espalhadas. Conforme vai pagando as contas que lhe vão chegando, vai estendendo os papéis ali, para se lembrar que aquelas estão despachadas.
O silêncio pode tornar-se ensurdecedor. Estão longe os filhos desta mulher de 71 anos, que viveu grande parte da vida na Venezuela. Mora um filho na ilha da Madeira, uma filha em Madrid e outro filho nos arredores dessa cidade espanhola. E cada um é capaz de estar sem lhe telefonar uma, duas, três semanas. Por vezes, ainda pergunta à filha: “Porque não chamas?” “Porque sei que estás bem”, responde-lhe.
“Tive uma depressão muito grande”, revela, convidando quem chega a sentar-se nas cadeiras que rodeiam a mesa. “Fiquei muito mal. Ainda estou lutando contra isso. Devo ao centro a minha saúde. Foi muito bom para mim entrar nessa casa. As senhoras falam. A gente vê as senhoras a falar. Falamos de tudo um bocadinho – do nosso passado, da nossa juventude. Cantamos. Brincamos umas com as outras. Às vezes, até nos arreliamos. Mas é muito bom.”
Há quem esteja sentado, para ali, a cabecear em frente ao televisor, mas há muito que fazer no Centro Social de São Martinho de Aldoar - ginástica, sessões de cinema, de discos pedidos ou de leitura, culinária, pintura, oficina motora, actividades de estimulação cognitiva, festas temáticas e muita conversa. Privada disso tudo, de volta aos dias vazios, sempre iguais, Rosário sente-se a murchar por dentro. “As profissionais que trabalham lá, passo a passo, vêm aqui a casa trazer a comida. Mas tenho muitas saudades delas...”
“Acomodação aprendida”
Será a última resposta social a abrir. Retomarão o funcionamento a partir de dia 15 deste mês, conforme consigam cumprir as medidas de prevenção e controlo definidas pela Direcção-Geral de Saúde. Não será um alívio apenas para Rosário. “Para muitos idosos, sobretudo os mais pobres, menos diferenciados culturalmente e com redes sociais mais débeis, é a única oportunidade de estarem com outro ser humano”, sublinha António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa especializado em envelhecimento.
A sociedade portuguesa está cada vez mais envelhecida. As estimativas do Eurostat apontam para 512 mil idosos a viver sozinhos em Portugal em 2019. São mulheres, sobretudo (417 mil). Um número que “não surpreende” António Fonseca. “Nos censos de 2011, já havia 400 mil idosos a viver sozinhos e 804 mil exclusivamente com outros idosos.”
Cada um ao seu modo tem enfrentado dificuldades acrescidas no seu quotidiano. Os mais dependentes inspiram maior preocupação. Nem todos têm familiares ou amigos que assumam alguns cuidados. E nem todos os centros de dia domiciliaram os serviços essenciais desde que fecharam as portas, no dia 16 de Março (embora esteja prevista desde o dia 3 de Abril uma majoração da comparticipação da Segurança Social para esse efeito). Mesmo que o tenham feito, sublinha António Fonseca, não retiravam as pessoas da solidão. O serviço domiciliário é quase sempre limitado a tarefas instrumentais, como a limpeza, a higiene ou a alimentação. Desempenhada a tarefa, a pessoa fica para ali, sozinha.
Há um antes e um depois da chegada da pandemia. Antes, quem podia saía de casa, dava as suas voltinhas. Depois, o medo de contágio alastrou-se até aos mais autónomos – se não se fecharam em casa, não lhes terá faltado pressão para o fazer. “Correr alguns riscos é essencial”, avisa António Fonseca. Isso é evidente na infância. “A cerca altura, uma criança tem de atravessar a rua sozinha. Se não correr riscos, não se desenvolve.” Nas idades mais avançadas, também. “Se não correr alguns riscos, perde independência.” O psicólogo fala em “acomodação aprendida”. “A pessoa habitua-se a estar em casa. Tem menos vontade de sair, faz menos esforço para sair, arranja justificações para não sair. E a solidão, em idades mais avançadas, é um potenciador de sintomas depressivos, o que leva a um pior funcionamento cognitivo.”
