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31 de agosto de 2017

Avós: os de ontem e os de hoje

Penso que tinha avós bem representativos do nosso Portugal dos anos 80. Gente da terra, ligada a ela mais do que tudo. Gente que habitava as pequenas aldeias desse pequeno Portugal, que nos faziam tomar contacto com um país que mal conhecíamos


O dia 26 de Julho foi Dia dos Avós. De ano para ano sinto que esta data se torna mais importante e mais pessoas a comemoram. Sentir-se-á aqui a influência, mais uma vez, das redes sociais. De facto, Facebook e companhia começam por nos recordar que este é o Dia dos Avós. Em seguida, assistimos, nas redes em questão, a uma verdadeira enxurrada de mensagens de amor e saudade aos avós, notando-se que muitos já faleceram, e mensagens de reconhecimento pelo papel que tiveram nas vidas de quem escreve.

É um facto que hoje em dia existe uma data comemorativa para tudo e mais alguma coisa. E de facto há comemorações que são ligeiramente absurdas. Para não referir que existem comemorações que se repetem ao longo do ano, levando a que se relembre e comemore a mesma coisa várias vezes no mesmo ano. Por exemplo, no Brasil e em mais alguns países, o Dia do Amigo comemora-se a 20 de Julho. Como é o país irmão, em Portugal decidimos que até é giro dar um olá aos amigos nesse dia, em jeito de comemoração. Contudo, as Nações Unidas resolveram convidar todos os países para celebrar esse dia a 30 de Julho. E nós celebramos mais uma vez a amizade, com um brinde nesse dia especial. Nada contra, até porque o povo português adora ter uma razão para comemorar. Mas a verdade é que se caiu num excesso. Todos os dias são dias de alguma coisa!

Contudo, há dias que são, quanto a mim, importantes, e, portanto, devem ser lembrados e celebrados. O Dia dos Avós é um deles.

Não poderei dizer que me lembro dos meus avós apenas nesse dia… Apesar de já não estarem presentes na minha vida, nem no mundo físico, os quatro continuam muito presentes na minha memória e nas minhas saudades. A comemoração deste dia leva-me sempre a parar um pouco e a pensar nos momentos maravilhosos que vivi com eles. Penso no meu avô João. A simpatia que nutro pelo animal burro será, com certeza, herança dele. Era este avô que, numa paciência sem fim, carregava o burro com dois cestos de cada lado e levava os seis netos a passear e a conhecer a aldeia. Lembro a minha avó Celeste, pequenina, de uma força inquebrável, que fazia tudo para agradar aos netos. Ainda o desejo não era manifestado e já ela o tentava conceder. Relembro a sua varanda, cheia de flores, porque o amor do avô João eram os animais, mas o amor da avó Celeste eram as flores. Do lado paterno, outras duas figuras importantes na minha vida: o avô José Bernardo, dado a alguma ironia, capaz das maiores zangas, como das melhores gargalhadas. Um avô que adorava levar os netos ao café, mas que ficava doente se pedíssemos uma garrafa de água ("Para pedir água vais à fonte, menina!"). Guardo tanto dele na minha forma de ser. E, por fim, a última a deixar-nos, a minha avó Maria Antónia (Maria do Rosário nasceu, mas era, para todos, a Maria Antónia). Serena, calma, dona de uma gargalhada quase silenciosa, mas dada com gosto. Como me lembro dela, sentada à beira da lareira, dormitando ou rezando o seu terço.

Penso que tinha avós bem representativos do nosso Portugal dos anos 80. Gente da terra, ligada a ela mais do que tudo. Gente que habitava as pequenas aldeias desse pequeno Portugal, que nos faziam tomar contacto com um país que mal conhecíamos. Gente rude, mas capaz dos actos de maior altruísmo. Bem me lembro de ouvir o sino tocar a rebate, aquando de um incêndio, e de eles irem ajudar a combater o incêndio, bem antes de chegarem bombeiros. Gente que tinha tempo para nos levar a conhecer as suas hortas, os seus animais, que nos ensinavam que ajudar o vizinho nas lides agrícolas era normal e expectável. Gente com tempo para mimar os netos, contar-lhes as histórias do povo em que viviam. Gente que tinha tempo para nos ensinar tudo o que nos pudesse passar pela cabeça: aprender a fazer renda; plantar uma flor; alimentar um animal. Acima de tudo, gente com tempo para gastar com os seus netos.

Hoje olho para muitos avós que conheço e penso que muito disso se perdeu, fruto, parece-me, desta tão falada crise que ora se instala, ora diz que está de saída, mas que se vai mantendo por cá. Assisti a avós que, apesar de reformados, procuraram continuar a trabalhar para ajudar os filhos que não conseguem fazer face a todas as despesas mensais. Assisti a avós que, em vez de possuírem o tempo e a paz que já mereciam nesse momento da vida, se viram a braços com toda uma família instalada em casa, fruto de os filhos terem perdido a sua própria casa. Vi-os a ter que alimentar não só os filhos mas também os netos. Vi avós que trocaram os passeios com os netos no parque por um qualquer biscate que pudesse trazer mais dinheiro para casa. Vi avós que passaram a ser a “almofada financeira” a que as famílias podem recorrer, aquando de uma despesa inesperada. Vi avós a viver no stress e na angústia. Vi avós a passarem menos tempo de qualidade com os seus netos porque, tal como os pais da criança, eles não têm tempo.

Resumindo: verifico que muitos dos avós de hoje continuam a trabalhar arduamente e, tal como os filhos, não têm tempo.

É claro que os avós como os meus não desapareceram. É claro que ainda os há. E ainda bem. Mas a verdade é que tenho assistido a um aumento deste segundo modelo de avós que referi e sinto pena: por eles, que mereciam paz, e pelos netos, que mereciam ter avós como aqueles que eu tive. Isto é, avós que tinham a possibilidade de me oferecer o que de melhor há: o seu tempo para me ajudar a conhecer o mundo.

Estefânia Barroso

26 de julho de 2017

Obrigado, Avós!

Não sois de ontem, avós. Sois do presente e do futuro.



A instituição de dias para quase tudo corre o risco de desvalorizar datas e celebrações verdadeiramente especiais. O Dia dos Avós, por exemplo.

Importa, pois, nesta ocasião, celebrar conscientemente a sua vida e o seu papel. Afirmando que não são estorvo nem empregados fáceis; não são mero recurso de circunstância ou peso tolerado. Porque são nascente, luz, palavra e exemplo.

O Dia dos Avós deve ser, por isso, dia para lhes dizer, sublinhadamente: "Obrigado!"

Obrigado, avós, pelas histórias e pelo colo; pelo tempo e pela ternura; pelo olhar e pelas palavras sábias e confidentes.

Obrigado, avós, pela capacidade de repartir - até de repartir uma reforma tantas vezes insuficiente para os vossos dias difíceis.

Obrigado, sempre e em todas as circunstâncias. Sim, também pelo silêncio, quando, porventura, apenas sorri, já esquecido de nomes e gestos.

Não sois de ontem, avós. Sois do presente e do futuro.

Não estais a mais. Pelo contrário: importa que estejais mais - mais connosco e mais em nós!

10 de julho de 2017

O VERBO PARAR

Os que se creem insubstituíveis padecem, não raro, de uma vertigem prometaica enganadora


Que marinheiro se lança à aventura oceânica sem controlar se leva na embarcação, não só a vela e os remos, mas também uma âncora? Ou que caminhante enfrenta a sua jornada sem prever tempos e lugares de pausa, que lhe garantam a possibilidade de refazer-se, sentir o conforto de um abrigo e retemperar forças para poder continuar? A viagem não é só movimento, como a vida não é apenas o contínuo das suas atividades. A arte de parar é uma aprendizagem indispensável à sobrevivência, mesmo se isso vem frequentemente esquecido. Quem não sabe parar, não sabe viver, pois há uma qualificação da existência que provém daí, por muito que isso se tenha tornado difícil de efetivar ou nos obrigue a deliberar em contraciclo, mesmo em relação às idealizações que construímos sobre nós próprios. Precisamos de parar: por carência e necessidade, por chamamento interior e por escolha, por decisão e sabedoria.

Tendencialmente as nossas vidas têm-se tornado uma espécie de cidade que não dorme. O tempo parece-nos sempre escasso face ao programa que nos impomos. Desejaríamos que ele se desdobrasse, como que por magia, e fosse o que não é. Correndo ofegantes, num dia a dia saturado, não deixamos de sentir-nos ainda em falta com alguma coisa que muitas vezes não sabemos bem o que seja, mas que tem a forma de uma culpa que nos mói. A sensação crescente é de que o mundo nos ultrapassa e a perceção da nossa insuficiência deixa-nos devorados por dentro, em terra queimada. Por muito que façamos, as metas mantêm-se longínquas; nada nunca basta; a parte mais íntima de nós sente-se permanentemente irresoluta, em dívida e em perda.

A SENSAÇÃO CRESCENTE É DE QUE O MUNDO NOS ULTRAPASSA E A PERCEÇÃO DA NOSSA INSUFICIÊNCIA DEIXA-NOS DEVORADOS POR DENTRO, EM TERRA QUEIMADA

E isto é assim, para nós, há muitos anos. Para o movimento tivemos mestres, a escola organizou-nos, a família tutelou de perto a nossa maturação. A pausa e o recreio foram confiados às regras do acaso, na suposição de que parar, brincar, repousar são uma ciência inata, coisa que — compreendemos dolorosamente depois — não é. Esse défice de competência fica em tantas vidas como um buraco do qual se foge, um vazio colmatado com múltiplas formas de evasão.

Muitas vezes dizemos que não paramos porque não podemos, pois, o mundo à nossa volta, o mundo que depende de nós, se bloquearia nesse instante. Ora, precisamos desconstruir esta ilusão. Os que se creem insubstituíveis padecem, não raro, de uma vertigem prometaica enganadora. É fundamental ganharmos um distanciamento crítico em relação ao nosso contributo, valorizando mais o trabalho de autonomização dos outros do que o tecer uma rede, mais visível ou impercetível, de dependência. Sem nos darmos conta, por trás de uma exagerada doação ou de um ativismo irreprimível, está uma insegurança profunda nos laços que estamos a construir.

