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6 de março de 2019

"Não existe uma forma de ser velho"

Maria José Núncio é especialista em mediação familiar e diz que cada pessoa vive o envelhecimento de forma diferente.

Maria José Núncio

Os meus pais estão a envelhecer é o livro que acaba de lançar.

Não existe uma forma de ser velho. Existem vivências e experiências distintas no envelhecimento, como em qualquer outra etapa da nossa vida. Não se devem manter imagens estereotipadas acerca do envelhecimento, até porque tendem a trazer alguma conotação negativa. Claro que, em termos gerais, vamos ter uma população mais velha cada vez mais exigente, informada e qualificada, mas isso é simplesmente o resultado da própria evolução social. Nesse sentido o ser velho deve ser percebido como uma etapa “normal”, com características próprias e que deve ser vivida e aproveitada da forma mais positiva e enriquecedora possível.



Ver aqui entrevista Não existe forma de ser velho


Jornal Público 06.03.2019

31 de janeiro de 2018

Os Idosos São os Que Mais Morrem Nas Estradas

No passado dia 27 de Janeiro, o Jornal de Notícias publicou uma notícia intitulada “Idosos são os que mais morrem na estradas”.

Nessa mesma notícia lê-se: “os idosos foram onde se registou o maior número de mortos, representando 28% do total”.

No mesmo dia, uma das notícias do programa da RTP1 “Bom dia Portugal” era de que, nos últimos cinco anos, um terço das pessoas, vítimas de acidentes de viação, foram pessoas com mais de 65 anos e que nos atropelamentos, metade das pessoas que morreram foram pessoas idosas.

Dito assim e sem que, naturalmente, se ponha dúvida na certeza destas conclusões baseadas nos números, é preciso explicar que os números só por si são desprovidos de emoções. Ora, sem a devida aclaração, é natural que alguns idosos possam sentir-se afrontados.

Vamos então por partes:

  1. Sabemos que mais de 1/5 (21%, no final de 2016, segundo a PORDATA) da população portuguesa é constituída por pessoas com 65 e mais anos de idade. Quando se fala de 1/3 das vítimas de acidentes de viação serem idosos, parece estarmos perante um número astronómico, o que afinal representa apenas 28%, ou seja, 129 idosos num total de 460 vítimas.
  2. Se o grupo etário dos idosos foi onde se registou um maior número de mortos representando 28% do total, não nos pode causar tanta admiração assim, tendo em conta que numa idade mais avançada as debilidades físicas podem ter interferências de vária ordem, por exemplo, na reacção e na recuperação ou nas complicações que advêm de doenças que sofrem.
  3. A comparação só deveria ser feita grupo etário a grupo etário. Explicando melhor, seria necessário conhecer o número de vítimas em cada grupo etário (0-14; 15-24; 25-64; 65 e mais) e conhecer o peso de cada grupo em relação ao total da população para que as conclusões fossem consentâneas com a realidade. 
  4. Estes dados podem ser consultados no Relatório de Sinistralidade 2017 (jan. - nov.) da Autoridade Nacional Segurança Rodoviária (ANSR), pág. 22.

    Como se verifica, o número de vítimas mortais no grupo etário dos 65+ é significativo (129 em 460, no ano de 2017).
    Transpondo os valores do quadro da ANSR acima para os grupos etários de referência, constata-se que é no grupo 25-64 anos que há mais vítimas (ver quadro seguinte), pelo que, seguindo a lógica da notícia, poder-se-ia contrapor que 2/3 das vítimas mortais em acidentes de viação eram pessoas com idades compreendidas entre os 25 e os 64 anos.



    Mas, se assim fosse dito, também não seria correcto, já que em ambos os casos não se estava a atender à percentagem de cada grupo no total da população (segundo a PORDATA, no final de 2016 era, respectivamente, 14%, 10,6%, 54,3% e 21,1%).
  5. As estatísticas representam ou tentam representar os estudos através de números porque só dessa forma se pode fazer uma leitura. Mas é necessário que os números sejam explicados para que não se tornem perturbadores. É isso que acontece quando, sem mais, se afirma que os idosos são os que mais morrem nas estradas.

Conclusão: é sempre mau quando falamos de vítimas, independentemente das causas ou das idades. Pior ainda quando as notícias em vez de esclarecer confundem ou, ainda que possa não ser intencional, atingem indevidamente um determinado grupo etário.

Ângela Dias da Silva
Associada nº138






10 de dezembro de 2017

Cuidar dos cuidadores

No passado dia 5 de Dezembro, o Núcleo da APRe! em Coimbra realizou uma Tertúlia sobre o tema “CUIDAR DOS CUIDADORES”. 


Os oradores convidados – a Professora Marília Dourado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra na área de investigação em cuidados de longa duração e cuidados paliativos e o Vice-presidente da APRe! e da AGE Fernando Martins – desenvolveram o tema de uma forma muito interessante, tocando em vários aspectos que entusiasmou o público assistente e teve como consequência um debate final muito participado. 


Destacamos aqui o ponto de partida da exposição da Professora Marília Dourado alertando que a nossa humanidade nos torna naturalmente cuidadores. No entanto, é fundamental formar e informar os cuidadores, isto é, ministrar-lhe competências técnicas e práticas e fazer-lhes saber a que tipo de apoios podem recorrer e identificar os amparos em falta e que é preciso implementar. 


Fernando Martins intitulou a sua exposição “vamos falar dos avós”, falando deles como cuidadores e como alvo de cuidados. Abordou também a Directiva da Comissão Europeia cuja revisão está em preparação e em que existem propostas concretas de redefinição de conceitos para que haja uma adaptação à actual realidade, nomeadamente em termos de cuidados de longa duração, de parente, de dependência, entre outros. 


A moderação esteve a cargo da nossa associada Dr.a Adriana Teixeira.


19 de novembro de 2017

Longevidade? Só com boa saúde

O presente e o futuro da ciência da longevidade e dos negócios que nos querem vender tempo de vida saudável numa conversa com o investigador português, professor da Universidade de Liverpool.

João Pedro de Magalhães, investigador português e professor da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, estuda o processo de envelhecimento e as suas possíveis manipulações para prevenir doenças relacionadas com a idade. É consultor de várias organizações sem fins lucrativos e empresas de biotecnologia. Dá-nos aqui a sua perspectiva sobre o presente e o futuro da ciência da longevidade e dos negócios que nos querem vender tempo de vida saudável.

Está no nosso horizonte ter uma vida sempre jovem, apenas limitada por algum acontecimento violento?
Nós sabemos que existem espécies animais complexas, como tartarugas, certos peixes, salamandras, etc., que aparentam não envelhecer. Por isso o envelhecimento não é inevitável nem universal. Acredito, do ponto de vista teórico, que vá acontecer um dia, mas não acho que vá acontecer num futuro próximo. Aquilo que nós conseguimos fazer em modelos animais, como ratos e ratinhos, é manipular o processo de envelhecimento, ou seja, aumentar a longevidade e preservar a saúde em animais mais idosos. Mas não conseguimos, nem sequer estamos perto de conseguir, abolir o envelhecimento em animais.

