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6 de agosto de 2017

Do sorriso de Fehér


Um dos meus heróis chama-se Ricardo Espírito Santo. No dia 25 de janeiro de 2004, ele dirigia a transmissão do jogo Guimarães-Benfica e tirou do ar, num ápice, o rosto de Miklós Fehér no instante em que o coração do jogador húngaro parou. A última imagem que tivemos dele foi um sorriso aberto. Ricardo fez, antes e depois, centenas de transmissões de futebol, um trabalho normal na vida profissional dele, que está recheada de muitos outros, no desporto como noutras áreas. Eu não o conhecia mas para mim aquele momento definiu-o. Mais tarde ficámos amigos e pude confessar-lhe o meu profundo respeito por aquele gesto instantâneo. Para ele, tinha sido uma reação normal, óbvia.

Todos os dias tomamos decisões - o que vou vestir, viro para a esquerda ou para a direita, o que faço para o jantar -, escolhas banais. As grandes decisões são outra coisa: mesmo quando parecem tomadas rapidamente, têm por trás um lastro que é a nossa vida inteira, incluindo as nossas hesitações e indecisões. Ricardo não decidiu por acaso evitar que o mundo visse em direto a morte de Fehér. Ele é assim, deontologicamente irrepreensível.

O mesmo respeito mantenho pelo realizador de um programa de entrevistas que tive na RTP2, Rui Nunes. Se o entrevistado se comovia demasiado, se lhe tremia a voz ou os olhos ficavam em lágrimas, ele retirava-lhe de imediato o grande plano do rosto, numa atitude de profundo respeito. Bem sei que há quem goste de fazer exatamente o contrário e até há quem force essas situações de lágrimas. Até há aquela clássica cena das lágrimas falsas do jornalista interpretado por William Hurt em Edição Especial (Broadcast News, 1987, realizado por James L. Brooks), desmascaradas por Holly Hunter.

Na quarta-feira passada, também eu dei por mim pasmada em frente da televisão a ver imagens do areal de São João da Caparica. Passados estes dias, agradeço à RTP por ter sido o único canal de televisão que não ficou horas especado num lugar onde aconteceu uma tragédia mas onde, passado pouco tempo, já não havia nada para mostrar em direto. Havia reportagem para fazer, para depois editar, mas não era necessário ficar em direto. E muito menos a entrevistar, para ocupar o tempo, crianças que tinham acabado de testemunhar a morte de duas pessoas. Vi pelo menos duas crianças a quem foram pedidos pormenores do acidente.

Tive sorte, não vi o momento em que o pai de Sofia quis falar para o microfone da TVI24. Posso imaginar - e dizem-me que foi evidente - o embaraço e o pudor da repórter. Se estava decidido manter o direto, devia haver alguém na régie a dirigir a emissão com sangue-frio e preocupação ética, alguém que decidisse parar a cena de imediato. Não é apenas bom senso: há regras para isto, nós jornalistas temos um código deontológico que é claro a este respeito.

Nos antípodas do episódio Fehér tenho na memória um dos momentos em que senti maior vergonha alheia. Foi durante as longuíssimas horas em que, no dia 4 de março de 2001, houve os mais absurdos diretos de televisão: o acidente de Entre-os-Rios. Não acontecia absolutamente nada. De vez em quando, mergulhadores faziam buscas no leito lamacento e caudaloso de um Douro que escoava águas de muitas chuvas, mas cada vez se tornava mais óbvio que não iria aparecer nada. Soube-se mais tarde que morreram ali 59 pessoas, dentro de um autocarro e de três carros que atravessavam a Ponte Hintze Ribeiro quando um dos pilares ruiu. Nada mais havia para ver, porque a violência das águas tinha arrastado tudo em direção ao mar.

Tal como no areal da Caparica, também havia jornalistas a entrevistar pessoas que por ali andavam. Na maioria, eram familiares, amigos, vizinhos dos que tinham desaparecido. Sei, porque fiz perguntas depois, que os repórteres no local recebiam da chefia ordens constantes para mostrar "sangue", maneira de dizer que era preciso agarrar os espetadores com algum pormenor escabroso. E foi então que uma repórter anunciou: "Vamos falar com um menino que costumava ir às excursões com os avós mas desta vez foi substituído por um irmão." A pergunta nunca me sairá da cabeça: "Tiveste pena de não ir na excursão?"

Quando dou aulas, refiro sempre este exemplo como o cúmulo do que não deve ser feito. Está lá tudo: a entrevista a uma criança sobre uma tragédia, a insistência num direto sem sentido, a exploração descabelada do voyeurismo básico que todos temos um pouco em nós. E a estupidez da pergunta, claro.

Podermos ver em tempo real algo que está a acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa aconteça.

Ana Sousa Dias
Ler mais em: opinião 06.08.2017

5 de agosto de 2017

Tempestades de aço

Este artigo poderia ter pedido o seu título à excelente exposição que se encontra patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa - Tudo Se Desmorona-, dedicada aos impactos culturais da I Guerra Mundial (IGM) em Portugal. Preferi, contudo, ir buscar de empréstimo o título de um livro de 1920, de Ernst Jünger (1895-1998), onde este descreve as suas experiências bélicas infernais com a objetividade e a neutralidade com que um entomologista (que ele também foi) disseca um inseto.

Na altura em que se evoca no nosso país a entrada do Corpo Expedicionário Português na guerra europeia, o título de Jünger condensa bem o trágico balanço da IGM: ela foi uma tempestade, e como todas as tempestades, não parece ser fácil extrair dela qualquer significado moral. Entre 1914 e 1918 foram lançados nos campos de batalha 67 milhões de jovens, 42 milhões dos países aliados, onde se incluem os nossos 89 mil mobilizados (muito embora o grosso das baixas mortais portuguesas tenha ocorrido em Moçambique e não em França), e os restantes 25 milhões provenientes da Alemanha e seus aliados. Metade dessa juventude sofreu consequências físicas visíveis da guerra nos seus corpos. Morreram, ficaram mutilados, foram feridos, foram feitos prisioneiros ou desapareceram sem deixar rasto. A metade que sobreviveu, dessa geração destruída, transportou para sempre na alma a brutalidade da guerra. Recordo uma conversa em 1976, com Manuel, um combatente da frente portuguesa em Neuve Chapelle: dizia-me ele que em muitas noites ainda escutava, em pesadelos, o assobio com que os oficiais alemães marcavam o início dos raides contra as posições portuguesas.

O significado essencial da IGM consiste numa espécie de antecipação do conceito de banalidade do mal, proposto por Hannah Arendt no seio do debate sobre o julgamento do criminoso nazi Adolf Eichmann. Na verdade, ao contrário da II Guerra Mundial, cuja causalidade se vincula de imediato à intencionalidade de um líder malévolo, Hitler, que lançou a Europa numa guerra indesejada, no caso da IGM não temos nenhum monstro moral. Apenas figuras "humanas, demasiado humanas", a ponto da mediocridade. Guilherme II, Francisco José I, Nicolau II, Poincaré, Asquith não tinham qualidades especiais. Os seus regimes, não sendo gloriosamente democráticos, obedeciam a um mínimo de separação de poderes e a regras constitucionais. A Rússia czarista não era mais democrática do que a Alemanha guilhermina. Foram regimes vulgares, dirigidos por homens comuns que empurraram a juventude europeia para ser devorada pelas novas máquinas de guerra. Mesmo o milhão de mortos do primeiro mês e meio de guerra nada mais fez do que acirrar a violência, conduzida pelos parlamentos e pelos governos nacionalistas de "união sagrada".

Uma das consequências da guerra foi o desprezo pelos regimes democráticos. Os sobreviventes embrutecidos do conflito, habituados a viver numa cultura militarizada, acabariam por se inclinar para lideranças totalitárias, na Rússia, na Itália, na Alemanha. Em Portugal, o sucesso do 28 de Maio deve muito ao prestígio militar de Gomes da Costa, que comandou o CEP. A II Guerra Mundial, que provou a mentira com que se travou a IGM ("a guerra para acabar todas as guerras"), demonstra também que nas guerras - nesse grande holocausto darwinista invertido (em que são os mais aptos que perecem...) - aqueles que aprenderam alguma coisa são os que não regressam dos campos de batalha.

Os sobreviventes e seus descendentes, como alunos sem mestre, tenderão a cometer outra vez os mesmos erros.

Viriato Seromenho-Marques
DN Opinião 02.08.2017

3 de agosto de 2017

Pagamos o que devemos?