Lembro-me que há uns anos, fazendo eu próprio os caminhos de Santiago, encontrei, logo no meu primeiro dia de peregrinação, uns brasileiros sentados na berma a tratar dos pés já meio-desfeitos. Eles devem ter-se apercebido do meu ar apavorado, porque um deles disse-me, com uma tranquilidade que me animou: “É bom gastar tempo a cuidar das próprias feridas.” Eu ainda não tinha compreendido que essa era uma das razões principais porque estava ali a enfrentar aqueles cento e tal quilómetros de estrada. Mas o mesmo se pode dizer do encontro (ou do desencontro) com os outros. Só encontramos verdadeiramente aqueles junto dos quais fundeamos a nossa âncora, empregando o tempo necessário à escuta, à atenção e à surpresa. O não parar é uma forma de fuga ao encontro mais profundo connosco mesmos e com os outros.

José Tolentino Mendonça

20 de junho de 2017

A devastação de um país


Todos os anos temos visto as chamas, na época ou no defeso, a consumir hectares e hectares de floresta. Nuns anos mais, em outros menos. Sempre demasiado. E muitos de nós observam essa tragédia quase como uma fatalidade. E não pode ser. Independentemente de quem esteja no poder, promete mudar, promete pôr um ponto final nas imagens de devastação. Nada muda. E a catástrofe, enfim, irrompe com muitos mortos, de aldeias perdidas, deste Portugal desordenado.

Talvez, solenemente, venham anunciar um novo plano de combate à desertificação do interior do país. Talvez esbocem mais uma reforma para transformar a gestão da floresta nacional. Ninguém, por certo, dará mais ouvidos a palavras vãs. O que se espera dos responsáveis, perante tamanho drama, é a apresentação de medidas credíveis, exequíveis, capazes de inverter os constantes reacendimentos da fatalidade. E, até agora, fica-se com a sensação de quem está a presenciar uma interminável peça de teatro de cordel. Até ao momento, nada ou quase nada do que é apresentado tem qualquer ligação à realidade, como se tudo acabasse quando as cortinas são fechadas. No mundo real, a vida continua envolta numa terrível normalidade. As 64 vítimas mortais de Pedrógão Grande, os relatos de horror de quem viveu o inferno, terão de inverter a narrativa de quem tem poder, conferido pelo povo, para mudar as coisas.

Custa aceitar, sem incómodo, as palavras, naturalmente bem-intencionadas, do presidente da República. "Não há nem falta de competência, nem falta de capacidade, nem falta de imediata resposta". Afinal, "o que se fez foi o máximo que se podia fazer". Marcelo Rebelo de Sousa é incansável a dar ânimo aos portugueses, mas é difícil acreditar que nada pudesse ter sido feito. Como foi possível a morte de 47 cidadãos numa estrada aparentemente esquecida no furacão do fogo, e centenas de pessoas sós a combater as chamas e o medo de ser engolidas por elas?

Pelos que morreram, nada se poderá fazer. Pela frente há a obrigação moral de impedir a "fatalidade". Temos de exigir um Portugal olhado como um todo; que a formação dos bombeiros, de uma vez por todas, seja assumida como questão fundamental, e que a floresta tenha, por exemplo, a mesma importância do turismo ou da indústria. É tempo de as universidades lançarem o seu saber no terreno, e não apenas ser chamadas em situação de tragédia ou quando é decidido elaborar mais um plano estratégico. Florestas desordenadas, aldeias sem gente continuarão a arder. Em memória das vítimas, temos de impedir a devastação de um país.

Paula Ferreira

11 de maio de 2017

Chico burro

O homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu está agora, neste preciso momento, a queixar-se de como, em Portugal, as pessoas têm pouco civismo.



O meu carro estava bem estacionado, dentro das linhas marcadas no chão, a distância correta dos outros. O homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu está agora, neste preciso momento, a queixar-se de como, em Portugal, as pessoas têm pouco civismo. Dá o exemplo dos papéis no chão, dá o exemplo dos riscos de tinta nas paredes, dá o exemplo das pessoas que se metem à frente nas filas. Se fosse na Alemanha ou na Suíça, tudo seria muito diferente, diz ele.

O homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu está agora, neste preciso momento, a queixar-se de como, em Portugal, só há maus condutores. Ninguém respeita os limites de velocidade, ninguém respeita as prioridades, ninguém faz pisca, diz ele.

O homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu está agora, neste preciso momento, a dizer que, em Portugal, são todos iguais: os políticos são todos ladrões, os árbitros são todos corruptos, ninguém quer saber. O país não avança enquanto continuar assim, diz ele.

O homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu está agora, neste preciso momento, a queixar-se dos novos, não respeitam os mais velhos, não imaginam que falta pouco para também eles serem velhos; ou está a queixar-se dos velhos, ocupam os lugares dos mais novos, já se esqueceram de que também foram novos. Parece que estamos a andar para trás, diz ele. Ou: parece que nunca mais andamos para a frente, diz ele.

Na verdade, não sei se é velho ou novo, não estava lá, não vi o homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu. Mas a senhora do café estava lá, saiu à porta e viu, tirou a matrícula e escreveu-a numa folha de papel antes de se esquecer. Por isso, sei que foi um homem.

A senhora do café é a antítese absoluta desse homem que me bateu no carro estacionado, que lhe amolgou a porta de trás e fugiu. Viva a senhora do café.

Sim, é portuguesa.

José Luís Peixoto

16 de abril de 2017

Aleluia


Com flores de rododendro cor de fogo
anuncio aos sentidos
o milagre
da ressurreição.
E o Cristo vivo, em que se transfigura
a mais vil criatura
que atravessa a praça,
é como uma graça
a mais da primavera.
Ah, quem pudera
todos os dias
olhar o mundo assim, repovoado
de fraternidade,
quente de um sol desabrochado
em cada pétala da realidade!


Miguel Torga
S. Martinho de Anta, 19 de Abril de 1987

8 de março de 2017

Iratxe García Pérez: "As pessoas dizem-me 'Obrigado!'"


A eurodeputada socialista espanhola Iratxe García Pérez foi notícia um pouco por toda a Europa na 5.ª feira, 2, depois de responder a uma intervenção do deputado polaco Janusz Korwin-Mikke, que, numa sessão sobre igualdade de género, afirmou que as mulheres "naturalmente devem ganhar menos do que os homens porque são mais pequenas, mais frágeis e menos inteligentes".

Veja o vídeo.

Iratxe García Pérez, 42 anos, falou com a SÁBADO ao telefone.

Que sanção espera ao deputado polaco?
O que gostaria é que não se voltasse a escutar no Parlamento Europeu afirmações como aquelas, mas isso não está nas minhas mãos, por isso espero que tenha a sanção máxima que está no regulamento, que penso que são três meses. Espere só um segundo… [foi consultar junto da sua assistente] bom, o regulamento estabelece como suspensão máximo 30 dias.

Acha pouco, deduzo?
Sim, sim.

Como é possível em 2017 na Europa alguém que tem um pensamento quase obscurantista ser eleito deputado?
O problema não é eleger um deputado, o problema é que quem o elegeu partilha estas ideias. Como haver no Parlamento representantes destas ideias e como podem ter apoio. É o que me custa entender na Europa moderna do século XXI.

Mas não é uma coisa nova, sempre existiu.
Sim, estes comportamentos machistas sempre existiram, mas a verdade é que nos últimos tempos estamos a assistir com preocupação como tem aumentado o apoio a forças de extrema direita com pensamentos ideológicos assim.

Janusz Korwin-Mikke tem um longo historial de polémicas, incluindo saudações nazis e declarações xenófobas
Na resposta que deu ao eurodeputado polaco, queria dizer mais do que disse?
Sim, claro, muito mais. Mas penso que era preciso uma contestação contundente e respeitosa, o que ele não teve com todas as mulheres. Não nos respeitou. Eu queria passar a minha mensagem de forma educada, sem faltar ao respeito. Podia ter dito muito mais coisas. Que hoje na Europa o nível de qualificação académica das mulheres é maior do que o dos homens, que as mulheres passam a vida toda a trabalhar dentro e fora de casa, e é uma injustiça, em pleno século XXI, estarmos a ter salários menores do que os homens a fazer o mesmo trabalho.

Dezasseis por cento menos.
Sim. Um dos valores que sustentam a União Europeia é a igualdade entre homens e mulheres. Se conseguimos construir uma Europa que é imperfeita e tem as suas falhas mas é uma Europa avançada nesses valores da igualdade, não podemos agora ceder perante comportamentos destes.

Sentiu tristeza ou fúria?
Fúria! Bom, tristeza, sou consciente de que há pessoas que pensam assim, e isso entristece-me, mas aborrece-me que utilizem o Parlamento Europeu como altifalante dessas ideias, isso provoca-me fúria.

O Parlamento Europeu trata todos os funcionários e deputados de forma equitativa?
Sim, nas normas, sim. Mas vemos também como os cargos de mais alta responsabilidade estão ocupados maioritariamente por homens. É o que chamamos ‘tecto de cristal’, que faz com que as mulheres tenham mais dificuldade de aceder aos espaços onde se tomam as decisões.

E na Comissão Europeia?
Igualmente. Recordo que quando se iniciou esta legislatura a proposta inicial de comissários tinha três mulheres em 28, depois tiveram de aumentar para sete. Não se pode admitir que numa Comissão Europeia, que é o órgão executivo, as mulheres estejam representadas em 12 por cento. Se somos metade da população temos de estar representadas da mesma forma.

Angela Merkel e Theresa May
Na sua opinião, como mulher e política, Angela Merkel ou Theresa May trouxeram alguma coisa de novo à política por serem mulheres?
Penso que são duas referências a nível europeu, com quem não partilho muitos pensamentos ideológicos, e não acho que tragam algo de novo. Até porque Margaret Thatcher, por exemplo, que também foi Primeira-Ministra do Reino Unido há mais de duas décadas, não significou nada de novo.

E Marine Le Pen? Estando a disputar as eleições francesas é mais um avanço, um feito, das mulheres?
O avanço nos direitos das mulheres não significa que tudo o que exista ou seja feito por uma mulher seja positivo. Não significa que as feministas estão de acordo com todas as mulheres. Estamos de acordo que todas as mulheres tenham todas as oportunidades para aceder a cargos de responsabilidade.

