Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens

6 de novembro de 2017

As melhores histórias dos inquilinos de Belém cabem em 255 páginas

Um aperitivo para o artigo que se segue: em 1975, um tenente coronel com patilhas à Elvis Presley e uma pistola em cima do joelho aterrou de helicóptero no Palácio de Belém. Esta história (e outras) dava um filme. Para já, deu um livro.
O livro não começa pela bofetada que Mário Soares levou na Marinha Grande (que afinal foi uma paulada nas costas). Nem pelo camião que Cavaco Silva conduziu aos 16 anos - a sua primeira sensação de poder. Tão pouco tem início nos dilemas de Jorge Sampaio quanto à nomeação de Pedro Santana Lopes ou na história que Marcelo Rebelo de Sousa contou à Rainha Isabel, no Palácio de Buckingham, sobre a primeira vez que a viu ao vivo.

As 255 páginas do livro Os Presidentes que Mudaram Portugal começam com uma cena de filme. “De uniforme camuflado, óculos escuros, patilhas à Elvis Presley, um tenente-coronel do Exército faz, de helicóptero, a curta viagem entre uma unidade de Comandos e o Palácio Presidencial, onde o espera um general – e Presidente da República. Acompanha-o outro oficial, camarada de armas e amigo pessoal. O país onde isto se passa, numa manhã cinzenta de Novembro, fervilha, nesse preciso momento, no vórtice de uma tentativa de golpe de Estado em curso. O tenente- coronel exibe uma pistola Walter de 9 milímetros em cima do joelho, pouco antes de o aparelho baixar”.

A descrição prossegue por mais uns parágrafos sem dar nomes às personagens ou aos lugares. Cria suspense. Envolve. Mas aqui o espaço é curto e mais vale dizer logo ao que vamos. O tenente-coronel com patilhas à Elvis Presley e uma pistola em cima do joelho é nem mais nem menos do que o (então) futuro Presidente da República Ramalho Eanes, de 40 anos. O país é Portugal. A viagem de helicóptero acontece entre a Amadora e Belém. E a manhã cinzenta é a de 25 de Novembro de 1975.


As histórias nos detalhes
É através dos detalhes que este livro passa pelos mais de 40 anos de história dos inquilinos do Palácio de Belém. “Nunca se tinha feito, num pequeno volume, de fácil leitura, para o cidadão comum, uma história dos Presidentes eleitos. Há biografias de todos eles, em grossos volumes, muito desenvolvidas, mas não uma visão integrada de como os mandatos e as personagens se foram interligando”, explica o autor, Filipe Luís ao PÚBLICO.

Nas páginas dedicadas a Ramalho Eanes (o general que não sorria), há espaço para um dos primeiros-ministros que consigo contracenou: Francisco Sá Carneiro. E mais uma vez, são os pormenores que contam as melhores histórias. Esta envolve também Snu Abecassis, a “senhora sueca ainda casada com um português” com quem Sá Carneiro vivia maritalmente. O autor recorda o que já se sabia. “Esta situação viria a causar engulhos insuperáveis na própria relação de Sá Carneiro com o casal presidencial, em especial, Manuela Eanes, profundamente Católica, que se recusou a ‘contracenar’ com Snu em cerimónias oficiais.” Sá Carneiro insistia que Snu ocupasse o lugar relativo à sua mulher legítima o que gerou uma animosidade que viria a contribuir para o degradar das relações pessoais entre o primeiro-ministro e o Presidente.

“O livro surge da circunstância da eleição do Marcelo Rebelo de Sousa e das expectativas criadas, ao mesmo tempo que o país experimentava uma solução política inédita”, conta Filipe Luís, justificando que Belém voltava, finalmente, a ter interesse. Nomeadamente editorial.


O clique da Marinha Grande
Nem só de histórias inéditas vive a obra. No caso de Mário Soares (descrito como republicano, socialista e laico), muitas foram recuperadas por altura da sua morte, em Janeiro deste ano, e por isso estão ainda frescas na memória. Mas até nessas há surpresas. Como a da bofetada na Marinha Grande, em 1986, clima de campanha eleitoral para as presidenciais.

Depois de um banho de multidão na Nazaré, Soares regressa ao carro. E começa a descrição. “Anoitece. Soares dormita, no carro. Acorda com os gritos de elemento do PS local, que aparece de cabeça rachada e viatura com chapa amolgada. Pouco antes, nos arrabaldes da Marinha Grande, quando tentava anunciar a chegada do candidato, o homem tinha sido alvo da ira popular, orquestrada pelo PCP. E tinham-lhe chegado a roupa ao pelo. ‘Não podem continuar! Se o Mário Soares entrar na Marinha Grande, vai ser morto’”. Não foi. Mas sofreu uma agressão. “Uma bofetada, como disseram, ou uma paulada nas costas, como o próprio viria a testemunhar”. Foi “o clique da Marinha Grande”, descreve o autor, e valeu-lhe a eleição.

Na página 98, conta-se “a história que Soares não perdoa a Cavaco, que serve de alegoria para ilustrar alguma desconfiança pessoal, e não apenas política, que sempre teve pelo social-democrata”, como descreve Filipe Luís. “Numa roda e amigos, [Soares] contou certa vez que ter conhecido alguém que viajara de automóvel com Cavaco, para o Algarve, muito antes de este ter entrado na política, e que Cavaco conseguira fazer toda a viagem sem dizer uma palavra.” Um episódio que, para Soares, “definia uma personalidade, demarcava uma linha vermelha e transformava a personagem num elemento perigoso”, lê-se.


Cavaco sabe fazer relatos

Quebrando a sequência cronológica de Presidentes, a que o livro obedece, mantenhamo-nos em Cavaco Silva (o homem que não queria ser político) para lançar a história do camião de 10 toneladas, carregado de alfarroba com destino a Alverca e de sacos de figos para descarregar em Torres Novas, que após uma pausa em Ferreira do Alentejo acabou guiado pelo “terceiro passageiro, um jovem de 16 anos, alto, seco, moreno” de primeiro nome Aníbal.

Se não imaginamos Cavaco no papel de infractor, ainda menos o imaginamos a fazer uma reportagem da aproximação, durante uma campanha, de um repórter da TSF ao primeiro-ministro que se estava a recandidatar. Conta Filipe Luís que o candidato sacou o microfone da mão do jornalista João Almeida, da TSF, e começou o relato: “E agora salto por cima de uma cadeira, e passo por baixo de uma mesa, já levei um pontapé na cabeça, estou a aproximar-me do primeiro-ministro…”

Marcelo Rebelo de Sousa (ou simplesmente Marcelo, como sugere o capítulo dedicado ao actual Chefe de Estado) sucedeu a Cavaco Silva num estilo completamente distinto, mas comungando alguma da popularidade com que Cavaco foi presenteado nos primeiros tempos. Marcelo é popular sim, mas muito menos institucional e formal. E trouxe o seu emprego para a rua, onde estão os portugueses.


A bomba atómica
“Marcelo, você devia era candidatar-se a Presidente da República”. Em 2006, à saída de um estádio alemão no final de um jogo da selecção, um anónimo lançou-lhe o desafio, tratando-o pelo primeiro nome, como se tratam as pessoas por quem se tem afecto (palavra-chave na sua actual presidência). “Isso não, mas nunca se sabe”, respondeu o então comentador. Nessa altura, Cavaco levava apenas cinco meses de mandato e só dez anos depois viria a ser substituído por Marcelo, a 24 de Janeiro, numas eleições muito disputadas. “Para muitos, levar Marcelo a Belém era como dar a chave da despensa a uma criança viciada em bolachas”, descreve o autor.

Para memória futura, traga-se a este texto um traço de personalidade que está registado no final do livro e que, à luz dos últimos acontecimentos, ganha maior relevância. “Contrariando a sua aparente postura frívola na forma de fazer política, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha dado provas de que era capaz de ter jogo de rins quando estava em vista um interesse nacional maior. Foi assim quando, como líder do PSD, viabilizou, pela abstenção, três orçamentos do Estado consecutivos, submetidos à aprovação parlamentar pelo primeiro Governo (minoritário) de António Guterres, em 1997, 1998 e 1999. Traição lesa PSD? Nada disso: Marcelo percebera então que esta era a forma de garantir a entrada de Portugal na moeda única”.

Jorge Sampaio (o poder da lágrima fácil) ocupa qualquer coisa como 50 páginas do livro Os Presidentes que Mudaram Portugal. Uma das histórias recuperadas é a do dia 11 de Setembro de 2001, quando caíram as Torres Gémeas, em Nova Iorque. Conta o autor que Sampaio almoçava em Belém com Medeiros Ferreira quando o segundo avião embateu no World Trade Center. “Bem, o almoço parece estar terminado…”, terá dito o Chefe de Estado, longe de imaginar que um ano e meio depois Portugal estaria a ser anfitrião da Cimeira das Lajes, que reuniu George W. Bush, José Maria Aznar, Tony Blair e Durão Barroso, para tomar uma decisão sobre a invasão do Iraque.

