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25 de janeiro de 2018

Facebook reconhece perigo das redes sociais para a democracia

O Facebook reconheceu que um uso excessivo das redes sociais pode representar um perigo para a democracia, ao mesmo tempo que garantiu que está a fazer tudo para reduzir estes riscos.

"Apesar de ser um otimista, não ignoro os perigos que a Internet pode provocar, mesmo no seio de uma democracia que funciona bem", disse Samidh Chakrabarti, responsável pelo envolvimento cívico no Facebook, em texto divulgado esta segunda-feira.

Mais uma vez, como já o tinha feito em janeiro o chefe do grupo, Mark Zuckerberg, a Facebook reconheceu ter subestimado em 2016 o seu papel na propagação de "informações falsas" e, de forma mais geral, não ter lutado de forma eficaz contra os conteúdos problemáticos que pululam nesta rede social.

Em particular, esta empresa é acusada no contexto de inquéritos realizados nos EUA sobre uma possível ingerência da Federação Russa na campanha presidencial de 2016, com Moscovo a ser objeto de suspeitas de ter utilizado as redes sociais para influenciar os eleitores. Acusações estas negadas pelo Kremlin.

A rede social, que tem dois mil milhões de utilizadores, "levou muito tempo a compreender que pessoas mal-intencionadas estavam a utilizar a plataforma de maneira abusiva", insistiu Samidh Chakrabarti, que assegurou que a empresa "está a trabalhar ardentemente na neutralização destes riscos".

Em comunicado distinto, a encarregada das questões ligadas à política no seio do grupo baseado no Estado na Califórnia, Katie Harbath, afirmou: "Continuamos determinados em combater as influências negativas e garantir que a nossa plataforma contribui, de maneira indiscutível, para o bem da democracia".

O Facebook acaba de anunciar duas alterações importantes que vão modificar a presença de informação no "fio noticioso", que funciona como página de acolhimento pessoalizado de cada utilizador, com o objetivo alegado de melhorar a qualidade dos conteúdos.

Estas alterações vão privilegiar as mensagens publicadas pelos próximos, em detrimento das páginas institucionais de marcas ou meios de comunicação, e hierarquizar as fontes de informação consideradas como fiáveis pelos próprios utilizadores.

Ler mais em JN.pt

10 de setembro de 2017

Imprevisibilidade da vida e da liberdade

Destruir os suportes jurídicos que sustentam a estabilidade e segurança económica e social é atentar contra a liberdade


Desde sempre, os homens procuraram controlar e vencer a imprevisibilidade da vida.

Procuraram – e procuram - para tanto apoio na religião ou nas ciências.

Os esforços da medicina, da economia e do direito, foram sempre direcionados no sentido de precaver a vida de cada um de nós e da sociedade contra factores imprevistos que a condicionassem de forma irreversível.

Impossibilitados de vencer a morte, os homens sempre buscaram dirimir a angústia com o seu futuro, quer enquanto indivíduos, quer enquanto corpo social.

A luta dos homens pela construção de uma sociedade mais justa teve, também nessa busca de estabilidade individual e colectiva, uma forte motivação.

A riqueza de que uns poucos desfrutavam e a tranquilidade que, mesmo relativa, ela assegurava aos que a detinham, servia de paradigma de estabilidade aos que, dela desprovidos, tinham de ir penando ao sabor de circunstâncias que, de maneira alguma, podiam controlar.

A luta por uma ordem legal preestabelecida - pela legalidade da governação – contra todos os arbítrios constituiu, por isso, uma conquista fundamental na estabilidade social: a ela chamamos, hoje, estado de direito.

Depois das I e II Grandes Guerras, os estados socialistas e o estado estado social emergiram na Europa como resposta social e política às angústias de imprevisibilidade económica a que a vida da maioria das pessoas tinha até então sido sujeita.

As sociedades de relativo bem-estar em que nos habituámos a viver e que costumamos louvar, como modelo de estabilidade e segurança, assentaram sempre numa forte normatização legal dos factores de imprevisibilidade da vida económica e social.

Nos últimos anos, essa normatização passou também a regular aspectos que respeitam à defesa do meio ambiente e dos bens comuns, que todos necessitamos de preservar para permitir a sobrevivência das gerações futuras.

Prever a vida e caminhar nela com entusiasmo e alegria supunha – supõe - ter garantias de apoio na saúde, de emprego, de uma remuneração decente, de tempos livres e para a família, de educação para os filhos, de habitação saudável e de segurança na doença, na reforma e na velhice.

A regulação destes aspectos de vida permite, além do mais, níveis de independência e de liberdade individual e colectiva: a base indispensável de uma cidadania activa e progressiva.

Essa cidadania activa é o verdadeiro cimento da democracia e da liberdade.

Hoje, porém, assiste-se, em muitas partes do mundo, a uma tentativa de desregulamentação geral dos suportes económicos e sociais que edificaram as sociedades que foram capazes de solucionar muitas das suas injustiças mais gritantes em liberdade.

Esquecem-se os que a isso ambicionam que tal desregulamentação, mais do que maior riqueza para todos - o que as estatísticas, aliás, desmentem - apenas fomenta a desordem e a insegurança.

A imprevisibilidade das nossas vidas é também uma das estratégias do terrorismo fundamentalista.

Tornar imprevisíveis os nossos dias, fomentar o medo e a insegurança são os seus objectivos.

A poucos de nós – salvo aos oportunistas primários, a que, por pudor, chamamos populistas – lembrou, todavia, restringir gravemente as liberdades e garantias para combater o terrorismo: isso era fazer o seu jogo.

Destruir os suportes jurídicos e, assim, as condições de estabilidade e segurança económica e social, alicerces das liberdades de que gozamos, apenas fomenta sujeições, humilhações e imprevisibilidade.

Fazê-lo é também criar medo e insegurança; é atentar contra a liberdade.

António Cluny
Jornal i 05.09.2017

7 de agosto de 2017

Sobre a tirania

A tirania ameaça as nossas democracias através de dois mecanismos contraditórios que operam em conjunto — a política da inevitabilidade e a política da eternidade


Num texto velho de 22 anos, mas de uma atualidade aguda, Umberto Eco deixava um aviso: o fascismo não regressará com as mesmas vestes. Não deveríamos esperar marchas militarizadas, nem botas cardadas, nem polícias políticas como no passado. Os governos totalitários que assolaram a Europa do século XX dificilmente reaparecerão com as mesmas características em contextos históricos diferentes. No entanto, para o escritor italiano, era possível identificar um conjunto de traços do “fascismo eterno”, o que, num ensaio incontornável, apelidou de Ur-Fascismo.