Nesta relação, o cliente é de longe a parte mais fraca. E basta as empresas de serviço nos cobrarem mais um euro ou em alguns cêntimos, que nós nem daremos conta, para as receitas que obtém se traduzirem em mais alguns milhões ganhos injustamente


Todos os meses milhões de portugueses pagam mensalmente a fatura da água, eletricidade, gás, televisão, etc. Todos os meses milhões de portugueses pagam o montante que essas empresas lhes cobram, muitas vezes através de transferência bancária automática. E todos os meses milhões de portugueses se deveriam interrogar: mas é mesmo justo o que estou a pagar? Não estarei a pagar de mais? Quem me garante que foi isto que gastei? A resposta não é muito tranquilizadora.

Deve haver poucos cidadãos que não tenham histórias para contar na sua relação com as designadas “utlilities”. A fatura da eletricidade, que, de repente, aumenta 400 euros – com a operadora a justificar que foi um estagiário que introduziu os valores e que se enganou (…); a fatura da água, em que a estimativa está sempre acima do que marca o contador; a fatura das telecomunicações, onde aparecem sempre chamadas que uma pessoa não se lembra de ter feito; a fatura da televisão, onde se paga sempre acima do pacote que foi contratado; etc, etc.

Vem isto a propósito da notícia de que as operadoras de telemóveis cobraram 50 milhões de euros indevidamente aos seus clientes, segundo a Deco, o que foi confirmado pela Anacom, a supervisora do sistema, que já obrigou as empresas a reverter a subida dos preçários – e tudo porque estas aumentaram os pacotes de serviços contratados com os clientes sem os informarem devidamente sobre essa decisão, o que contraria o dever de informação previsto na nova Lei das Comunicações.

Contudo, veremos como o assunto será resolvido, porque a Anacom não pode impor às operadoras que devolvam esse dinheiro aos clientes, pelo que aquelas ou o fazem voluntariamente ou os clientes terão de recorrer a tribunais arbitrais, coisa que obviamente só alguns poucos farão, até porque os aumentos serão de cerca de 2 euros para os pacotes 3P e de 3,5 euros para os pacotes 4P e 5P. Aquilo que parece pouco individualmente, contudo, representa, se tivermos em conta que existem 3,5 milhões de pessoas assinantes deste tipo de serviços, uma receita adicional (estimativa da Deco, que pode ser maior ou menor) de cerca de 50 milhões para as operadoras.

E é por isso que a interrogação se coloca: será que este é um caso pontual ou estamos perante uma prática que ocorre com regularidade, sem que quase nunca se dê por isso? Lembro-me bem, por exemplo, nos anos 80, de se ter detetado que em várias bombas de gasolina, o cliente pensava que estava a atestar o depósito do seu carro com cinco litros ou dez ou vinte mas, na prática metia sempre um pouco menos. A situação deu escândalo e foi corrigida.

Mas a pergunta mantém-se: quem protege os cidadãos destas empresas que fornecem bens de grande consumo a milhares de cidadãos? Quem faz exames regulares à qualidade e fiabilidade dos serviços que prestam? É que nesta relação, o cliente é de longe a parte mais fraca. E basta colocarem-nos a todos a pagar mais um euro ou apenas mais alguns cêntimos, que nós nem daremos conta, para as receitas que obtêm se traduzirem em mais alguns milhões ganhos injustamente.

Nicolau Santos
Expresso diário 31.07.2017

31 de julho de 2017

Casos de idosos que tomam mais de cinco medicamentos tem de passar a ser justificado

Os médicos devem sinalizar e justificar obrigatoriamente os casos de idosos que tomam mais do que cinco medicamentos, uma medida defendida na Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável.


O documento, que vai ser colocado a partir de terça-feira em consulta pública, traça várias medidas para desenvolver políticas que melhorem a qualidade de vida das pessoas idosas.

Uma das ações defendidas é a definição de uma “estratégia de combate à polimedicação de justificação obrigatória para mais de cinco medicamentos”.

Segundo Pereira Miguel, coordenador do grupo de trabalho interministerial para a Estratégia do Envelhecimento Ativo e Saudável, a ideia não é estabelecer um limite para a prescrição ou toma de medicamentos, nem sobrecarregar os médicos com trabalho burocrático.

“Não estamos a dizer qual é a solução a aplicar. Não é uma solução fechada. Mas pretende-se criar um mecanismo que faça um alerta” para a toma de mais de cinco medicamentos, disse à agência Lusa, lembrando que “os medicamentos têm interações entre eles”.

Pereira Miguel refere que os profissionais de saúde devem estar alerta para a polimedicação, apercebendo-se de que medicamentos outros especialistas prescreveram aos seus doentes.

A Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável propõe ainda que sejam criadas uma espécie de “bandeiras vermelhas” para sinalizar idosos com necessidade especial de acompanhamento, como pessoas que recorrem mais às urgências ou que faltam sistematicamente a consultas ou até com sinais de negligência

Esta medida extravasa a área da saúde e devia envolver as autarquias, a PSP, a GNR, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, entre outras entidades.

O documento que terça-feira é colocado em consulta pública defende ainda a criação de um programa de vigilância da saúde das pessoas idosas.

Neste programa deve ser fomentada a realização de avaliações regulares “com vista à deteção precoce de défices funcionais, défices psíquicos ou doenças crónicas a partir dos 50 anos” e tendo em conta as necessidades particulares de homens e mulheres.

No caso de doentes com várias patologias (comorbilidades) sugere-se a adoção de um plano individual de cuidados, um instrumento de intervenção integrada nos diferentes níveis de cuidados.

A Estratégia para o Envelhecimento Ativo e Saudável define medidas que envolvem vários setores, da Saúde à Educação e passando pela Solidariedade e Segurança Social. Por isso, Pereira Miguel propõe a criação de uma comissão interministerial que acompanhe e monitorize o que se vai realizando e implementando.

LUSA 
Ler mais em: SAPO24 31.07.2017

30 de julho de 2017

A ética não preocupa os millennials

É de esperar um mundo empresarial mais transparente do que aquele que se tem vivido nos últimos 17 anos quando os millennials chegarem ao poder? Talvez não, a crer num estudo da EY, “Fraud Survey 2017”, que inquiriu 4100 pessoas, de 41 países. A conclusão principal é dramática: uma proporção significativa dos inquiridos justifica a falta de ética como forma de ajudar o negócio a sobreviver ou como meio de aumentar os seus próprios benefícios. Mais preocupante é o facto de ser a geração Y, a mais nova (entre os 25 e 34 anos), aquela que mais disposta se mostrou a justificar este tipo de comportamentos. Outra conclusão é que atualmente os seus níveis de lealdade não são para com a empresa mas sobretudo para com a sua unidade de negócio ou os seus ganhos individuais. Ou seja, se a ética tem estado arredada do mundo empresarial, não serão os millennials a colocá-la no centro dos negócios.

Nicolau Santos
Expresso opinião 29.07.2017

29 de julho de 2017

KOTAS ARE COOL

Os angolanos chamam Kota (da língua Kimbundu) àqueles que merecem respeito por serem mais velhos. Cá, kota é sinónimo de velho, bota de elástico ou antiquado. Um reforço da ideia de que os velhos estão desatualizados, são um embaraço e não servem mais.


Em 2011, escrevi um artigo de reflexão acerca de uma tendência que dava os primeiros passos no mundo ocidental. Foram a campanha da Lanvin para a H&M e o projeto Sicilia Fashion Village que serviram de motor de arranque para elaborar esse artigo, mas, relendo-o agora, seis anos depois, percebo que ele está atual e até faz mais sentido neste momento. Na altura, as gerações séniores eram matéria-prima rara em conteúdos de reflexão, jornalísticos ou de blogues em Portugal. Mas hoje é diferente. Depois de ter lido uma reportagem sobre o projeto lisboeta A Avó Veio Trabalhar a propósito do recente Dia Mundial dos Avós, projeto que acompanho de perto e muito aprecio, decidi atualizar ligeiramente o meu artigo e dá-lo a conhecer de novo a uma audiência agora mais sensibilizada. O que vão ler de seguida não foge muito do original. Também partilho o vídeo Sicilia Fashion Village que publiquei na altura. Gosto particularmente dele por ser divertido e ter participantes masculinos na sua maioria, sicilianos old school vestidos à maneira para o filme, que fazem lembrar certos portugueses mais velhos que encontramos pelo país fora. Dá gosto ver.


