Os Panama Papers são uma oportunidade para os cidadãos exigirem decência na política e na finança.
Além destes alertas, têm também surgido na imprensa artigos explicando com grande didactismo que operações é que se podem fazer através de off-shores, quais são legais e quais são ilegais.
Posto isto, e sem pôr em causa que existam operações legais que podem ser (e são certamente) conduzidas a partir ou através de off-shores, devo dizer que continuo a não perceber por que razão uma pessoa ou uma empresa honesta coloca o seu dinheiro numa empresa escondida dos olhos de todos ou num banco secreto que se compromete a esconder a identidade dos titulares das suas contas aconteça o que acontecer.
Pode ser que haja quem queira simplesmente guardar o seu dinheiro num lugar discreto, para não dar nas vistas. O britânico Guardian dava o exemplo teórico de uma empresa que queira ir amealhando discretamente um pecúlio para poder renovar a sua linha de produção sem que os seus concorrentes se dêem conta e poder assim surpreendê-los com o lançamento súbito de uma nova linha de produtos. É uma história bonita. É igualmente possível imaginar um empresário muito rico que quer esconder a sua fortuna da sua tia Georgina porque sabe que ela o irá tentar convencer a doar o dinheiro aos pobrezinhos da Conferência de S. Vicente de Paulo e que, sabendo que a tia tem conhecimentos em todos os bancos e receando que estes não respeitem o sigilo bancário, prefere esconder o dinheiro numa daquelas ilhas do Canal da Mancha que o Reino Unido faz de conta que não são dela. E é possível imaginar pessoas que, apesar de terem o seu dinheiro em off-shores declare religiosamente todo esse património e todos os rendimentos que passem por essas contas e por essas empresas secretas. Pode ser. Tudo isto pode ser, mas é pouco provável. A verdade insofismável é que os off-shores existem para esconder dinheiro do fisco (para não pagar impostos) e para esconder dinheiro obtido ilegalmente. Existem para esconder património e rendimento (sejam de origem legal ou ilegal) e é sobre património e rendimentos que incidem os impostos. No mínimo, esses dinheiros deviam pagar imposto e não pagam, no máximo são provas de crimes que não são punidos. São estas as razões de ser dos off-shores e são estes os móbeis da imensa maioria das pessoas que aí escondem o seu dinheiro - sendo as excepções a empresa de que falava o Guardian e o sobrinho da D. Georgina.
E é por essa razão que os off-shores devem, pura e simplesmente, ser ilegalizados. São coios de ladrões, ainda que se possa admitir que alguma pessoa honesta lá tenha entrado por acidente. Não se trata de inverter o ónus da prova. Não se vai prender toda a gente que tem contas nos off-shores por esse simples motivo, correndo o risco de prender injustamente o sobrinho da D. Georgina que lá pôs o dinheiro mas nunca se esqueceu de o declarar, nem sequer daquela vez que foi eleito deputado. Os off-shores devem ser ilegalizados da mesma maneira que a venda de AK-47 é proibida nos centros comerciais, ainda que uma pessoa possa comprar uma metralhadora apenas para fins decorativos. Uma AK-47 pode ser usada com a mais cândida das intenções, mas a maior parte das pessoas não as usa para isso. É como os off-shores.
A respiga dos Panama Papers vai certamente levar uns quantos políticos a demitir-se (já começou), uns empresários e advogados a tribunal e talvez um ou outro à cadeia. Mas não chega. O problema dos off-shores não é albergarem um ou outro criminoso: é que a sua razão de ser é albergar criminosos. A sua simples existência é uma fonte maior de desigualdade social e de crimes. A sua existência garante que a igualdade dos cidadãos perante a lei não existe, que o estado de direito não existe. A sua existência só prova que aquilo a que temos chamado democracia é uma farsa.
Como há pessoas com lata para tudo, há quem já tenha vindo dizer que a fuga aos impostos é apenas uma consequência de haver impostos demasiado altos. Na realidade, é ao contrário: os impostos que pagamos só são demasiado altos porque há quem não os pague de todo.
Os Panama Papers são uma oportunidade para os cidadãos exigirem decência na política e na finança. Não desperdicemos esta oportunidade.
José Vítor Malheiros
Opinião Público 12.04.2016



