Sem citar Eco, o historiador norte-americano Timothy Snyder, num pequeno livro — “On Tyranny — twenty lessons from the twentieth century” —, elabora sobre a mesma hipótese. O exercício é notável: um texto pedagógico, de grande lucidez, que cruza leituras da história com alertas sobre os dias de Trump (que nunca nomeia). Misto de lições sobre a forma como o passado se projeta no presente e manual de instruções para lidar com as novas formas de tirania, a reflexão de Snyder é atravessada por um ensinamento: temos de preservar a memória dos horrores do passado para proteger a democracia.

Não se pense que Snyder assume um regresso às tiranias do século XX. Pelo contrário, a preocupação é identificar os traços novos do totalitarismo, sem esquecer o passado. O livro abre, aliás, com uma asserção certeira: “A história não se repete, mas ensina.” E se há ensinamentos a reter — da forma como as instituições liberais soçobram com facilidade à tirania, à importância dos exemplos de coragem moral, passando pela obrigação de preservar uma separação inviolável entre vida pública e privada —, o que torna o exercício interessante é a revelação de como os mecanismos do passado assumem novos contornos, nomeadamente em face das transformações do espaço público.

O texto é atravessado por uma hipótese: a tirania ameaça as nossas democracias através de dois mecanismos contraditórios que operam em conjunto — a política da inevitabilidade e a política da eternidade. Enquanto a primeira criou um pensamento hegemónico, que garantiu que os totalitarismos eram memórias distantes e o curso da história apontava inexoravelmente para a democracia liberal; a segunda remete para um passado mitificado, alicerçado numa ideia falsa de uniformidade nacional. O perigo que enfrentamos está na forma como, sem sentido da história, passámos da política da inevitabilidade (uma visão acrítica e pueril da democracia liberal) para a política da eternidade (um tipo de oligarquia fascista, marcada pelo cinismo).

Entre muitas instruções para enfrentar as novas tiranias, Snyder aconselha que, contra a opressão das redes sociais e do ciclo mediático organizado em torno de uma sucessão de escândalos, leiamos livros. Fica aqui este conselho com um alcance fundamental.

Pedro Adão e Silva
Expresso, Opinião 05.08.2017

5 de agosto de 2017

Tempestades de aço

Este artigo poderia ter pedido o seu título à excelente exposição que se encontra patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa - Tudo Se Desmorona-, dedicada aos impactos culturais da I Guerra Mundial (IGM) em Portugal. Preferi, contudo, ir buscar de empréstimo o título de um livro de 1920, de Ernst Jünger (1895-1998), onde este descreve as suas experiências bélicas infernais com a objetividade e a neutralidade com que um entomologista (que ele também foi) disseca um inseto.

Na altura em que se evoca no nosso país a entrada do Corpo Expedicionário Português na guerra europeia, o título de Jünger condensa bem o trágico balanço da IGM: ela foi uma tempestade, e como todas as tempestades, não parece ser fácil extrair dela qualquer significado moral. Entre 1914 e 1918 foram lançados nos campos de batalha 67 milhões de jovens, 42 milhões dos países aliados, onde se incluem os nossos 89 mil mobilizados (muito embora o grosso das baixas mortais portuguesas tenha ocorrido em Moçambique e não em França), e os restantes 25 milhões provenientes da Alemanha e seus aliados. Metade dessa juventude sofreu consequências físicas visíveis da guerra nos seus corpos. Morreram, ficaram mutilados, foram feridos, foram feitos prisioneiros ou desapareceram sem deixar rasto. A metade que sobreviveu, dessa geração destruída, transportou para sempre na alma a brutalidade da guerra. Recordo uma conversa em 1976, com Manuel, um combatente da frente portuguesa em Neuve Chapelle: dizia-me ele que em muitas noites ainda escutava, em pesadelos, o assobio com que os oficiais alemães marcavam o início dos raides contra as posições portuguesas.

O significado essencial da IGM consiste numa espécie de antecipação do conceito de banalidade do mal, proposto por Hannah Arendt no seio do debate sobre o julgamento do criminoso nazi Adolf Eichmann. Na verdade, ao contrário da II Guerra Mundial, cuja causalidade se vincula de imediato à intencionalidade de um líder malévolo, Hitler, que lançou a Europa numa guerra indesejada, no caso da IGM não temos nenhum monstro moral. Apenas figuras "humanas, demasiado humanas", a ponto da mediocridade. Guilherme II, Francisco José I, Nicolau II, Poincaré, Asquith não tinham qualidades especiais. Os seus regimes, não sendo gloriosamente democráticos, obedeciam a um mínimo de separação de poderes e a regras constitucionais. A Rússia czarista não era mais democrática do que a Alemanha guilhermina. Foram regimes vulgares, dirigidos por homens comuns que empurraram a juventude europeia para ser devorada pelas novas máquinas de guerra. Mesmo o milhão de mortos do primeiro mês e meio de guerra nada mais fez do que acirrar a violência, conduzida pelos parlamentos e pelos governos nacionalistas de "união sagrada".

Uma das consequências da guerra foi o desprezo pelos regimes democráticos. Os sobreviventes embrutecidos do conflito, habituados a viver numa cultura militarizada, acabariam por se inclinar para lideranças totalitárias, na Rússia, na Itália, na Alemanha. Em Portugal, o sucesso do 28 de Maio deve muito ao prestígio militar de Gomes da Costa, que comandou o CEP. A II Guerra Mundial, que provou a mentira com que se travou a IGM ("a guerra para acabar todas as guerras"), demonstra também que nas guerras - nesse grande holocausto darwinista invertido (em que são os mais aptos que perecem...) - aqueles que aprenderam alguma coisa são os que não regressam dos campos de batalha.

Os sobreviventes e seus descendentes, como alunos sem mestre, tenderão a cometer outra vez os mesmos erros.

Viriato Seromenho-Marques
DN Opinião 02.08.2017

23 de julho de 2017

#ocorreto


Não sei bem o que é o "politicamente correto", mas tenho bem noção do que é o correto. É estar do lado certo da história, que é fácil de distinguir: proteger os direitos das minorias; não ceder ao poderoso impulso da segregação; não negociar com a xenofobia; não permitir que o violento instinto contra a diferença possa medrar. São estes, e alguns outros mais, os valores essenciais do progresso. Foram conquistados depois de muito sangue e sofrimento. É uma batalha permanente, esta de carregar de braço levantado a luz que nos resgatou dos tempos opacos. Mas foi assim que se foi fazendo a mudança, em iterações exaustivas que nos deixaram melhores.