A bomba atómica, no entanto, seria o próprio Jorge Sampaio a lançá-la, em finais de Novembro de 2004. “Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva”, explicou recentemente o antigo Presidente ao seu biógrafo, José Pedro Castanheira. “Ao contrário do que acontecera em Julho, e que achei que devia ser dada uma nova maioria, reconheci que era preciso uma ruptura.” E ela aconteceu, a 30 de Novembro de 2004. Sampaio convocou o Conselho de Estado e marcou eleições antecipadas. O resto já se sabe. E está no livro.

Juntar a vida, as histórias e as polémicas dos Presidentes que mudaram Portugal em 255 páginas era um desafio difícil. Filipe Luís cumpriu-o. As Edições Desassossego editaram-no. A obra é apresentada hoje, pelo politólogo António Costa Pinto.

Sónia Sapage,
Ler mais em Jornal Público de 06/11/2017

18 de outubro de 2017

Não consigo ficar calado

Sete séculos depois ardeu o pinhal de D. Dinis, o das "naus a haver", morreu o verde pinho do rei poeta. Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado. É um símbolo triste da falência do Estado, fruto de décadas de desleixo, de incompetência, de amiguismos múltiplos, da submissão do interesse geral a interesses instalados e da capitulação perante lógicas que não são a dos fins superiores do Estado e do país. Olho o rosto do camponês publicado na primeira página do Público e não consigo ficar calado. É o rosto de séculos de pobreza, o rosto do Portugal esquecido e abandonado pelo próprio Estado democrático, o rosto daquela parte do país que foi deixada para trás quando a agricultura foi vendida a Bruxelas a troco de fundos para auto-estradas que hoje levam a lado nenhum. Um Portugal que já só existe nas páginas de Aquilino e de Torga. Vi as imagens televisivas, aldeias destruídas, casas a arder, homens e mulheres a defender com as próprias mãos os seus bens ou o pouco e quase nada que lhes resta. Vi outra vez automóveis calcinados, ouvi as notícias dos mortos e não consigo ficar calado. Porque passou a haver cada vez mais incêndios desde que foram extintas as quatro regiões militares e os governadores civis a quem cabia a respectiva prevenção e coordenação? Não sei. Só sei que se fizeram grandes reformas e que os meios de combate aos fogos foram saindo das mãos do Estado, entregues ou partilhados com empresas privadas. Não sou um especialista, mas é preciso corrigir o que não deu bons resultados. Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado. Talvez a culpa seja minha, porque fui deputado e participei na construção de uma democracia que a páginas tantas se distraiu e não soube resolver problemas estruturais, como o reordenamento do território e das florestas, assim como o combate ao abandono e à desertificação do país. Não se ouviu como se devia ter ouvido o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. É certo que por vezes protestei, mesmo contra o meu próprio partido. Mas não foi suficiente. Não consigo calar-me e sinto-me culpado. Já disse que não sou um especialista. Mas acho que os meios de combate aos incêndios devem passar para o Estado. Os meios aéreos para a Força Aérea Portuguesa. E é óbvio que se torna urgente a criação de um corpo nacional de bombeiros profissionais organizado segundo normas e regras de tipo militar, como de certo modo já acontece em Espanha. Vai ser preciso enfrentar preconceitos e interesses instalados, mas este é um tempo em que é preciso coragem para tomar decisões para que o Estado não se demita de exercer as suas funções de soberania e seja capaz de proteger o território e garantir a segurança dos portugueses.

Manuel Alegre
Ler mais em: DN opinião 18.10.17

27 de setembro de 2017

Feridas por sarar

O Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, empreendeu um estudo coletivo e interdisciplinar sobre trabalho e políticas de emprego que procura cobrir os variados ângulos das políticas públicas nestes domínios em Portugal. Este trabalho, publicado em livro, inscreve-se numa tradição de economia política que tem sido uma das marcas do Observatório. Procura-se nesta obra, não só proceder a uma detalhada análise dos processos socioeconómicos que têm atravessado o nosso país, mas também oferecer propostas e pistas de ação alternativas que sirvam de contraponto ao discurso dominante. Trata-se de uma análise sobre os antecedentes da crise, sobre os impactos concretos no seu período crítico com a imposição das políticas do (e para além do) "Memorando", e sobre os danos causados que se projetam no tempo.

No chamado "processo de ajustamento", a troika e o Governo PSD/CDS assumiram o trabalho como a principal variável de ajustamento da economia, no pressuposto, absolutamente mentiroso, de o trabalho (salário direto e indireto, direitos, proteção no desemprego) ter sido a causa dos desequilíbrios desencadeadores da crise. A implementação da política de desvalorização interna que concretizou tal opção foi injusta e errada. Injusta porque provocou redução de salários, de prestações sociais e de importantes direitos laborais (individuais e coletivos), um forte aumento do desemprego, a fragilização de políticas sociais, o enfraquecimento do Estado e uma pior distribuição da riqueza. Errada porque foi fortemente recessiva, conduziu à perda de capacidade produtiva e reforçou emigração. O chamado novo emprego e os "novos" vínculos contratuais que surgiram a partir daí ampliam as precariedades e tendem a consolidar uma matriz de baixos salários.

A desestruturação das relações laborais, provocada pelas alterações impostas nas instituições que enquadram as relações de trabalho e pela transferência de rendimentos e de poder do fator trabalho para o fator capital, foi, muito provavelmente, a maior transformação que o nosso país sofreu. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, ao apresentar esta obra assumiu que "com maior ou menor investimento, com mais ou menos cortes, com mais ou menos cativações, não se pode dizer que os sistemas públicos de saúde, educação e segurança social se tenham totalmente descaracterizado. Mas na área do trabalho não terá sido assim". Quer isto dizer que nas políticas sociais, da educação e outras, há feridas que é preciso ir paulatinamente tratando, mas na área do trabalho existem feridas que podem estar a transformar-se em chagas mortíferas.

Ferro Rodrigues, depois de lembrar que "a tolerância das sociedades democráticas com políticas que geram mais desigualdades está próxima do zero" e que "não basta criar emprego" nem "crescer de qualquer maneira" afirmou, "dar valor ao trabalho é de facto urgente", ou seja, será pela colocação do trabalho revalorizado no centro das políticas que poderemos romper com as peias que continuam a atrofiar no plano estratégico a nossa economia e o desenvolvimento da sociedade. A dignidade no trabalho não sobrevive entregue às regras do mercado. Em muitos casos, os salários podem ser melhorados, apenas impondo-se regras que assegurem partilha da prosperidade.

Estamos em tempo de inovação tecnológica e de uma globalização que constantemente armadilha direitos no trabalho. Isso desafia os atores sociais e políticos e, em particular, os governos, a redobrado cuidado nas escolhas políticas. Repor equilíbrios nas relações laborais, na contratação coletiva e nos vínculos de trabalho é prioritário.

Manuel Carvalho da Silva
Investigador e Professor Universitário
Leia mais em: JN opinião 24.09.2017

1 Manuel Carvalho da Silva, Pedro Hespanha e José Castro Caldas (Coords.), Trabalho e políticas de emprego. Um retrocesso evitável. Coimbra: Actual.

2 Fundação Calouste Gulbenkian, 21/09/2017. Apresentação de Eduardo Ferro Rodrigues e Raymond Torres.

26 de setembro de 2017

Uma temível normalidade

O resultado da AfD deixou a quarta reeleição de Merkel no lugar de uma nota de rodapé das eleições germânicas. A. Gauland, um dos chefes de fila da horda nacionalista e xenófoba que vai entrar de tropel no Bundestag, anseia pelo dia em que os alemães possam recordar os seus feitos bélicos na II Guerra Mundial do mesmo modo como os franceses recordam as vitórias de Napoleão, como se o imperador e o Führer fossem comparáveis e como se existisse alguma proibição aos numerosos estudos internacionais que enaltecem a competência militar de Manstein, Guderian ou Rommel. Helmut Kohl foi o último chanceler a considerar que a "culpa alemã" (Die Deutsche Schuld) pela busca catastrófica de poderio, culminada no Holocausto, ainda não tinha prescrito, sendo isso positivo não só para a Europa como para defender a Alemanha dos seus próprios demónios. Gauland é a versão extrema de uma aspiração pela "normalidade" do egoísmo nacional que foi manifestada pela primeira vez pelo chanceler G. Schröder (1998-2005). Schröder submeteu o seu país a uma brutal austeridade competitiva, preparando-se para o euro como para uma guerra. As eleições alemãs sepultam a ilusão de que a vaga de renacionalização virulenta havia terminado na UE. A AfD promete estar na linha da frente dos partidos ultranacionalistas, que trazem no seu programa não apenas a destruição da UE mas também o colapso de tudo o que tem evitado uma nova grande guerra em solo europeu. Quando em 2011 Günther Oettinger, o homem que Merkel colocou na Comissão Europeia, pediu para os países que tinham cometido o "pecado" da dívida excessiva terem, compulsivamente, as suas bandeiras a meia haste nas instituições da UE, ninguém o demitiu. O nacionalismo neonazi da AfD é um problema de "normalidade" em sobredosagem. A contagem decrescente para a fragmentação europeia voltou a acelerar.