Os angolanos chamam Kota (da língua Kimbundu) àqueles que merecem respeito por serem mais velhos. Simplesmente por serem mais velhos do que nós. Não necessariamente velhos de idade, mas alguém mais velho. Usa-se kota para tratar um amigo mais velho, um tio, o senhor que deixamos passar à frente na fila do supermercado, uma avó. No caso dos avós, são entendidos como os avós da sociedade. Uma avó é a avó de todos, é aquela que sabe, aquela que traz sabedoria. Neste contexto, kota é o homem ou a mulher idoso que traz unicidade e conhecimento às famílias e à comunidade pela sua experiência de vida. Noto que em Portugal, na última década em particular, o respeito pelo conhecimento e experiência dos mais velhos desvaneceu ou morreu. O velho passou a ser descartável como uma bisnaga de pasta dentífrica que chegou ao fim, vive isolado da comunidade com poucas ou nenhumas funções úteis. Contudo, curiosamente, a palavra Kota entrou no calão de Portugal, embora adquirindo outro significado. Cá, kota é sinónimo de velho, bota de elástico ou antiquado. Um reforço da ideia de que os velhos estão desatualizados, são um embaraço e não servem mais.Hoje, com a mudança dos paradigmas social e de mercado, e a esperança média de vida a roçar os 80 anos de idade, a visão sobre o papel dos mais velhos na sociedade parece estar a mudar para melhor. Representam poder de compra e um nicho de mercado que a seu tempo será mainstream à medida que as sociedades vão ficando inevitavelmente envelhecidas, como é o caso da nossa. Neste campo a moda começa por dar o seu contributo ao repescar antigas manequins para campanhas sofisticadas e desfiles onde surgem como figuras de relevo. Em 2011 verifica-se, por exemplo, o regresso de Veruschka com 71 anos bem firmes e assumidos. Famosa nas passarelas e no cinema na década de 1960 (irão lembrar-se dela no filme «Blow Up» de Antonioni), é convidada a regressar aos desfiles de moda e fê-lo com uma confiança visível. Assim como, na mesma altura, fez a campanha Lanvin para H&M ao convidar uma manequim sénior para o filme promocional. De cabelo branco armado e sofisticada, aquela senhora é a prova que a experiência e a auto confiança são premissas estáveis na equação de uma vida saudável. Não há botox que remende a falta de auto confiança. E em 2010 o projeto italiano Sicilia Fashion Village leva esta tendência mais longe promovendo a sua população sénior como a mais bem vestida do mundo. Nesta divertida campanha os kotas do filme usam modelos vintage ou modernos num enquadramento atual.

Veruschka
Andreas Rentz/ Getty Images
Creio que estamos diante do desafio de olharmos para os mais velhos e idosos do mundo com outros olhos. Ou melhor, olharmos para nós próprios como seres plenos e de valor até ao dia em que vamos desta para melhor. Ser kota pode ser cool desde que o estado de espírito o permita, o mercado, as políticas governamentais e a mentalidade da sociedade superem o preconceito da idade passando a vê-la um ativo e sinónimo de poder. Um dia, quando for velha, vou querer desfilar em passarelas ou andar de patins caso me apeteça sem que isto represente vergonha social ou um embaraço. Vejo hoje, com regularidade, homens e mulheres com 40 anos ou mais a andarem de skate tranquilamente. Há vinte anos isto seria inaceitável. Alguém de quarenta anos estaria a preparar-se para entrar na reforma, a sua vida seria conformada e aborrecida. Felizmente os 40 de hoje são os novos 30, e espero que em breve os 70 sejam os novos 50 ou 40. O projeto A Avó Veio Trabalhar é a prova de que ideias honestas e bem estruturadas transformam pessoas mais velhas ou idosos nos jovens de mentalidade que afinal sempre foram. Mas se os deixam arrumados num canto porque a sociedade não sabe o que fazer com eles, qualquer réstia de juventude irá definhar. Os preconceitos não levam ninguém a bons lugares, mas sim à manutenção de conservadorismos e modos de estar bafientos. Larguemos a naftalina mental de uma vez por todas e bebamos nos bons exemplos porque eles não escasseiam. A mudança começa na cabeça, e desenvolve-se na sociedade através de boas políticas.

Carla Isidoro
Ler mais em: Visão 20.07.2017

28 de julho de 2017

E se se calassem?

Estamos todos fartos de especialistas de pacotilha, desmentidos no momento seguinte pelos acontecimentos. E também dos que acham que têm de… achar


Eu sei que pode parecer, mas parecer não é ser. Aliás, parecer pode ser, mas não é obrigatório. Pode ser só um parecer, que não é o que parece. Ou seja, é apenas uma ilusão. Isto tudo também não pretende ser filosofia pura, embora muita dela passe por aqui. E também não é teoria do conhecimento, embora todos os tratados da sua história pudessem ser revistos através do que vamos aqui falar.

Porque do que vamos aqui falar é da nossa relação com o saber. E do parecer que sabemos, sem sabermos mesmo. E do que mostramos saber, sem que isso tenha nenhuma aderência à realidade dos factos, como se diz hoje. As redes sociais abriram-se a qualquer um que queira mandar uns bitaites, dando palco igual a quem sabe e a quem não sabe da matéria – a origem das famosas notícias falsas é precisamente essa, e a aparência da verdade é idêntica à aparência do saber. Mais, as redes cibernéticas permitem dar mais audiência a quem sabe, mas também a quem não sabe da matéria. É como se fosse uma conversa de café com amplificador.

Esta nova forma de comunicação tornou-se de tal modo avassaladora que levou atrás os meios de comunicação tradicionais. Antigamente, uma crónica ou uma notícia que era publicada era o fim de uma comunicação. Agora é o princípio de uma conversa. Que segue por aí fora em pontos e contrapontos. Muitos dos quais não se baseiam em nada de muito sólido, mas apenas em opiniões que pretendem rebater outras, como se fôssemos todos miúdos da escola primária, amuando, fechando os braços, olhando para o lado e dizendo: «É a tua opinião, eu tenho a minha.»

As redes sociais passaram a acolher todos os que queiram, basicamente, dizer coisas. E na voragem os factos passaram a estar em pé de igualdade com as opiniões. Antigamente – oh, como é terrível usar esta expressão – quem escrevia, por ter essa forma cinzelada, ainda que a tinta em página, procurava uma certeza sobre algo. Procurava uma opinião avalizada. Procurava um especialista que não pudesse ser desmentido. Agora, os jornalistas embarcam na corrente que segue conforme o achismo do momento, transformando-se a eles próprios e aos seus alter egos nas redes em amplificadores.

Hoje, somos todos especialistas. Saltamos de um assunto para outro sem nunca entrarmos em grandes profundidades, vade retro o conhecimento verdadeiro que anula o aparente. Qual é o sabor do dia? – podia ser a pergunta que aparece no início do nosso mural do Facebook. Pode ser algum assunto económico, da dívida externa aos ratings das agências de notação, o segredo de justiça num processo judicial, as falhas de uma gestão bancária, os perigos do turismo e a desertificação das cidades, ou os buracos de uma lei… Mas também vale incêndios e o seu combate e prevenção, armamento militar, paióis, ou as várias formas do racismo e da xenofobia.

Que saudades de um não sei. De um recuo cético, que é o princípio de todo o conhecimento verdadeiro. De todos termos noção de que a maior parte do que nós não sabemos nem sequer sabemos que não sabemos. Que saudades, na verdade, de um silêncio.

Catarina Carvalho
Notícias Magazine 24.07.2017

26 de julho de 2017

Obrigado, Avós!

Não sois de ontem, avós. Sois do presente e do futuro.



A instituição de dias para quase tudo corre o risco de desvalorizar datas e celebrações verdadeiramente especiais. O Dia dos Avós, por exemplo.

Importa, pois, nesta ocasião, celebrar conscientemente a sua vida e o seu papel. Afirmando que não são estorvo nem empregados fáceis; não são mero recurso de circunstância ou peso tolerado. Porque são nascente, luz, palavra e exemplo.

O Dia dos Avós deve ser, por isso, dia para lhes dizer, sublinhadamente: "Obrigado!"

Obrigado, avós, pelas histórias e pelo colo; pelo tempo e pela ternura; pelo olhar e pelas palavras sábias e confidentes.

Obrigado, avós, pela capacidade de repartir - até de repartir uma reforma tantas vezes insuficiente para os vossos dias difíceis.

Obrigado, sempre e em todas as circunstâncias. Sim, também pelo silêncio, quando, porventura, apenas sorri, já esquecido de nomes e gestos.

Não sois de ontem, avós. Sois do presente e do futuro.

Não estais a mais. Pelo contrário: importa que estejais mais - mais connosco e mais em nós!

25 de julho de 2017

Medidas da troika não protegeram sempre os mais vulneráveis

O organismo de avaliação independente do FMI concluiu que as medidas aplicadas pela troika em Portugal nem sempre protegeram as pessoas com menos rendimentos, apontando que a primeira preocupação do Fundo era a redução dos défices.