Um ou dois banhos por semana
O Centro Social de São Martinho de Aldoar terá de ponderar a reabertura com a Segurança Social e a autoridade de saúde local. Como qualquer instituição que tem um centro de dia acoplado a um lar. Quanto mais tempo passa mais a directora técnica do centro de dia, Sofia Monteiro, nota os efeitos do encerramento daquela resposta. “Ou por não terem um acompanhamento tão grande, mesmo na toma de medicações, ou por estarem mais parados, têm menos mobilidade.” Vários sofreram quedas. Uns já tornaram a casa, “embora mais debilitados”, mas há quem tenha ficado no hospital, à espera de vaga num lar.
Sofia Monteiro dá dois exemplos: “Uma senhora caiu, partiu a bacia. Apesar de ter um sobrinho que lhe dava algum apoio, o hospital assumiu que ela não podia continuar a viver sozinha. O sobrinho encontrou uma vaga num lar. Um senhor diabético tinha sido operado para tirar um dedo de um pé, já era muito dependente, já ia ao centro de dia de cadeira de rodas, caiu em casa, abriu a cabeça, está no hospital a aguardar vaga num lar.”
Numa destas manhãs, Rosa da Conceição caiu e ficou no chão à espera que um dos funcionários do centro viesse trazer-lhe a alimentação, abrisse a porta, a visse ali e a ajudasse a levantar-se. A mulher de 85 anos tem duas filhas a morar perto, mas ambas trabalham. “Quando vêm de trabalhar, vêm aqui. Se for preciso fazer alguma coisa, fazem. A mais velha limpa-me a casa de 15 em 15 dias.”
Antes das 12h, um funcionário chega à sua casa com a marmita.
– Bom dia – diz Ângelo Torres, um funcionário ainda jovem que ela viu crescer.
– Entre, se faz favor.
– Então, dona Rosa, tudo bem?
– Tudo bem.
– Vou pôr aqui no microondas.
Não se põe na conversa. É só o tempo de passar para um recipiente o rancho à portuguesa, que naquele dia lhe servirá de almoço, e para outro a sopa, que ela guardará para o jantar. E de deixar o reforço, como faz a qualquer utente do centro de dia. Um leite e um pão ou umas bolachas para o pequeno-almoço e o lanche.
– Até amanhã, dona Rosa.
– Até amanhã.
Há muito que fazer. As duas equipas distribuem as refeições por 30 utentes do centro de dia e 23 do serviço de apoio domiciliário.
Do Centro Social de São Martinho de Aldoar também tem vindo uma equipa ajudar Rosa da Conceição a tomar banho duas vezes por semana. Foi o que ela pediu. “Não quero mais, porque não tenho esterco. Não faço nada. Sou uma senhora aqui.”
Mesmo no prédio em frente, mora Alfredo Soares, que recebe um banho semanal e comida diária. Não quer mais banhos e come tudo ao almoço. “Ele tem problemas de cabeça”, explica Esmeralda Mateus, presidente da Associação de Moradores do Bairro de Aldoar, que lhe oferece lanche e jantar. Já começou a estragar o apartamento, como fazia antes de frequentar o centro de dia. Arrancou as portas do armário, o cilindro, o fogão... “Tenho de o levar para a sede da associação, se não estraga tudo. Não pode estar fechado em casa.”
Rosa da Conceição costuma vê-lo. Esforça-se para sair. À tarde, devagar, devagarinho, caminha até à associação. Está “cheia” da pandemia. “Nunca mais acaba!”, exclama. “Vou fazendo o que eu sei para não parar. Mas já não adianta nada. Melhor era ir para aquele sítio. Já não me importo nada de ir. Se estou triste? Estou. Isto anda muito difícil. Para as pessoas doentes que estão sozinhas, ainda pior.”“