Viriato Seromenho-Marques
DN Opinião 25.09.2017

24 de setembro de 2017

Política de proximidade

Chegou a tempo das eleições autárquicas, esse momento em que a democracia representativa parece aproximar-se mais dos cidadãos e o compromisso vinculativo com as pessoas ganha o espaço que escasseia.

A progressiva perda de confiança na classe política tem aumentado nas últimas décadas em todos os países ocidentais, refletida de modo brutal no aumento constante da abstenção, a partir dos anos 80 do séc. XX.

As razões desta aparente apatia são vastas e complexas. As ideologias robustas de contornos precisos que caracterizaram a organização dos partidos políticos e governos durante décadas (definindo posicionamentos políticos sólidos e homogéneos) foi esmorecendo a par do surgimento de novas aspirações e posturas cívicas menos comprometidas com soluções totais e definitivas, mais apostadas nas causas pontuais e transversais. As identidades políticas dos cidadãos tornaram-se mais fluidas, mais individualizadas e flutuantes, e a relação estreita entre o partido político e a identidade social mais diluída.

Esta nova constelação paradigmática é em tudo devedora de uma nova conjuntura internacional que produz efeitos no mundo da vida das pessoas, dos seus interesses e da forma como se perspetivam a si mesmas e ao seu futuro. O triunfo da economia de mercado, as alterações nas relações laborais, a globalização de bens, culturas e pessoas, as sucessivas crises financeiras, económicas e políticas que abalaram o Mundo instalam nos cidadãos, em primeira instância, a sensação de que a autoridade, o poder nas suas diferentes dimensões é hoje algo distante - transnacional - difícil de perceber e controlar. E quando as pessoas sentem que "não é possível mudar a sociedade" a militância política perde sentido ou canaliza-se para novas formas de participação em torno de outros temas.

Ainda que muitas vezes perdidas na confusão intensa das redes sociais, baralhadas pela informação superficial e distorcida que circula na Internet ou nos shows televisivos da política light, as pessoas têm hoje aspirações mais exigentes; e têm, acima de tudo, um nível de formação muito superior ao dominante nas últimas décadas do século passado. E esta é uma esperança e um facto que os "políticos" têm de compreender.

As autárquicas podem e deveriam abrir o caminho a uma democracia de melhor expressão, atenta. Uma democracia de proximidade, prolongada, para além do voto, numa dinâmica local, comunitária, inteligente e mobilizadora.

Rosário Gambôa
PRESIDENTE DO POLITÉCNICO DO PORTO

7 de setembro de 2017

Pormenores de 600 milhões

A execução orçamental de 2017, tal como se vinha desenhando, está a beneficiar dos efeitos positivos de uma descida do desemprego mais rápida do que o previsto, de um crescimento económico acima das previsões e da manutenção de um apertado controlo na execução da despesa.

De tal forma que há quem já identifique uma “folga” de 600 milhões de euros na execução orçamental. Já lá vamos, mas por ora convém abrir um breve parêntesis.

600 milhões era também o montante de cortes na Segurança Social que o PSD e CDS se preparavam para fazer se tivessem conseguido formar um Governo com apoio mínimo no Parlamento. E esses cortes podiam mesmo ser cortes directos nos montantes das pensões. Não vale a pena negar essa realidade.

Este não tão pequeno pormenor de 600 milhões de euros acima ou abaixo diz tudo sobre quem vê a solução para o País por via de repor rendimentos e crescer e quem só pensa em empobrecer o País e retirar rendimentos do trabalho enquanto aumenta os rendimentos de capital.

Durante a crise 3,6 mil milhões de euros desapareceram do rendimento do trabalho enquanto a remuneração de capital aumentou em 2,6 mil milhões de euros. Vale a pena relembrar que, como escrevemos aqui no final do ano passado: “É absolutamente atípico, por um lado, que a remuneração do capital (o excedente bruto de produção) aumente em anos de crise e, por outro lado, os dados em causa demonstram de forma cabal o colapso da renumeração do trabalho, que cai a partir de 2010 de forma abrupta quase 10 mil milhões de Euros. Estes dados são corroborados por uma análise qualitativa e quantitativa da receita fiscal.”.

Entre um mundo em que se preparam cortes de 600 milhões nas pensões dos mais fracos, e se manteriam a sobretaxa do IRS e outras medidas do género e este em que estamos, em que a execução orçamental tem uma folga no mesmo montante vão 1,2 mil milhões de euros de diferença.

Mas muito mais importante do que isso, a diferença entre esse mundo e este demonstra três coisas fundamentais: na vida em sociedade existem sempre escolhas alternativas que podemos fazer, colectivamente; solidariedade e melhor distribuição de rendimentos são melhores para o crescimento económico do que deixar crescer as desigualdades e, por fim, mas não menos importante, a política e os políticos são responsáveis pelas escolhas que fazem.

Eles e nós. Não vale continuar a dizer que não vale a pena votarmos, participarmos, discutirmos opções e escolhermos quem as deve executar porque “é tudo igual”. Não é tudo igual. 600 milhões de cortes ou 600 milhões de folga na execução orçamental traduzem-se em menos pobres, em menos desigualdade, num País um bocadinho melhor. Tudo menos um pormenor.

Marco Capitão Ferreira
Expresso Diário 06.09.2017

29 de agosto de 2017

A cultura da imprevisibilidade como instrumento político

A imprevisibilidade tornou-se numa atitude cultural que serviu de sustentação ideológica ao desenvolvimento de um modelo de sociedade que quis prescindir do “estado social” e dos “direitos adquiridos”


Uma das características do nosso mundo é o da sua total imprevisibilidade: a da vida de todos e de cada um de nós.

Tal imprevisibilidade não é, contudo, encarada por alguns apenas como uma consequência indesejada do modelo de sociedade que se foi afirmando desde o último quartel do Século XX.

O gosto e a atração por uma imprevisibilidade virtuosa têm configurado, de facto, uma cultura que se quis e quer incutir na vida das gerações mais recentes.

O que para as gerações anteriores era considerado uma condicionante indesejável que importava ir controlando, reduzindo e vencendo se possível passou a ser apresentado como uma ideia positiva.

A imprevisibilidade como condição da vida serviu, assim, de sustentação ideológica ao desenvolvimento de um modelo de sociedade que queria prescindir do “estado social” e dos “direitos adquiridos”, considerados estes como privilégios de gerações velhas e egoístas e inibidores de desenvolvimento e riqueza.

Procurou-se, por isso, associar a virtude da imprevisibilidade com noções mais aliciantes como, por exemplo, a “liberdade de escolha e de circulação”, o primado da “iniciativa individual”, ou mesmo o conceito quase milagroso de “empreendedorismo”.

Esta pretendida, e realmente alcançada, imprevisibilidade da vida e os resultados que ela gerou no nosso mundo parecem agora, contudo, fora de controlo.

Há, com efeito, um grau de imprevisibilidade alarmantemente grave na política e na economia mundiais, bem como na vida de um cada vez maior número de pessoas.

O fenómeno dos refugiados é, neste último plano, apenas o exemplo mais flagrante e doloroso.

A imprevisibilidade que uns quantos acalentaram – na verdade como instrumento privilegiado de controlo social e desregulação jurídica das sociedades socialmente mais equilibradas que emergiram da II Grande Guerra – tornou-se pois um fator de total desestabilização política, económica e social.

Não expressando ainda uma análise crítica sobre o fenómeno cujas virtudes ajudaram culturalmente a sedimentar, os media começaram agora a expor – aparentemente atónitos – muitas das suas consequências políticas e sociais.

O pânico social que a já desarvorada imprevisibilidade vai, entretanto, suscitando traduz-se em movimentações políticas que alguns apodam ainda de populistas e em discursos e atitudes de governantes mundiais, inimagináveis ainda há poucos anos.

Portugal tem, mais recentemente, conseguido ir invertendo um pouco esse percurso.

Muito dos nossos mais recentes sucessos – de que quase todos se reclamam, aliás – resultam, em grande parte, da pequena inversão que ocorreu na sociedade portuguesa, quando se começou a reduzir os fatores de insegurança que a ideologia da imprevisibilidade justificava.

O facto de não terem florescido entre nós – como tem acontecido em outros países europeus – fenómenos políticos eufemisticamente designados ainda de populistas, resulta, precisamente, de ter sido possível manter e desenvolver, mesmo que limitadamente, o princípio da esperança entre os portugueses.

É essa cultura da esperança que, de forma responsável, mas perseverantemente, é necessário cuidar e fortalecer para que a ideologia da imprevisibilidade não regresse e permita que os fenómenos de alto risco que envenenam hoje a vida de tantos povos possam acontecer entre nós.

O caminho da esperança é exatamente o contrário do da imprevisibilidade.