Ora, isto não significa que a liberdade não seja um exercício de afinação constante. É preciso debater os problemas da integração, a dificuldade para aceitar as minorias, perceber que há novos contextos a criar novas inseguranças. Mas tem é de ser civilizadamente e com respeito por todos.

Custa muito a (felizmente) pouca gente, mas o Mundo, o nosso, só anda para a frente. A esses, deixo um conselho. Leiam Camus ou Kundera. Comprem livros de história. Ou então usem a Net para outra coisa, para além do ódio. Não faltam sítios como os que anseiam, onde o tempo ficou lá atrás. Procurem no Google: "Coreia do Norte", "Estado Islâmico" ou "Chechénia". Gostam? Podem sempre mudar-se para lá.

Miguel Conde Coutinho
Ler mais em: JN Opinião 22.07.2017

3 de julho de 2017

#eles

Eles negoceiam, eles escondem, eles abusam, eles iludem, eles acertam, eles acertam-se, eles apertam, eles apertam-nos, eles apertam-se, eles sabem, eles sorriem, eles organizam-se, eles informam-se, eles manipulam, eles manipulam-nos, eles sussurram, eles gritam, eles anunciam, eles garantem, eles asseguram, eles prometem, eles abraçam, eles beijam, eles dançam, eles esquecem, eles enganam, eles riem, eles gastam, eles desperdiçam, eles culpam-nos, eles pedem, eles pedem-nos, eles tiram, eles roubam, eles amigam-se, eles traem, eles traem-nos, eles baralham, eles misturam, eles compatibilizam, eles nomeiam, eles nomeiam-se, eles combinam, eles resolvem, eles resolvem-se, eles favorecem, eles cobram, eles compram, eles compram-se, eles vendem, eles vendem-se, eles vangloriam-se, eles desprezam-se, eles desprezam-nos, eles corrompem, eles disfarçam, eles adiam, eles distraem-nos, eles comem, eles ganham.

E nós aceitamos, calamos, toleramos, permitimos, perdoamos, esquecemos, perdemos. Mas tudo tem de mudar. Eles têm de saber que já chega, que chorar agora já não chega. Eles têm de saber que nós sabemos bem quem eles são.

Miguel Conde Coutinho
Ler mais em: JN Opinião 01.07.2017

18 de junho de 2017

O ciclo das notícias ainda vai dar-nos cabo do jornalismo e da democracia

Estou a escrever com um fabuloso e alentejano nascer do Sol bem na minha frente. Das poucas certezas que tenho sobre este dia que está a começar é que algures, numa rede social, num jornal, numa rádio ou numa televisão, alguém vai encetar uma nova frente de indignação e de espanto nacional. E os partidos vão reagir, sim porque os partidos têm sempre de reagir. E as corporações e os sindicatos vão ser chamados a indignar-se, claro - para que serviriam se não fosse para dar uma mãozinha nessa nova onda de revolta nacional? Amanhã haverá outra. E vamos ouvir especialistas a dizer coisas, porque isto de um bom drama nacional tem sempre de ter a opinião de especialistas. E vamos ouvi-los sem nunca pararmos para saber se são realmente especialistas no assunto em questão, ou se calharam apenas atender o telefone quando outros estavam indisponíveis.

Outra garantia que temos é de que esse tema seja ele qual for e seja qual for o índice de inquietação nacional, há de estar morto até ao pôr do Sol ou, o mais tardar, até ao fim do dia seguinte. Já nada nos dura, já nada nos merece debate ou análise pausada, tranquila. Tudo tem de ser inflamação e indignação. Vejam só esta semana que passou: os gémeos que Ronaldo encomendou; Tchizé investigada; as rendas da EDP; os impostos de Ronaldo em Espanha; as nomeações de Lacerda e Frasquilho para a TAP; Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e a localização de uma agência europeia que nunca virá para Portugal; os e-mails do Benfica; Ronaldo a querer sair de Espanha; juízes e funcionários a ameaçar boicote às autárquicas e o insulto xenófobo de um eurodeputado socialista a uma deputada do PS. Chega? Quase todos estes assuntos tiveram direito ao ciclo completo: notícia, reações, follow-up em caso disso, análise, comentário e opinião publicada.

O ciclo das notícias acelerou e eu estava lá para ver, na TSF. No início dos anos 1990, ainda sem televisão e canais de informação por cabo, era a telefonia a que ainda chamo "minha" que ditava o ritmo da notícia, do ciclo noticioso. Acelerou-o, sem dúvida, mas num tempo em que tudo estava quase parado, em que o país político acertava o relógio das suas preocupações pelo Telejornal da RTP. E que bom foi agitar o Portugal sentado, desassossegar políticos e outros protagonistas acostumados a marcar o ritmo dos dias. Pouco depois surgiram os canais de informação no cabo e os dias das notícias apressaram ainda mais um passo que se tornou insuportável com a chegada das redes sociais. Nada contra. Estou por lá e são até boas ferramentas de trabalho. Mas o certo é que vieram acentuar a tendência nacional para a indignação passageira e inconsequente.

Vivemos uma ditadura da gritaria e da indignação. Um tempo em que alguém - jornalista, comentador, político ou anónimo frequentador das redes - que decida parar para respirar um tema ou aprofundar um debate, ou simplesmente abrandar e ficar quieto a pensar o país, é imediatamente acusado de ter uma agenda escondida e de estar deliberadamente a ignorar todos os outros casos prementes que entretanto apareceram. Obviamente, todos seriíssimos escândalos a que nenhum cidadão de bem deve ficar alheio.

Não sei ao certo até onde esta vertigem pelo novo nos poderá levar, mas duvido que seja para boas paragens. Ver boa parte da classe política em modo Facebook, com comportamentos de claque e num permanente pingue-pongue maniqueísta, é um dos primeiros sintomas e não é bonito de se ver. O que sei é que o jornalismo, daquele que conta, precisa de tempo e a democracia precisa de jornalismo, daquele que conta.