O gabinete independente de avaliação (IEO, na sigla em inglês) do Fundo Monetário Internacional (FMI), um organismo interno da instituição liderada por Christine Lagarde, publicou hoje um conjunto de relatórios sobre o papel do Fundo na protecção social em 21 países, entre 2006 e 2015.

O IEO divide depois a avaliação que faz por diferentes grupos. Portugal, por exemplo, é analisado no grupo das economias avançadas, juntamente com mais três países que estiveram sob assistência financeira, Irlanda, Chipre e Islândia.

"Em Chipre e em Portugal, onde os cortes nas pensões e em outros benefícios sociais tiveram de ser feitos, as equipas do FMI tiveram de lidar com a distribuição dos cortes. Enquanto a evidência demonstra que as equipas do FMI fizeram esforços para defender as pessoas com menores rendimentos, as decisões políticas finais nem sempre reflectiram esses esforços", refere o gabinete.

O organismo afirma que o "FMI sempre viu os benefícios sociais atribuídos em Portugal como demasiado generosos e um dos elementos fundamentais para o elevado défice orçamental português" e recorda que desde 2006 defendia cortes e subsídios mais direccionados a grupos alvo, bem como políticas activas de emprego.

"A protecção social tornou-se um tema central em 2011 quando Portugal pediu financiamento de emergência ao FMI e aos parceiros europeus (a 'troika') em Abril desse ano", afirma o IEO, recordando que para o Fundo os benefícios sociais e a despesa com saúde eram "factores-chave para explicar o défice orçamental insustentável do país".

Nessa altura, a principal preocupação do Fundo era a consolidação orçamental, uma crítica que o organismo de avaliação faz não só no caso português, mas no geral dos 21 países analisados: "O papel do FMI na protecção social foi limitado e a sua abordagem estava centrada nas contas públicas".

Dessa forma, as políticas de ajustamento durante o programa português foram desenhadas para resolver estas questões, afirma o organismo, acrescentando que, ao mesmo tempo, existia a preocupação de proteger os mais vulneráveis dos choques económicos.

Durante o programa de ajustamento foram incluídas várias medidas direccionadas para cortar os benefícios sociais "ao mesmo tempo que se protegia as famílias com rendimentos mais baixos", entende o organismo de avaliação do FMI.

O IEO afirma que mesmo depois de, em 2012, as autoridades terem avançado com medidas como a sobretaxa de IRS e a redução de alguns programas sociais e benefícios de pensões, "o FMI continuou a pedir benefícios mais baixos e mais direccionados", uma posição que surge também "no primeiro relatório de monitorização pós-programa, que sublinhava, uma vez mais, a necessidade de reformas no mercado de trabalho, nas pensões e em outros benefícios sociais".

Outra das conclusões do organismo independente é que "o FMI desempenhou, maioritariamente, um papel secundário em vez de ser o principal contribuidor para os esforços de minimizar os custos sociais do ajustamento".

Por fim, o organismo deixa um conjunto de recomendações ao FMI, entre as quais a definição "mais realista" dos programas de ajustamento, tendo em consideração os "impactos adversos" das medidas nos mais vulneráveis.

LUSA
Ler mais em: negócios 25.07.2017

23 de julho de 2017

#ocorreto


Não sei bem o que é o "politicamente correto", mas tenho bem noção do que é o correto. É estar do lado certo da história, que é fácil de distinguir: proteger os direitos das minorias; não ceder ao poderoso impulso da segregação; não negociar com a xenofobia; não permitir que o violento instinto contra a diferença possa medrar. São estes, e alguns outros mais, os valores essenciais do progresso. Foram conquistados depois de muito sangue e sofrimento. É uma batalha permanente, esta de carregar de braço levantado a luz que nos resgatou dos tempos opacos. Mas foi assim que se foi fazendo a mudança, em iterações exaustivas que nos deixaram melhores.

Ora, isto não significa que a liberdade não seja um exercício de afinação constante. É preciso debater os problemas da integração, a dificuldade para aceitar as minorias, perceber que há novos contextos a criar novas inseguranças. Mas tem é de ser civilizadamente e com respeito por todos.

Custa muito a (felizmente) pouca gente, mas o Mundo, o nosso, só anda para a frente. A esses, deixo um conselho. Leiam Camus ou Kundera. Comprem livros de história. Ou então usem a Net para outra coisa, para além do ódio. Não faltam sítios como os que anseiam, onde o tempo ficou lá atrás. Procurem no Google: "Coreia do Norte", "Estado Islâmico" ou "Chechénia". Gostam? Podem sempre mudar-se para lá.

Miguel Conde Coutinho
Ler mais em: JN Opinião 22.07.2017

20 de julho de 2017

As migrações e os mitos raciais

Um dos grandes princípios assumidos pela União Europeia, quando a evolução baseada na ONU dava por terminado o sistema colonial, foi o da livre circulação. Não faltam textos que recordam o princípio sempre que a defesa da União é chamada a combater o desânimo que as crises semeiam entre os europeus nativos, mas é necessário tornar sempre claro que não estão em vista nem o recrutamento de mão-de-obra barata de nativos das antigas colónias, como foi prática suficientemente injusta e longa, mas a crise das imigrações que transformou o Mediterrâneo num cemitério, e desencadeou um conflito ético entre os deveres humanitários da moral e dos tratados e a segurança interna dos Estados.

O efeito inesperado desta diferença foi o renascimento dos mitos raciais, que acrescentaram ao negro capítulo da Segunda Guerra Mundial o anti-islamismo que se agrava. Esta dialética mergulhou a União Europeia num complicadíssimo e difícil processo legislativo, que alguns pessimistas filiaram na conclusão de que "os refugiados são culpados do afundamento do regime do asilo europeu comum", quando, como frequentemente acontece, é que nem a União nem os Estados puderam antecipar as causas, e sobretudo efeitos, do inesperado movimento de refugiados, quer em relação aos princípios e efeito da livre circulação, designadamente: como diminuiu o movimento clássico das migrações para o mercado de trabalho, tendo em vista a causa atual mais determinante, que é a guerra nas terras de origem, como integrar essa crescente multidão nas sociedades europeias, elas em crise económica e financeira?

Pareceu desde logo evidente que o direito de asilo, previsto nos sistemas nacionais, não era remédio suficiente para a dimensão do desafio, mas tem de sublinhar-se, porque foi realista, que essas sociedades europeias assumiram largamente o facto de que o regresso dos emigrantes aos territórios de origem não era de esperar, e foram numerosas as mobilizações voluntárias para lhes acudir, com intervenção da economia social na medida em que está salvaguardada, as próprias universidades não falharam, de tal modo que talvez devêssemos admitir que a sociedade civil que está a ajudar a criatividade das governanças públicas, animou estas, cujo empenho talvez tenha data de começo responsável no comunicado da Comissão Europeia de 6 de abril de 2016, anunciando o propósito de reformar o regime comum europeu de asilo.

Tem sido evidente que conseguir, por via legislativa, uma atitude comum dos países reunidos da União, se depara com dificuldades nacionais variadas, que já se tornaram evidentes a partir de 2015, quando em agosto o número anunciado de refugiados, que chegaram por via marítima, atingiu cem mil pessoas. Foi então que a Hungria decidiu iniciar a construção de um muro na fronteira, antecipando a imaginação do atual presidente dos EUA quanto à fronteira com o México. É de lembrar que a solidariedade dos destinatários das migrações na Europa tem evidenciado, e continuará a manter, atitudes discordantes, sendo que a mais apaziguadora, e de menos viabilidade calculável, é que os emigrantes regressem às pátrias que a guerra se tem encarregado de destruir. Inscrita a solidariedade europeia nos Tratados de Amesterdão e de Lisboa, estabelecidas as bases do programa de Haia de 2004, dando origem a um Fundo de refugiados do ano de 2000, todavia a difícil repartição física não tem encontrado soluções eficazes.