Iratxe García Pérez é eurodeputada pelo PSOE
Está na política desde os 21 anos. Sendo mulher e com uma longa carreira na política, isso prejudicou a sua vida familiar?
Condiciona o desenvolvimento da vida pessoal. Faço muitos esforços, como muitas mães trabalhadoras noutras profissões. Não sou nenhuma excepção.

Na sua carreira política cruzou-se com muitos homens com este comportamento machista do deputado polaco?
Que o verbalizem dessa maneira, não. Que tenham alguns comportamentos machistas, sim, porque não vivemos numa sociedade igualitária.

São comportamentos mais subtis?
Sim.

Por exemplo?
Questões de percepção. De que nas questões importantes ouve-se mais os homens do que as mulheres. Não é fácil explicar. Mas sente-se. Uma mulher sente.

Até quanto mais tempo fará sentido haver um Dia Internacional da Mulher?
Até que não haja nenhum deputado polaco como este.

Que legislação se está a preparar no Parlamento Europeu sobre a igualdade e violência de género?
Esta semana vamos ter um seminário com parlamentares de toda a União Europeia sobre o fortalecimento das mulheres, que é algo essencial, que as mulheres tenham independência económica, igualdade no mercado de trabalho, conciliação entre a vida laboral e familiar. E há uma questão importante, que é a luta contra a violência de género, exigir uma legislação europeia para lutar contra a maior flagelo social que existe neste momento. Na Europa e no mundo há mulheres que estão hoje a perder a vida só por serem mulheres, porque há homens que as consideram sua propriedade. São matérias em que temos de avançar.

O que podem fazer os estados? Legislação mais dura?
Sim, mas também vontade política para a aplicar. No caso de Espanha, temos uma boa lei mas falta dotação financeira para que seja efectiva.

O que lhe disseram as pessoas nos bastidores e na rua depois do diálogo com o deputado polaco?
"Obrigado!", "obrigado!", "eu diria o mesmo". É reconfortante pensar que há tanta gente que sente que as mulheres foram defendidas.

Marco Alves
Sábado 08.03.2017

13 de dezembro de 2016

UM CASO FLAGRANTE DE IDADISMO!?


O PENSE (Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária) entrou em discussão pública em 9 do
corrente mês de Dezembro, cujo fim será já no próximo dia 8 de Janeiro, constando dele 106 medidas que visam melhorar essa segurança.

Em 10 de Dezembro, o Jornal de Notícias (do Porto) publicou duas das suas principais páginas sobre o assunto, com chamada na capa, mas destacando apenas uma dessas 106 medidas: os títulos garrafais, a toda a largura das primeira e quarta páginas, são bem elucidativos:

AULAS PARA RENOVAR A CARTA AOS 65 ANOS

ou

REVALIDAR CARTA AOS 65 ANOS SÓ COM FORMAÇÃO

Eu, que fiz 67 anos há poucos dias e que tenho carta de condução há 45 anos, fiquei curioso com tal notícia mas, ao mesmo tempo, indignado pelo facto de haver (mais) uma discriminação negativa face a um grupo social, apenas em função da idade!

Li e reli o artigo completo, de ponta a ponta, e cheguei facilmente à conclusão de que os títulos em causa estão demasiado exagerados e, até, em contradição com o respetivo conteúdo! Porquê? Na verdade, se 29 % das vítimas mortais têm mais de 65 anos, como diz o JN, isto significa que mais de 70 % das vítimas da estrada têm menos de 65 anos!

Aliás, esta verdade de La Palisse é confirmada pelo próprio Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, José Miguel Trigoso, quando diz precisamente que os idosos, enquanto condutores, “não estão envolvidos na maior parte dos acidentes”! Este mesmo responsável da PRP acha também “estranho que se torne obrigatória a formação aos 65 anos e não vê fundamento científico para isso”, o que contrasta, mais uma vez, com os títulos garrafais já referidos!

Aqueles 29 % de idosos, apesar da “idade, das doenças e dos efeitos da medicação”, foram vítimas da sinistralidade não só em função da sua idade mas, também, em função de todas as outras causas que afetam todos os restantes condutores!

Então, o que levou a jornalista Dina Margato a destacar, com particular ênfase, apenas uma das medidas propostas, de entre as 106 constantes do referido PENSE? É mesmo caso para pensar!

Aliás, também, todo o artigo está cheio de contradições, para além das já referidas. Por exemplo, diz que “os motociclos são os mais perigosos” e que “entre 2010 e 2015 foram os que apresentaram os indicadores de risco de vítimas mortais mais gravosos”. Ora, não me parece que sejam as pessoas com mais de 65 anos que usem maioritariamente este tipo de veículo!

Pelo contrário, e no que se refere (por exemplo) ao seguro automóvel, é sabido que os reformados e pensionistas (nos quais se incluem a maioria dos idosos) são dos condutores que oferecem menos risco de acidentes, ao contrário do que se passa, por exemplo, com os adultos com menos de 25 anos de idade!

É sabido, também, que a alta velocidade é uma das causas mais conhecidas dos acidentes rodoviários. Ora, é também do senso comum saber-se que a faixa etária dos menos jovens não é a mais propensa a altas velocidades! Bem pelo contrário!

Por outro lado, se um adulto está apto para trabalhar pelo menos até aos 66 anos e três meses (idade legal da reforma, a partir de 2017), porque já não está apto para conduzir aos 65?! Não deve ser a idade a definir estas situações mas, sim, o estado de saúde de cada condutor e isso já é salvaguardado com os atestados médicos obrigatórios, pelo menos a partir dos 60 anos de idade!

A jornalista em causa não quis aprofundar a matéria (podia ter falado, por exemplo, na questão do custo das portagens que leva muitos condutores a optar por outras estradas de menor segurança) e limitou-se a dar todo o realce, despropositado, à questão dos 65 anos, isto é, a menos de 1 % de todas as principais causas dos acidentes rodoviários! Com que fins?

Aristides Silva
Associado APRe! nº 260

12 de dezembro de 2016

Ri-te, ri-te que logo choras

É possível dissolver o mundo no riso? Este é o grande desafio. Só é possível mudar aquilo de que se pode rir. Não construam monumentos que não possam derrubar e não permitam regimes que sejam imunes à humanidade


Nos livros do Tintim havia sempre um conjunto de países eslavos imaginados em que pululava gente de hirsutos bigodes e imensas conspirações, e a pólvora era preparada para guerras infinitas. A ficção fica sempre aquém da realidade e no centro da Macedónia (antiga região da Jugoslávia), nas margens do rio Vardar, fica Veles, uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes. Naquela região, segundo leio na “Visão”, que cita uma reportagem da BBC, o salário mínimo é de €350. Apesar disso, na cidade há uma explosão de jovens endinheirados que gastam dinheiro em bares da moda. O milagre podia chamar-se “Trump.net”. “São o ‘exército’ de adolescentes que descobriram o ‘ouro digital’. Ou como fazer muito dinheiro inventando notícias falsas que colocam a circular nas redes sociais. Sobretudo destinadas aos cidadãos dos Estados Unidos da América”, garante a revista.

A questão das notícias falsas ganhou uma enorme atualidade com a vitória de Donald Trump, levando o fundador do Facebook a desmentir que a conhecida rede social tivesse ajudado a eleger o multimilionário de cabelo louro duvidoso. Isso não impede que, num mundo em que a mediação jornalística se tornou cada vez mais reduzida, tivessem muita divulgação “notícias” como o suposto apoio que o Papa Francisco tinha dado a Donald Trump, ou que o agente do FBI que investigava os emails de Hillary Clinton havia sido assassinado.

O que os jovens de Veles conseguiram foi reverter esse fenómeno a seu favor. Segundo a reportagem da BBC, um adolescente ganhou num mês 1800 euros inventando notícias favoráveis a Donald Trump, tendo disseminado as ditas cujas em locais da rede e entre apoiantes no Facebook de Donald Trump. Resultado? Uma onda de cliques e anúncios que premiaram o sonho americano dois ponto zero: mente que serás recompensado. Esta forma de ganhar dinheiro atraiu muitos jovens de Veles, que preferem ignorar a moralidade duvidosa do ofício. “Não nos interessa como votam os americanos. Só queremos fazer dinheiro para comprar roupa de marca e bebidas”, diz Goran, um estudante universitário com 19 anos, citado pela revista. “Não há dinheiro sujo em Veles”, garante o presidente da câmara, Slavco Chediev, afirmando que sente orgulho nestes “empreendedores” que, em grupos ou a trabalhar individualmente, encontraram um part-time e trouxeram à cidade um incremento significativo do consumo. E como toda a gente sabe neste mundo, o consumo é igual ao sucesso e este é a medida atual da verdade. Roosevelt dominou a rádio; Kennedy, a TV; Trump despacha o mundo em 140 carateres.

Antes do final dos anos 30 de todas as catástrofes, o dramaturgo comunista Bertolt Brecht imaginou um dispositivo teatral para denunciar as injustiças de todos os dias. A ideia era criar um afastamento radical entre a peça e o espetador, de modo a que tudo o que víssemos no palco não passasse por normal, e deste modo transformar aquilo que nos acontecia todos os dias num cenário estranho que observássemos com conta, peso e medida, como se nos aparecesse pela primeira vez.

Dizia um célebre barbudo - autor, aos 27 anos, com um amigo, da célebre frase “tudo o que é sólido se dissolve no ar” - que “a história acontece em tragédia e repete-se em comédia”. Ninguém disse é que na comédia não podia haver ainda mais mortos e que só percebessem o ridículo da situação aqueles que nesse tempo não se encontrem. Vivemos num mundo que se tornou tão estranho que a operação de mostrar quão estranho é (o mundo) se tornou quase impossível. A manobra que os humoristas fazem de colocar o mundo de patas para o ar, como forma de fazerem nascer o riso, tornou-se difícil num mundo que há muito está de patas para o ar e não nos faz rir.