Paulo Tavares
DN opinião 18.06.2017

26 de maio de 2017

Por eles e por nós

A única certeza que temos quando nos propomos escrever sobre atos terroristas é a de que não será a última vez. Qualquer que seja a geografia, a hora do dia, a motivação ideológica, o número de vítimas ou o alvo preferencial, haverá sempre uma dimensão tão esmagadora de imprevisibilidade e ausência de lógica nestes ataques cobardes que tudo o que possamos dizer ecoará, irremediavelmente, como uma torrente estéril de palavras. Porém, a nossa incapacidade para responder a esta arbitrariedade desumana, por mais musculada que seja a guarda policial, não deve fazer-nos desviar do essencial.

Porque a escalada de terror será tão mais expressiva e eficaz quanto maiores alterações provocar na forma como vivemos e nos relacionamos em sociedades livres e democráticas. Sim, a nossa resposta só pode ser uma, por mais romântica que se nos afigure: a normalidade. Todos os dias.

Infelizmente, e pese embora o assinalável número de ações terroristas que, na Europa e no resto do Mundo, têm vindo a ser evitadas pelas autoridades policiais, esta é uma guerra que estamos condenados a perder. Constatá-lo não implica desistir de punir os culpados, exigindo ao poder político que aperte a malha, dotando de mais meios as estruturas de vigilância e de contraterrorismo. Para passarmos a colocar mais algemas nos malparidos vivos e menos fitas delimitadoras nos locais onde tapam os mortos. Mas as evidências são o que são. E o terrorismo não se compadece com respostas à la carte. Vamos continuar a viajar, a frequentar museus, a assistir a espetáculos musicais. A ter uma vida. Só pode ser assim.

Todavia, a bárbara investida de Manchester revelou uma faceta ainda mais refinada do mal, ao atingir os mais desprotegidos entre nós: as crianças. Não é a primeira vez que o terrorismo as escolhe para cumprir esse insondável desígnio de conquista civilizacional através do medo (basta lembrar o violentíssimo ataque ocorrido num parque infantil do Paquistão, na Páscoa, que vitimou 29 menores), mas é a primeira vez que essa espada envenenada pende sobre as cabeças pueris do Ocidente. Crianças e jovens que abandonavam, entusiasmados, um concerto de música pop, alguns acompanhados dos pais, outros à procura deles para lhes contarem tudo no regresso a casa. Uma crueldade em cima de outra crueldade.

O medo de um adulto não se compara ao medo que um adulto sente quando o perigo ronda os filhos. A missão deste ataque terá sido essa: a de cultivar no nosso espírito esse fator acrescido de descontrolo emocional. O que faz um pai perante isto? Resiste. Por ele e pelos filhos. E essa enorme demonstração de humanidade nem o mais empedernido terrorista consegue vencer.

Pedro Ivo Carvalho

23 de maio de 2017

Grandes poderes, nenhum escrutínio

Empresas globais como a Google e o Facebook possuem um poder ilimitado de manipulação dos comportamentos.


“Um grande poder acarreta uma grande responsabilidade”. A frase tem vários autores ilustres, desde Churchill a Jesus Cristo, mas a versão que conquistou a imortalidade (“With great power comes great responsibility!”) é a de Benjamin Parker, o “Tio Ben” de Peter Parker, mais conhecido como Homem-Aranha.

A noção é central na filosofia política e no exercício da política em democracia, onde a preocupação em equilibrar um poder com outros poderes e em construir formas de escrutínio, controlo, limite e responsabilização de todos os poderes é tanto maior quanto maior for o seu alcance.

Nenhum sistema político moderno defende a concentração de poderes numa só pessoa ou organização e muito menos uma concentração de poderes isenta de escrutínio. Apesar disso, assistimos hoje a uma concentração crescente de poder na mão de um número limitado de empresas globais que, precisamente devido ao seu carácter global e à sua não-territorialidade, não são submetidas a nenhum escrutínio digno desse nome e cujo poder não é praticamente limitado por nenhuma instância jurídica ou outra.

De uma forma geral, olhamos com complacência estes poderes, que nos parecem benignos e que nos fornecem a baixo preço serviços sem os quais hoje viveríamos dificilmente. Mas qual é o verdadeiro preço que estamos a pagar?

Nos últimos meses, foram publicados na imprensa vários artigos sobre o envolvimento de empresas especializadas em guerra psicológica nas campanhas de Donald Trump nos EUA e do referendo do Brexit no Reino Unido. Estas empresas, ligadas aos meios da direita e extrema-direita globais, podem ter influenciado o comportamento de votantes indecisos através de campanhas de publicidade online extremamente eficazes, construídas com base em dados coligidos, nomeadamente através do Facebook, que permitem conhecer os valores, gostos, atitudes e comportamentos de grupos de pessoas mesmo sem conhecer a identidade pessoal dos seus membros. A questão é que um poder desta dimensão, capaz de manipular o comportamento de massas, exige um enorme escrutínio e controlo, sem o que a nossa actual e imperfeita democracia se pode ir transformando, insensivelmente, num sistema totalitário onde apenas julgamos fazer escolhas livres.

O Google, por seu lado, determina hoje quase toda a informação a que temos acesso. No passado, jornais e TV com um poder infinitamente menor, eram submetidos a regras estritas para limitar a sua influência, mas o Google, escudando-se atrás de uma falsa neutralidade dos seus algoritmos, possui um poder virtualmente ilimitado de manipulação de crenças e comportamentos. O debate sobre o controlo destes poderes é essencial, se queremos manter alguma esperança de democracia.

José Vítor Malheiros

18 de maio de 2017

Que democracia europeia?

A democracia europeia não satisfaz os anseios dos cidadãos. A tentativa de avançar mais rapidamente na construção das instituições europeias deparou-se com profundas resistências - não só pelos efeitos do rápido alargamento a Leste, com as fragilidades inerentes, em especial no tocante à coesão, mas também com as consequências da grave crise financeira. Os dois resultados conjugados somaram-se ao agravamento dos conflitos desregulados no Mediterrâneo Oriental e Médio Oriente, à pressão demográfica e ao medo instalado entre os europeus pelo receio das consequências da chegada dos refugiados - numa conjuntura de incerteza e de instabilidade, ditada pelos atos violentos de intimidação relativamente às sociedades ocidentais. Um círculo ameaçador manifesta-se na Europa, gerando a reação do "salve-se quem puder", com esquecimento de que a fragmentação e a tribalização apenas terão como consequência a multiplicação da instabilidade e a escalada do medo e da violência, numa espécie de instinto de defesa inconsequente, com resultados claramente contrários aos que se poderia desejar. E assim chegamos a uma situação paradoxal - havendo, mais do que nunca, necessidade de Europa, de coordenação de políticas, de gestão de espaços e territórios e de partilha de responsabilidades, presenciamos a multiplicação de uma atitude puramente defensiva, baseada no temor da imigração e da presença das diferenças. Como aconteceu nos anos trinta do século XX, em lugar da cooperação surge a reação nacionalista e a ilusão do protecionismo.