O que tudo obriga a meditar sobre o renascimento dos mitos raciais, como disse, acrescidos aos antigos e renascidos mitos do negro, do judeu, do ariano, do mestiço, e agora do anti-islamismo. Isto não tem que ver com a defesa contra a infeliz violência armada entre Estados e áreas culturais, étnicas, ou religiosas, diferenciadas pelos interesses, pela história, pelos projetos estratégicos: tem que ver com o personalismo defensor e mantedor da paz nas sociedades civis que os recebem, com as capacidades disponíveis. Mas importa à sociedade civil, e forças do Estado, não esquecer, por exemplo, esta síntese de E. Mounier: "Ela [a ideia chave do personalismo] opõe-se a qualquer forma de racismo e divisão em ceitas, à submissão dos deficientes, ao desprezo pelo estrangeiro, à negação totalitária do adversário político": por muito diferente que seja, e por muito envilecido que esteja, um homem continua a ser sempre um homem e devemos permitir-lhe levar uma vida de homens, princípio que consta dos programas das nossas forças de segurança, que deriva da Declaração Universal de Direitos do Homem, dos princípios da moral, do património imaterial da humanidade no qual, em parte importante, está a contribuição doutrinal portuguesa. A UNESCO tem sido uma sustentadora desse património. Os mitos raciais são um instrumento intolerável pela justiça, pela sociedade civil e pelo Estado.

Adriano Moreira
Ler mais em : Opinião DN 19.07.2017

17 de julho de 2017

Olha o lince da Malcata!

Sexo sem filhos é uma conquista sexagenária consolidada desde 1954, quando se inventou a pílula. Com as modernas técnicas de fertilização in vitro, o contrário também é possível - filhos sem sexo. O óvulo e o espermatozoide continuam a encontrar-se, como antigamente - mas agora dentro de um tubo de ensaio, no laboratório, o que não tem graça nenhuma comparada com a moda antiga, mas é a única esperança para casais com problemas de fertilidade ou outros que não vêm ao caso.

Aqui chegados, estão bem enganados se pensam que eu venho aqui falar de barato dos gémeos do Cristiano! O problema é outro, e grave: os portugueses podem até estar bem classificados nos campeonatos do sexo, o que não está provado, mas sabe-se de ciência certa que fazem cada vez menos filhos, pelo que há cada vez menos portugueses. Somos, nessa classificação, os segundos piores da Europa, depois dos italianos. Quem diria?! O Dia Mundial da População, que acabamos de assinalar, lembra-nos os números a cada ano, mas rapidamente esquecemos as causas e preferimos iludir as consequências. Em Portugal, há apenas 8,4 nascimentos por cada mil habitantes, três vezes menos que há 50 anos. É a nossa taxa bruta de natalidade, desgraçadamente inferior aos que morrem, 10,7 por cada mil. Logo, como diz o outro, é fazer as contas: ao saldo negativo entre mortos e nascidos, acrescentamos a emigração e temos o retrato enrugado de um povo que definha, entretido entre campanhas eleitorais, em suicídio assistido. Para repormos a brava espécie, assegurando a substituição de gerações, as nossas mulheres deveriam estar a conceber, em média, 2,1 filhos, pese a desumanidade das médias. Estamos em perda prolongada. Há hoje menos 32 mil portugueses do que há um ano, quase uma centena a menos por cada dia que passa. Como se na ameaça de extinção do lince da Malcata exorcizássemos a nossa.

A espiral inquieta: menos crianças a nascer significa menos jovens ativos e contribuintes, e cada vez mais pensionistas. Em calão da moda, é a sustentabilidade do sistema de segurança social que está em causa. Em melhor português, o problema está em saber como e quem vai pagar a conta. E se alguma fatura, a prazo, ainda se exprime em português. Quando se sabe que os pensionistas já são um terço do eleitorado, é tempo de os nossos políticos tentarem perceber porque é que países como a Suécia e a Irlanda voltaram a ganhar população. É certo que as noites deles são mais frias e a televisão é pior do que a nossa, mas foram as políticas ativas de apoio à natalidade e aos jovens pais que fizeram inverter a funesta tendência.

Afonso Camões
Ler mais em: Opinião JN 16.07.2017

16 de julho de 2017

Apoiar os sacrificados do progresso

O Estado será cada vez mais chamado a intervir para apoiar os prejudicados pelos avanços tecnológicos.

A revolução industrial criou, a prazo, muitíssimo mais empregos, e melhor pagos, do que aqueles que as máquinas eliminaram (o que, por vezes, levou os operários a destruir essas máquinas – teares, por exemplo). E agora, irá acontecer algo parecido com as novas tecnologias? Essa possibilidade inquieta muita gente.

No início da revolução industrial saíram dos campos britânicos, que começaram a ser vedados, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças que foram trabalhar para as fábricas nas cidades, em condições de enorme exploração. Nasceu, então, a chamada “questão social”.

O progresso tecnológico tem custos. Demorou demasiado tempo a atenuar as terríveis condições de trabalho – e de não trabalho, por causa da doença e do desemprego – no primeiro século da revolução industrial. No fundo, só com a progressiva generalização do sufrágio universal, já no século XX, foram criadas condições mais humanas para os proletários. Estes passaram a constituir a maioria dos eleitores, o que levou os políticos a dar-lhes alguma atenção. Assim nasceu o Estado social.

Os robots contra as pessoas?
Agora, os avanços na automação, na inteligência artificial, nos robots, na informática e na internet levantam receios de que sejam destruídos muitos empregos. A indústria transformadora, por exemplo, dá emprego a cada vez menos trabalhadores, substituídos por robots e outras máquinas. E a automação ameaça hoje mais a classe média do que o operariado fabril, que já é relativamente reduzido.

Aliás, um dos êxitos do capitalismo industrial, que predominou até cerca de 1970 no mundo desenvolvido, foi ter transferido boa parte dos proletários para a classe média. Mas a ascensão económica e social dos trabalhadores, que foi espectacular, parece ter estagnado nas últimas décadas. O desemprego continua em níveis elevados em muitos países e os salários sobem pouco ou nada – contrastando com a rápida melhoria de rendimentos de algumas minorias.

Os optimistas garantem que os avanços tecnológicos actuais irão criar novos empregos, tal como aconteceu – a prazo - com a revolução industrial. Oxalá, mas não é certo. E, sobretudo, ninguém sabe concretamente que empregos serão esses, qual a respectiva remuneração, etc. É provável que seja na área dos serviços que surjam novas oportunidades de trabalho, mas há serviços como fazer limpezas de casas e escritórios - e serviços informáticos altamente sofisticados.

Mais, não menos, Estado social
Não vale a pena tentar adivinhar as profissões que se extinguirão, como o aparecimento do automóvel tirou o trabalho a cocheiros e a ferradores de cavalos. Uma coisa é certa: se não queremos uma nova “questão social”, que assombrou o século XIX e boa parte do séc. XX, o Estado terá que intervir mais na economia e na sociedade para “amparar” a transição. Isto, numa altura em que o envelhecimento das populações coloca crescentes dificuldades financeiras ao Estado social, onde ele existe.

Será preciso o Estado subsidiar pessoas que ficam sem trabalho, melhorando o subsídio de desemprego – e até, porventura, apoiando financeiramente trabalhadores com emprego, mas mal pagos. Já há vinte anos o economista americano Edmund Phelps, prémio Nobel da economia em 2006, propôs subsidiar salários baixos (Rewarding Work, 1997). Mas não teve sucesso.

Por outro lado, a digitalização da actividade económica tende a aumentar a precaridade do trabalho, uma vez que muitas tarefas podem ser concretizadas a qualquer hora e em qualquer local. É conveniente para algumas pessoas, mas arriscado para muitas outras. O enquadramento legal do emprego tem de ser alterado para evitar a “precarização informática”.

O Estado também terá que gastar mais na educação e na formação, incluindo de adultos que ficam sem emprego na meia-idade e não estão preparados para lidar, por exemplo, com computadores. Mas haverá dinheiro para isso?

Tem de haver, o que significa impostos mais altos para os ricos e para o capital, além de uma mais eficiente gestão das finanças públicas. Ora isto é o contrário (impostos mais baixos para os ricos) do que vemos na presente economia americana. Talvez só uma grave crise económica e social nos EUA mude essa perversa política fiscal. É que a insatisfação das classes médias cresce a olhos vistos: trata-se de uma bomba relógio.

Daí a eleição de Trump, graças aos que ficaram para trás. Mas ele irá desiludir muitos dos seus apoiantes, uma vez que as suas medidas que se desenham no horizonte são frontalmente favoráveis a quem já é rico, como Trump e a maioria dos seus colaboradores.

Ou seja, politicamente não vai ser fácil apoiar os sacrificados pelo progresso tecnológico. Mas será necessário. Assim os governos estejam conscientes de que poderão ter pela frente uma enorme contestação, porventura violenta.