O livro de Ricardo Araújo Pereira “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar” permite-nos, de certa forma, um antídoto, ao analisar as nossas razões para rir e sobretudo de que razão é feito o riso. “A gente só ri porque tem consciência da própria morte. É uma pequena anestesia que nos ajuda a suportar melhor essa ideia. Sem a qual a ideia de morte seria insuportável. Continua a sê-la, mas essa pequena epidural, essas pequenas picadas do humor ajudam a suportar o peso da morte. Vamos simplificar isto para ficar mais claro: se a gente acompanhar um prisioneiro que sai da cela e vai até ao cadafalso a rir o tempo todo, pensamos ‘isto é macabro, há qualquer coisa de muito estranho nisto’. Mas essa ideia de ir a rir a caminho da sepultura é, de facto, aquilo que nós fazemos, nós só não sabemos que o cadafalso está a 50 metros”, afirmou o autor ao i.

O riso é uma imperfeição. Tal como a humanidade é uma doença que não cabe no universo. As coisas perfeitas não falham e as máquinas só vão rir quando aprenderem a falhar. Mas também é verdade que só quem falha consegue olhar por cima dos muros, apaixonar-se e ter a pretensão de fazer com que a vida seja infinitamente melhor.

Nuno Ramos de Almeida
Opinião jornal i 12.12.2016
http://ionline.sapo.pt/artigo/537917/ri-te-ri-te-que-logo-choras?seccao=Opiniao_i

25 de novembro de 2016

A debilidade da esperança

Quando os EUA proclamaram a sua independência, o abade Correia da Serra, amigo íntimo de Jefferson, escreveu-lhe uma carta vaticinando que caberia, à nova potência, coordenar o Norte do continente, mas não descurou antever a mesma função para o Brasil, no que respeitava ao Sul. Nesta data, o abade haveria de ter inquietação sobre as suas capacidades de previsão, porque ao norte o trajeto do poder alargou-se a ponto de conseguir desenhar os mapas, como fizera a Europa, colocando-se no centro do Globo, e ao sul havia de sentir-se substituído por Stefan Zweig, ao elaborar este as memórias que escreveu para lhe servirem de epitáfio depois do suicídio que decidira praticar.

A expansão dos EUA talvez possa assumir como primeiro parágrafo do conceito estratégico a Doutrina de Monroe de 1823 (isolamento), abandonar depois a lenda de gratidão aos deuses por terem colocado o Atlântico a salvaguardá-los da Europa conflituosa, reconhecendo, com a intervenção nas duas guerras mundiais, que esses crentes se enganaram, e por isso assumindo-se como a Casa no Alto da Colina do identificado Ocidente. Mas um Ocidente moldado com a perspetiva de serem o centro do mundo, enquanto elaboravam o estatuto da Sociedade das Nações, pelo qual o presidente Wilson obrigou a redefinir a estrutura política da Europa derivada da falida intervenção napoleónica, acabando com os impérios alemão, austro-húngaro, russo, turco, invocando o princípio de cada nação ter um Estado, para finalmente, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, os EUA, inscrevendo na Carta da ONU a descolonização, colocarem, com os aliados, um ponto final no império euromundista. Aparentemente, talvez tenha de reconhecer-se um novo ponto final neste modelo filiado na história americana com a eleição do atual presidente, que até agora, sem talvez conhecer o autor, nos lembra S. John Jkenbeirr (2011) quando escreveu o seguinte: "Unilateralismo, evidentemente, não é uma nova característica política internacional americana. Em cada época histórica, os Estados Unidos mostraram uma vontade de rejeitar tratados, violar regras, ignorar aliados, e usar a força militar no seu interesse."

Talvez seja mais benevolente, e também exato, que demonstraram sempre uma tendência para a fidelidade e um conjunto de valores de que a Declaração de Direitos da Virgínia é o núcleo fundamental, e que, não ignorando nunca a variação das conjunturas, mantiveram por conceito estratégico "o permanente interesse nacional, de conteúdo variável". Os cemitérios da Normandia facilitam o entendimento, especialmente pelos europeus, dessa linha, sobretudo numa data em que a União Europeia continua sem conceito estratégico, com uma organização de governança cujos órgãos coincidem acidentalmente com o poder, e com a considerável iniciativa de hierarquizar os membros (porque a França é a França), e de amenizar a espontaneamente divulgada semântica, substituindo o qualificativo, para os mais fracos, de protetorado, pelo uso da reconfortante valoração de bom aluno.

A evidente falta de estadistas, como foram os da guerra e fim da guerra, inclina a avaliar a nova época, americana e europeia, como o início do Outono Ocidental. Não eram muitos os esclarecidos que vaticinavam a eleição do próximo presidente dos EUA, também frequentemente esquecidos da experiência antiga de optar pelo mal menor, sem a nenhum observatório ocorrer que a mudança de época correspondia, pelo já proclamado e praticado, a um esquecimento da história longa dos EUA, suficientemente longa para que um povo tenha desenvolvido e consolidado a identidade de nação, sem diferenças contraditórias dos vários grupos, incluindo etnias e culturas, que se fundiram sob tal valor. A rutura dos tratados em vigor, que logicamente é deduzida das declarações e cooperadores escolhidos pelo eleito, a displicência em relação às obrigações com o Ocidente e o mundo medida pelo critério financeiro, a indiferença em relação ao destino da Terra e aos tratados assumidos, inspirada pelos programas económicos e superioridade do mercado, a divisão étnica com história desde que foi iniciado o povoamento do território, tudo parece ter inspirado o discurso, já antigo, com que Obama, em fins de mandato, gritou "somos todos americanos" e não o tradicional apelo à proteção divina.

Na viagem em que tem gasto os seus últimos dias de mandato, falando com líderes que percebem a exigência do "credo dos valores" a condicionar o "mercado", as suas intervenções comprovam a sua formação humanista, mas não garantem a dimensão sonhada do seu legado. De facto, há motivos para uma crescente inquietação das sociedades civis, não apenas ocidentais, e poucos para a esperança que nesses encontros quis deixar de que a graça de Estado pudesse ajudar o novo eleito a compreender a história passada do seu país e dos restantes povos que a seu lado têm vindo, com erros e acertos, a fazer crescer o humanismo.

A única coisa segura é que o imprevisto está à espera de uma oportunidade. A esperança tende também por isso para uma debilidade global, a que é urgente atalhar. Qualquer estadista responsável, ainda que sem ter passado pelas áreas de governo, mas inevitavelmente tendo vivido a tormentosa época em que lhe aconteceu nascer e viver, tem de possuir o discernimento suficiente para responder à acumulação de riscos, que não são apenas para um país, são para o globalismo das interdependências de que vamos sabendo os consequencialismos mas com mais atraso as causas. Para a União Europeia, na coincidência de celebrar os quinhentos anos da Utopia do Santo Thomas More, protetor de governantes e parlamentares, não vem tranquilidade suficiente para enfrentar os desafios da imprevisibilidade da política do novo presidente dos EUA, o segundo brexit do Reino Unido cinco séculos depois do primeiro de Henrique VIII, a imprevisibilidade das eleições na França, na Alemanha, na Itália, com a única certeza, a de que o imprevisível consequencialismo ameaça obrigar a redefinir, se possível, o equilíbrio que se chama paz.

Adriano Moreira
DN 23.11.2016

19 de novembro de 2016

Afinal, é bom ou não viver em Portugal?

Dizemos mal do nosso país, criticamos tudo e todos e nada nos satisfaz. Não há consensos porque ou somos pró ou somos contra. Parece que os Descobrimentos ou o golo do Eder são os únicos fatores de unidade nacional e a única riqueza do país.


Há um certo contrassenso no que se refere ao que dizemos do nosso país. Ouvem--se pessoas a dizer que “pior do que isto só na Grécia”, outros “que nem na Grécia”, ou ainda “quem me dera fugir daqui”. Por outro lado, para lá da procura do país por turistas e migrantes de outros países, muitos indicadores revelam que o país se situa entre os melhores em diversos setores, além da já tão famosa quanto extraordinária taxa de mortalidade materna ou infantil. Mais: mesmo face a problemas identificados, como o consumo de tabaco, álcool ou drogas ilegais e legais, como ainda foi há dias divulgado na comunicação social a partir de estudos efetuados pelo SICAD e pelo CNE, há uma capacidade de desenhar soluções e de tentar melhorar o que de mal se passa, mesmo que algumas coisas ainda estejam dependentes das vontades e quezílias políticas e da (in)sensibilidade social de alguns governantes, ou esbarrem com a “burrocracia” de algumas instituições.

Portugal assistiu, em várias épocas, a vagas de emigração sucessivas (muito intensa no final do século xix, mas já antes, para as então colónias, e enorme nos anos 60 do século xx), alternando com algumas de imigração – há escassos sete anos, um sexto das crianças que nasciam em Portugal eram filhas de estrangeiros imigrados. O nosso país sempre foi, ao longo da história, um local de transumância, de chegada e de partida, e por aqui passaram fenícios, árabes, lusitanos, visigodos, romanos, celtas, africanos, sul-americanos, norte-europeus… eu sei lá! Uns chegaram, outros partiram, o que só nos fez bem em termos de mistura genética e de complementaridade cultural. Esta riqueza, infelizmente, é muito pouco louvada em comparação com as desgraças financeiras ou os “buracos” dos bancos, talvez por não estar cotada na bolsa nem nos valores dos senhores Trump ou Orbán.

Volto à questão: gostamos ou não de viver em Portugal? Ou, dito de outra forma, tendo em conta os mais de 200 países do mundo, gostamos ou não de estar aqui? Preferimos ou não viver aqui? Em quantos países nos sentiríamos melhor?

Embora nos irritemos com múltiplas coisas “da nossa terrinha”, e até nos indignemos (especialmente alguns jornalistas e opinadores políticos que gostam de ver as coisas de um modo muito superficial) quando, em rankings que não expressam nada e são muito duvidosos em termos metodológicos e epidemiológicos, pioramos um lugarzinho num simples ano (sem valor epidemiológico que permita retirar alguma conclusão), o certo é que o nosso país, em comparação com muitos outros – com a maioria – continua muito acima da linha de água, e a vida que temos é uma vida de conforto, de afluência, de opções variadas e de liberdade, pelo menos para a esmagadora maioria dos portugueses – até para criticar, dizer mal, opinar. Basta ver os indicadores de há alguns anos e décadas, e constata-se o enorme avanço civilizacional que o nosso país teve, em praticamente todos os níveis. Infelizmente, a memória é curta e do que nos lembramos é do que aconteceu ontem ou anteontem... tudo o resto fica no “pó esquecido da memória”, exceto se for para atribuir as culpas a este ou àquele primeiro-ministro. Alguém se recorda das epidemias de sarampo que, em 1989 e 1994, mataram dezenas e dezenas de crianças? E que o sarampo foi considerado “controlado e extinto” no nosso país, enquanto noutros da UE, como a Alemanha ou a França, está ativo e mata? O que era a escola há dez ou 20 anos? Melhor? Não creio.