Sabemos como aumentar significativamente a longevidade de vermes e ratos de laboratório. Até que ponto esses estudos poderão ser úteis para conseguir o mesmo aumento em seres humanos?
É verdade que tem havido um grande progresso no sentido de aumentar a longevidade e manipular o envelhecimento em modelos animais, incluindo em ratos e ratinhos. Em vermes, consegue-se mudar um só gene e aumentar a longevidade dez vezes. Em ratinhos, consegue-se aumentar a longevidade 50%. Creio que são avanços conceptuais que mudam a forma de ver o envelhecimento, como um processo plástico que pode ser manipulado. Nós conhecemos mais de 2000 genes em organismos-modelo que têm impacto na longevidade. E conhecemos mais de 400 medicamentos que aumentam a longevidade nesses organismos. Há um grande entusiasmo para aplicar esse conhecimento a seres humanos. Não só na academia como na indústria biotecnológica e farmacêutica.
É claro que existe uma barreira, existe um golfo entre aquilo que se consegue fazer em modelos animais e aquilo que se consegue fazer em humanos. Estão sempre a aparecer notícias de se conseguir curar o cancro em ratinhos. Nós já curámos o cancro em ratinhos umas dezenas de vezes, mas a grande maioria daquilo que se consegue fazer em ratinhos não é aplicável a seres humanos. Por isso, eu diria que a grande maioria destas intervenções que estão a ser testadas para manipular o envelhecimento em seres humanos, estatisticamente, vai falhar. Agora, o que é interessante é que bastava uma destas intervenções conseguir abrandar o envelhecimento e teríamos imensos benefícios a nível de saúde, económicos e mesmo a nível social. Porque abrandar o envelhecimento teria um impacto em todas as doenças que lhe estão associadas, o cancro, doenças neurodegenerativas, doenças cardiovasculares, etc.

De que forma é que o seu trabalho com animais que vivem muito tempo, como a baleia-da-gronelândia ou o rato-toupeira-nu nos pode ajudar a compreender a longevidade?
Há dois focos no estudo de animais que vivem mais tempo. O primeiro é do ponto de vista da compreensão do processo de envelhecimento. Nós, apesar de conseguirmos manipular o envelhecimento em animais, ainda não percebemos bem por que é que envelhecemos. Há quem diga que os danos no ADN e as mutações são importantes. E há outras teorias, mas não sabemos ao certo. Perceber a variação natural da longevidade pode dar-nos pistas para conseguirmos compreender melhor o processo do envelhecimento do ponto de vista mecanístico. E também do ponto de vista genético. Saber quais são os genes que permitem à baleia-da-gronelândia ou ao rato-toupeira-pelado viver tanto tempo pode dar-nos pistas a nível de mecanismos genéticos, moleculares, celulares. Mas pode potencialmente também ter aplicações humanas. Se conseguirmos compreender os mecanismos que outras espécies usam, podemos tentar descobrir medicamentos que tenham os mesmos benefícios ou que imitem as mutações que existem no rato-toupeira-pelado ou na baleia-da-gronelândia, para também nós termos os benefícios dessas mutações.

Até que ponto as nossas opções de estilo de vida podem ser determinantes? Em particular, até que ponto uma dieta de restrição calórica pode ajudar a prolongar a nossa vida?
Nós sabemos que a restrição calórica em modelos animais normalmente (não sempre) aumenta a longevidade, leva a uma melhor saúde em idades avançadas e menos doenças. Persistem algumas questões sobre a aplicabilidade em seres humanos. Existem estudos feitos em macacos Rhesus, que vivem 40 anos, e por isso demoram muito tempo, e os resultados até agora indicam alguns benefícios de saúde com a restrição calórica, por exemplo, a nível de prevenção do cancro, mas não necessariamente a nível de longevidade. Por isso existem algumas questões sobre se a restrição calórica funciona ou não em seres humanos.

E o stress?
É um ponto interessante. Existem alguns estudos que sugerem que a forma como as pessoas lidam com o stress é importante para a longevidade. Se formos a ver, há centenários que sobreviveram ao Holocausto e que combateram em guerras, passaram por situações de muita tensão nervosa. E mesmo assim vivem muito tempo. Por isso não acho que o stress seja impeditivo de se viver muito tempo, mas a forma como se lida com o stress terá um impacto. E outras questões como fazer exercício: sabemos que fazer exercício regulamente está associado a uma maior longevidade e melhor saúde em idades avançadas. Por isso, o estilo de vida e os nossos comportamentos afectam quanto nós vivemos e a nossa saúde quando formos mais velhos. Mas também é importante referir que esse impacto é limitado. Ou seja, por muito que uma pessoa tenha um estilo de vida saudável, não quer dizer que viva para sempre. Acaba-se por envelhecer e não é um determinante de quanto se vai viver. Os americanos têm uns autocolantes traseiros nos carros com umas piadas e uma vez, acho que estava no Texas, vi um que dizia qualquer coisa como: “Eat healthy, don’t smoke, exercice, don’t drink alcohol, you still die” [tenha uma alimentação saudável, não fume, faça exercício, não beba, morre na mesma].

Retardamento ou reversão do envelhecimento? O que poderá ser mais prometedor?
Neste momento, aquilo que nós conseguimos fazer em modelos animais é retardar o envelhecimento. Por isso eu diria que no horizonte estão terapias, nomeadamente fármacos, que nos permitam retardar o envelhecimento, de modo a aumentar a longevidade e a saúde. Reverter o envelhecimento teria um impacto muito maior, obviamente: a nível de saúde seria enorme, comparado com retardar o envelhecimento. Mas neste momento ainda não é claro que isso sequer se consiga fazer em modelos animais, em roedores, por isso é bastante difícil dizer quando é que será possível em humanos. Há quem argumente que se consegue reverter o envelhecimento em tecidos específicos ou em órgãos específicos, através de certas intervenções. Talvez, mas, para mim, o processo de envelhecimento engloba múltiplos sistemas em múltiplos órgãos. Reverter o envelhecimento tem de ser algo que reverta o envelhecimento como um todo, ou, pelo menos, a maioria das características do envelhecimento. Isso é possível do ponto de vista teórico e teria um impacto gigantesco, mas não acho que esteja no horizonte. Pelo contrário, o retardamento do envelhecimento creio que sim, já há empresas, já há ensaios clínicos e é claramente possível que venha a acontecer.

Há alguma intervenção antienvelhecimento actualmente disponível, farmacológica ou outra, que considere que vale mesmo a pena?
Nem por isso. Pessoalmente, não tomo nenhum fármaco nem faço restrição calórica. Apesar de conhecermos muito fármacos e dietas que em modelos animais retardam o envelhecimento, sabemos muito pouco acerca dessas intervenções em seres humanos, nomeadamente quais podem ser os efeitos secundários. Por exemplo, em relação à restrição calórica, não sabemos ao certo quais são os benefícios em pessoas, mas sabemos que pode ter efeitos secundários. Com base em estudos animais, reduz a capacidade para combater infecções, por exemplo. Por isso, para quem tem um estilo de vida saudável, não acho que haja nenhuma intervenção que valha a pena actualmente. Aquilo que eu faço e o que eu sugiro é aquilo que qualquer médico ou mãe sugerem: não fumar, não beber demasiado álcool, ter uma alimentação saudável, fazer exercício. Mas a nível de intervenções antienvelhecimento específicas, para além disso, não acho que haja nada que esteja provado ou que existam provas suficientes para valer a pena fazer. É diferente se se tiver alguma doença ou alguma predisposição genética. Por exemplo, há pessoas que têm predisposição genética para cancro. Eu, se tivesse uma predisposição genética para o cancro, provavelmente faria restrição calórica. Acho que existem provas em macacos, mesmo estudos epidemiológicos em mulheres anorécticas, de que a restrição calórica tem um impacto a nível da diminuição do cancro. Acho que há condições clínicas nas quais certas intervenções valeriam a pena e eu fá-las-ia nessas situações. Mas, para pessoas saudáveis, não acho que valha a pena. Mas isso também depende da pessoa, estamos na altura da medicina personalizada. Convém ver que aquilo que funciona, o que uma pessoa acha que vale a pena, não é necessariamente aquilo que o vizinho acha que vale a pena. Há muita variação entre pessoas, não há um “one size fits all”.
Aquilo que eu faço e o que eu sugiro é aquilo que qualquer médico ou mãe sugerem: não fumar, não beber demasiado álcool, ter uma alimentação saudável, fazer exercício

Quer acrescentar alguma coisa acerca deste assunto?
Só clarificar que, quando falamos em aumentar a longevidade e em retardar o envelhecimento, falamos em retardar várias doenças, não estamos simplesmente a aumentar a longevidade num período de decrepitude, mas a aumentar a longevidade com boa saúde. E é isso que nós vemos, por exemplo, nos centenários. O tempo e os custos de hospitalização dos centenários nos últimos dois anos de vida são bastante menores do que pessoas que morrem com 70 ou 80 anos. Nas intervenções antienvelhecimento, estamos falar de uma pessoa com 70 anos passar a ter a saúde de uma pessoa com 50. Não é simplesmente aumentar a longevidade de uma pessoa moribunda.