Francisco Sarsfield Cabral

10 de julho de 2017

O VERBO PARAR

Os que se creem insubstituíveis padecem, não raro, de uma vertigem prometaica enganadora


Que marinheiro se lança à aventura oceânica sem controlar se leva na embarcação, não só a vela e os remos, mas também uma âncora? Ou que caminhante enfrenta a sua jornada sem prever tempos e lugares de pausa, que lhe garantam a possibilidade de refazer-se, sentir o conforto de um abrigo e retemperar forças para poder continuar? A viagem não é só movimento, como a vida não é apenas o contínuo das suas atividades. A arte de parar é uma aprendizagem indispensável à sobrevivência, mesmo se isso vem frequentemente esquecido. Quem não sabe parar, não sabe viver, pois há uma qualificação da existência que provém daí, por muito que isso se tenha tornado difícil de efetivar ou nos obrigue a deliberar em contraciclo, mesmo em relação às idealizações que construímos sobre nós próprios. Precisamos de parar: por carência e necessidade, por chamamento interior e por escolha, por decisão e sabedoria.

Tendencialmente as nossas vidas têm-se tornado uma espécie de cidade que não dorme. O tempo parece-nos sempre escasso face ao programa que nos impomos. Desejaríamos que ele se desdobrasse, como que por magia, e fosse o que não é. Correndo ofegantes, num dia a dia saturado, não deixamos de sentir-nos ainda em falta com alguma coisa que muitas vezes não sabemos bem o que seja, mas que tem a forma de uma culpa que nos mói. A sensação crescente é de que o mundo nos ultrapassa e a perceção da nossa insuficiência deixa-nos devorados por dentro, em terra queimada. Por muito que façamos, as metas mantêm-se longínquas; nada nunca basta; a parte mais íntima de nós sente-se permanentemente irresoluta, em dívida e em perda.

A SENSAÇÃO CRESCENTE É DE QUE O MUNDO NOS ULTRAPASSA E A PERCEÇÃO DA NOSSA INSUFICIÊNCIA DEIXA-NOS DEVORADOS POR DENTRO, EM TERRA QUEIMADA

E isto é assim, para nós, há muitos anos. Para o movimento tivemos mestres, a escola organizou-nos, a família tutelou de perto a nossa maturação. A pausa e o recreio foram confiados às regras do acaso, na suposição de que parar, brincar, repousar são uma ciência inata, coisa que — compreendemos dolorosamente depois — não é. Esse défice de competência fica em tantas vidas como um buraco do qual se foge, um vazio colmatado com múltiplas formas de evasão.

Muitas vezes dizemos que não paramos porque não podemos, pois, o mundo à nossa volta, o mundo que depende de nós, se bloquearia nesse instante. Ora, precisamos desconstruir esta ilusão. Os que se creem insubstituíveis padecem, não raro, de uma vertigem prometaica enganadora. É fundamental ganharmos um distanciamento crítico em relação ao nosso contributo, valorizando mais o trabalho de autonomização dos outros do que o tecer uma rede, mais visível ou impercetível, de dependência. Sem nos darmos conta, por trás de uma exagerada doação ou de um ativismo irreprimível, está uma insegurança profunda nos laços que estamos a construir.

Lembro-me que há uns anos, fazendo eu próprio os caminhos de Santiago, encontrei, logo no meu primeiro dia de peregrinação, uns brasileiros sentados na berma a tratar dos pés já meio-desfeitos. Eles devem ter-se apercebido do meu ar apavorado, porque um deles disse-me, com uma tranquilidade que me animou: “É bom gastar tempo a cuidar das próprias feridas.” Eu ainda não tinha compreendido que essa era uma das razões principais porque estava ali a enfrentar aqueles cento e tal quilómetros de estrada. Mas o mesmo se pode dizer do encontro (ou do desencontro) com os outros. Só encontramos verdadeiramente aqueles junto dos quais fundeamos a nossa âncora, empregando o tempo necessário à escuta, à atenção e à surpresa. O não parar é uma forma de fuga ao encontro mais profundo connosco mesmos e com os outros.

José Tolentino Mendonça

9 de julho de 2017

A desigualdade como travão económico


Que país queremos ter dentro de dez anos? Não vejo nem ouço nenhum político a responder a esta pergunta

A desigualdade é um obstáculo ao crescimento. A conclusão é do secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría. Avisa que “as famílias mais pobres ainda não recuperaram o poder de compra que tinham em 2006” e esse é um sinal de preocupação forte. A desigualdade social impede o crescimento económico, defende. Como tal, considera que se deve recorrer a apoios sociais e à qualificação para lidar com fenómenos como globalização e digitalização. Vários países da Europa já iniciaram esta discussão, até porque não vale a pena tapar o Sol com a peneira. Há talentos que não vão adaptar-se à digitalização e à revolução da indústria 4.0. Um futuro cada vez mais tecnológico pode ser também um futuro mais desigual. Se à partida se democratizam soluções e serviços, também se afunilam competências e é preciso ter essa consciência e atuar a tempo e horas. Para o responsável da OCDE, que reúne 35 países, incluindo Portugal, é preciso atuar em três frentes: 
  • “ajudar os trabalhadores mais prejudicados” (melhorando a sua empregabilidade e mobilidade para setores ou regiões em desenvolvimento), através da educação e da qualificação; 
  • “infraestruturas de qualidade e boas políticas de transportes, com investimento na “conectividade física e digital” e na “inovação e desenvolvimento” (I&D); 
  • “condições para que empresas prosperem da economia global”, diminuindo “barreiras” burocráticas e promovendo “a concorrência”. 
Nestes três pilares, Portugal ainda precisa de trilhar um longo caminho. Com tempo e estratégias definidas, poderemos ter a capacidade de nos munirmos de ferramentas para enfrentar melhor o futuro.

Se utilizarmos o tempo que nos resta em guerras políticas, então perderemos a corrida da competitividade e sofisticação. Se queremos ser um país vencedor e coeso é bom tomar nota de uma outra frase proferida por Ángel Gurría: “Hoje, temos a convicção de que a justiça social é uma questão ética, moral, política, mas é também uma questão económica. Uma desigualdade crescente torna-se um obstáculo muito importante para o crescimento”, afirmou. Impressiona-o o facto de “a média dos rendimentos dos 10% mais ricos ser agora dez vezes superior à média dos rendimentos dos 10% mais pobres” quando “este valor era somente sete vezes superior há 25 anos”. E de “em Portugal este rácio [ser] superior à média da OCDE”. A mim também me impressiona e preocupa. Que país queremos ter dentro de dez anos? Não vejo nem ouço nenhum político a responder a esta pergunta.

Rosália Amorim

6 de julho de 2017

Caloiro aos 77, doutor aos 85. Brasilino é "um caso de estudo"

Defendida a tese de doutoramento sobre Antero de Quental, Brasilino Godinho apresentou uma proposta para que a Universidade dos Açores passe a ter o nome do escritor


De traje académico vestido, Brasilino Godinho chegou à Sala de Atos Académicos da Universidade de Aveiro cerca de uma hora antes de começarem as provas de doutoramento. Testou o equipamento informático e os auscultadores - para que nenhuma palavra escapasse - e, com toda a calma, cumprimentou grande parte da plateia: professores, colegas, familiares e amigos. Todos quiseram assistir ao realizar de mais um sonho do homem, de 85 anos, que ontem se tornou, muito provavelmente, numa das pessoas com mais idade a concluir um doutoramento. Um exemplo de "coragem e empenho", como destacou o júri, "um caso de estudo" para as colegas do programa doutoral em Estudos Culturais.

Ontem foi um dia histórico. Só isso é que faria Cláudia Silva, de 39 anos, sair de casa e ficar longe do filho, recém-nascido. "É um momento imperdível. É uma inspiração. Dá-nos motivação para não deixarmos de acreditar nos nossos sonhos. Aqui está a prova que há sempre algo para construir", disse ao DN a colega de licenciatura de Brasilino.

Na plateia, Geanine Escobar, de 27 anos, e Aline Marçon, de 39, ambas do mesmo programa doutoral, não poupavam elogios ao agora doutor, que tinha o hábito de distribuir poesia - e simpatia - pelos colegas. "É a primeira vez que vejo uma pessoa tão lúcida e ativa na academia com esta idade. No Brasil há estudantes idosos, mas isto é uma novidade", sublinha Geanine. Destacando que o doutoramento trata questões como o envelhecimento ativo e o ócio, Aline considera que Brasilino é "como se fosse um caso de estudo".