Mesmo que alguns portugueses (um só que seja já é demais) passem dificuldades diárias e outros tenham visto o seu poder de compra reduzir-se – em parte devido às políticas erradas, gananciosas, austeritárias, e às “receitas” venenosas das entidades internacionais, ou, noutros casos, ao mau rumo que deram à sua vida e à ideia de que se poderia ter “tudo já”, e esse tudo baseado em questões materiais –, há neste momento conhecimentos que permitem mudar estilos de vida, opções lúdicas, e conseguir cultura, desporto, lazer, diversão e felicidade a custo zero… além do facto de vivermos em liberdade e numa democracia evoluída, e com padrões de segurança invejáveis (e não me refiro apenas à ameaça do Daesh), o que não é propriamente um facto de segunda. Quando, há dias, um sírio rejubilava por poder, finalmente, cortar a barba sem ser condenado à morte, pensei que há regiões do planeta – e muitas – dos quais estamos, em termos de parâmetros civilizacionais, a anos-luz, e perante coisas como estas, como as imagens que nos chegam de Alepo, deveríamos ter um bocadinho mais de recato e cairmos em nós, não para sentirmos remorsos ou culpa de vivermos aqui, mas para valorizarmos a nossa existência… aqui.

Quando nos dirigimos aos mais jovens temos uma linguagem descolorida em relação a Portugal e passamos a mensagem de descrédito no país onde eles vão, salvo exceções muito raras, viver. Isso é mau. Muito mau. Porque os nossos filhos são privilegiados por fazerem parte dos dez por cento mais ricos do mundo, por viverem num país onde há liberdade e há opções variadas. Quando um estudo recente (fundamentado em perguntas abstratas e de futurologia) revela que quatro em cada cinco jovens deseja emigrar, constata-se o fenómeno, mas raramente se vê um cronista ou um político a dizer: “Não! Estão enganados! O nosso país é bom e tem muito para oferecer!” O que se observa é o vir ao de cima do fadinho mais pungente, e quase que se oferecem bilhetes-só-de-ida para que eles cumpram esse seu sonho que, na maioria dos casos, não passa de uma fantasia pouco sólida e nada objetiva – viver em Paris não é fazer turismo em Paris, viver em Londres não é ter um excelente apartamento ao lado da Abadia de Westminster! É tudo bem mais difícil, trabalhoso, e nesses países só se admitem os que realmente são bons… não escamoteemos essa parte da questão.

Para alguns adultos, os governos (todos eles!) fazem mal “porque sim”, mas também “porque não”. As câmaras municipais são acusadas de fazerem obras, mas também condenadas se não as fizerem. Nada é objeto de concórdia ou de razoabilidade… a não ser o golo do Eder! De vez em quando, a família senta-se junta com cachecóis, bandeiras, gritos, berros e cerveja, urrando pela seleção nacional. Nada contra. Pena é que não se vejam mais manifestações de contentamento por tudo o que existe de bom, ou que a equipa das quinas, inclusivamente, por perder um jogo, passe a ser um conjunto de “gajos que nem sabem dar um pontapé na bola”.

Será que temos de ser assim? É este o nosso destino, o nosso fado? Não acredito. Mas se continuarmos presos à nostalgia dos Descobrimentos (o que haveria a dizer sobre esses tempos, esses desígnios!), num bota-abaixismo constante, citando Eça a torto e a direito, descrentes, deixando de votar, de optar, de escolher, dizendo que “são todos iguais” (leia-se, ladrões e corruptos), então sim, então Portugal poderá vir a passar tempos de desesperança e de retrocesso.

A nossa crise, para lá da económica e financeira, é uma crise de autoestima, de autoconfiança e de autoimagem. Podemos gostar da geringonça ou da caranguejola, do partido A ou do líder B, mas do que estamos mesmo a precisar, enquanto povo, é de uma psicoterapia urgente. Acresce que, infelizmente, os meios de comunicação, em muitos casos, limitam--se apenas a martelar mais uns pregos no caixão, sacrificando tantas vezes a verdade em prol de títulos histriónicos de “primeira página”.

Mário Cordeiro
Pediatra
Jornal i 04.10.2016

18 de novembro de 2016

ALGUNS CONTRIBUTOS VISANDO A MELHORIA DO PROJETO DE DECRETO-LEI DO GOVERNO SOBRE A ADSE QUE ESTÁ EM DISCUSSÃO PÚBLICA

O governo colocou em discussão publica, através da Separata do Boletim do Trabalho e Emprego, nº 5 de 7 de Novembro 2016, a qual está disponível para quem quiser analisar em: http://bte.gep.msess.gov.pt/sep_consulta_n_anteriores.php um projeto de decreto-lei que visa substituir a atual Direção Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas (ADSE) por um Instituto Público de gestão participada (ADSE,IP). Este projeto de decreto-lei está em discussão durante 20 dias a contar da data da sua publicação, portanto quem quiser dar o seu contributo/opinião pode fazê-lo até ao dia 27 de Novembro de 2016.

Em primeiro lugar, interessa referir, que a nosso ver é positivo que o governo tenha abandonado a intenção de transformar a ADSE numa mutua, o que determinaria que ela fosse rapidamente capturada por um grupo de interesses minoritário que depois utilizaria a ADSE em seu proveito. A experiencia de mutuas, nomeadamente de grande dimensão em Portugal, é elucidativa disso para quem as conheça. E o risco de tal acontecer era muito grande tendo em conta que a ADSE movimenta anualmente cerca de 600 milhões € (por isso gera grandes apetites) e que os grupos privados de saúde estão vitalmente interessados em a controlar porque é um importante instrumento de financiamento.

Manter a ADSE como existe atualmente – uma direção geral – e há ainda quem defenda tal posição, é defender objetivamente que o governo faça sem qualquer controlo dos trabalhadores e aposentados, o que quiser com o dinheiro das contribuições dos trabalhadores e dos aposentados da Função Pública, como acontece atualmente (uma parte dos descontos é utilizado para fins que não beneficiam os seus titulares e as convenções de prestação de serviços de saúde assinadas pela ADSE beneficiam principalmente os grandes grupos privados de saúde como mostramos num estudo anterior). É subentender que os trabalhadores e aposentados da Função Pública não têm o direito nem a capacidade para controlar a aplicação dos mais de 520 milhões € que todos os anos são descontados nas suas remunerações e pensões. Para além disso, como o governo se recusava em mantê-la como uma direção geral, corria-se o risco da decisão do governo ser a entrega da sua gestão a um grupo segurador ou o controlo por um grupo de interesses privados.

A transformação da ADSE num Instituto Público de gestão participada tem a vantagem, por um lado, de não desresponsabilizar o governo da ADSE (é preciso ter sempre presente que a ADSE faz parte do Estatuto laboral dos trabalhadores da Função como concluiu e reconheceu a própria comissão nomeada pelo ministro da Saúde) e, por outro lado, de permitir que os representantes dos trabalhadores (sindicatos da Função Pública e associações de aposentados, e ainda outros representantes eleitos diretamente pelos titulares ativos e aposentados da Função Pública) fiscalizem a gestão da ADSE, o que nunca aconteceu.

MELHORAR O PROJETO DO GOVERNO SOBRE A ADSE 

Sem a pretensão de ser exaustivo, e apresentar a única solução, mas apenas com o objetivo de chamar a atenção dos trabalhadores e dos aposentados da Função Pública para aspetos que, a nosso ver e pelas razões que indicamos, deviam ainda ser melhorados no projeto do governo, destacamos os seguintes pontos. 

No preâmbulo do projeto de decreto-lei refere-se, por duas vezes, “que uma alteração legislativa de modo a defender o interesse público passaria pela sua transformação em mútua” e que “com esta alteração da sua natureza jurídica pretende-se assim criar condições para que a ADSE,IP possa evoluir no futuro para uma associação de tipo mutualista”. A nosso ver, estas referências sobre a evolução futura para uma mútua deviam ser eliminadas do projeto de decreto-lei por duas razões:

  • Em primeiro lugar, porque a experiência do mutualismo em Portugal tem mostrado que as mutuas com elevados número de associados, não são a forma mais adequada de defender os interesses dos associados e, consequentemente o interesse público como é afirmado no preâmbulo. E isto porque elas rapidamente são capturadas por grupos organizados minoritários de interesses que, depois se eternizam no seu controlo, aproveitando-se destas associações em proveito próprio. 
  • A segunda razão porque devem ser eliminados as referidas referências do preâmbulo do decreto-lei, é que elas só podem ser interpretadas como a intenção declarada de condicionar a decisão futura dos associados nesta matéria, o que não é aceitável. 
Na alínea b), nº 2 do artº 3º do projeto de decreto-lei inclui-se na “Missão e atribuições” da ADSE “controlar e fiscalizar as situações de doença”. Esta alínea da ADSE devia ser eliminada, pois não cabe, a nosso ver, nas competências da ADSE o controlo e fiscalização da doença, e muito menos o seu pagamento. Este controlo e fiscalização é uma competência exclusiva do Estado. E mesmo que se disponha nos nº 3 e 4 do artº 16º que “a prestação de serviços ao Estado é remunerada, nomeadamente a realização de juntas médicas por doença natural, de juntas médicas por acidentes em serviço ou a verificação domiciliária da doença”, no entanto, o valor da remuneração é fixado em Portaria pelo governo, o que poderá determinar que uma parcela dos custos acabe por ser financiada com as contribuições dos trabalhadores e aposentados. Manter tais atribuições na ADSE é também fomentar a promiscuidade e dificultar uma gestão sustentável. 