A oposição democracia representativa/democracia participativa é um falso dilema - uma vez que a representação e a participação são faces da mesma moeda - como o é a liberdade e a igualdade ou a igualdade e a diferença, os direitos e os deveres ou a igualdade de oportunidades e a correção permanente das desigualdades. No fundo, a democracia só pode aperfeiçoar-se se partir das ideias de imperfeição e de perfectibilidade. E a subsidiariedade diz-nos que devemos compreender o carácter complexo das sociedades humanas, com diversos níveis de legitimidade e de responsabilidade. Na União Europeia volta a falar-se da estratégia da "porta de detrás", defendida por Jean Monnet quando, em meados de cinquenta, a França inviabilizou a Comunidade Europeia de Defesa. Do que se tratava? De voltar aos desafios do funcionalismo e do gradualismo - depois da tentativa de andar rapidamente. Se é fundamental ter objetivos ambiciosos, também é indispensável haver uma preocupação de eficiência e de equidade, de equilíbrio e de partilha de soberanias. Não se trata de fazer uma nação europeia ou de replicar a experiência norte-americana, mas sim de construirmos uma "União de Direito", cuja legitimidade é dupla, envolvendo os Estados e os cidadãos. A verdade é que os cidadãos não se sentem totalmente representados pelo Parlamento Europeu, tornando-se indispensável consagrar uma ligação efetiva e permanente aos parlamentos nacionais, com meios orçamentais mais relevantes, como forma de reforçar a intervenção das instituições europeias na construção de uma política de coesão económica e social.

O brexit é uma interrogação perturbadora. Foi uma caixa de Pandora que se abriu, libertando forças que ninguém domina. O sistema de segurança e defesa europeu precisa indiscutivelmente do Reino Unido e não basta falar-se da NATO. Se agora é irreversível esta negociação de saída, resta saber se no final do processo, com tantas incógnitas, não poderá haver um balanço que apresente mais resultados negativos do que positivos. Basta lembrarmo-nos da importância da City londrina como primeira praça do euro, da relevância do Reino Unido na aplicação dos fundos comunitários, na questão escocesa, no futuro da Irlanda (cujos acordos de paz exigem fronteiras abertas)... Como funcionará a frente atlântica da União Europeia (crucial para nós) sem o Reino Unido? Se o euro não está ferido de morte, sofre seriamente os efeitos das economias frágeis que o utilizam. A aceleração do alargamento a leste enfraqueceu institucionalmente a União Política europeia, do mesmo modo que os efeitos da crise financeira reduziram as perspetivas de crescimento. A estagnação económica europeia e o fechamento fomentaram a fragmentação. Daí ao agravamento da situação foi um passo. O surgimento de tensões ditadas pela crise dos refugiados e pela difusão de um medo persistente do desemprego favoreceu as forças nacionalistas e incentivou o populismo - pano de fundo que condicionou o brexit e a eleição americana e abriu uma lógica antieuropeia e fragmentária. Nestes termos, a crise do euro não tem que ver com a falta de credibilidade da moeda europeia, mas com a ausência de perspetivas imediatas de crescimento económico na Europa, por ausência de uma política ativa de investimento. Trata-se, em suma, de uma moeda forte, que limita o espaço de manobra das economias do seu espaço com maior grau de dependência externa. A eleição francesa de Macron exige, assim, muito trabalho europeu!

Guilherme D'Oliveira Martins
DN opinião 18.05.2017

12 de maio de 2017

Estamos sob ataque

É uma nuvem ameaçadora aquela que paira hoje sobre as democracias ocidentais. Depois de Trump e da interferência russa, ainda sob investigação, mas que é clara no que respeita ao saque a que foram sujeitos os emails da candidatura democrata, anunciava-se que algo semelhante poderia suceder com as eleições francesas. O ataque informático à candidatura de Emmanuel Macron acabou por suceder, mas na sexta-feira antes da data do sufrágio e sem resultados evidentes.

Por um lado, porque a própria candidatura tomou precauções e espalhou documentos falsos entre os ficheiros roubados; por outro lado, porque o período de reflexão - tantas vezes escarnecido entre nós - impediu legalmente os jornais de publicar matérias que pudessem influenciar o resultado eleitoral. Mas quer isto dizer que a nuvem se dissipou?

Uma investigação jornalística do jornal "The Guardian" tem vindo a revelar uma teia de ligações que mostram que ela continua ameaçadora, capaz de influenciar as nossas democracias. No centro desta teia está Robert Mercer, um multimilionário de Silicon Valley dono de um dos fundos de investimento mais lucrativos do planeta e que sozinho apoiou Trump com 13,5 milhões de dólares. Mas a sua principal arma é uma empresa chamada Cambridge Analytica, capaz de reunir e analisar gigantescos volumes de dados e com eles desenhar estratégias para influenciar eleitores. A nossa pegada digital é um manancial de informações que facilmente pode ser utilizado para influenciar a maneira como vemos o Mundo, nomeadamente através do que nos é servido na Internet, nas nossas buscas ou no Facebook, por exemplo.

Esta empresa, ou alguma das suas sucursais, trabalhou para a campanha de Trump e para a campanha do Leave e se acrescentarmos que Robert Mercer é amigo de Nigel Farage, que o conselheiro de Trump Steve Bannon foi vice-presidente da Cambridge Analytica e que esta empresa opera intensamente com empresas estatais russas e mesmo nas eleições deste país, a teia começa a revelar a sua forma ameaçadora.

A revista "The Economist" classificava esta semana os dados informáticos como "o mais valioso recurso do Mundo", apelando às autoridades que se modernizassem para enfrentar os desafios para a economia que elas representam. Mas, como mostra o caso da Cambridge Analytica, temos de ir mais longe, com novas regras para a proteção e manipulação de dados, porque mesmo que não vejamos, que mal percebamos, é a democracia que está sob ataque.