Foi aos 77 anos que o reformado, que tinha acabado de perder a mulher, se dirigiu à Universidade de Aveiro e, através do concurso para Maiores de 23 anos, ingressou na licenciatura de Línguas, Literaturas e Culturas. Terminou o curso em 2012 com média de 15 e quis prosseguir diretamente para o doutoramento, sem passar pelo mestrado. "Disse-me: Professora, não vai dar tempo. Ou vou já para o doutoramento, ou nunca o farei", recordou ontem a orientadora da tese, Maria Manuel Baptista. Num longo texto, Brasilino solicitou ao reitor que o deixasse seguir para o programa doutoral, lembrando-o que foi ele que desenhou o sistema de escoamento de águas da Universidade de Aveiro. Mas foi o mérito, e não esse pormenor, que permitiu que se inscrevesse no doutoramento desenvolvido em parceria pelas Universidades de Aveiro e do Minho.

Ontem, Brasilino defendeu a tese "Antero de Quental: um Patriotismo Prospectivo no Porvir de Portugal" - aprovada por unanimidade pelo júri - e, no final, surpreendeu a plateia. Realçando que a memória de Antero de Quental merece ser "condignamente preservada e mui prestigiada", leu uma proposta na qual sugere que a Universidade dos Açores, de onde o poeta era natural, passe a chamar-se Universidade Antero de Quental.

Exemplo de trabalho


Para Nuno Rosmaninho, co-orientador da tese, Brasilino é um exemplo de "grande trabalho e dedicação". Ao longo das provas, os membros do júri felicitaram a sua "coragem e empenho", assumindo que se tratava de "um momento histórico". Quanto à tese, "uma escrita impecável", "pensamento claro". Quase "um manifesto".

Brasilino Godinho reconheceu que é "um exemplo que deve ser aproveitado pela sociedade". Agora que é doutor, recusa-se a baixar os braços. Uma das hipóteses é tirar um pós-doutoramento, outra é dar aulas. "É um acontecimento muito marcante na minha vida e que me deixa muito satisfeito", disse à saída, evocando as recordações de infância a ler o DN. "Fiz a aprendizagem da leitura não só pelo que lia nas aulas, mas também pelo que lia no vosso jornal".

Aos 15 anos, Brasilino já tinha lido autores como Platão, Aristóteles ou Kant. Com 16 quis ir para a universidade, mas o avô recusou suportar as despesas, o que o levou a adiar o sonho. "Ainda bem", diz, porque nessa altura teria seguido engenharia. Entrou no mercado de trabalho como desenhador de construção civil e acabou por dedicar parte da vida à profissão de topógrafo e a projetar na área de engenharia. Mas as letras sempre o acompanharam. Escreve crónicas e já tem livros publicados.

Joana Capucho
Ler mais em: DN 06.07.2011

3 de julho de 2017

#eles

Eles negoceiam, eles escondem, eles abusam, eles iludem, eles acertam, eles acertam-se, eles apertam, eles apertam-nos, eles apertam-se, eles sabem, eles sorriem, eles organizam-se, eles informam-se, eles manipulam, eles manipulam-nos, eles sussurram, eles gritam, eles anunciam, eles garantem, eles asseguram, eles prometem, eles abraçam, eles beijam, eles dançam, eles esquecem, eles enganam, eles riem, eles gastam, eles desperdiçam, eles culpam-nos, eles pedem, eles pedem-nos, eles tiram, eles roubam, eles amigam-se, eles traem, eles traem-nos, eles baralham, eles misturam, eles compatibilizam, eles nomeiam, eles nomeiam-se, eles combinam, eles resolvem, eles resolvem-se, eles favorecem, eles cobram, eles compram, eles compram-se, eles vendem, eles vendem-se, eles vangloriam-se, eles desprezam-se, eles desprezam-nos, eles corrompem, eles disfarçam, eles adiam, eles distraem-nos, eles comem, eles ganham.

E nós aceitamos, calamos, toleramos, permitimos, perdoamos, esquecemos, perdemos. Mas tudo tem de mudar. Eles têm de saber que já chega, que chorar agora já não chega. Eles têm de saber que nós sabemos bem quem eles são.

Miguel Conde Coutinho
Ler mais em: JN Opinião 01.07.2017

30 de junho de 2017

A cultura da moleza e do achismo

1. Só alguns exemplos, aparentemente banais. Onde eu vivo, há uma rua com uma placa bem visível a ordenar que é proibido estacionar. Pois não, senhor, essa rua está, noite e dia, com carros estacionados em fila. Acontece-me frequentemente ver por ali agentes da polícia e dá-me vontade de parar para lhes dizer que, uma vez que não fazem nada, era preferível mandar retirar a proibição, pois, na situação com a qual pactuam, dá para pensar: se aqui, na presença da polícia, se pode transgredir, porque é que não se pode transgredir sempre?

Vivo perto de um excelente passadiço junto ao mar. Que delícia andar por ali e à noite contemplar o céu estrelado ("Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim", texto do filósofo Immanuel Kant, na sua pedra tumular, em Königsberg). Nesse passadiço, há placas, bem visíveis e espalhadas por muitos sítios, a dizer que são proibidas as bicicletas e a presença de animais. Pois não, senhor, lá andam as bicicletas e cães com fartura (estes estão sujeitos às necessidades das leis da natureza e fazem, com alegria dos donos, abundante cocó; julgam que alguém limpa?; puro engano!). E já ninguém se atreve a chamar a atenção ou a avisar, porque considera inútil e também para não correr o risco de vitupérios, que poderão ir além dos meramente verbais.

É assim. Os portugueses, mal pressentem que o perigo do castigo abranda, entram no laxismo e põem-se a transgredir. É a cultura da moleza. Este tipo de cultura anda ligado à irresponsabilidade. E é assim que acontecem tragédias como esta, indizível, porque não há palavras, que nos aconteceu em Pedrógão Grande e não só. Há alguém que assuma alguma responsabilidade? Está no Evangelho uma palavra que bem se aplica a toda esta nossa situação: "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito." Aí está a razão por que o Papa Francisco acaba de denunciar esta "sociedade líquida e volátil", pedindo que os filhos sejam educados "na austeridade". E o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez bem ao exigir, face à tragédia, que "é tempo de apurar tudo sem limites nem medos". Porque isto não vai lá só com afectos, pois somos seres rácio-emocionais, de afectos e razões. E que se tire todas as consequências. Mas alguém acredita, lá bem no fundo, que isso vai mesmo acontecer, com todas as consequências?

2. A questão é que a cultura da moleza anda em conexão com a cultura do achismo. Houve um tempo em que as pessoas eram recatadas nos seus juízos e receosas quanto ao valor das suas opiniões. Por isso, com facilidade reconheciam não terem capacidade para se pronunciar sobre temas que não dominavam. Esse tempo passou. Agora, do alto do atrevimento da sua ignorância, praticamente toda a gente acha que... tem direito a opinar sobre tudo, sem fundamentos nem razões. "Eu acho que...", e praticamente toda a gente, sobre qualquer assunto, acha que... É o achismo. Naqueles fóruns da rádio, seja qual for o tema, há sempre alguém que acha que... Ponham inclusivamente como tema, por exemplo, a questão da mecânica quântica. Julgam que haverá falta de achistas, ficando o programa no silêncio? A situação agravou-se com as novas tecnologias, nomeadamente, com a internet, pois qualquer um poderá fazer o seu comentário, publicitando a sua ignorância supina, para não falar na estupidez e má-criação. Mas, nisto, confesso o meu desconhecimento, não frequento esses territórios, dado que, felizmente, não sou dado à coprofilia.

Os perigos do achismo são terríveis. Porquê? Já não se procura a verdade e o ambiente criado é de confusão, de lamaçal. Tudo se equivale. Tudo vale. Ora, quando vale tudo, nada vale, e o perigo é o abismo. Já Hegel se queixava dizendo que de noite todas as vacas são pardas. No primeiro livro da Bíblia, o Génesis, está escrito que no princípio, quando Deus criou, separou a luz das trevas, fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento das que estavam por cima do firmamento, chamou terra à parte sólida e mar ao conjunto das águas, etc., e viu que era bom. A unidade no diferente. Para lá da indistinção e da confusão. No meio da indistinção e da confusão, é a noite e a desorientação, sem horizonte de transcendência. Porque não se pensa.