8 de agosto de 2020

Democracia e futuro normal


Continuamos, justificadamente, a ter medo da covid-19, mas há por aí outros vírus perigosos que sorrateiramente se vão instalando.
A associalização e o confinamento militante em que vamos sendo acantonados tornam-nos tolerantes perante violações de direitos individuais e coletivos, e produzem uma sociedade apática.

                                                          Carvalho da Silva 08.08.2020

A má gestão e a não resolução de grandes problemas socioeconómicos, como aqueles com que nos deparamos, geram perigosos subprodutos. No plano político, projetos ultraconservadores e fascistas. No plano social, um crescente de microconflitos, de falsas disputas e clivagens: nas relações entre gerações, potenciando disfunções e ruturas; no trabalho, aproveitando condições diferenciadas dos trabalhadores ou colocando o setor privado contra o público, para incapacitar a ação coletiva e intensificar a exploração; nas relações entre maiorias e minorias e entre culturas, para gerar intolerâncias e ódios.
 A esmagadora maioria das pessoas sente necessidade de segurança e estabilidade, de condições de sociabilidade, de uma economia a funcionar. Contudo, a expressão "retorno à normalidade" pode ser uma mera ilusão ou ter interpretações subversivas. O futuro nunca foi nem será retorno ao passado. Porém, podem surgir recuos e dolorosos retrocessos civilizacionais, camuflados de alternativa ou de modernidade no início do seu percurso.

Ler mais aqui:  https://www.jn.pt/opiniao/carvalho-da-silva/democracia-e-futuro-normal

5 de agosto de 2020

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA: O MEDO



"Quando percebi que estava a ficar completamente dependente do boletim diário da DGS, com os novos casos, com as mortes, com as taxas de letalidade, gerais e da minha faixa etária, finalmente decidi pensar porque é que o medo me tinha entrado, em força. Estaria eu capaz de ser sujeito a qualquer privação da minha liberdade, em nome do meu risco de ser infetado?

Durante a fase de confinamento assisti a coisas que me incomodaram, mas que relativizei. Um dia fui passear o cão, perto do Guincho, quando fui abordado pela PSP. “Onde mora?” Respondi que morava perto. “Não pode andar aqui, está a mais de 400 metros de casa, se o voltarmos a encontrar, incorre no crime de desobediência.” Disciplinadamente, regressei a casa e fui procurar onde estavam inscritos os metros de distância, em que podia dar uma volta com o cão. Não encontrei.

Confesso que achei bizarro, mas não voltei a pensar nisto. Continuei a passear, de madrugada, sem nunca ser incomodado. Recentemente, foi notícia a história de uma mulher que apresentava alguns sintomas de covid. Foi ao serviço de urgência e quando lhe iam fazer o teste, fugiu, em pânico. Não foi na Área Metropolitana de Lisboa, foi na Figueira da Foz, zona do país sem nenhum estado especial... Foi “capturada” no dia seguinte pela polícia e conduzida ao hospital para ser testada.

Tanto quanto tenho conhecimento, a única situação, devida a suspeita de doença, em que um cidadão pode ser detido e levado ao hospital é a doença mental. Muitas limitações que nos são impostas, apesar das observações de alguns juristas sobre a legalidade das mesmas, não foram postas em causa pela grande maioria dos cidadãos. Mais, foram acatadas sem grandes problemas. O medo fez bem o seu trabalho.

Com o desconfinamento e maior informação sobre a letalidade do vírus o medo abrandou. Com taxas médias de letalidade de 3,5% para todas as faixas etárias, os mais jovens e os de “meia idade” aperceberam-se que o seu risco era baixo e foram para a rua, como tinham sido instruídos... Mas a partir dos 70 anos a taxa de letalidade sobe para 16%. Felizmente ainda ninguém me pôs num lar — por enquanto — a prevenção depende, quase inteiramente, de mim. Porquê então este medo? Porque fomos bombardeados, durante meses seguidos, com mortes e mais mortes. Com notícias terríveis de semanas de internamento em UCI, que acabavam mal. Mas, sobretudo, com a incerteza. Com opiniões de técnicos e de organizações responsáveis que se contradizem. De agentes políticos que, salvo raras exceções, não têm a coragem de dizer, sabemos ainda muito pouco, mas estamos a fazer o melhor que podemos e sabemos.

Tudo isto fez com que a perceção do risco seja muito maior do que o risco real e olhemos — é o que eu faço e não devia fazer — apenas para o número de novos casos. Politicamente são ótimos para a chicana política. Falar de mortos e de casos internados só rende, quando aumentam. E estão a diminuir...

Sendo médico sei os riscos que corro, não pelo vírus, mas pela idade e pelo azar, que, à medida que o tempo passa, se pode tornar mais azarento. E não vivia com medo. O meu risco de ter uma doença grave nos próximos dez anos é muito maior do que morrer da covid.

Mas nada disto, racional e objetivo, me consegue tirar o medo.

Já marquei consulta para o psiquiatra."

José Gameiro, jornal Expresso, 1/08/2020