David Pontes
Opinião JN 12.05.2017
Leia mais: Estamos sob ataque

9 de maio de 2017

Sim, nós queremos banana

Nos dias que se seguiram à queda do Muro, uma das imagens mais repetidas pelas televisões e jornais era a dos alemães do Leste a comerem bananas. Sabiam a liberdade, a um mundo sem molduras


Quase todos gostam de bananas, mas não pelas mesmas razões. Lembrei-me disto quando comprava bananas na berma da estrada em Nairobi. Não é de África que vou falar, mas da banana como categoria política.

Fora da Alemanha poucos a associam à queda do Muro. E à nitidez das coisas humanas por oposição à distopia. Na viagem da memória, a ordenação dos acontecimentos ensaia uma explicação sobre nós mesmos. Compreender a Alemanha e o seu presumível mundo individual passa pela banana. Talvez a revolução em curso na Venezuela venha a ser conhecida como a das arepas, um pão de milho típico daquele país.

Uma anedota que se contava na República Democrática da Alemanha é a seguinte: “Como se consegue duplicar o valor de um Trabi (Trabant)? Enchendo-lhe o depósito. E triplicar? Colocando uma banana sobre o tabliê”.

Qualquer outro fruto onde o sol do sul tenha pousado poderia ter sido o fruto da revolução. Ananás ou pêssego eram escassos na RDA. As laranjas viajavam de Cuba e chegavam em tal estado que eram conhecidas como “a vingança de Castro”. Porquê então a banana?

Passada pouco mais de uma década sobre o final da Segunda Guerra, ainda o Muro não partia Berlim, o então chanceler da RFA, o democrata-cristão Konrad Adenauer, celebrava uma vitória. “A banana é uma esperança e uma necessidade para todos nós”. Corria o ano de 1957 e Adenauer assinava os Tratados de Roma com uma condição: que a importação da banana não fosse sujeita a taxas alfandegárias.

A exótica banana tornou-se num símbolo do milagre económico alemão e do novo bem-estar.

Também o SED, o partido único na RDA, reconhecia a importância da banana, um fruto raro e caríssimo. Em 1972 numa reunião do Politiburo declarou-a (ou melhor declarou a falta de banana) assunto de Estado.

No ano de 1989, quando a Alemanha Democrática estava meia morta, Günter Schabowski – o homem cuja gaffe fez cair o Muro – terá confidenciado a uma jornalista, que durante uma reunião do partido, alguém terá sugerido a fórmula para travar o descontentamento popular: “Podemos dar-lhes bananas!”. A versão germânica dos croissants de Maria Antonieta.

Visto de fora pode até parecer bizarro, mas nos dias que se seguiram à queda do Muro uma das imagens mais repetidas pelas televisões, jornais e revistas da RFA era a dos alemães de Leste a comerem bananas. Sabiam a liberdade, a um mundo sem moldura.

Postfácio: o mundo está a desmoronar-se nos locais onde menos esperamos, como em países da civilizadíssima Europa, como não posso pedir que abrande para eu sair para respirar, refugio-me em dias em que a liberdade era tão desejada e saboreada como a banana.

Helena Ferro de Gouveia

7 de maio de 2017

Núcleo da APRe! Coimbra - Coro APRe! Coimbra - Exercício de Cidadania

O Coro esteve no dia 25 de Abril ma rua a cantar Abril, no dia 28 na Escola Secundária Infanta D. Maria em Coimbra e no dia 4 de Maio na Sociedade Filarmónica Lousanense, na Lousã, com o espectáculo "Exercício de Cidadania", uma apresentação multimédia que pretende retratar a revolta da população portuguesa - operários, camponeses e estudantes - provocada pela situação política, económica e social anterior ao 25 de Abril de 1974.

O texto é composto por excertos dos livros "Levantados do Chão" de José Saramago, "Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes e de um texto de Baptista Bastos "69 Pretextos Para...", intercalados por poemas de Fernando Assis Pacheco, Jorge de Sena, Luís Veiga Leitão, Manuel Alegre e Sophia de Mello Breyner Andresen, sendo feita uma leitura dramática pelos coralistas.

As composições musicais de Mozart, Fernando Lopes Graça, José Niza e José Afonso, são interpretadas pelo Coro sob a direcção da maestrina Susana Teixeira e acompanhamento ao piano de Francisco Gomes.

Nas razões que levaram à criação deste projecto, está subjacente a ideia do caminho para a cidadania, para o desenvolvimento dos valores da solidariedade, da tolerância e do convívio salutar entre os indivíduos e os povos. A liberdade é um bem frágil que é preciso cuidar e defender dos mais variados ataques.

27 de abril de 2017

Como foi o 1º Almoço Temático organizado pelo Núcleo APRe! Lisboa Norte (Freguesias de Carnide, Lumiar e Santa Clara)

Realizou-se, no passado dia 21 de Abril de 2017, na Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), um almoço subordinado ao tema “Liberdade e Cidadania”, com a presença da Presidente da APRe! Dr.ª Maria do Rosário Gama, sendo o orador convidado o Capitão de Abril, Coronel António Rosado da Luz.

Antecedendo o almoço, teve lugar uma pequena cerimónia em que o Presidente da ADFA, Comendador José Arruda, após a apresentação de um vídeo ilustrativo do que representa a associação, deu as boas vindas aos presentes e salientou a importância e a força do associativismo, descrevendo os passos que levaram a associação ao patamar a que se alcandorou.

Maria do Rosário Gama fez uma resenha do que a jovem APRe! tem feito e do que pretende fazer, salientando, entre outros temas, a eleição de um seu membro para o conselho executivo da AGE Platform Europe, e a sua contribuição decisiva, com grande relevância para a participação dos associados, para a anulação da norma do PENSE 2020 que previa a actualização obrigatória de conhecimentos, através de acções deformação, na revalidação do título de condução que ocorre aos 65 anos.

No final do almoço que se seguiu, Arminda Serra fez a apresentação do orador Coronel António Rosado da Luz, após o que este tomou a palavra esclarecendo desde logo que não gostava de discursos unidireccionais, pelo que o que pretendia era conversar com os presentes. Apesar de ser sócio da APRe!, revelou não gostar do termo “reformado” por ter conotações com “inactivo”, o que não corresponde à realidade. Defendeu que olhar os velhos como não produtivos é um erro muito grande e que inclusive a sua produtividade pode ser efectivamente medida pelos diversos contributos que dão à sociedade. Defendeu ainda que o acumulo de sabedoria dos mais velhos não deve nem pode ser negligenciável.