João Pedro de Magalhães
Ler mais em publico.pt de 19-11-2017

20 de outubro de 2017

‘Healthy Ageing’

O enorme desafio do envelhecimento sustentável exige que sejamos capazes de combinar diagnósticos baseados na melhor evidência científica com soluções práticas e criativas.


Em julho de 2017 os meios de comunicação social noticiaram que uma avó de 96 anos cumpriu o sonho de saltar de paraquedas de um avião, no aeródromo de Évora.

Física e socialmente ativa, esta avó simboliza o espírito de um envelhecimento saudável que ambicionamos, mas que infelizmente em Portugal é uma exceção. Este tema tem vindo a merecer uma reflexão aprofundada sobre as oportunidades de saúde, segurança, participação e aprendizagem que estamos a criar para uma camada cada vez mais significativa da população – cerca de 20% da população portuguesa tem mais de 65 anos e Portugal é um dos países mais envelhecidos da UE.

Com enormes progressos globais na redução da mortalidade infantil e de doenças infecciosas, estamos a viver mais tempo, o que não significa que estamos necessariamente a viver melhor. Para tornar o envelhecimento saudável uma realidade, deve haver um compromisso de melhorar a saúde ao nível individual, aplicando novos conceitos de medicina digital e de precisão ao bem-estar das populações.

A conferência da Saúde enquadrada na iniciativa Beyond – Portugal Digital Revolutions promovida pela EY, pretende trazer um novo olhar sobre estratégias de intervenção e utilização de tecnologias, que funcionem como uma alavanca de mudança da gestão da doença para o bem-estar; e que, por outro lado, promovam o envolvimento dos consumidores na promoção de uma mudança de comportamento duradoura.

Para tal são necessárias novas parcerias e soluções que garantam que o período de vida saudável está alinhado com o aumento da esperança de vida e combinem o pensamento de diferentes indústrias com o know-how dos profissionais de saúde e das organizações.

A capacidade de integrar diferentes competências e recursos que os diferentes parceiros podem trazer – financiadores, prestadores, empresas, empreendedores e inovadores – é crítica e exige o desenvolvimento de novas métricas de envelhecimento saudável, que podem ir desde dados genéticos e ambientais a novas metas de saúde.

Nenhum grupo terá a solução única e ideal para um envelhecimento saudável e sustentável. Como sociedade teremos assim que saber antecipar e discutir quais os desafios científicos, económicos, políticos, éticos, legais e sociais que esta transformação acarreta e testar soluções que possam ser implementadas rápida e eficazmente.

Como a avó que cumpriu o seu sonho aos 96 anos teremos que combinar audácia, resiliência e capacidade de concretização. O enorme desafio do envelhecimento sustentável exige que sejamos capazes de combinar diagnósticos baseados na melhor evidência científica com soluções práticas e criativas.

Guilherme Victorino

17 de outubro de 2017

Comunicado à Imprensa da AGE Platform Europe, 17 de outubro, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza



A AGE exige uma forte proclamação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais para proteger as mulheres mais velhas, ainda expostas a altos riscos de pobreza


Bruxelas, 16 de outubro de 2017

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, 17 de outubro

Para o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, a AGE destaca o risco de pobreza que ainda persiste para as pessoas mais velhas, e particularmente para as mulheres mais velhas, apesar dos números apresentados pela Comissão Europeia. Solicitamos por isso uma forte proclamação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais nos próximos meses, juntamente com ações decisivas de acompanhamento da Comissão e dos Estados-membros para tornar realidade os direitos das mulheres mais velhas.


Embora a Comissão Europeia assinale frequentemente que a taxa de pobreza e exclusão social diminuiu para as pessoas com mais de 65 anos durante a crise, isso esconde realidades muito diversas.

"O fosso de quase 40% na UE relativo à pensão baseada no género deveria aumentar o alarme entre os decisores políticos. No entanto, preferem mostrar taxas de pobreza médias nacionais, que não refletem a realidade enfrentada por muitas mulheres mais velhas", diz Anne-Sophie Parent, secretária-geral da AGE Platform Europe. "As mulheres mais velhas enfrentam múltiplos riscos de pobreza: suportam as consequências financeiras de passar mais tempo a educar os filhos e a cuidar de familiares, de discriminação de género em termos de remuneração e de longevidade. E o fosso das pensões de género continuará a aumentar se nada for feito para enfrentar as desigualdades sofridas pelas mulheres e garantir que tenham acesso a um rendimento justo e digno ao longo das suas vidas."

O fosso da pensão de género varia entre os Estados-membros, chegando a quase 45% na Alemanha, no Luxemburgo ou nos Países Baixos. Os Estados-membros com menor hiato são, na verdade, países com pensões extremamente baixas, como a Estónia. A diferença de pensão de género traduz uma vida de desigualdades com que as mulheres se defrontam: um maior dispêndio de tempo com os filhos, em grande parte, uma diferença salarial de género de 16%, o facto de as profissões exercidas principalmente por mulheres serem menos valorizadas, e de as mulheres serem muito mais propensas a trabalhar a tempo parcial e em contratos precários. O Instituto Europeu para a Igualdade de Género apontou que isso também expõe as mulheres a um maior risco de permanecer na velhice com parceiros abusivos, uma vez que elas são financeiramente muito dependentes deles.[1]

O indicador de vida saudável é o mesmo para mulheres e homens (9,4 anos desde os 65 anos) - conquanto as mulheres tenham maior expectativa de vida (21 anos para mulheres com 65 anos , 18 anos para homens). Isto significa como os demógrafos afirmam: "os homens morrem, as mulheres sofrem”[2]. Isso significa também que as mulheres têm um duplo fardo financeiro na velhice: vivem mais e precisam de mais rendimento para se manterem fora da pobreza; e têm maiores necessidades financeiras para financiar os custos da saúde e dos cuidados de longa duração.

Muitas vezes, as figuras da pobreza são divididas em apenas três faixas etárias: jovens, idosos e aposentados, apesar de as décadas de vida após os 65 esconderem realidades muito diferentes.

Congratulando-se com alguns passos positivos das instituições da UE, a Secretária-Geral da AGE também insistiu que "são necessárias ações mais fortes para combater a discriminação de género no mercado de trabalho e em todos os outros domínios relevantes, tais como reformas em cuidados infantis e de idosos, para permitir que as mulheres recebam a sua quota justa de proteção pelas contribuições que elas trazem para a sociedade".

O Índice de Igualdade de Género agora contém um indicador sobre o tempo gasto em cuidar, mostrando grandes diferenças entre homens e mulheres, e esboça a situação para diferentes faixas etárias. O Relatório de Adequação de Pensão 2018 da UE, avaliará os níveis de pensão para diferentes tipos de carreiras, incluindo as com interrupções de cuidados mais longos. No entanto, essas ações apenas descrevem melhor a situação, mas não recomendam ações concretas. O Pilar Europeu dos Direitos Sociais constitui uma oportunidade para lutar novamente contra a pobreza: a proposta sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida, se for adotada, promoverá uma participação mais igualitária na assistência à infância e introduzirá uma licença de cuidadores remunerados - uma grande conquista para muitas mulheres que têm de interromper o emprego porque um parente se torna dependente dos seus cuidados. Uma possível diretiva-quadro sobre rendimentos mínimos adequados, e o princípio das pensões dignas também deve ajudar as mulheres mais velhas a manterem-se afastadas da pobreza.