As subalíneas i) e ii) da alínea e) do nº 1 do artº 6º deviam ser eliminadas ficando apenas na e) o “principio de sustentabilidade” como um dos princípios dos “Princípios de gestão”. E isto porque aquele principio é suficiente e as duas subalíneas geram insegurança devido à acentuação exagerada da variabilidade de benefícios e contribuições. 

O nº1 do artº 10º dispõe que o conselho diretivo é composto por um presidente e por dois vogais, e no nº2 do mesmo artigo dispõe-se que apenas um dos vogais é indicado pelo conselho geral e de supervisão onde estão os representantes dos titulares (trabalhadores e aposentados da Função Pública), ou seja, daqueles que financiam a ADSE. A nosso ver, para poder haver uma mais adequada representação dos titulares/ativos e dos titulares/aposentados da ADSE, o conselho geral e de supervisão devia indicar os dois vogais do conselho diretivo e não apenas um. Desta forma também seria fortalecido o controlo de quem financia a ADSE sobre a gestão desta. 

A alínea a) do nº 2 do artº 14º do projeto do governo dispõe que os membros do conselho diretivo fazem fazer parte do conselho geral de supervisão que tem a missão de controlar e fiscalizar o conselho diretivo. Assim, segundo o projeto do governo, o órgão que tem como missão fiscalizar e controlar teria no seu seio o órgão que é controlado, o que é absurdo. A experiência tem mostrado que quando tal sucede (isso acontece no Montepio), o órgão controlado (aqui o conselho diretivo) captura rapidamente o órgão que deve fiscalizar e controlar (aqui o conselho geral e de supervisão) acabando este por ser um órgão submisso e não fazer qualquer fiscalização efetiva. Por esta razão, e porque é contrária à sua própria missão, os membros dos conselho diretivo não devem ser membros do conselho geral de supervisão (o órgão fiscalizador), embora possam ser convidados a participar em reuniões quando o conselho geral e de supervisão achar que a sua presença é importante para o esclarecimento de qualquer matéria. 

A alínea f) do nº2 do artº 14º do projeto do governo dispõe que um dos membros do conselho geral e de supervisão é “indicado pela associação mais representativa dos reformados e aposentados da administração pública”. Esta disposição devia ser alterada de forma a incluir dois membros indicados pelas duas associações mais representativas dos reformados e aposentados da administração. A razão é facto de existirem duas associações com atividades bem conhecidas – MURPI e Apre! –, e não apenas uma, sendo até a primeira mais antiga. A não alteração leva à exclusão de uma delas o que me parece inaceitável. 

O ponto 3 do artº 14º devia dispor claramente que o presidente do conselho de supervisão devia ser eleito pelos membros do conselho geral de supervisão. O projeto do governo diz que ele é indicado o que pode dar origem a interpretações contraditórias. 

No ponto 4 do artº 14º, dispõe-se que o conselho geral e de supervisão deve dar o seu parece sobre os objetivos estratégicos, plano de atividades e orçamento, relatório e contas anuais, e medidas do conselho diretivo para garantir a sustentabilidade, mas não se define as consequências desse parecer. Pensamos que seria mais correto que esse parecer tem de ser favorável para depois os referidos documentos chaves poderem ser aprovados pelo governo, pois caso contrario esse parecer não teria qualquer efeito. Se o conselho geral de supervisão não desse o parecer favorável os referidos documentos deviam ser devolvidos ao conselho diretivo para os reformular. Desta forma reforçar-se-ia o controlo por parte dos representantes dos trabalhadores e aposentados. 

A alínea c) do nº4 do artº 14º dispõe que o conselho geral de supervisão deve “emitir parecer, quando solicitado, sobre as matérias e atribuições da ADSE,IP, bem como quaisquer outros regulamentos, nomeadamente: i) Propostas do conselho diretivo sobre a gestão do património da ADSE; (ii) Propostas do conselho diretivo sobre a participação na criação de entidades de direito privado com ou sem fins lucrativos, bem como sobre a aquisição de participações em outras entidades”. Desta forma ficaria ao arbítrio do conselho diretivo submeter ou não tais matérias ao conselho geral de supervisão, o que reduziria significativa o poder de controlo deste conselho, dando um poder desmesurado ao conselho diretivo. E isto em matérias muto importantes que podem por em risco a própria ADSE, incluindo a sua sustentabilidade. Por isso, a alínea c) do nº4 do artº 14º devia ser alterada, passando a ter a seguinte redação: “Deve emitir sempre parecer sobre matérias e atribuições da ADSE,IP, bem como sobre quaisquer regulamentos, nomeadamente……” 

O ponto 5 do artº 14º devia ser reformulado de forma que ficasse disposto que os dois vogais do conselho diretivo devem ser indicados pelo conselho geral e de supervisão e não apenas um. 

Um aspeto que devia ficar claro no artº 16 do projeto é que os saldos das contas anuais da ADSE (excedentes, que são fundos não gastos mas financiados com os descontos dos trabalhadores e aposentados) devem ser apenas utilizados em proveito dos beneficiários da ADSE, e que a sua gestão e rentabilidade é da competência da ADSE,IP, não sendo, por isso, necessário despacho do governo para poderem ser utilizados ou aplicados com objetivo de os rentabilizar (por ex. em títulos do tesouro com rentabilidade e fácil liquidez). Por essa razão no nº1 do artº 16º devia ser acrescentado uma disposição em que isso ficasse claro embora possa decorrer da autonomia financeira que tem o instituto. 

O artº 17º do projeto do governo alarga o âmbito da ADSE a todos os trabalhadores da Função Pública incluindo os com contrato individual de trabalho (é preciso tornar isto mais claro pois não está) e também aos beneficiários familiares que passarão a contribuir. 

O artº 20º trata do sigilo profissional, mas como há legislação especifica sobre o sigilo profissional na Administração Pública, consideramos desnecessário a sua inclusão no projeto. No entanto ele não deve ser utilizado para impedir a transparecia na gestão da ADSE. Por isso, e para que isso fique claro, o artº 20º do projeto do governo devia incluir um ponto que dispusesse que a ADSE divulgaria no seu relatório e contas anual a lista dos principais prestadores de serviços de saúde (por ex. os 50 mais importantes prestadores do regime livre e do regime convencionado), os contratos assinados com eles, e o montante anual pago a cada um deles. Desta forma permitir-se-ia que os trabalhadores e aposentados da Função Pública ficassem a saber melhor como são aplicados os seus descontos e exercessem o seu escrutínio. 

Finalmente, no artº 22 do projeto de decreto-lei devia ficar claro que apesar da direção geral - ADSE ser extinta e substituída por um Instituto Público, os seus trabalhadores transitavam para nova entidade ADSE, IP com todos os seus direitos (o que não está claro no projeto do governo), devendo ser eliminado o artº 23º já que ele permite, ou dá a ideia, que os trabalhadores da atual Direção Geral ADSE antes de passarem para o Instituto vão ser sujeitos a uma seleção, o que é inaceitável. 

Eis alguns contributos para reflexão e debate pelos trabalhadores e aposentados da Função Pública de uma matéria que lhe é extremamente importante como revela o facto de apesar ser livre a saída da ADSE, a quase totalidade se mantém na ADSE apesar dos descontos para ela terem aumentado 133% durante o governo PSD/CDS e “troika”. 

Espero que este contributo possa ser útil aos trabalhadores e aposentados da Função Pública. Foi essa a única razão que me levou a escrever estas reflexões sobre o projeto de decreto-lei colocado em discussão pública pelo governo. Elas não têm a pretensão de ser exaustivas nem as melhores.

Eugénio Rosa
http://www.eugeniorosa.com/Sites/eugeniorosa.com/Documentos/2016/49-2016-adse-projeto-lei.pdf

15 de novembro de 2016

A nova Europa dividida num contexto internacional de incertezas. E nós?


Jorge Sampaio alerta para a "tendência global" dos movimentos populistas, a propósito também da eleição de Donald Trump. Neste ensaio para o PÚBLICO, o ex-Presidente da República afirma que o "Brexit" constitui um "ponto de não-retorno" e que a própria Europa tem de travar a "corrida para o abismo".


Ao optar por me debruçar aqui sobre a “questão europeia”, chamemos-lhe assim, o meu objectivo não é trazer à colação certezas e ideias feitas acerca da Europa, do seu passado e do futuro, mas antes tentar desbravar um caminho de interrogações e perplexidades, que são afinal as de um europeu convicto, que teima em continuar a sê-lo, mas que se confronta com um conjunto de contradições, dilemas e perguntas para as quais as respostas não parecem óbvias nos tempos que correm. Ou seja, e este é o meu ponto de partida, as convicções outrora firmes que me acostumara a assumir como premissas inabaláveis de um europeísmo esclarecido estão hoje, em 2016, algo toldadas pela acumulação de dúvidas nascidas da confrontação com a realidade — o tal reality check, como bem se diz em língua inglesa —, assim como pela acentuada e generalizada erosão da confiança na Europa, no seu funcionamento, na sua capacidade de cuidar dos bens públicos europeus e de responder às expectativas dos cidadãos.

Em suma, tentarei fazer nestas páginas um exercício de militantismo europeu, na certeza de que a dinâmica do capitalismo global, tal como se desenvolveu e se afirma no nosso tempo à escala planetária, exige da Europa e dos países europeus a determinação de se constituir como uma alternativa sólida, por um lado, à financeirização da economia e, por outro, ao capitalismo autoritário de “valores asiáticos”, por assim dizer. Se esta alternativa coincide com a União Europeia, tal como a conhecemos hoje, ou se exige uma outra Europa, é uma questão que está em aberto e cujos contornos aqui procurarei, precisamente, delinear.

À partida, direi, como posição de princípio, que é na fractura aberta pelas insuficiências da actual Europa que importa trabalhar, mesmo se para tal for necessário quebrar alguns tabus, colocar questões inconvenientes e formular “hipóteses fora da caixa”....Ler mais

10 de novembro de 2016

CÍCERO: CATO MAIOR - DE SENECTUTE

O texto que vos trago hoje, e após um merecido descanso de férias, trata de um tema que nesta folha trimestral é inovador e original: a velhice. Estão por certo familiarizados com o conceito, pois a terceira prateleira do armário está cada vez mais alta e difícil de alcançar, os cem metros até à mercearia tornaram-se quinhentos e levam cada vez mais tempo a percorrer, os médicos de várias especialidade já são tratados por tu, a velhota do 3º Esq. é facilmente confundida com a nova Miss Portugal, e os vários esfíncteres corporais cavalgam a onda do liberalismo, adoptando a velha fórmula do “laissez faire, laissez passer”. Isto, caros amigos, para quem não saiba ou esteja distraído, é a velhice.