Procedeu então a uma resenha do seu percurso de vida que o levou à vida militar e a ser uma peça fundamental na Revolução do 25 de Abril de 1974, tema sobre o qual se debruçou longamente e de forma muito interessante, dando apontamentos muito ricos do que foi o processo revolucionário de que fez parte.

Seguiu-se o debate que foi muito participado e aprofundado, tendo os presentes tecido alguns comentários e colocado diversas questões, manifestando ainda o seu agrado pela sessão e enaltecendo o brilhantismo da elocução feita.







25 de abril de 2017

Meu querido mês de Abril

Meu querido mês de Abril

Longos dias de nostalgia...
num poema
que não existia!...

Longas noites de amargura...
...uma vida insegura
num País de ditadura!...

Em cada rosto
a tristeza perdura...

Um País amordaçado,
sem liberdade...
Um País fechado,
sem Pão
Saúde
ou Educação...

Um País analfabeto!...

Um País aprisionado
onde até o pensamento
era censurado.

Um País
durante décadas adiado!...

...Um dia,
o grito ecoou
o sonho vingou
Abril brilhou
e a vida mudou!

Um País
no meio do nada,
renascia das cinzas...
um País perdido na escuridão
brilhava
num mundo que ansiava.

Um País reconhecido,
num mundo, outrora desconhecido!...

O Povo agradecido
aos Militares d`Abril, se curvou
e seu cravo colocou
na espingarda que não soou.

A Liberdade nascia,
instalava-se a Democracia!

Abril brilhou,
mas a herança ficou!...

Para trás,
vidas ceifadas
mortes anunciadas
crateras destapadas...

Hoje
e SEMPRE,
de mangas arregaçadas
gritemos Abril
lutemos de mãos dadas...
Porque...
...jamais alguém cerra
as "Portas que Abril abriu"!

Basta trabalhar
e Acreditar!...
Vamos unidos mostrar
a garra de um povo
que nasceu para Lutar!

Mª da Graça Dórdio Dimas
Associada APRe! nº 2283

24 de abril de 2017

A democracia do like

Se quiser discordar de tudo o que está aqui escrito, siga para a caixa de comentários e discorde. Se concordar, ponha um like e partilhe. Se pura e simplesmente não gosta do autor deste artigo, ponha um emoji de ar zangado (ou daqueles que parece que vão vomitar) e vá destilar ódio para a rede social que mais lhe der jeito. Faça o que quiser, mas não ache, por um segundo, que está a cumprir o seu papel de cidadão. Que isso chega. Não chega.

Há dois grandes fatores que estão a destruir as democracias ocidentais: o desinteresse das pessoas e o descrédito na classe política. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca, bem sei. Quanto maior é o descrédito na classe política, maior é o desinteresse das pessoas. Mas o problema não é assim tão simples. Ao mesmo tempo que as pessoas se refugiam na cobardia das redes sociais para se sentirem mais cívicas e participativas, os políticos andam à procura de novas formas de chegar às pessoas. Uma delas são precisamente as redes sociais, que permitem fazer uma espécie de sondagem, verificar tendências e agir em conformidade. A política deixou de tratar apenas dos problemas que precisam de ser tratados e passou a tratar dos temas virais. Se é viral, é importante. Melhor ecossistema para o populismo é impossível.

Ser político há muito que deixou de ser currículo e passou a ser cadastro. A lista de clichés é interminável, mas recorrendo a Aristóteles e às suas argumentações lógicas perfeitas podemos resumi-los ao seguinte silogismo: todo o político faz parte do sistema; este senhor é político; este senhor faz parte do sistema. Mas o que é o sistema?

O sistema é assim uma espécie de saco onde os cidadãos decidiram meter tudo o que de mau a política tem. Decisões erradas, mentira, corrupção, crises - o sistema é tudo isto e muito mais que se queira lá meter. O raciocínio, por simplista que seja, é fácil de explicar. As pessoas estão fartas de ser enganadas, cansadas de ler notícias sobre corrupção na política e há muito que deixaram de acreditar nas promessas que lhes fazem porque essas promessas são consecutivamente incumpridas. E também aqui as redes sociais vieram dar um contributo assustador para a desinformação. Nada é verificado. Tudo é partilhado sem critério. Comenta-se tudo. Tem-se opinião sobre tudo. Só não se tem o cuidado de saber do que se está a falar.

Não estou com isto a desculpar ninguém. A classe política é vítima dela própria e deixou-se arrastar para um buraco de onde dificilmente vai conseguir sair. Já não é só a mentira, as promessas por cumprir ou os casos de corrupção. São decisões erradas e erróneas ou a falta de decisões, é a total ausência de estratégia que leva todos os dias a política ao descrédito. É um discurso formatado e tantas vezes incoerente que já ninguém ouve.

Tudo isto deixou escancaradas as portas para os outsiders, os chamados candidatos fora do sistema. Para ter sucesso, basta seguir o manual à risca. Assumir-se como não político. Ter um percurso profissional de sucesso e demonstrar à evidência que os políticos não trabalham, são apenas políticos. Perceber anseios e angústias da população e formatar um discurso à medida. Dizê-lo em 128 caracteres, se possível. Não basta dizer o que as pessoas querem ouvir, é preciso pegar no desespero delas e trabalhá-lo politicamente. Torná-lo viral. Se as pessoas querem soluções mágicas para os problemas, então prometemos fazer magia.

Nós teremos sempre a democracia que quisermos ter. Se quisermos resumir a nossa participação cívica a um like, um comentário ou um emoji em vez de perceber a causa das coisas, de participarmos civicamente na sociedade, de votarmos, teremos uma democracia mais pobre. E uma classe política cada vez mais medíocre, por falta de escrutínio. É normalmente assim que surgem "salvadores", aqueles que acabam por virar ditadores.

Anselmo Crespo

21 de abril de 2017

Comemorações do 25 de abril no Porto


Caros/as Associados/as

Estamos perto da comemoração do 43º aniversário do 25 de Abril de 1974, data histórica da revolução que restituiu a Portugal a liberdade e a democracia, criando condições para a participação cívica dos portugueses na vida pública.

Passados estes anos, houve esperanças que ficaram defraudadas. No entanto, e pior, o clima de instabilidade e tensão política e o recrudescimento dos nacionalismos que se estão a viver na Europa e no Mundo, não auguram nada de bom para a solidez da liberdade e da democracia, mesmo no contexto europeu, “obrigando-nos” a estarmos em alerta. Exemplo disso é a incapacidade da U.E. para enfrentar o problema da crise humanitária dos refugiados na Europa.