Criar confiança e desenhar responsável e solidariamente um caminho de dignidade e futuro para todos é o único antídoto para o apavoramento social que se instalou em muitas partes de mundo e que tem permitido alimentar o ovo da serpente.

A auto-satisfação com os resultados obtidos e o abrandamento na construção do caminho da esperança são, todavia, riscos que importa evitar.

António Cluny
Jornal i 29.08.2017

7 de agosto de 2017

Sobre a tirania

A tirania ameaça as nossas democracias através de dois mecanismos contraditórios que operam em conjunto — a política da inevitabilidade e a política da eternidade


Num texto velho de 22 anos, mas de uma atualidade aguda, Umberto Eco deixava um aviso: o fascismo não regressará com as mesmas vestes. Não deveríamos esperar marchas militarizadas, nem botas cardadas, nem polícias políticas como no passado. Os governos totalitários que assolaram a Europa do século XX dificilmente reaparecerão com as mesmas características em contextos históricos diferentes. No entanto, para o escritor italiano, era possível identificar um conjunto de traços do “fascismo eterno”, o que, num ensaio incontornável, apelidou de Ur-Fascismo.

Sem citar Eco, o historiador norte-americano Timothy Snyder, num pequeno livro — “On Tyranny — twenty lessons from the twentieth century” —, elabora sobre a mesma hipótese. O exercício é notável: um texto pedagógico, de grande lucidez, que cruza leituras da história com alertas sobre os dias de Trump (que nunca nomeia). Misto de lições sobre a forma como o passado se projeta no presente e manual de instruções para lidar com as novas formas de tirania, a reflexão de Snyder é atravessada por um ensinamento: temos de preservar a memória dos horrores do passado para proteger a democracia.

Não se pense que Snyder assume um regresso às tiranias do século XX. Pelo contrário, a preocupação é identificar os traços novos do totalitarismo, sem esquecer o passado. O livro abre, aliás, com uma asserção certeira: “A história não se repete, mas ensina.” E se há ensinamentos a reter — da forma como as instituições liberais soçobram com facilidade à tirania, à importância dos exemplos de coragem moral, passando pela obrigação de preservar uma separação inviolável entre vida pública e privada —, o que torna o exercício interessante é a revelação de como os mecanismos do passado assumem novos contornos, nomeadamente em face das transformações do espaço público.

O texto é atravessado por uma hipótese: a tirania ameaça as nossas democracias através de dois mecanismos contraditórios que operam em conjunto — a política da inevitabilidade e a política da eternidade. Enquanto a primeira criou um pensamento hegemónico, que garantiu que os totalitarismos eram memórias distantes e o curso da história apontava inexoravelmente para a democracia liberal; a segunda remete para um passado mitificado, alicerçado numa ideia falsa de uniformidade nacional. O perigo que enfrentamos está na forma como, sem sentido da história, passámos da política da inevitabilidade (uma visão acrítica e pueril da democracia liberal) para a política da eternidade (um tipo de oligarquia fascista, marcada pelo cinismo).

Entre muitas instruções para enfrentar as novas tiranias, Snyder aconselha que, contra a opressão das redes sociais e do ciclo mediático organizado em torno de uma sucessão de escândalos, leiamos livros. Fica aqui este conselho com um alcance fundamental.

Pedro Adão e Silva
Expresso, Opinião 05.08.2017

26 de junho de 2017

Um país de incendiários

A vida é uma interminável tentativa de entender. E quando não nos dão respostas, temos tendência a lançar os nossos próprios palpites. Sobre incêndios, há um quase universal. Ano após ano, ouvimos repetidas declarações de populares convictos de que o país arde porque estamos rodeados de incendiários. Pior, a mesma convicção é gritada por decisores políticos e dirigentes de entidades do setor.

Há, sobre o incêndio de Pedrógão, uma investigação em curso. Ministério Público e Polícia Judiciária terão de ouvir todas as testemunhas com relevância e informação. Mas espera-se que quem na praça pública tem repetido não ter dúvidas de que houve origem criminosa tenha dados concretos para apresentar. O contrário seria de uma irresponsabilidade preocupante.

Já foram reveladas imagens daquele que a PJ acredita ter sido o ponto de ignição. Mas há, a complementar a investigação sobre a origem e a propagação, muitas fontes e registos tecnológicos que vão além da observação do terreno. Há, por exemplo, registos de descarga de um raio positivo (com 10 vezes mais potência do que os negativos) da agência EUMETSAT, através do satélite Meteosat. Bem como dados do sensor VIIRS (também por satélite) que comprovam ter havido uma propagação muito rápida das chamas, com ventos rápidos que potenciavam projeções de fogo a longas distâncias.

O verão está apenas a começar e todos devemos fazer perguntas sobre Pedrógão. Queremos saber se os meios de combate eram adequados, se foi feito tudo o que era possível para proteger os aglomerados populacionais, ou qual a falha exata das comunicações. Mas depois de fazermos as perguntas temos de saber escutar quem sabe e esperar o tempo adequado para que as respostas sejam fundamentadas. Lançar palpites e fazer acusações incendiárias é não apenas inútil como um erro que impede as mudanças necessárias.

Já agora, convém não perdermos de vista que a tragédia de Pedrógão não terminou com a extinção do incêndio. Continua a haver dúvidas sobre pessoas desaparecidas. Moradores que ficaram sem casa, sem bens e sem emprego. Há roubos e fraudes que revelam o pior da natureza humana e campanhas de solidariedade que não estão a ser úteis nem devidamente coordenadas. Antes de nos dedicarmos, na praça pública, a incansáveis trocas de acusações em busca de culpados, convém manter o foco nas verdadeiras prioridades.

Inês Cardoso
Ler mais em: JN Opinião 26.06.2017

13 de junho de 2017

Que emprego se está a criar

Os portugueses já ouviram a afirmação mil vezes, em discursos políticos e também em declarações de empresários: Portugal não pode seguir um modelo de crescimento - e eu acrescento, e de desenvolvimento - assente em baixos salários e emprego precário. Será esta a realidade no mundo do trabalho? Que precauções e medidas de política devem ser implementadas para que a bota dê com a perdigota?

Num contexto de incremento da atividade económica e de significativo crescimento do emprego - que é possível manter e acelerar - é crucial saber se o tipo de emprego que está a ser criado nos afasta ou aproxima de um horizonte de desenvolvimento. Para tal, é necessário dispor de informação segura sobre o emprego que está a ser criado. Foi o que fez o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, através do Observatório sobre Crises e Alternativas, publicando há dois dias um estudo (o JN fez-lhe destacada referência), intitulado "Novo emprego. Que emprego?"(1) , que analisa exatamente o "novo emprego". Sem secundarizar qualquer fonte estatística disponível, o autor do estudo utilizou, pela primeira vez, uma base de dados "produzida a partir dos descontos feitos para o Fundo de Compensação do Trabalho e o Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho", criados em outubro de 2013, conseguindo com ela caracterizar muito melhor a natureza dos vínculos contratuais e as tendências de persistência ou volatilidade com que cada tipo de contrato se apresenta, bem como identificar as remunerações aplicadas.

As três constatações fundamentais a que chega a partir das características dos 3 343 255 contratos celebrados entre novembro de 2013 e maio de 2017, são preocupantes: 
  • i) existe uma "tendência para a redução do peso dos contratos permanentes na estrutura do emprego"; 
  • ii) observa-se "uma miríade de tipos de contratos não permanentes, de baixa duração, muitos deles temporários e/ou de horários parciais, em permanente rotação para o mesmo posto de trabalho ou até para o mesmo trabalhador"; 
  • iii) constata-se uma tendência de degradação da remuneração do trabalho", que só não foi mais acentuada porque o aproximar das eleições legislativas de 2015 e os compromissos do atual Governo propiciaram três aumentos do salário mínimo nacional (SMN).
Os dados disponíveis confirmam os serviços como o setor que mais postos de trabalho cria, refletindo também o novo dinamismo do turismo e do imobiliário na economia portuguesa. Sem querer matar a "galinha dos ovos de ouro", há que tomar cautelas quanto à qualidade do emprego, tanto mais que, tradicionalmente, os ganhos potenciais de produtividade nestes setores são baixos.

É urgente uma melhoria dos salários e das relações de trabalho nos setores em que mais emprego está a ser criado, a par da requalificação e da utilização qualitativa dos recursos neles gerados para a implementação de uma política que promova a diversificação do tecido produtivo nacional, onde a indústria não seja o parente pobre. Caso contrário, arriscamo-nos a um crescimento desequilibrado, vulnerável a bolhas, com fracas perspetivas de valorização do trabalho no médio e longo prazo e, por esta via, jamais faremos convergência com as economias mais desenvolvidas. As características dos novos e de muitos dos velhos contratos mostram-nos à exaustão a importância de uma atualização regular e justa do SMN, mas ainda quanto são imprescindíveis o incremento e a efetivação da contratação coletiva.