Mas as férias acabaram e temos de voltar a um registo mais sério: falemos, pois, de alguém que, há cerca de dois mil anos pensou sobre a velhice; ora, por volta do ano 44 a.C., Marco Túlio Cícero, grande orador e homem de letras que viveu em Roma entre o ano 106 a.C. e 43 a.C. (conta-se que as aulas que ministrava aos seus discípulos aconteciam durante passeios pelas ruas de Roma, que percorria enquanto dissertava: advindo daí, em sua honra, o termo “cicerone” para esta nobre actividade), resolveu presentear o seu grande amigo Tito Ático com um texto sobre a velhice, no qual dialogavam três personagens, um de idade avançada (Catão, o Velho) e dois jovens (Cipião e Lélio); estes admiram e elogiam Catão por este nunca se queixar da sua idade, ao contrário de tantos outros que a consideram um fardo; ao longo do livro, Catão contrapõe aos argumentos dos jovens os factos de não ser a velhice para os sábios um mal, e que o curso natural da vida deve ser seguido, refutando as objecções de que “afasta homens dos negócios, que enfraquece o corpo, que suprime todos os prazeres da vida, que se encontra perto da morte”.

Estes quatro argumentos são contrariados por Catão, um por um, com fundamentos lógicos e evidentes para o observador comum, embora superficiais:
  • 1) “que afasta homens dos negócios”: que negócios? Os que requerem mais destreza e força, ou aqueles que exigem mais reflexão e experiência? Um velho timoneiro já não sobe à gávea mas depende dele o rumo do barco; a impetuosidade juvenil é moderada pela moderação senatorial.
  • 2) “que enfraquece o corpo”: é curioso ver como há dois mil anos a defesa da velhice se dicotomizava, por exemplo, entre força (juventude) e fraqueza (idade) e como esta era substituída, nesta fase e com vantagem, pela actividade intelectual: defendia Cícero, através de Catão, que os espíritos se revitalizavam através desta última. De facto, manter o cérebro activo e desperto para a vida, dedicado à leitura ou/e à aprendizagem de novos temas ou tarefas, protela a senilidade naqueles onde a doença não se instalou, residindo aí a sua força, que se poderá manifestar, por exemplo na defesa pública de um argumento ou causa. 
  • 3) “que suprime todos os prazeres da vida”: Catão defende que os prazeres corporais são a fonte de traições à pátria, acordos secretos com o inimigo, adultério, raptos, crimes de sangue, e todas as outras ignomínias daí decorrentes, que a razão e a sabedoria são subjugados pelo prazer, e que portanto deveremos agradecer à velhice “por eliminar aquela ânsia de fazer o que não deveria ser feito” e “…nos velhos…(se) não existe desejo, não podem lamentá-lo, já que não se pode sofrer com aquilo de que não se sente a falta” (Eh pá, ó Catão, tem dó!!); avança ainda com o argumento que muitos, na velhice, encontram o prazer na leitura, na agricultura, nos jogos, e que é portanto falso que todos os prazeres sejam aí suprimidos. 
  • 4) por fim, “que se encontra perto da morte”: a morte é comum a todas as idades, e ninguém, qualquer que seja a sua, pode ter a certeza de chegar ao fim do dia; a morte, ou o receio dela, deve ser desprezada por duas vias: ignorada, se elimina a alma por completo e nada se lhe segue; ou desejada, se a conduz a algum lugar para a eternidade. Quem vive no constante receio da morte, já se encontra morto e não sabe, pois esse medo impede-o de viver.

Termina este texto na seguinte forma: “Que possam chegar até ela (velhice)…capazes de provar por experiência a verdade que de mim escutastes”.

Este texto de Cícero, não sendo uma das suas obras mais conhecidas ou famosas, faz transparecer o seu génio de orador eloquente, e merece uma leitura cuidada que nos leva a reflectir sobre um tema que nos traz aqui trimestralmente, e em que as opiniões acumuladas ao longo dos anos da nossas vivências se entrecruzam com as que Catão nos transmite pela sua voz sábia de dois mil anos.

Deixo-vos com duas frases de Cícero sobre a velhice e reflictam!

Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons.

Para se ter vida longa é preciso viver devagar.

Luís Cabral

30 de outubro de 2016

A onda xenófoba

Os partidos xenófobos e racistas estão em alta na Europa. A deriva anti-imigrante dos políticos reflecte sentimentos da sociedade. Na Alemanha trabalhadores de uma fábrica receberam com protestos um grupo de trabalhadores portugueses que ali iam fazer trabalho temporário.


Os partidos xenófobos e racistas estão em alta na Europa. Marine Le Pen vai à frente nas sondagens para as eleições presidenciais em França, que se realizam em 2017. Os governantes da Hungria e da Polónia recusam receber refugiados. Nações com tradição de tolerância e abertura aos estrangeiros, como a Holanda, a Dinamarca ou a Suécia, contam hoje com significativas forças políticas hostis aos estrangeiros. E nos Estados Unidos as posições xenófobas de Trump, contra árabes e mexicanos sobretudo, são alvo de um considerável apoio – ainda que, espera-se, não o suficiente para o eleger Presidente.

A deriva anti-imigrante dos políticos reflecte sentimentos da sociedade. Na Alemanha trabalhadores de uma fábrica receberam com protestos um grupo de trabalhadores portugueses que ali iam fazer trabalho temporário. A liberal Grã-Bretanha começa a fechar-se ao estrangeiro; multiplicam-se os ataques a imigrantes e os estudantes estrangeiros, incluindo os provenientes da UE, terão menos apoios no futuro, o que já levou a uma inédita queda de 9% no número de candidatos às universidades britânicas.

É preocupante.

Francisco Sarsfield Cabral

12 de setembro de 2016

Do infantário ao Lar

Hoje de manhã deixámos o nosso filho no infantário. É a sua primeira vez no pedaço. Correram bem os minutos iniciais. Circulou pelo espaço como se o conhecesse, aproximou-se das outras crianças, entrou em casinhas, subiu ao escorrega e deixou-se ir, confiante como um atleta olímpico medalhado. Há pouco soubemos que está sereno. Não gritou pela mãe, pelo pai, pelos avós. Ou pelo Ruca.

A circunstância leva-me a outra. O pensamento pousou enquanto me debruçava na montra ainda desolada de uma pastelaria, neste lento arranque de Setembro. O primeiro dia num lar. Hoje fomos nós que deixámos o nosso filho de dois anos num infantário. Um dia poderá ser ele a deixar-nos num lar. Sem desapego ou egoísmo. Apenas porque, como nós em relação a ele, não conseguindo manter-nos em casa, acha melhor estarmos acompanhados.

O pensamento não chega com pianos dolentes. Vem como projecção. Nunca havia matutado no assunto. Desenrolo a pergunta: caso seja esse o nosso destino, como será o nosso primeiro dia num lar? Revelaremos o mesmo talento do nosso filho em interagir com outros, em passear pelo recinto como se fosse nosso? Não sei. Mas, agora, gostaria que assim fosse. E que o nosso filho depois ligasse e nos soubesse felizes, como se ali tivéssemos morado durante toda a nossa vida.

Nuno Costa Santos
Sábado Opinião 11.09.2016

24 de agosto de 2016

Dois ou três sacos

De entre as dezenas de depoimentos que temos ouvido nestas semanas de incêndios, ficou-me um em particular: o de uma mulher que, recém-chegada de uma encosta madeirense, disse a uma pivô que acabara de perder tudo o que tinha e que isso lhe havia trazido uma lição maior: a de que passamos anos a acumular coisas para depois essas coisas serem consumidas num instante. Foi um incêndio. Mas podia ter sido uma tempestade, uma derrocada, um roubo, o abandono que muitos descendentes dedicam àquilo que não lhes é valioso numa herança. E que para os pais e os avós valia muito.

Ainda ouço essa reflexão em alguém num momento extremo, partilhada com voz triste e magoada, mas segura. E escrevo-a aqui para que nunca se apague no remoinho interminável de pensamentos espúrios. Para não esquecer a súbita lucidez de quem desabafava com uma repórter comovida, ainda envolta em nuvens de fumo tóxico.

Minto. Minto quando digo que ela revelou ter perdido tudo. Está a fugir-me o rigor. Ela não perdeu tudo. Perdeu quase tudo – e revelou-o na conversa. O que lhe restou morava em dois ou três sacos aos quais se dirigiu depois da entrevista, movimento que a câmara, com algum excesso no tempo, resolveu captar. Dois ou três sacos. A nossa vida toda cabe aí. E andamos nós a acumular coisas.

Nuno Costa Santos
Sábado Opinião 21.08.2016

11 de julho de 2016

Lágrimas de campeão

Esta crónica é só para quem não percebe de futebol. Quem desconhece o lugar de um trinco, ignora o que é isso do fora de jogo, pensa que uma trivela é uma embarcação quinhentista e imagina que a conversa de ter pé quente é resultado de muito chuto na bola.

Pão e circo, dizem os poucos que ontem não ficaram com pele de galinha a ver o cordão de emigrantes de sorriso rasgado à volta da seleção. Os que não sentiram o poder do orgulho. Os que não se arrepiaram com palavras como as do filho de Manuel Dias, morto há oito meses a poucos metros da porta D do estádio em que ontem dois países mediram forças. Numa Europa que anda à procura de si mesma, assustada com o terrorismo, houve quem não se esquecesse de lembrar que o caminho só pode ser o respeito pela identidade de cada um. E que dentro de campo, como fora dele, nascidos em berços diferentes vestem a mesma camisola.

Esta crónica é só para quem acha que a euforia da bola nos distrai das coisas realmente importantes, como a reunião dos ministros das Finanças europeus que amanhã vão decidir se merecemos sanções. Quem acha que assuntos a sério são (apenas) os do PIB e das exportações aquém do necessário, da cultura que valorizamos tão pouco, das desigualdades sociais e de tantos problemas que o futebol não ajuda a resolver - nadinha mesmo.