A APRe!, enquanto associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, e membro da Comissão Promotora das Comemorações Populares no Porto, quer e deve marcar presença nas comemorações deste dia, como mais um acto de cidadania, juntando-se a toda a população, solidariamente, no “Desfile da Liberdade”.

Neste sentido, apelamos à participação dos/as associados/as da APRe! nas celebrações do 25 de Abril no Porto, em particular no “Desfile da Liberdade”.

O desfile sairá pelas 14,30h, do Largo Soares dos Reis, junto à ex-Pide, no início da Rua do Heroísmo. A APRe! levará as suas faixas e ainda alguns cartazes com palavras-de-ordem adequadas ao momento político que vivemos na Europa e no Mundo e alertando também para os direitos essenciais das pessoas idosas: a questão das reformas com dignidade. Para que o impacto da representação da APRe! seja grande, apelamos a que todos quantos possam fazer o percurso completo se reúnam nesse local.

Na Avenida dos Aliados, no passeio do antigo Edifício AXA, junto ao Santander Totta, haverá uma banca, a partir das 14 horas, com autocolantes, fichas de inscrição e demais informação da APRe!, no sentido de informar e esclarecer as pessoas que aguardem pelo desfile acerca da nossa Associação.

Tragam amigos e seremos muitos. Pelo futuro, retomar Abril
Viva a APRe!

Elisabete Moreira
Delegada da APRe! Norte

Viva o 25 de Abril!



10 de março de 2017

Tautau na democracia

Imaginem a cabeça das crianças que na quarta-feira foram levadas pelos seus professores até às galerias da Assembleia da República para assistir à "Democracia em funcionamento". É bem provável que antes os professores lhes tenham dado algumas luzes sobre o nosso sistema semipresidencial, sobre o funcionamento do Parlamento, sobre o que é uma Constituição. Com sorte, os professores até terão tido algum discurso pedagógico sobre o exercício da política, para contrariar aquilo que os meninos ouvem em casa e no café: que os políticos "são todos iguais", que "só querem o tacho" ou mesmo que "são todos uns ladrões".

Sentadas nas galerias reservadas para o público na casa da Democracia, estes estudantes puderam assistir a um dos momentos altos da vida parlamentar, o debate quinzenal. Mas o que puderam ver lá em baixo não foi nada de elevado recorte civilizacional. Um líder do Governo e um líder da Oposição em toca de acusações com "enlamear", "mal-educado", "vil reles e soez" à mistura, com as bancadas transformadas em verdadeiras claques com palmas e pateadas ao melhor estilo "hooligan". Ideias poucas, argumentos quase nenhuns, naquele que foi um dos debates mais crispados deste último ano e meio.

Os professores que, nos dias que correm, têm enormes dificuldades em conter dentro do razoável o comportamento dos seus alunos, terão visto ali um cenário habitual. As crianças, depois da estupefação inicial, terão pensado que, perante aquele exemplo, tudo lhes será permitido. Afinal aqueles são os nossos representantes, alguém em quem delegamos a condução do nosso destino coletivo, os nossos líderes...

O mais inquietante é que o que se passa "na "bolha" de São Bento está longe de ser um reflexo do que acontece cá fora. Se excetuarmos as redes sociais, onde grassa a selvajaria, a sociedade portuguesa tem dado poucos sinais de crispação.

Até se pode entender que a Oposição que pintou a atual solução governativa como radical, force alguma dramatização contra a normalidade que tem no presidente da República o seu principal arauto. Mas é incompreensível que o Governo embarque nesse jogo e que todos os deputados não tenham a consciência do péssimo serviço que prestam à democracia quando substituem a luta argumentativa pelo insulto e pela javardice. Comportamentos como os de quarta-feira só servem para o descrédito do sistema, merecem o nosso repúdio e dão uma enorme vontade de dar umas palmadas a estes meninos malcomportados.

David Pontes
Opinião JN 10.03.2017
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23 de fevereiro de 2017

A suástica e outras cruzes

1. Na semana passada o JN publicou uma notícia, com fotografia, de uma atividade funesta de praxe, em que um dos "praxados", presumivelmente um estudante, usava uma braçadeira com uma cruz suástica. A ação realizou-se fora das instalações da universidade. Poderia ter ocorrido com estudantes ou não estudantes de qualquer universidade ou politécnico. Manter praxes nesta altura do ano é duplamente deplorável, pelo ato e pelo tempo, mas não é sobre praxes que quero refletir nestas linhas. Importa-me, sim, perceber este sinal da suástica como a ponta do iceberg constituído por tantas outras cruzes da sociedade contemporânea.

2. O Ocidente (em particular a Europa) atravessa uma fase de degradação relativa de vida nos planos económico, social e da segurança, paradoxalmente por razão de dois fatores que indiciariam exatamente evolução em sentido oposto - a queda do regime soviético, em 1989, e a revolução digital sentida desde aproximadamente essa data.

3. De facto, à queda do império soviético seguiu-se um período de esvaziamento ideológico e de predomínio dos mercados sobre a política, fatores que têm dificultado o diálogo entre culturas e religiões. O fluxo de imigrantes e refugiados, primeiro do Leste europeu, depois do Médio Oriente, finalmente de África, conduziu a um problema de substância e de consciência, particularmente no Mediterrâneo, ainda não resolvido pelo Ocidente. Nestas condições sobe a desilusão dos povos e assim se faz chão fértil para soluções populistas e extremistas, como as que poluem atualmente o Ocidente.

4. Complementarmente, a revolução digital tem tido como efeito colateral o uso impune das redes digitais, adubado pela permissividade social que se tornou cultura do nosso tempo. Usam-se as redes para a difusão não só do que se convenciona designar por "pós-verdades", mas igualmente da mentira e da calúnia, frequentemente através de "posts" anónimos, como meio privilegiado para manipular processos de escolha, para destruir qualquer barreira a objetivos antidemocráticos. Países, instituições e simples cidadãos parecem estar de mãos atadas, incapazes de reagir a violações flagrantes de valores éticos tidos como elementares.

5. Pois é, está a acontecer no Mundo, mas também bem dentro das nossas instituições, com a dimensão desconhecida dos icebergs. Cuidemos!

Sebastião Feyo de Azevedo
Prof. Catedrático, Reitor da Universidade do Porto
JN 21.02.2017
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