14 de outubro de 2017

Pensões: quem tem direito a dois aumentos em 2018?

As pensões vão ser atualizadas em janeiro e podem voltar a crescer em agosto para garantir uma subida mínima de seis ou dez euros.

No próximo ano, 1,6 milhões de pensionistas deverão ter um aumento extraordinário em agosto. A lógica é a mesma que já se aplicou este ano, mas, desta vez, a economia e a inflação devem dar um empurrão maior às pensões logo em janeiro. O aumento extra de agosto será assim mais contido. Segundo as contas do Governo, vai custar 35 milhões de euros, apurou o ECO.

O acordo foi alcançado na quinta-feira ao final da tarde. Os partidos à esquerda queriam um aumento mínimo de dez euros para todos os pensionistas mas, afinal, a subida mínima também poderá ser de seis euros.

A lógica é a mesma que já foi aplicada este ano. A ideia é atualizar as pensões em janeiro de acordo com a lei e, em agosto, avançar com um aumento extraordinário que permita atingir um mínimo de seis ou dez euros. Mas este segundo aumento será feito por pensionista (e não por pensão), o que significa que quem tem duas reformas, terá de somar as atualizações de janeiro para perceber se terá ou não direito ao extra de agosto. Se as duas atualizações perfizerem já seis ou dez euros, consoante o caso, não há aumento em agosto.

Quem tem aumento?

Em 2017, a subida até seis ou dez euros abrangeu pensionistas cujo somatório de pensões ficasse aquém de 632 euros. O limite foi imposto pelo Executivo, num cenário em que atualização de janeiro seria baixa e que acabou por abranger apenas pensões até 842 euros (ainda assim, a maioria).

Bastava que uma das pensões pagas ao mesmo reformado tivesse sido aumentada no Governo de Passos Coelho (pensões sociais, rurais e o escalão mais baixo das pensões mínimas), para que o aumento extra desta pessoa perfizesse seis euros (incorporando já o valor da atualização de janeiro). Mas se nenhuma das pensões tivesse sido atualizada, o aumento total seria de dez euros. A regra deve manter-se.

Porém, este ano só deverão ser abrangidas pensões até 588 euros. É a partir deste montante que as reformas já terão uma atualização em janeiro de, pelo menos, dez euros, inviabilizando o aumento extra. Pensões atualizadas por Passos Coelho nem sequer chegam àquele limite. O aumento extra terá um custo de 35 milhões de euros este ano e não exige medidas compensatórias.

Simulação: como sobem as pensões?

Uma pensão de 300 euros que não tenha sido aumentada na legislatura de Passos Coelho, terá em janeiro uma atualização de 5,10 euros. Em agosto, volta a subir em 4,90 euros. Contas feitas, são mais dez euros face a 2017.

Já numa pensão de 500 euros, o aumento em janeiro será de 8,50 euros e, em agosto, acresce apenas 1,50 euros. Tudo isto assumindo que a economia no terceiro trimestre avança o suficiente (2,44%) para garantir aumentos mais generosos em janeiro e que a inflação relevante para esta atualização é de 1,2% (uma décima acima do último dado disponível). Se o desempenho da economia não for suficiente ou se a inflação for inferior, o aumento é menor em janeiro e maior em agosto. No cenário inverso, acontece o contrário.

Comparando com o que aconteceu este ano, a economia e a inflação deverão empurrar mais as pensões no início de 2018, mitigando o impacto de agosto. Em janeiro de 2017, as pensões mais baixas foram atualizadas em 0,5%em janeiro de 2018, a subida poderá ser de 1,7%. Isto porque, se a economia ajudar, soma-se 0,5 pontos percentuais ao valor da inflação relevante para calcular aquele aumento, no caso de pensões até dois Indexantes dos Apoios Sociais (IAS) — um valor que este ano ascende a 842,64 euros, mas que será atualizado em 2018. As restantes pensões terão aumentos relativos mais baixos, mas todas sobem em janeiro.

Como aumentam as pensões em 2018?

Fonte: ECO 
Nota: Cálculos pressupõem que o reformado recebe apenas uma pensão e que as reformas até 2 IAS terão uma atualização de 1,7% em janeiro.

Cristina Oliveira da Silva e Margarida Peixoto
Ler mais em: eco 1310.17

13 de outubro de 2017

Comunicado à Imprensa da AGE – Platform Europe

Proteger a dignidade das pessoas idosas com necessidades de cuidados e permitir uma vida independente e comunitária, onde quer que optem por viver


Bruxelas, 13 de Outubro de 2017

A AGE Platform Europe felicita a Presidência da Estónia no Conselho da União Europeia e a Comissão Europeia pela organização da conferência "Dignidade + Vida Independente = DI, em 12 e 13 de outubro de 2017, em Tallinn. Este tema é altamente relevante para a luta da AGE pelos direitos e dignidade das pessoas idosas, incluindo aquelas com necessidades de cuidados.

Os membros da AGE, declararam consistentemente alcançar a qualidade dos cuidados, permitindo uma vida independente e protegendo a dignidade das pessoas mais velhas, como os principais desafios que a Europa enfrenta hoje e também no futuro próximo, dado o rápido envelhecimento demográfico. "Os serviços de cuidados indignos, a proteção social insuficiente e a sobrecarga de profissionais de cuidados e de cuidadores informais são muito comuns em toda a Europa. Isso dificulta o gozo dos direitos humanos por pessoas idosas com necessidades de cuidados e muitas vezes leva a negligência, violência e abuso", afirmou o presidente da AGE, Ebbe Johansen, na conferência em Tallinn, acrescentando que "existe uma séria falta de serviços adequados e de qualidade para pessoas idosas com necessidades de cuidados intensivos, incluindo as que vivem com demência avançada, o que tem pesadas consequências pessoais tanto para as pessoas idosas como para os seus familiares".

A AGE exige uma abordagem de transição para cuidados baseados na comunidade que seja progressiva e adaptada às necessidades específicas de cada grupo. No caso das pessoas idosas, a maioria delas deseja ficar em casa e deve estar capacitada a fazê-lo, com apoio e integração de qualidade suficiente nas suas comunidades para evitar a armadilha do isolamento e da solidão, o que é um grande problema para muitos idosos. No entanto, algumas pessoas mais velhas preferem viver em lares com cuidados residenciais e essa possibilidade deve-lhes ser também disponibilizada.

Os membros da AGE relatam bons exemplos de cuidados inovadores e de qualidade que permitem a independência vivendo em casa e em ambientes residenciais. Os exemplos também relatam uma "cultura institucional" generalizada na provisão de cuidados, o que significa ignorar os desejos e necessidades pessoais, a segregação, o desrespeito dos direitos e da independência e a negligência, tanto em casa como em cuidados residenciais. "As pessoas mais velhas são tão diversas quanto as de outras faixas etárias, e uma grande variedade de serviços para escolher deve estar disponível para elas. O ponto importante é garantir escolha, qualidade e serviços dignos baseados na comunidade, qualquer que seja a configuração. Isto está em conformidade com o artigo 19.º da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CRPD), onde a escolha é um elemento central, e também com o relatório sobre autonomia e atendimento do Especialista Independente das Nações Unidas sobre o gozo de todos os direitos humanos por pessoas idosas", acrescentou Ebbe Johansen.

A AGE solicita que os Fundos Estruturais e de Investimento europeus sejam utilizados para facilitar a mudança para cuidados comunitários dignos e de qualidade para pessoas idosas, especialmente em casa - a opção mais popular -, mas também em cuidados residenciais de qualidade centrados na pessoa. "Assegurar o acesso a esses serviços deve orientar a implementação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, a ser proclamado, assim o esperamos, pelos Estados-membros em 17 de novembro e, em especial, o novo direito a cuidados de longa duração. O quadro de qualidade europeu para serviços de cuidados de longa duração, desenvolvido com o envolvimento ativo de pessoas idosas, poderia ser usado neste processo", afirmou Ebbe Johansen.