Uma sociedade não se desenvolve assente em políticas de baixos salários. Por outro lado, a precariedade não combina com a democracia. A precariedade cerceia direitos fundamentais no trabalho, nega condições materiais e outras indispensáveis ao acesso a direitos sociais, políticos e culturais. A precariedade gera medos e tem intrínseca uma dimensão social e humana que marca negativamente o rumo das sociedades. A precariedade é geradora de guetos sociais passíveis de engajamentos para perigosos projetos políticos.

Há que colocar na agenda política o combate por melhor qualidade de emprego, pela valorização salarial e contra a precariedade.

(1) Barómetro das Crises n.º 16, disponível em: http://www.ces.uc.pt/observatorios/crisalt/

Manuel Carvalho da Silva
Investigador e Professor Universitário
Leia mais: JN opinião 11.06.2017

7 de junho de 2017

Conselho de segurança

A constante afirmação do atual presidente dos EUA de que o seu objetivo e diretiva para o povo americano, e aviso ao mundo, é Make America Great Again cria, entre vários embaraços da expressão, o de perceber o que ele entende por grandeza da América. Uma longa teoria de pensadores e governantes foram fazendo convergir as suas meditações no conceito "interesse permanente variável" dos EUA, e a contribuição do atual eleito parece inclinar-se para a "revisão do interesse atual", a começar pela crise climática, que considera uma questão despicienda, e por isso anunciou sair do acordo de Paris, mas para voltar a entrar com proveitos de bom negociador, que se atribui.

O tema do declínio americano é frequentemente chamado à atenção dos seus cidadãos, podendo lembrar-se o título destacado da Foreign Affairs de novembro-dezembro, já de 2011, que foi o seguinte: "Is America Over?". Por então as questões andavam marcadas pelas intervenções, chamadas humanitárias, e de custo militar elevado, todas podendo ser inscritas, pelos críticos, no que chamaram a formação do Império Americano. Mas agora trata-se de pretender desvalorizar o saber existente sobre a questão climática, já por ele considerada "um embuste", talvez não informado dos avisos dos seus próprios centros de investigação nacionais.

Não se trata do poder militar, nem de ignorar, como afirma Chomsky, que, não obstante descuidos que refere, "the United States remains de World"s power by a large margin". Entre a falta de atenção conta-se, segundo informa, que, pela mesma data, um identificado Relatório da Energy Agency (IEA), público, o rápido crescimento das emissões de carbono terá atingido o limite de segurança, em relação ao clima, por 2017, a continuar o nível da exploração então em curso. É evidente que nem todas as vozes admitem o declínio da América, acreditando mesmo que novas tecnologias poderão tornar o país independente no domínio da energia, mas a questão, nesta data, e na situação que tem de ser enfrentada, o que tem que ver é com os consequencialismos do descaso pelos fundamentos do Acordo Internacional de Paris sobre o clima.

Os avisos de pessoas autorizadas pela função, pelo saber e pelo sentido de responsabilidade para com as gerações atuais e futuras, são de alarme, destacando-se o aviso das autoridades militares sobre a probabilidade de a situação agravada levar a conflitos armados. A perplexidade de Noam Chomsky, no seu Who Rules de World?, publicado (2016) antes da viagem inesquecível com que o novo presidente se mostrou ao mundo, obriga a pensar nos órgãos responsáveis existentes, e um dos que não pode ser ignorado é o Conselho de Segurança da ONU. O artigo 34.º da Carta da ONU diz o seguinte: "O Conselho de Segurança poderá investigar sobre qualquer controvérsia ou situação suscetível de provocar atritos entre as nações ou de dar origem a uma controvérsia, a fim de determinar se a continuação de tal controvérsia ou situação pode constituir ameaça à manutenção da paz e da segurança internacionais." Designadamente, o artigo 24.º (n.º 3) acrescenta que "O Conselho de Segurança submeterá à apreciação da Assembleia Geral relatórios anuais e, quando necessário, relatórios especiais." São funções em relação às quais o veto, que corresponde a uma hierarquia ultrapassada pelos factos, não tem cabimento, porque se trata de evitar conflitos, não de intervir, salvo no futuro das gerações que sofrerão as consequências do irrefletido ato de um só homem, entre os que habitam a terra. Já aconteceu, no século passado.

O aviso das forças armadas americanas, tornado público, deve ser lido e meditado pelo Conselho. Designadamente para tomar em consideração que talvez mais de metade dos Estados membros da ONU não possuem meios para responder aos ataques já verificados da natureza. Não parece aceitável que admitindo a Carta (artigo 35.º, 2) que até um Estado que não seja membro das Nações Unidas poderá chamar a atenção do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral, os membros apenas tenham de preocupar-se com a tabela de agressões possíveis existente na data do fim da II Guerra Mundial, não tenham que intervir sobre as espécies de agressões e eventuais responsáveis, que ganharam relevo depois disso. Não é apenas o risco nuclear que representa um conhecido risco agudo: a existência do planeta Terra, "casa comum dos homens", tem na questão climática uma ameaça global. O Conselho de Segurança não pode ignorar.

Adriano Moreira
Ler mais em: DN opinião 07.06.2017

23 de maio de 2017

Grandes poderes, nenhum escrutínio

Empresas globais como a Google e o Facebook possuem um poder ilimitado de manipulação dos comportamentos.


“Um grande poder acarreta uma grande responsabilidade”. A frase tem vários autores ilustres, desde Churchill a Jesus Cristo, mas a versão que conquistou a imortalidade (“With great power comes great responsibility!”) é a de Benjamin Parker, o “Tio Ben” de Peter Parker, mais conhecido como Homem-Aranha.

A noção é central na filosofia política e no exercício da política em democracia, onde a preocupação em equilibrar um poder com outros poderes e em construir formas de escrutínio, controlo, limite e responsabilização de todos os poderes é tanto maior quanto maior for o seu alcance.

Nenhum sistema político moderno defende a concentração de poderes numa só pessoa ou organização e muito menos uma concentração de poderes isenta de escrutínio. Apesar disso, assistimos hoje a uma concentração crescente de poder na mão de um número limitado de empresas globais que, precisamente devido ao seu carácter global e à sua não-territorialidade, não são submetidas a nenhum escrutínio digno desse nome e cujo poder não é praticamente limitado por nenhuma instância jurídica ou outra.

De uma forma geral, olhamos com complacência estes poderes, que nos parecem benignos e que nos fornecem a baixo preço serviços sem os quais hoje viveríamos dificilmente. Mas qual é o verdadeiro preço que estamos a pagar?

Nos últimos meses, foram publicados na imprensa vários artigos sobre o envolvimento de empresas especializadas em guerra psicológica nas campanhas de Donald Trump nos EUA e do referendo do Brexit no Reino Unido. Estas empresas, ligadas aos meios da direita e extrema-direita globais, podem ter influenciado o comportamento de votantes indecisos através de campanhas de publicidade online extremamente eficazes, construídas com base em dados coligidos, nomeadamente através do Facebook, que permitem conhecer os valores, gostos, atitudes e comportamentos de grupos de pessoas mesmo sem conhecer a identidade pessoal dos seus membros. A questão é que um poder desta dimensão, capaz de manipular o comportamento de massas, exige um enorme escrutínio e controlo, sem o que a nossa actual e imperfeita democracia se pode ir transformando, insensivelmente, num sistema totalitário onde apenas julgamos fazer escolhas livres.

O Google, por seu lado, determina hoje quase toda a informação a que temos acesso. No passado, jornais e TV com um poder infinitamente menor, eram submetidos a regras estritas para limitar a sua influência, mas o Google, escudando-se atrás de uma falsa neutralidade dos seus algoritmos, possui um poder virtualmente ilimitado de manipulação de crenças e comportamentos. O debate sobre o controlo destes poderes é essencial, se queremos manter alguma esperança de democracia.

José Vítor Malheiros

28 de abril de 2017

A GBU-43/B e uma cidade basca num quadro de Picasso

Uma similitude política, outra militar, a reforçar a ideia essencial, e perigosamente esquecida, de que o conhecimento do passado é o que melhor ilumina o presente e o futuro. A que podemos acrescentar mais duas evidências negligenciadas: 1937 ou 1939 não foram assim há tanto tempo e o Afeganistão não é assim tão longe


Ainda antes da Páscoa, na mesma semana em que os noticiários davam conta do lançamento, pelos norte-americanos, da “mãe de todas as bombas” no Afeganistão, algumas páginas culturais de jornais e revistas lembravam que em Madrid, no Museu Rainha Sofia, era inaugurada a exposição “Piedade e Terror em Picasso: o Caminho até Guernica”. Pelos mistérios da associação de ideias, o lançamento da GBU-43/B, nestes princípios do séc. XXI, sobre terra e pedras e algumas dezenas de militantes do Estado Islâmico – ao que parece, trata-se da mais potente bomba não nuclear até agora construída, e os americanos tê-la-ão experimentado por estes dias “em cenário real” e “com êxito” – fez-me pensar no destino de Guernica em abril de 1937. Parece que abril pode ser um mês calhado para bombardeamentos, seja neste, seja no século passado. Como diria o outro, farsas e tragédias estão sempre a repetir-se.