3. Estava eu neste meu pessimismo triste quando apareceu o bálsamo de uma entrevista iluminante do querido amigo Eduardo Lourenço, no Expresso. "Não sei fazer outra coisa a não ser pensar." É um homem crente? "Esta é uma questão que, uma vez posta, não pode ter uma resposta. Porque é "a" questão. Não concebo uma explicação do mundo que dispense a referência a uma acção transcendente. Nós figuramos como sendo de um ente que criou o mundo, e isso pode ser uma coisa infantilizante. Mas faz parte das nossas referências na tradição ocidental." Concebe então um mundo criado? "Só mesmo um Deus poderia explicar o que aconteceu. Que palavra foi pronunciada. Essa é a questão para a qual não tenho resposta e em que a educação que tive mais pesa. Porém, sei muito menos hoje do que quando esse ensino era para mim claro como a verdade e absolutamente essencial como referência. Não há questão mais importante do que esta: ter uma resposta para o enigma do que existe e que essa resposta contenha ou não todo o sentido que podemos dar à vida e a nós mesmos. (...) Porque a única coisa que nos distingue é sermos conscientes. Não só morremos como temos consciência disso." Gostava de pensar em si como alguém que faz pensar? "Gostava de fazer pensar era a mim mesmo. Bem preciso, nesta fase da vida em que estou. Não sei fazer outra coisa a não ser pensar."

Anselmo Borges
Ler mais em : DN Opinião 30.06.2017

28 de junho de 2017

Reforma aos 60 anos sem cortes custaria 730 milhões em 2019


Até outubro carreiras com mais de 48 ou 46 anos dão acesso à reforma sem corte. Generalizar a medida custaria mil milhões em dois anos.

O fim dos cortes das pensões a todas as pessoas que têm 60 anos de idade e 40 de carreira contributiva custaria 357 milhões de euros em 2018 e o dobro (730,7 milhões) no ano seguinte. Os números foram apresentados ontem aos parceiros sociais por Vieira da Silva, tendo o ministro assinalado que, para fazer face a um impacto orçamental desta dimensão, seria necessário subir a taxa social única (repartida entre trabalhadores e empregadores) dos atuais 34,75% para 41,44%. Só assim, a sustentabilidade da Segurança Social ficaria acautelada.

A despenalização da idade da reforma a quem reúne aquela dupla condição tem sido reivindicada pela CGTP e UGT – e até pelos patrões. Ontem, perante o impacto da medida, o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, reconheceu que “os números são avassaladores” e que a ordem de grandeza em causa é motivo para “ficarmos preocupados”. As confederações patronais, numa primeira reação, recusam qualquer agravamento dos custos com a TSU.

O enorme impacto financeiro anual da medida – que em 2025 chegaria já aos 1147 milhões de euros – levou Vieira da Silva a reconhecer que “a possibilidade de antecipar a idade da reforma sem pôr em causa os equilíbrios estruturais da Segurança Social vai dar um pouco mais de trabalho” e prolongar mais a discussão. O regime voltará assim a ser discutido pelos parceiros sociais numa reunião que ficou já marcada para 13 de setembro. O ministro do Trabalho e da Segurança Social espera que seja possível dar um primeiro passo “logo no início de 2018”.

As contas que Vieira da Silva apresentou baseiam-se no facto de atualmente existirem cerca de 340 mil trabalhadores com idades entre os 60 e os 65 anos, entre os quais se incluem um grupo de 60 mil com uma carreira mínima de 40 anos e que, assim, estariam em condições de avançar para a reforma antecipada. Os valores assumem que estes 60 mil se reformariam em 2018 e contabilizam ainda a perda de contribuições associada a estas saídas e uma substituição de 90% destas pessoas por jovens com salários 10% mais baixos.

Reformas sem cortes em setembro/outubro
Mais consensual e com o acordo generalizado dos parceiros para avançar já estão as saídas antecipadas de todas as pessoas que neste momento têm pelo menos 60 anos de idade e 48 de descontos ou os mais 46 anos de carreira e começaram a descontar antes dos 16 anos de idade. Para estes, garantiu, o ministro, a saída para a reforma sem qualquer corte vai ser possível a partir de setembro ou outubro, o mais tardar. “O governo decidiu avançar desde já com a iniciativa legislativa que aprovará brevemente”.

O governo estima que cerca de 15 mil pessoas possam beneficiar deste regime em dois anos e que o custo anual da medida rondará os 49 milhões de euros. As pessoas que reúnem condições para se reformar ainda este ano sem penalização mensal ou pelo fator de sustentabilidade têm direito, por isso, à chamada pensão por inteiro, mas esta pode ser ser bonificada em 1% por cada mês de descontos que tenham para além dos 63 anos e três meses de idade.

O consenso em torno destas carreiras contributiva muito longas vai agora ser tentado em torno das regras que em 2018 irão definir o novo regime de carreiras contributivas longas que acaba com o fator de sustentabilidade para todos os que têm pelo menos 60 anos de idade e 40 de descontos e atribui uma idade personalizada de reforma a cada pessoa nestas condições. Veria da Silva mostrou disponibilidade para “alguns acertos” face à proposta inicial, mas longe do cenário de despenalização generalizada, que a CGTP voltou ontem a exigir .

Uma das matérias que não está ainda fechada é a imposição de que apenas os que aos 60 têm 40 de descontos possam beneficiar do regime.

Reformas por invalidez
O ministro salientou, por outro lado, disponibilidade para corrigir a regra legal que agora vigora e que aplica o corte do fator de sustentabilidade às reformas por invalidez a partir do momento em que os beneficiários atingem a idade da reforma por velhice. A proposta foi feita pela CGTP e Vieira da Silva referiu “admitir a possibilidade de reverter esta situação” e que isso será feito ainda em 2017.

Propostas
1ª fase 
O governo dividiu em 3 fases o novo regime de reformas antecipadas. A 1ª entra em vigor entre setembro e outubro e dirige-se às pessoas com mais de 48 anos de descontos e aos que começaram a trabalhar antes dos 16 anos e têm já 46 anos de descontos. Para estes o acesso á reforma não tem qualquer penalização, desde que tenham já 60 anos de idade.

2ª e 3ª fases 
As fases seguintes chegarão em 2018 e vão primeiro abranger os que têm 63 ou mais anos. Para a 3ª ficam os que têm mais de 60 anos.

Regras da Idade
O novo regime acaba com o corte pelo fator de sustentabilidade (que agora é de 13,88%), e atribui uma idade «‘’pessoal’ de reforma a cada pessoa em função dos anos de descontos, que aumenta todos os anos tal como a idade legal. A penalização mensal é feita em função desta idade pessoal.

Lucília Tiago

27 de junho de 2017

As histórias de Pedrógão são do arco-da-velha

Quando me ligam a dizer que tenho de ir para Pedrógão, na mochila há espaço para água, muita água, um lenço para tapar o nariz do fumo, telemóvel para gravar conversas e imagens, um bloco e uma caneta. Vou à caixa onde guardo os cadernos e pego no primeiro que me chega às mãos. Reparo que a capa diz “As minhas histórias do arco da velha”. Rio-me com a ironia ao antever que, no regresso, estas páginas – que, aliás, não chegaram – vinham cheias delas.

Foi estúpido pensar que as histórias do arco-da-velha destes dias iam caber neste caderno minúsculo. Quase tão estúpido como reduzir Pedrógão a canadairs que afinal não caíram, à descoordenação no combate ao fogo ou ao ódio desmedido ao trabalho dos jornalistas.

Pedrógão não é isso. Pedrógão é a Dona Cristina do café, que oferece o chão de sua casa para os vizinhos lá dormirem. Pedrógão é a Marta da Conceição, que me mostra as nódoas negras por, aos 84 anos, ter sido levada em braços para dentro de um tanque, onde passou horas a ver tudo à volta desaparecer. Pedrógão é a Isabel, que mesmo dois dias depois de o filho Diogo ter saído de casa sem voltar, ainda acredita que ele pode estar num hospital. “É por isso que ele não atende, não é?”.

Pedrógão é ver um comandante dos fuzileiros que, mesmo depois de décadas de missões em Timor e no Afeganistão, me diz a chorar que ninguém merece ver aquilo que ele encontrou na nacional 236. Pedrógão é ver a Diana a beber RedBull atrás de RedBull para se aguentar com três horas de sono em quatro dias, a organizar refeições para todos os bombeiros que chegavam ao quartel. Pedrógão é ver os ingleses Julie, Cris e Liz a agradecer aos portugueses, “os melhores vizinhos do mundo”.

Pedrógão é vir com a roupa do corpo e ter de comprar todos os dias uma t-shirt numa loja dos chineses. Pedrógão é tomar banho e, mesmo assim, ver a toalha preta de sujidade. Pedrógão é largar o gravador para abraçar os poucos que sobraram de Nodeirinho ou pousar o bloco e a caneta para entregar água aos bombeiros.

Pedrógão é receber dezenas de mensagens quando a “última hora” das televisões diz “jornalistas cercados pelo fogo”. Pedrógão é passar três dias a comer fruta roubada no pequeno-almoço de um hotel que serve apenas para descansar o corpo. A cabeça, essa, não se desliga destas histórias do arco-da-velha.

Marta Cerqueira
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