2 de setembro de 2017

#memória

"A memória que eu gostaria de guardar...". O desafio da Alzheimer Portugal (http://alzheimerportugal.org/pt/) foi lançado ontem e serve para assinalar o Mês Mundial dedicado à doença que afeta mais de 130 mil pessoas em Portugal, dentro das 180 mil com demências. Que desafio é esse? Gravar um vídeo que comece com aquela frase, partilhá-lo em redes sociais com as hashtags #memoriasparaguardar e #passeiodamemoria, convencendo três amigos a fazer o mesmo. Simples. Escolher "a memória" é algo que nos obrigará a rever toda a vida, com bons ou maus momentos, mas revê-los. Aceitar o desafio daquela associação será a homenagem mais bonita a quem perdeu todas as memórias. Pensei nisso. Concluí que "a memória" que escolho é a primeira vez que vi o meu filho, horas depois de ter nascido de cesariana. E do estranho amor - estranho porque intenso - que senti por aquele ser tão pequeno, indefeso e com imenso cabelo. Não sei que memória terá tido a minha mãe. Sei que morreu demente, sem me reconhecer, sequer, nos seus últimos dias. Com pena de nunca vir a saber que memória gostaria a minha mãe de ter guardado, sinto que posso arriscar: nós, os seus seis filhos, à volta da mesa das refeições. Porque era este o quadro que ela repetia enquanto a sua memória a traía.

Margarida Fonseca
Ler mais em: JN opinião 02.09.2017

29 de julho de 2017

KOTAS ARE COOL

Os angolanos chamam Kota (da língua Kimbundu) àqueles que merecem respeito por serem mais velhos. Cá, kota é sinónimo de velho, bota de elástico ou antiquado. Um reforço da ideia de que os velhos estão desatualizados, são um embaraço e não servem mais.


Em 2011, escrevi um artigo de reflexão acerca de uma tendência que dava os primeiros passos no mundo ocidental. Foram a campanha da Lanvin para a H&M e o projeto Sicilia Fashion Village que serviram de motor de arranque para elaborar esse artigo, mas, relendo-o agora, seis anos depois, percebo que ele está atual e até faz mais sentido neste momento. Na altura, as gerações séniores eram matéria-prima rara em conteúdos de reflexão, jornalísticos ou de blogues em Portugal. Mas hoje é diferente. Depois de ter lido uma reportagem sobre o projeto lisboeta A Avó Veio Trabalhar a propósito do recente Dia Mundial dos Avós, projeto que acompanho de perto e muito aprecio, decidi atualizar ligeiramente o meu artigo e dá-lo a conhecer de novo a uma audiência agora mais sensibilizada. O que vão ler de seguida não foge muito do original. Também partilho o vídeo Sicilia Fashion Village que publiquei na altura. Gosto particularmente dele por ser divertido e ter participantes masculinos na sua maioria, sicilianos old school vestidos à maneira para o filme, que fazem lembrar certos portugueses mais velhos que encontramos pelo país fora. Dá gosto ver.


Os angolanos chamam Kota (da língua Kimbundu) àqueles que merecem respeito por serem mais velhos. Simplesmente por serem mais velhos do que nós. Não necessariamente velhos de idade, mas alguém mais velho. Usa-se kota para tratar um amigo mais velho, um tio, o senhor que deixamos passar à frente na fila do supermercado, uma avó. No caso dos avós, são entendidos como os avós da sociedade. Uma avó é a avó de todos, é aquela que sabe, aquela que traz sabedoria. Neste contexto, kota é o homem ou a mulher idoso que traz unicidade e conhecimento às famílias e à comunidade pela sua experiência de vida. Noto que em Portugal, na última década em particular, o respeito pelo conhecimento e experiência dos mais velhos desvaneceu ou morreu. O velho passou a ser descartável como uma bisnaga de pasta dentífrica que chegou ao fim, vive isolado da comunidade com poucas ou nenhumas funções úteis. Contudo, curiosamente, a palavra Kota entrou no calão de Portugal, embora adquirindo outro significado. Cá, kota é sinónimo de velho, bota de elástico ou antiquado. Um reforço da ideia de que os velhos estão desatualizados, são um embaraço e não servem mais.Hoje, com a mudança dos paradigmas social e de mercado, e a esperança média de vida a roçar os 80 anos de idade, a visão sobre o papel dos mais velhos na sociedade parece estar a mudar para melhor. Representam poder de compra e um nicho de mercado que a seu tempo será mainstream à medida que as sociedades vão ficando inevitavelmente envelhecidas, como é o caso da nossa. Neste campo a moda começa por dar o seu contributo ao repescar antigas manequins para campanhas sofisticadas e desfiles onde surgem como figuras de relevo. Em 2011 verifica-se, por exemplo, o regresso de Veruschka com 71 anos bem firmes e assumidos. Famosa nas passarelas e no cinema na década de 1960 (irão lembrar-se dela no filme «Blow Up» de Antonioni), é convidada a regressar aos desfiles de moda e fê-lo com uma confiança visível. Assim como, na mesma altura, fez a campanha Lanvin para H&M ao convidar uma manequim sénior para o filme promocional. De cabelo branco armado e sofisticada, aquela senhora é a prova que a experiência e a auto confiança são premissas estáveis na equação de uma vida saudável. Não há botox que remende a falta de auto confiança. E em 2010 o projeto italiano Sicilia Fashion Village leva esta tendência mais longe promovendo a sua população sénior como a mais bem vestida do mundo. Nesta divertida campanha os kotas do filme usam modelos vintage ou modernos num enquadramento atual.

Veruschka
Andreas Rentz/ Getty Images
Creio que estamos diante do desafio de olharmos para os mais velhos e idosos do mundo com outros olhos. Ou melhor, olharmos para nós próprios como seres plenos e de valor até ao dia em que vamos desta para melhor. Ser kota pode ser cool desde que o estado de espírito o permita, o mercado, as políticas governamentais e a mentalidade da sociedade superem o preconceito da idade passando a vê-la um ativo e sinónimo de poder. Um dia, quando for velha, vou querer desfilar em passarelas ou andar de patins caso me apeteça sem que isto represente vergonha social ou um embaraço. Vejo hoje, com regularidade, homens e mulheres com 40 anos ou mais a andarem de skate tranquilamente. Há vinte anos isto seria inaceitável. Alguém de quarenta anos estaria a preparar-se para entrar na reforma, a sua vida seria conformada e aborrecida. Felizmente os 40 de hoje são os novos 30, e espero que em breve os 70 sejam os novos 50 ou 40. O projeto A Avó Veio Trabalhar é a prova de que ideias honestas e bem estruturadas transformam pessoas mais velhas ou idosos nos jovens de mentalidade que afinal sempre foram. Mas se os deixam arrumados num canto porque a sociedade não sabe o que fazer com eles, qualquer réstia de juventude irá definhar. Os preconceitos não levam ninguém a bons lugares, mas sim à manutenção de conservadorismos e modos de estar bafientos. Larguemos a naftalina mental de uma vez por todas e bebamos nos bons exemplos porque eles não escasseiam. A mudança começa na cabeça, e desenvolve-se na sociedade através de boas políticas.