Bem sei que são situações completamente diferentes, o Afeganistão de agora e a Espanha dos anos 30 do século passado. Sei bem que o Estado Islâmico e a resistência republicana a Franco nada terão que ver um com a outra. Et cetera. Não é daí que vem a associação de ideias. Vem de outras similitudes, porventura mais elaboradas, mas bem mais importantes. Duas, mais exatamente, uma similitude política, outra militar – e uma e outra a reforçar a ideia essencial, e perigosamente esquecida, de que o conhecimento do passado é o que melhor ilumina o presente e o futuro. A que podemos acrescentar mais duas evidências negligenciadas: 1937 ou 1939 não foram assim há tanto tempo e o Afeganistão não é assim tão longe.

A similitude política leva-nos a pensar em nacionalismo, isolacionismo e outros ismos, e em demagogia – coisas que teimam em atravessar os tempos e em contaminar os lugares, como se fossem vírus resistentes e insinuantes. E a similitude militar conduz-nos ao experimentalismo. Por muito que, com “generosidade” intelectual ou geopolítica, se possa dizer ou pensar que era preciso lançar esta bomba contra o terrorismo, um ignorante destas coisas como eu duvida, e parece-me que há aqui uma dose tão grande de experiência quanto de simbolismo e aviso. Ora, a Legião Condor alemã, com apoio italiano, bombardeou durante horas a pequena cidade basca de Guernica, causando um número de mortos que ainda hoje não está determinado. O ataque, para além do alegado objetivo que teria no que toca ao curso da Guerra Civil Espanhola, tinha como grande fito constituir um ensaio para a aviação e, também, para a colaboração entre as tropas alemãs e italianas, cujo belicismo ia em crescendo. Correu bem o ensaio, e Guernica foi, desse ponto de vista, “um êxito”. E cerca de dois anos depois começou a II Guerra Mundial, e o resto é (será?) História. Existe o celebrado cliché que nos diz que não devemos regressar a lugares onde fomos felizes. Talvez seja verdade, não estou certo. Mas estou seguríssimo de que não devemos repetir os motivos da nossa infelicidade.

Rui Patrício

24 de abril de 2017

A democracia do like

Se quiser discordar de tudo o que está aqui escrito, siga para a caixa de comentários e discorde. Se concordar, ponha um like e partilhe. Se pura e simplesmente não gosta do autor deste artigo, ponha um emoji de ar zangado (ou daqueles que parece que vão vomitar) e vá destilar ódio para a rede social que mais lhe der jeito. Faça o que quiser, mas não ache, por um segundo, que está a cumprir o seu papel de cidadão. Que isso chega. Não chega.

Há dois grandes fatores que estão a destruir as democracias ocidentais: o desinteresse das pessoas e o descrédito na classe política. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca, bem sei. Quanto maior é o descrédito na classe política, maior é o desinteresse das pessoas. Mas o problema não é assim tão simples. Ao mesmo tempo que as pessoas se refugiam na cobardia das redes sociais para se sentirem mais cívicas e participativas, os políticos andam à procura de novas formas de chegar às pessoas. Uma delas são precisamente as redes sociais, que permitem fazer uma espécie de sondagem, verificar tendências e agir em conformidade. A política deixou de tratar apenas dos problemas que precisam de ser tratados e passou a tratar dos temas virais. Se é viral, é importante. Melhor ecossistema para o populismo é impossível.

Ser político há muito que deixou de ser currículo e passou a ser cadastro. A lista de clichés é interminável, mas recorrendo a Aristóteles e às suas argumentações lógicas perfeitas podemos resumi-los ao seguinte silogismo: todo o político faz parte do sistema; este senhor é político; este senhor faz parte do sistema. Mas o que é o sistema?

O sistema é assim uma espécie de saco onde os cidadãos decidiram meter tudo o que de mau a política tem. Decisões erradas, mentira, corrupção, crises - o sistema é tudo isto e muito mais que se queira lá meter. O raciocínio, por simplista que seja, é fácil de explicar. As pessoas estão fartas de ser enganadas, cansadas de ler notícias sobre corrupção na política e há muito que deixaram de acreditar nas promessas que lhes fazem porque essas promessas são consecutivamente incumpridas. E também aqui as redes sociais vieram dar um contributo assustador para a desinformação. Nada é verificado. Tudo é partilhado sem critério. Comenta-se tudo. Tem-se opinião sobre tudo. Só não se tem o cuidado de saber do que se está a falar.

Não estou com isto a desculpar ninguém. A classe política é vítima dela própria e deixou-se arrastar para um buraco de onde dificilmente vai conseguir sair. Já não é só a mentira, as promessas por cumprir ou os casos de corrupção. São decisões erradas e erróneas ou a falta de decisões, é a total ausência de estratégia que leva todos os dias a política ao descrédito. É um discurso formatado e tantas vezes incoerente que já ninguém ouve.

Tudo isto deixou escancaradas as portas para os outsiders, os chamados candidatos fora do sistema. Para ter sucesso, basta seguir o manual à risca. Assumir-se como não político. Ter um percurso profissional de sucesso e demonstrar à evidência que os políticos não trabalham, são apenas políticos. Perceber anseios e angústias da população e formatar um discurso à medida. Dizê-lo em 128 caracteres, se possível. Não basta dizer o que as pessoas querem ouvir, é preciso pegar no desespero delas e trabalhá-lo politicamente. Torná-lo viral. Se as pessoas querem soluções mágicas para os problemas, então prometemos fazer magia.

Nós teremos sempre a democracia que quisermos ter. Se quisermos resumir a nossa participação cívica a um like, um comentário ou um emoji em vez de perceber a causa das coisas, de participarmos civicamente na sociedade, de votarmos, teremos uma democracia mais pobre. E uma classe política cada vez mais medíocre, por falta de escrutínio. É normalmente assim que surgem "salvadores", aqueles que acabam por virar ditadores.

Anselmo Crespo

29 de março de 2017

Em ti, Dijsselbloem

Em ti, Dijsselbloem, está o que está em todo o lado, o sexismo que nas tuas palavras põe alimentos e mulheres no mesmo cesto e toda uma visão heteronormativa do mundo.

Em ti, Dijsselbloem, está, no entanto, especificamente, o desprezo pelo outro, a vontade de aniquilar esse outro, num olhar de moral calvinista, a vontade de varrer da Europa quem tens por miseráveis.

Em ti, Dijsselbloem, está, afinal, a vontade ativa de ignorar as causas da crise dos países europeus, está afinal o que sempre esteve, uma ética punitiva a aplicar aos boçais do sul entre os quais também habitam os que durante muito tempo validavam o teu discurso acusando-nos de vivermos “acima das nossas possibilidades”.

Em ti, Dijsselbloem, está a prova de que a xenofobia e o racismo, a extrema-direita, infiltraram-se nos partidos que se dizem, como o teu, “sociais-democratas”, para vitória de quem quer pregar, precisamente, a segregação em vez da união, o tal do desprezo pelo outro que te sai pela boca.

Em ti, Dijsselbloem, está a o norte e o sul, os “fundadores” e os “servidores”, com pronta ajuda do ministro das finanças alemão (era para o país dele que falavas, quando vomitaste?).

Desengane-se quem diz que só está em causa uma clivagem ética e moral e não, também, uma clivagem ideológica.

Vi quem escrevesse que seria assim, por ter sido um homem “de esquerda” a dizer o que disse. Acontece que Dijsselbloem representa precisamente o fenómeno de desmaterialização da esquerda (que felizmente não aconteceu em Portugal). É um homem que há muito dá mostras de pertencer ao campo da direita austera, arrogante e moralista.

Justamente o que é extraordinário é ver a extrema-direita crescer nos seus partidos formais e esticar os ramos para dentro de outros partidos e através deles para instituições europeias.

Foi o caso do partido trabalhista holandês, que lá fez o seu caminho tendo um Dijsselbloem à sua frente, à frente do governo e à frente do Eurogrupo, que não disse uma única palavra verdadeiramente diferenciadora do discurso da extrema-direita e que morreu nas últimas eleições.

Quem não morreu foi a extrema-direita.

Em ti, Dijsselbloem, ouvimos o que destrói (e já destruiu) a Europa.

Isabel Moreira

23 de março de 2017

A Europa que faz sentido

Ao recordar, um ano depois, os atentados de Bruxelas, a Europa viu-se novamente atacada. No momento em que a Grã-Bretanha se prepara para nos deixar não podia ser mais Europa, na solidariedade que lhe é devida, na luta contra o terrorismo, que é uma luta de todos.

Fica pequena a discussão sobre o Norte e o Sul da Europa, com base nas baboseiras que disse Jeroen Dijsselbloem, assente no preconceito de que há uns eleitos que, fazendo parte do pelotão da frente, estão a ser atrasados por quem não quer assumir responsabilidades. A Europa que é atacada é a Europa mais desenvolvida, em Londres, em Paris, em Bruxelas... Mas quando a Europa rica é atacada, é toda a União que é atacada. E não será de modo diferente quando o brexit for consumado. O Reino Unido será sempre parte desta ideia de liberdade e solidariedade.