Esta crónica é para quem se indigna com páginas dedicadas aos craques pagos a peso de ouro e tão pouca visibilidade dada a Sara Moreira a cortar a meta de bandeira nacional ao vento, a Patrícia Mamona também campeã da Europa, a Rui Costa numa difícil escalada pelos Pirenéus rumo ao segundo lugar da etapa no competitivo Tour.

Esta crónica é para quem valoriza o esforço, a exigência e a ambição. Mas acha pouco, num país em que a afirmação de metas ambiciosas é tantas vezes confundida com arrogância, um engenheiro ter assegurado que só hoje voltaria para casa numa altura em que ainda ninguém acreditava. Ou encontra tanto motivo de crítica no percurso brilhante de um miúdo a quem a maturidade deu a fibra de um capitão. Na incerteza, em lágrimas e na vitória.

Esta crónica é toda sobre futebol. Sobre suor, tática, coesão. Se saltarmos juntos. Se gritarmos com os nossos políticos até ficarmos roucos. Se exigirmos a cada profissional, na sua área, a perfeição. Se ambicionarmos o primeiro lugar nos rankings da saúde e da educação. Se no campeonato da União Europeia acreditarmos que os pequenos podem lutar taco a taco com os grandes. Se deixarmos de menosprezar as emoções que nos unem e os heróis de todas as modalidades ou áreas de atividade. Somos campeões. Como fomos ontem.

Inês Cardoso
Opinião JN 11.07.2016

19 de maio de 2016

Texto da intervenção de António-Pedro Vasconcelos, na apresentação em Lisboa do livro “OS SONHOS NÃO TÊM RUGAS”

A primeira vez que vi a Maria do Rosário Gama foi na SIC, em Outubro de 2012, e confesso que fiquei impressionado com a generosidade, a energia e a convicção com que defendia a sua causa: a criação de uma associação, APRe! (e o nome era todo um programa), onde os reformados e pensionistas se pudessem defender dos ataques aos seus direitos por parte de um governo que, com o pretexto da Troika, decidira ser fraco com os fortes e forte com os fracos.

Talvez porque estava a preparar um filme sobre o encontro de duas solidões – uma mulher de setenta e tal anos e um jovem de 18, que se viam, ambos, empurrados para fora da sociedade, relegados para a solidão e o esquecimento - dois seres incómodos para filhos e pais, numa palavra, descartáveis -, talvez por isso, criei logo ali uma relação de simpatia com a Maria do Rosário Gama, sem saber que, dois anos depois, nos iríamos encontrar e eu próprio iria tornar-me sócio da APRe!

O filme, “Os gatos não têm vertigens”, estreara-se em Setembro de 2014, e, poucos dias depois, recebi uma chamada da Maria do Rosário propondo-se organizar em Lisboa, em Coimbra e no Porto, idas ao cinema dos membros da APRe! e propondo-me que, uns dias depois, eu fosse falar com os seus associados sobre o que me motivara a fazer o filme e ouvir os relatos das suas experiências e os comentários à história que eu inventei . Em Coimbra e em Lisboa a sala estava cheia (a sessão no Porto acabou por não se realizar) e foi um prazer encontrar-me com gente da minha idade, que havia sido sensível ao que vira no ecrã: uma mulher que, de repente, fica viúva e descobre um dia que um jovem desamparado estava a dormir no seu terraço, e que, em vez de chamar a polícia, decidia adoptá-lo.

O filme foi pensado para dar às pessoas que o vissem um pouco de alento para opor ao desprezo com que estavam a ser tratados os cidadãos mais indefesos, que eram chamados a pagar a irresponsabilidade dos bancos, a leviandade dos políticos e a cegueira de Bruxelas. Uma réplica, à medida das minhas capacidades, do que foram os filmes de Capra para o New Deal e os primeiros filmes neo-realistas para a Itália saída da guerra e do fascismo: a ideia de que toda gente tem um dom, e que, mesmo num mundo atroz, a solidariedade é um bálsamo e a atenção ao próximo pode ser uma redenção.

Mal eu sabia também que hoje estaria aqui a falar de um livro extraordinário cujo título faz eco ao do meu filme: se é verdade que os gatos não têm vertigens, também é verdade é que os sonhos não têm rugas.

O livro assinado pela Maria do Rosário Gama, por António Betânio de Almeida e Ângela Dias da
Silva é um assombro! Útil, didáctico, positivo, é um repositório riquíssimo de experiências pessoais, um desfile de testemunhos de todas as classes sociais, mas sobretudo da classe média, cada um reagindo (conforme os favores ou desfavores da fortuna ou o seu próprio temperamento e situação), ao assomo da idade, ao desconforto ou, pelo contrário, às oportunidades da reforma, à humilhação da dependência e do desprezo dos outros, ao sentimento horrível de perda da utilidade social e profissional, de ser um peso para os seus, pessoas que se vão abaixo, outras que resistem, denunciam e combatem, um rosário de experiências, umas terríveis outras edificantes, uma galeria invulgar de personagens, cujas vidas poderiam inspirar outros tantos filmes.

Dividido em 8 capítulos, feitos de testemunhos avulsos, seguidos de uma reflexão fundamentada e honesta dos autores - porque nunca cede à demagogia -, vale a pena enumerar o tema de cada um: “Sou Velho?” é o primeiro, uma pergunta terrível que um dia qualquer de nós já fez ou fará ao espelho ou perante o olhar dos outros, “Passar à Reforma”, que pode ser um trauma ou um alívio, a Carta de Princípios da ONU para os idosos, tantas vezes esquecida, e, por fim, a importância da “Participação”, da “Assistência”, da “Realização Pessoal” e da “Dignidade”.

Além disso, para enriquecer este livro precioso, temos direito a um Prefácio magnífico de José Pacheco Pereira, que não hesita em lembrar-nos que o anterior Governo e muita comunicação social lançaram uma “fronda contra os mais velhos”, atiçaram “jovens contra velhos”, “de uma forma - diz ele - que nunca se tinha visto na experiência ocidental”, e lembra para exemplo a não apagar da memória, a forma ignóbil como um deputado do PSD, Carlos Peixoto, se referiu aos idosos como sendo a “peste grisalha”, cuja existência, dizia ele, havia “contaminado” nem mais nem menos do que “a nossa Pátria”!

Resisto à tentação de citar algumas das passagens dos muitos testemunhos de que o livro está cheio, bem como a enumerar alguns dados referenciados pelos autores - tantos eles são! -, uns revoltantes, outros dignos de serem exaltados, tão rica é a sucessão de descobertas e ensinamentos que fazemos a cada novo capítulo.

Mas quero aproveitar os minutos que me restam, e a Presença, que nos honra, do senhor Presidente da República, para falar de uma coisa que considero de fundamental importância no exemplo da APRe!, e de que este livro é apenas (e não é pouco!) o valioso compêndio. Refiro-me às iniciativas cidadãs, sem as quais a democracia se confunde perigosamente com o mero jogo partidário, se esgota com a eleição regular que o povo é suposto fazer dos seus representantes, e que, por não termos sabido ponderar o preço da abdicação de parte da nossa soberania para Bruxelas, e por termos descansado comodamente na delegação do poder nos nossos governantes e deputados, sem termos usado os instrumentos de escrutínio que a Constituição nos concede, está cada vez mais desacreditada.

Essa decepção – o sentimento de que o Estado foi capturado pelos interesses - traz consigo um perigoso desencanto, uma alienação e uma desconfiança nas virtudes insubstituíveis da democracia representativa. Para os mais velhos, os da minha geração, que esperaram tudo do derrube da ditadura, e para os mais novos que nasceram com a democracia e a deram como um direito adquirido, esta desilusão é perigosa. Convém lembrar a toda a hora que a democracia e o Estado de direito é um bem que se conquista e se preserva todos os dias, e que é, na maioria dos países, uma experiência recente da Europa do pós-Guerra, frágil, precária, que facilmente desperta a nostalgia e o apelo a formas de governo autoritárias!

Se hoje, ao contrário do que aconteceu com “os Pais da Europa” e com os grandes líderes políticos que emergiram da II Guerra, os países carecem de políticos que ajam no respeito da delegação do voto que lhes é concedida e se esquecem muitas vezes de que são mandatados para defender o interesse público, é porque os políticos da velha geração, de que faziam parte Churchill, De Gaulle, Jean Monet, Willy Brandt, Schumann, Filipe Gonzalez, Olof Palme, Mário Soares Mitterand e tantos outros, sabiam o preço e o valor da paz, da democracia e da liberdade. Porque, para eles, a paz, a democracia e a liberdade foram uma conquista, e porque os povos, que saíram de uma guerra sangrenta e brutal, se bateram também eles, arduamente e com duros sacrifícios, pela conquista dos seus direitos.

O que falta à democracia, hoje, sobretudo em Portugal, é o escrutínio dos cidadãos, das suas organizações, associações, movimentos cívicos, que dêem voz e expressão ao protesto justo e legítimo, em nome de uma colectividade, seja ela nacional ou local, de classe, etária ou profissional. Do mesmo modo que há hoje um défice de confiança na isenção e na independência da Justiça e da Comunicação social, dois pilares do Estado de direito, que têm por dever garantir a confiança dos cidadãos no funcionamento equilibrado do regime democrático.

Por isso é que organizações como a APRe! devem ser seguidas e imitadas, quer através de sólidas e duradouras instituições de solidariedade, quer através de movimentos cívicos organizados à volta de questões vitais para a nossa soberania e o nosso futuro como Nação europeia, livre e independente. Hoje, questões como a exploração do petróleo no Algarve ou o TTIP – o Tratado Transatlântico - negociado num secretismo perigoso, que tem passado ao lado das nossas preocupações e cujo desfecho pode pôr em causa tudo o que a Europa do pós-Guerra conquistou e que nos garantiu uma paz duradoura -, merecem a nossa atenção e vigilância. Antes que o protesto anárquico, facilmente manipulável, tome conta das ruas, que o desânimo e a descrença tomem conta dos espíritos e que os apelos à ordem acordem velhos fantasmas, são as organizações responsáveis de cidadãos que nos podem devolver a confiança em nós e nas instituições. Numa palavra: a confiança na democracia.

António-Pedro Vasconcelos