Carla Isidoro
Ler mais em: Visão 20.07.2017

6 de julho de 2017

Caloiro aos 77, doutor aos 85. Brasilino é "um caso de estudo"

Defendida a tese de doutoramento sobre Antero de Quental, Brasilino Godinho apresentou uma proposta para que a Universidade dos Açores passe a ter o nome do escritor


De traje académico vestido, Brasilino Godinho chegou à Sala de Atos Académicos da Universidade de Aveiro cerca de uma hora antes de começarem as provas de doutoramento. Testou o equipamento informático e os auscultadores - para que nenhuma palavra escapasse - e, com toda a calma, cumprimentou grande parte da plateia: professores, colegas, familiares e amigos. Todos quiseram assistir ao realizar de mais um sonho do homem, de 85 anos, que ontem se tornou, muito provavelmente, numa das pessoas com mais idade a concluir um doutoramento. Um exemplo de "coragem e empenho", como destacou o júri, "um caso de estudo" para as colegas do programa doutoral em Estudos Culturais.

Ontem foi um dia histórico. Só isso é que faria Cláudia Silva, de 39 anos, sair de casa e ficar longe do filho, recém-nascido. "É um momento imperdível. É uma inspiração. Dá-nos motivação para não deixarmos de acreditar nos nossos sonhos. Aqui está a prova que há sempre algo para construir", disse ao DN a colega de licenciatura de Brasilino.

Na plateia, Geanine Escobar, de 27 anos, e Aline Marçon, de 39, ambas do mesmo programa doutoral, não poupavam elogios ao agora doutor, que tinha o hábito de distribuir poesia - e simpatia - pelos colegas. "É a primeira vez que vejo uma pessoa tão lúcida e ativa na academia com esta idade. No Brasil há estudantes idosos, mas isto é uma novidade", sublinha Geanine. Destacando que o doutoramento trata questões como o envelhecimento ativo e o ócio, Aline considera que Brasilino é "como se fosse um caso de estudo".

Foi aos 77 anos que o reformado, que tinha acabado de perder a mulher, se dirigiu à Universidade de Aveiro e, através do concurso para Maiores de 23 anos, ingressou na licenciatura de Línguas, Literaturas e Culturas. Terminou o curso em 2012 com média de 15 e quis prosseguir diretamente para o doutoramento, sem passar pelo mestrado. "Disse-me: Professora, não vai dar tempo. Ou vou já para o doutoramento, ou nunca o farei", recordou ontem a orientadora da tese, Maria Manuel Baptista. Num longo texto, Brasilino solicitou ao reitor que o deixasse seguir para o programa doutoral, lembrando-o que foi ele que desenhou o sistema de escoamento de águas da Universidade de Aveiro. Mas foi o mérito, e não esse pormenor, que permitiu que se inscrevesse no doutoramento desenvolvido em parceria pelas Universidades de Aveiro e do Minho.

Ontem, Brasilino defendeu a tese "Antero de Quental: um Patriotismo Prospectivo no Porvir de Portugal" - aprovada por unanimidade pelo júri - e, no final, surpreendeu a plateia. Realçando que a memória de Antero de Quental merece ser "condignamente preservada e mui prestigiada", leu uma proposta na qual sugere que a Universidade dos Açores, de onde o poeta era natural, passe a chamar-se Universidade Antero de Quental.

Exemplo de trabalho


Para Nuno Rosmaninho, co-orientador da tese, Brasilino é um exemplo de "grande trabalho e dedicação". Ao longo das provas, os membros do júri felicitaram a sua "coragem e empenho", assumindo que se tratava de "um momento histórico". Quanto à tese, "uma escrita impecável", "pensamento claro". Quase "um manifesto".

Brasilino Godinho reconheceu que é "um exemplo que deve ser aproveitado pela sociedade". Agora que é doutor, recusa-se a baixar os braços. Uma das hipóteses é tirar um pós-doutoramento, outra é dar aulas. "É um acontecimento muito marcante na minha vida e que me deixa muito satisfeito", disse à saída, evocando as recordações de infância a ler o DN. "Fiz a aprendizagem da leitura não só pelo que lia nas aulas, mas também pelo que lia no vosso jornal".

Aos 15 anos, Brasilino já tinha lido autores como Platão, Aristóteles ou Kant. Com 16 quis ir para a universidade, mas o avô recusou suportar as despesas, o que o levou a adiar o sonho. "Ainda bem", diz, porque nessa altura teria seguido engenharia. Entrou no mercado de trabalho como desenhador de construção civil e acabou por dedicar parte da vida à profissão de topógrafo e a projetar na área de engenharia. Mas as letras sempre o acompanharam. Escreve crónicas e já tem livros publicados.

Joana Capucho
Ler mais em: DN 06.07.2011

27 de junho de 2017

Fim dos cortes nas pensões para carreiras muito longas em vigor em Outubro


A legislação que prevê o fim dos cortes nas pensões antecipadas de quem tem, por exemplo, 48 anos de carreiras contributivas, ou 46 anos tendo começado a trabalhar aos 15 anos, vai entrar em vigor em Setembro ou Outubro, anunciou o Governo.

Os trabalhadores que tenham mais de 60 anos de idade e 48 anos de carreira contributiva poderão reformar-se sem qualquer penalização a partir de Setembro ou Outubro. O mesmo acontecerá a quem tenha 46 anos de carreira contributiva e mais de 40 anos de idade, desde que tenha começado a descontar para a Segurança Social aos 15 anos.

É essa a data prevista pelo Governo para a entrada em vigor da primeira fase da nova legislação sobre pensões antecipadas, que abrangerá estes dois grupos, segundo anunciou esta terça-feira à saída de uma reunião de concertação social Vieira da Silva.

O ministro da Segurança Social estima que a alteração abranja cerca de 15 mil pensionistas e que tenha um custo anual de 49 milhões de euros.

Nos documentos que estiveram em discussão é explicado que, quem tenha carreiras contributivas muito longas (com as características acima descritas) poderá reformar-se sem qualquer penalização desde que tenha entre 60 anos e 63 anos e 3 meses. Se for mais velho, terá uma bonificação que segundo explicou o ministro será de 1% por cada mês além dos 63 anos e 3 meses.

O Governo tinha ainda anunciado um desagravamento generalizado das penalizações para quem se reforme antecipadamente, nomeadamente através da progressiva eliminação do factor de sustentabilidade, conjugado com outras regras que vão restringir o acesso à pensão antecipada. Contudo, esta segunda e terceira fase da alteração às regras ainda será discutida em Setembro, não tendo data certa para avançar. Vieira da Silva admitiu, contudo, que uma parte desta segunda fase da reforma possa entrar em vigor em Janeiro.

Catarina Almeida Pereira
Ler mais em: Jornal de Negócios 27.06.2017

25 de junho de 2017

Resiliência na velhice

As pessoas mais resilientes têm mais possibilidades de “escaparem” a doenças. O envelhecimento saudável e a longevidade também se encontram associados à resiliência.


”... Ultimamente têm-me acontecido muitas coisas... na mesma altura perdi o meu marido, parti uma perna, estive algum tempo internada e tive de deixar a minha casa. Penso muitas vezes que se isto me acontecesse noutra fase da vida, quando era mais nova, não aguentaria. E agora aqui estou, consigo estar bem...” Maria, 85 anos

O envelhecimento implica mudanças, muitas delas perdas e adversidades. Contudo, estas perdas não significam que o bem-estar das pessoas mais velhas esteja “comprometido”. A resiliência centra-se, precisamente, nos fatores e processos que fazem com que as pessoas resistam em circunstâncias difíceis, especialmente nas associadas aos desafios do envelhecimento. Trata-se de uma perspetiva positiva do envelhecimento, mais centrada nas potencialidades do que nos déficits. De facto, alguns estudos, tais como o Berlin Ageing Study, centram-se no elevado nível de bem-estar das pessoas idosas, que sugerem que, ao envelhecer, se conseguem ativar recursos adicionais que podem não estar presentes noutras etapas da vida.