Esta é a Europa que faz sentido, assente na ideia de liberdade em que todos queremos viver. Não há maneira de erradicar os ataques terroristas, menos ainda quando eles são concretizados por lobos solitários. Temos de insistir na ideia de liberdade, de solidariedade entre todos os que fazem parte da União Europeia, mas também com os que estão fora.

A Europa que faz sentido é a que tem orgulho do caminho percorrido, a Europa que não retrocede nas conquistas civilizacionais com medo dos que apostam no terrorismo para tentar provar que o mundo não pode ser livre e solidário.

Como dizê-lo? Se, cada vez que nos atacarem, nos pusermos a defender a necessidade de reduzir a liberdade de circulação e a liberdade de expressão, poderemos criar uma sensação momentânea de maior segurança, mas estaremos a destruir o modo de vida europeu. Um modo de vida que sobrevive aos populismos, à parvoíce de Dijsselbloem, que sobrevive até aos preconceitos entre gente do Norte e gente do Sul. Ainda assim, a Europa não se vai unir em torno de um projeto de vida só porque um dos seus foi atacado, outra vez, e isso só pode significar que os terroristas estão a vencer. A Europa que faz sentido não é a das declarações de circunstância.

Paulo Baldaia
DN 23.03.2017

22 de março de 2017

Dijsselbloem no bordel

Dijsselbloem nunca enganou ninguém: para ele Portugal é mais ou menos um bordel frequentado por pândegos. A Europa está uma coisa linda. Desfaz-se nesta comédia de homens gravíssimos com cauda na intensíssima cabeça.“Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda”, disse ele, e nem sequer com ponto de exclamação, porque fala do alto e não para o alto. É uma declaração maravilhosa. Jeroen Dijsselbloem sonha com Lucrécias Bórgias e imagina um país de bacos, bacantes e bacanais a gastar em lixos, luxos e luxúrias, de homens lúbricos de prazeres ímpios troando orgasmos fiados com os cantos da boca molhados pela língua a baloiço. Ó homem, que pena Cesariny não estar aqui para rir à gargalhada! Que pena Gil Vicente estar morto, Bocage ser defunto, Natália não estar no Botequim, Luiz Pacheco já não ver o pino, o Pina não estar na última página do JN, não haver Ary que escreva “merda!” e o próprio O’Neill ter parado o acordeão. Qualquer faria uma barrela de truz! Queres conversa fiada? Toma! Que diabo, hoje é dia mundial da poesia, descurve-se a língua em arpão.

Só que o homem não é só parvo, é ignorante. Aquilo não é só ofensa, é ressentimento. E isto não é só riso, é um esclarecimento. Porque aquilo que ele diz, e não apenas como o diz, une-nos a nós contra o que ele representa mas desune a Europa a favor do que ele apresenta. É por isso que se ele pedir desculpa não aceitem, se contextualizar não divaguem, se disser que foi infeliz devolvam ao remetente. Ele e outros como ele pensam exatamente aquilo: que é uma continental maçada haver povos aqui. O Reino Unido larga-se por não querer gente de fora, a França cavalga o populismo, a Grécia desfaz-se em pó, a União Europeia desenha cinco cenários porque não tem um plano mas Dijsselbloem descola a boca para se colar aos “do Norte” contra os “do sul”. Isto está a correr bem, Europa.

Dijsselbloem não é um gajo qualquer sentado num café de boas bolachas em Amesterdão, é presidente do Eurogrupo, instituição que reúne mensalmente os ministros das Finanças dos países do Euro, incluindo aquele em que ele é ministro, a Holanda. Depois de dizer que, “como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária”, deixa claro que “quem pede ajuda também tem obrigações”. Confrontado com os “copos e mulheres”, não se arrependeu e com algum garbo ripostou: “Essas palavras saíram desta boca”. Bem sabemos.

O problema é que as palavras que saem daquela boca não são inconsequentes. Enchouriçam os juros de um país ainda no limite e atiçam uns contra os outros. Assim se alimentam os preconceitos na União Europeia, que começaram por chamar aos gregos aldrabões com piscinas sob as oliveiras e cabeleireira de folga. Vê-se o que deu. Sete anos depois daquele primeiro resgate, ainda estamos nisto? Esta gente não aprendeu nada? Não aprendeu que o ressentimento não só destrói mas revolta? Não viu que o remédio tomado queimou artérias? Ainda pensa que desfazendo povos se faz a União Europeia? Ainda acha que os gregos violentamente esmagados são uns nababos? Que os portugueses que foram tributados, desempregados e empobrecidos são anzóis de pescaria?

Fomos uns meninos depois do euro, mas não gastámos tudo em vinho e meninas. Estamos carregados de responsabilidade pelo havido, vimos o Estado esconder dívida e os bancos a oferecer o que não teria de volta. Mas também respondemos aos incentivos da “Europa veloz”: gastámos em estradas financiadas por Bruxelas, comprámos BMW a crédito com juros baixos do BCE, importámos Mercedes de categoria e somos o lado de lá das balanças desbalanceadas dos superávites externos. Estamos cheios de problemas, sob elevado risco financeiro e com as agências de “rating” prontas a disparar, contamos duas décadas perdidas na economia e levamos sete anos de austeridade, de cortes de pensões, de salários, de serviços públicos, de aumentos de impostos, de taxas, de contribuições e ainda não sabemos bem como isto há de correr bem. Mas sabemos como pode correr mal: obrigadinho pelas palavras que saíram dessa boca, senhor Dijsselbloem. Volte uma vez por mês, nós estamos cá todos os dias. E se isto lhe parece um bordel báquico, então onde est... Não, é melhor parar por aqui. A primavera chegou, bebamos e amemos.

Pedro Santos Guerreiro
Expresso Diário 21.03.2017
http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/21-03-2017/caderno-1/opiniao/dijsselbloem-no-bordel

18 de março de 2017

O tempo que gastávamos a conversar no café

O pano de fundo era sabermos que os pais, os irmãos, os primos, os amigos estavam na guerra. Falávamos de música, o último Santana, os Moody Blues, a Janis Joplin


Talvez seja o jogo mais idiota de sempre, mas foi um dos que aprendi nas tardes passadas no café do bairro. Pedia-se um copo de água com a bica. Bebida a água, humedecia-se o rebordo do copo e colava-se, esticado, um guardanapo de papel dos pequenos e finos, à maneira de pele de tambor. Punha-se uma moeda no meio e cada um, à vez, ia fazendo queimaduras com cigarros no papel. Perdia quem fazia cair a moeda para dentro do copo.

Inútil, não é? Gastávamos tempo assim. E, por mais bizarro que isso pareça, quando ontem vi a nova edição - e definitiva - de O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, a minha memória andou às voltas até chegar a esses copos sujos de cinza e ao cheiro do papel queimado, às gargalhadas e gritarias inerentes. É que era no café, ou nas horas em que arrastávamos conversas fosse onde fosse, que passavam entre nós as novidades, mais ou menos clandestinas. Clandestino, definitivamente, O Canto e as Armas, talvez conseguido por debaixo da mesa na pequena Livraria Barata da Avenida de Roma ou na Moraes no Chiado. E o disco da Orfeu, com os poemas na voz límpida de Adriano Correia de Oliveira, ouvido vezes sem conta. Os Chants de Lutte de Luís Cília. Os Cantares de Andarilho do Zeca. Os poemas lidos e cantados, em casa uns dos outros, sempre alguém a saber dedilhar a guitarra, e ainda todos na memória.

O pano de fundo era sabermos que os pais, os irmãos, os primos, os amigos estavam na guerra. Fazia parte da nossa vida irmos com eles para África, ou trocarmos cartas com os amigos que lá estavam. Falávamos também de música, já ouviste o último Santana, os Moody Blues, a Janis Joplin, achávamos os Credence comerciais e dividíamo-nos entre os dos Beatles e os dos Stones. Éramos parvos e infantis e usávamos colares e roupas que achávamos ousadas. (Pobres pais que tiveram filhos adolescentes nessa altura, do fato e gravata para os cabelos compridos e as roupas coloridas.) Éramos do contra porque o que se vivia era escuro e estúpido e injusto.

O Canto e as Armas faz agora 50 anos e leio um poema da guerra: "Às onze da manhã de mil novecentos e sessenta e dois/ Quebrou-se o meu relógio entre Quipedro e Nambuangongo./ E desde então o tempo é um ditongo/ entre não haver ontem e não haver depois/ no meu relógio entre Quipedro e Nambuangongo./ Não sei se riam se choravam se gritavam/ eu não sei que palavras se diziam./ Estão ali estão ali. E disparavam."

Acontecia chegarem notícias de mortes, amigos perdiam o pai, o irmão. E todos os que voltavam vinham diferentes, ensimesmados ou então descontrolados, com pesadelos e histórias que não contavam.