Interessa então perceber que características se associam à resiliência. A resiliência psicológica começou por ser estudada em crianças e jovens expostos a adversidades para se compreender o que é que contribui para que alguns recuperem e resistam a traumas e outros não, desenvolvendo, inclusivamente, psicopatologia. Com o “despertar” da importância do envelhecimento bem sucedido na década de 60 e com um grande e crescente desenvolvimento durante e após a década de 90, surgiu um marcado interesse em se saber quais as características e dinâmicas explicativas da felicidade e da saúde na velhice. As pessoas mais resilientes têm maior possibilidade de “escapar” a doenças. O envelhecimento saudável e a longevidade também se encontram associados à resiliência.

Apesar de diferentes estudos indicarem que a maioria das pessoas mais velhas são resilientes, é fundamental termos em consideração que existe, também, um elevado e preocupante número de pessoas idosas com sintomatologia depressiva. Segundo os dados do Eurostat, em Portugal, em 2014, uma em cada 5 pessoas entre os 65 e os 74 anos relata ter depressão crónica. Sendo que, muitos dos casos, não estão diagnosticados e/ou não são tratados. Os motivos são vários, entre eles os ainda persistentes estereótipos em torno da doença mental, que tendem a desvalorizar este tipo de sintomatologia (“isso logo passa...” “são manias” ...) e /ou os mitos que ainda insistem em se considerar que a tristeza é normal na velhice e que não é necessário intervenção. A desconstrução deste tipo de falsas crenças é um eixo central para que se valorizem e mobilizem intervenções não farmacológicas e farmacológicas para o tratamento da sintomatologia depressiva e para a promoção da resiliência, quando esta não se manifesta de forma mais espontânea ao se envelhecer.

De que fatores depende a resiliência?

Há características que predispõem a pessoa a ser mais ou menos resiliente: a um nível mais individual, o tipo de funcionamento fisiológico; personalidade, como o facto de a pessoa ser aberta a novas experiências e o grau de extroversão; sentir ou não controlo; ter autoestima, autoeficácia e autodeterminação. A existência e desenvolvimento da espiritualidade também se tem revelado como um fator protetor relevante.

Em relação à forma como a pessoa lida com o processo de envelhecimento, as atitudes de autocuidado, aceitação de mudanças, otimismo e existência de emoções positivas tornam a pessoa resistente.

Numa vertente mais social, destacam-se as competências para exprimir opiniões e sentimentos, a existência de uma rede de apoio social e relações de intimidade e proximidade.

Estas características, entre outras, interagem de forma complexa, gerando dinâmicas que funcionam como “amortecedores” do impacto que as mudanças possam ter à medida que a pessoa vai envelhecendo.

E pode desenvolver-se?

A resiliência desenvolve-se ao longo da vida através de experiências, da educação, da comunidade e do amplo processo de desenvolvimento pessoal. Por exemplo, se a pessoa não teve de lidar com problemas de saúde ao longo da vida, terá mais dificuldade em se adaptar às alterações normais associadas ao processo de envelhecimento.

Algumas estratégias para o desenvolvimento da resiliência


  • Centrar-se no “lado positivo” – ser mais optimista.
  • Cuidar-se.
  • Ter relações sociais de qualidade.
  • Preservar a sua autonomia.
  • Treinar/exercitar competências.
  • Selecionar objetivos e atividades adequados às competências da pessoa.
  • Compensar possíveis défices.
  • Mobilizar as novas tecnologia como “apoio” para envelhecer bem.
  • Ser criativo e aberto a experiências.
  • Valorizar história de vida e experiências positivas.
  • Procurar emoções positivas.
  • Ser protagonista do seu próprio envelhecimento.

A resiliência pode, também, desenvolver-se através de intervenções psicológicas específicas, tais como a restruturação cognitiva, o treino na focalização nos aspetos mais positivos, o desenvolvimento de intervenções motivacionais e na redução da sintomatologia depressiva. O desenvolvimento de competências sociais e de assertividade e uma revisão de vida orientada que capacite a pessoa a ter uma visão mais positiva de si, capaz de integrar erros e rejeições, são alguns exemplos de intervenções psicológicas promotoras da resiliência na velhice.

Um foco central no estudo da resiliência na velhice tem sido, assim, o de perceber: como é que podemos tornar a pessoa mais resiliente ao longo do processo de envelhecimento?

Apesar da grande e crescente heterogeneidade das pessoas idosas, partir da experiência subjectiva de envelhecimento parece ser um eixo central para que a pessoa valorize e mobilize recursos para ser resiliente sentindo-se protagonista de uma história de vida única em que o envelhecimento é uma fase que se pode desfrutar e viver bem.

Rosa Marina Afonso

14 de junho de 2017

Violência contra idosos está a aumentar

Em quatro anos, entre 2013 e 2016, a violência contra idosos aumentou 30% em Portugal. São dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV)


A APAV registou um aumento de 30% de crimes contra idosos entre 2013 e 2016, sendo as mulheres as principais vítimas, muitas delas a sofrerem em silêncio há mais de 40 anos, segundo dados hoje divulgados pela associação.

Os agressores são na maioria os filhos (39,6%), o cônjuge (26,5%), mas também há casos em que são os vizinhos (4,4%) e os netos (36%), adiantam os dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), revelados na véspera do Dia Internacional de Sensibilização sobre a Prevenção da Violência contra as Pessoas Idosas.

Entre 2013 e 2016, a APAV registou um aumento de 34% nos processos de apoio a idosos, que totalizaram 4.475 - 941 (2013), 1.068 (2014), 1.205 (2015) e 1.261 (2016) -, em que 3.612 foram vítimas de crime e de violência, valores que se traduziram em 8.578 factos criminosos.

"São cerca de 24 pessoas idosas que recorreram aos nossos serviços por semana, uma média de três pessoas por dia, o que demonstra que já reconhecem a associação como uma entidade" que os apoia, disse à agência Lusa Maria Oliveira, técnica da APAV.

Contudo, a associação refere que estes dados "ainda são uma amostra daquilo que acontece na sociedade", havendo ainda "um grande trabalho a fazer de sensibilização e proteção dos direitos das pessoas idosas", defendeu Maria Oliveira.

Na maioria, as vítimas são mulheres (79,5%), com idades entre os 65 e 69 anos (26,8%), casadas (42,8%) e a viverem numa família nuclear com filhos (31,7%), o que faz com que a maioria das situações de violência aconteça em casa (48,9%).

Das 1.009 vítimas registadas em 2016, contra 774 em 2013, 679 tinham idades entre os 65 e os 79 anos (67,4%) e 330 tinham entre 80 e mais de 90 anos (32,6%).

O número de agressores contabilizados neste período, ultrapassou o de vítimas (3.612), ascendendo aos 3.782, sendo na maioria homens (68,2%), com idades entre os 65 e os 74 anos, reformados (21%) e desempregados (19%).

O tipo de vitimação continuada, com uma duração entre dois e seis anos (8,7%), prevaleceu em 2016. Contudo, houve 45 vítimas (4,3%) que sofriam situações de violência há mais de 40 anos.

"É uma amostra significativa, que é preocupante, porque estamos a falar de relações de conjugalidade que perduram ao longo de muitos anos", disse Maria Oliveira.

Muitas destas situações acabam por ser denunciadas "por terceiros", como profissionais de saúde ou familiares diretos, mas também pela vítima, que já não consegue suportar mais a violência física e verbal.

Em 2016 foram registados 717 casos de maus-tratos psíquicos (30,1%), 442 de maus-tratos psicológicos (19%) e 281 de ameaças/coação (12,1%).

Estes números demonstram que as situações de violência em contexto familiar "não acarretam necessariamente a violência física, mas muitas vezes a psicológica", explicou Maria Oliveira.

Há expressões de preconceito como "já não prestas", "raça da velha", que "muitas vezes ouvimos em relação à velhice, ao envelhecimento" e ao próprio idoso, que constituem uma violação de direitos humanos.

"Cada vez mais há uma violação constante dos direitos das pessoas idosas quer a nível da sua autonomia, quer na sua capacidade de decisão", e "situações de violência e de crime" que "não podem voltar a acontecer".