Antes que cheguemos a abril e a data da liberdade seja celebrada, apetece-me falar desse tempo em que censura queria dizer censura mesmo, não propriamente apagar esta ou aquela frase mas uma coisa drástica, sistemática, aplicada pelo polvo de um Estado sempre presente. Nos jornais, submetidos à censura prévia e ao lápis azul. Nos discos e nos livros retirados do mercado mal saíam do fabrico, e que teimosamente circulavam por caminhos mais ou menos escusos. Nas prisões, onde se ia parar porque sim e porque não, e os que entravam porque sim, porque tinham atividade organizada e clandestina, eram torturados e as famílias perseguidas.

Nessa altura eu andava no liceu. De uma das escolas fui expulsa porque me acharam subversiva aos 14 anos. Sabia lá eu o que era ser subversiva, apenas imaginava e achava romântico e perigoso e heroico. Noutro, também só de raparigas, soube da organização dos estudantes, mas nem cheguei a ter tempo para entrar, tantas as exigências a reitora tinha feito à minha mãe: ela tem de prometer que não vai meter-se em política. E numa escola mista, num ano houve protestos, no seguinte esperava-nos uma lista de nomes dos que não podiam inscrever-se.

Não tenho saudades das proibições que limitaram as vidas de gerações de portugueses. Não tenho saudades de ler nas entrelinhas, do livro único, da televisão única, dos filmes com cenas cortadas, das conversas que só-se-podia-ter-em-segurança, de desconfiar dos outros, de ter as cartas devassadas, de ter sempre a guerra no horizonte. Foram tempos duros em que muitos se habituaram a responder "menos mal, podia ser pior, mais ou menos, vai-se andando" quando se perguntava "como está?".

Não tenho saudades de ser preciso partir, partir assim: "Aquela clara madrugada que viu lágrimas correrem no teu rosto e alegre se fez triste como se chovesse de repente em pleno agosto (...) A clara madrugada em que parti/ só ela viu teu rosto olhando a estrada."

E então posso rir-me das tardes a perder tempo no café com papéis queimados e moedas a cair no meio das cinzas, das viagens de autocarro de dois andares numa nuvem de fumo, do guarda-noturno que sabia a que hora chegávamos a casa. Porque me lembro de partir a salto sem levar nada nas mãos.

Ana Sousa Dias
Opinião DN 18.03.17

17 de março de 2017

Cobranças difíceis … aos indevidamente ricos

Parece haver gente que se endivida para ficar rica. O modelo de negócio é não devolver a massa. É o que fica depois de uma reportagem do Expresso (um magnífico trabalho de Anabela Campos e Isabel Vicente - revista “E”, 4 Março 2017). Fazendo agora cálculos próprios na base das contas actualizadas desta reportagem: entre 2008 e 2012 o crédito malparado cresceu a um ritmo de 3,4 mil milhões ao ano, mas de 2013 e até 2016 esse montante disparou para €6,4mm ao ano. Esta explosiva espiral de imparidades já aquando de um sério governo competente e seríssimo, bem como reguladores independentes a gosto! Pois bem, não soube este “nexo” meter as contas públicas na ordem: e muito menos as privadas.

Atingiu-se assim a um malparado de €40mm. Mais de metade do “resgate” da Troika. Mas o trabalho do Expresso mostra outra coisa: 50 grandes devedores fizeram a festa. Mais: apenas 10 geraram €10mm de “imparidades” (25% do total). E quem foram? Joe Berardo (é de artista, está bem visto), Nuno Vasconcelos (o que é a Ongoing?), Ricardo Salgado, Joaquim Pereira Coutinho, Joaquim Oliveira, Luís Filipe Vieira, só para nomear meia-dúzia de craques financeiros movidos a dopping.

Com toda a vénia às jornalistas permito-me discordar de uma coisa: isto não foi a “embriaguez do crédito”. Isto tem sido a sobriedade do furto. Esta gente tem os contactos, e teve a estratégia. Isto não foi um erro, tem sido o plano. E o salto da dívida pública de €40mm entre 2011 e 2016 foi exactamente o equivalente para tapar o esse assalto dos mega-devedores privados.

Vendo o formidável filme São Jorge, que relata como durante estes anos as pessoas normais foram esmagadas pela austeridade, é óbvio perceber-se que outros usaram essas circunstâncias para se evadir às suas responsabilidades. Mas se esse filme mostra a actuação da indústria de empresas de cobradores que prosperou durante esta época então a pergunta é esta: porque razão é que só os pobres têm direito a ser alvo de cobradores profissionais?

A implicação é simples: qualquer plano concreto de reestruturação da dívida portuguesa tem de ser realista quanto ao reforço da recuperação de dívidas indevidas. A célebre “restruturação da dívida” também tem de ser isto, um ponto que o emaranhado de esquerdas demasiadamente bem comportadas de que dispomos ainda não pressionou o suficiente. Cada mega-devedor tem de ter o seu próprio “gestor de cliente”, e este gestor precisa de estar apoiado por uma equipa jurídica de choque. É preciso recuperar património, e administrar bem o que não foi ainda destruído. É um cálculo custo-benefício, e compensará. E essa gente não pode passear-se assim pela brisa da tarde aparentando ainda ser os deuses que nunca foram. Não basta haver justiça financeira, é preciso parecer que há. Já.

Mas no que toca a temas actuais não basta criticar a esquerda quanto a uma ainda incipiente gestão integrada da problemática da dívida (já se faz tarde!). Há ainda mais razões para arrasar com a direita.

O caso dos offshores é um pre-Núncio do que pode vir aí. Diz quem sabe (inside trading?!) que o ex-secretário de estado dos Audis é um cordeiro a ser sacrificado em prol de divindades maiores. É possível. Assim como também é possível que isto vá dar (finalmente!) mistério dos submarinos e das Pandur. Diz a sucessora de Portas numa entrevista “plantada” no Público que o governo troikista CDS-PSD não discutia a finança em sede Conselho de Ministros e que perante a resolução do BES o pessoal estava era na praia. É como diz o Director do Negócios isto arrepia, e se não é da água fria só pode ser da água benta de Assunção! Uma coisa é certa, se os distintos governantes do CDS-PSD não discutiam estes assuntos no sítio certo então estavam a fazê-lo em sítios que não deviam. Sempre na informalidade, para não constar em acta.

No fundo o que interessa é mesmo pensar como diz o politólogo-economista Bruno Nogueira: queremos saber quanto é que devemos a Paulo Núncio e a todo este “nexo”, para lhes pagarmos a pronto e em bolívares venezuelanos.

Sandro Mendonça
Expresso 16.03.2017

10 de março de 2017

Tautau na democracia

Imaginem a cabeça das crianças que na quarta-feira foram levadas pelos seus professores até às galerias da Assembleia da República para assistir à "Democracia em funcionamento". É bem provável que antes os professores lhes tenham dado algumas luzes sobre o nosso sistema semipresidencial, sobre o funcionamento do Parlamento, sobre o que é uma Constituição. Com sorte, os professores até terão tido algum discurso pedagógico sobre o exercício da política, para contrariar aquilo que os meninos ouvem em casa e no café: que os políticos "são todos iguais", que "só querem o tacho" ou mesmo que "são todos uns ladrões".

Sentadas nas galerias reservadas para o público na casa da Democracia, estes estudantes puderam assistir a um dos momentos altos da vida parlamentar, o debate quinzenal. Mas o que puderam ver lá em baixo não foi nada de elevado recorte civilizacional. Um líder do Governo e um líder da Oposição em toca de acusações com "enlamear", "mal-educado", "vil reles e soez" à mistura, com as bancadas transformadas em verdadeiras claques com palmas e pateadas ao melhor estilo "hooligan". Ideias poucas, argumentos quase nenhuns, naquele que foi um dos debates mais crispados deste último ano e meio.

Os professores que, nos dias que correm, têm enormes dificuldades em conter dentro do razoável o comportamento dos seus alunos, terão visto ali um cenário habitual. As crianças, depois da estupefação inicial, terão pensado que, perante aquele exemplo, tudo lhes será permitido. Afinal aqueles são os nossos representantes, alguém em quem delegamos a condução do nosso destino coletivo, os nossos líderes...

O mais inquietante é que o que se passa "na "bolha" de São Bento está longe de ser um reflexo do que acontece cá fora. Se excetuarmos as redes sociais, onde grassa a selvajaria, a sociedade portuguesa tem dado poucos sinais de crispação.

Até se pode entender que a Oposição que pintou a atual solução governativa como radical, force alguma dramatização contra a normalidade que tem no presidente da República o seu principal arauto. Mas é incompreensível que o Governo embarque nesse jogo e que todos os deputados não tenham a consciência do péssimo serviço que prestam à democracia quando substituem a luta argumentativa pelo insulto e pela javardice. Comportamentos como os de quarta-feira só servem para o descrédito do sistema, merecem o nosso repúdio e dão uma enorme vontade de dar umas palmadas a estes meninos malcomportados.

David Pontes
Opinião JN 10.03.2017
Leia mais: Tautau na democracia