Para isso, defendeu, tem que ser feito um trabalho de forma articulada entre as várias entidades da justiça, saúde e segurança social e as organizações que apoiam estas vítimas.

LUSA
Ler mais: DN 14.06.2017 Sociedade

10 de junho de 2017

AGE – Platform Europe, Declaração Final Aprovada na Assembleia Geral de 08.06.2017

Neste momento histórico para a União Europeia, enquanto comemoramos este ano o 60.º aniversário do Tratado de Roma, mas também enfrentamos novos desafios, a Assembleia Geral da AGE Platform Europe convida as instituições europeias, os Estados-membros da UE, as autoridades locais e regionais a reconstruir um Projeto coletivo destinado a conferir à UE uma verdadeira identidade graças à sua capacidade de integração, baseada nos valores fundamentais da União Europeia: dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, estado de direito e respeito pelos direitos humanos.

O respeito e o gozo dos direitos humanos de todos os indivíduos são uma característica fundamental das nossas sociedades democráticas. O direito a ser respeitado e tratado com dignidade e participar na sociedade pode parecer óbvio para muitos, mas pode ser um verdadeiro desafio para outras pessoas, especialmente se elas são mais velhas. Na última década, os contextos global e da UE mudaram radicalmente as paisagens políticas e sociais da Europa.

A persistente crise financeira, económica e social combinada com a "pressão" demográfica, o impacto cumulativo das políticas de austeridade, a crise da migração e dos refugiados, o crescente medo dos ataques terroristas, o populismo que avançou em muitos países, e o choque do referendo da UE no Reino Unido, levam todos a um sentimento crescente de que a UE precisa de reconsiderar os seus objetivos, a organização e os processos.

Contra esta evolução, a rede AGE Platform Europe congratula-se com a proposta do Pilar Europeu dos Direitos Sociais como um instrumento fundamental que pode ajudar a UE a reconectar-se com os seus cidadãos e criar uma sociedade voltada para o futuro, onde todos têm um papel a desempenhar, valorizada e apoiada para liderar uma vida ativa e autónoma independentemente da idade, género, raça ou origem étnica, religião, deficiência ou orientação sexual. Manter e promover os nossos valores europeus básicos de dignidade, solidariedade e igualdade deve continuar a orientar todas as ações externas e internas da UE.

A este respeito, uma convenção internacional sobre os direitos das pessoas idosas é, em última instância, um reconhecimento importante de que os cidadãos mais velhos são de igual valor para a sociedade. Ela chama a atenção do público para as barreiras estruturais e culturais específicas que impedem que mulheres e homens mais velhos desfrutem dos seus direitos. Estabelece as mudanças necessárias para que os Estados-membros cumpram as suas obrigações nos termos dos instrumentos universais dos direitos humanos existentes e incentivem a criação de mecanismos que os idosos possam usar para reivindicar os seus direitos.

A AGE Platform Europe e os seus membros exortam os Estados-membros, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia a proclamar os direitos propostos pelo Pilar Social da UE durante a próxima “Cúpula Social” em 17 de novembro de 2017.

O Pilar Europeu dos Direitos Sociais deve ser aproveitado como a única oportunidade de propor uma ambiciosa agenda social para a UE. O conjunto proposto de direitos aborda a Declaração de Roma, assinada pelos líderes dos 27 Estados-membros da UE em 25 de março de 2017, que enfatizou a importância de uma Europa social forte. A realização dos princípios e direitos definidos no Pilar Europeu dos Direitos Sociais é agora uma responsabilidade conjunta dos governos nacionais, das instituições da UE, dos parceiros sociais, da sociedade civil e de outras partes interessadas. Os membros da AGE Platform Europe pedem que as condições institucionais e políticas necessárias sejam cumpridas para que o Pilar seja efetivamente implementado em todos os países da UE. As pessoas mais velhas e as suas organizações estão interessadas em participar ativamente na implementação do Pilar. Qualquer reforma socioeconómica futura deve impulsionar o crescimento da Europa, respeitando o direito dos idosos à dignidade e à independência, em conformidade com o artigo 25.º da Carta dos Direitos Fundamentais da UE. Chamamos particularmente a atenção dos decisores políticos para utilizarem o Pilar Europeu dos Direitos Sociais para traduzir na prática o direito a uma saúde e a cuidados de longa duração acessíveis e de qualidade, bem como o direito a pensões adequadas e a um rendimento mínimo de velhice para a atual e as futuras gerações. Uma simples redistribuição da riqueza é necessária para assegurar que mulheres e homens de todas as idades vivam e envelheçam com dignidade.

Além disso, tendo em vista a aplicação dos direitos das pessoas idosas, a AGE convida a UE e os seus Estados-membros a avançar nas seguintes áreas:

• Combater a discriminação proativa persistente da idade em todas as áreas da vida das pessoas mais velhas


Devido à omnipresença do “ageism” e no contexto do envelhecimento demográfico, a discriminação relativa à idade deve receber a mesma atenção, a nível da UE e a nível nacional, de outros motivos de discriminação e merece ser uma prioridade de trabalho identificada no programa de trabalho da Direção-Geral da Justiça, tanto como todos os outros motivos de discriminação enumerados nos artigos de não discriminação do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE). Além disso, a UE e os Estados-membros devem intensificar os seus esforços para adotar uma proposta de diretiva de tratamento horizontal da UE, que é necessária para assegurar que todos, incluindo as pessoas idosas, possam participar igualmente na sociedade. A implementação da lei de igualdade existente e futura deve evitar amplas isenções à discriminação da idade que arriscam invalidar o princípio da igualdade.

• Lutar contra o abuso, violência e negligência de pessoas idosas


A UE deve abordar estas graves violações dos direitos humanos das pessoas idosas, facilitando a adoção, pelos Estados-membros, de metodologias comparáveis ​​para medir a prevalência das diferentes formas de abuso de idosos. Isso deve fazer parte de um plano de ação mais amplo da UE para aumentar a visibilidade da consciência do abuso de idosos em debates públicos e encorajar os Estados-membros a desenvolver estratégias específicas. A implementação da Diretiva da UE sobre os Direitos das Vítimas de 2012 deve contribuir para oferecer um melhor apoio e proteção aos idosos vítimas de abuso, que podem ser alcançados pela formação de profissionais de cuidados, serviços de apoio a vítimas, polícias e profissionais de justiça, entre outros, para sensibilizar todos os atores para a especificidade do abuso de idosos e as necessidades especiais das vítimas mais velhas.

• Abordar o desafio da migração e dos refugiados na perspetiva dos direitos humanos e também como uma oportunidade social e económica


Uma resposta coerente e comum da UE é indispensável para transformar o desafio da migração de hoje e da crise dos refugiados numa oportunidade. A União Europeia deve oferecer formas seguras de entrar legalmente no seu território e garantir que os migrantes e refugiados de todas as idades recebam o apoio necessário e tenham poderes para se tornarem membros de pleno direito das sociedades de acolhimento. A resposta à migração e à crise dos refugiados é um ato humanitário, expressão de solidariedade, bem como uma oportunidade social e económica que seria benéfica para a paz e prosperidade de todos.

• Apoiar a igualdade de oportunidades para as pessoas idosas a um nível básico, através da promoção de ambientes amigos ​​da idade em toda a EU


Para ajudar a combater o “ageism”, é essencial construir ambientes amigos ​​da idade (AFE). Em primeiro lugar, eles capacitarão os trabalhadores mais velhos a permanecerem no trabalho por mais tempo, através da aquisição de novas habilitações, da transferência de conhecimento, da redução da divisão digital entre as gerações e, eventualmente, na criação de um mercado de trabalho inclusivo para os trabalhadores mais velhos. Além disso, a AFE apoiaria as pessoas mais velhas em termos de melhor saúde física e mental; promoveria a inclusão social e a participação ativa; e ajudá-las-ia a manter o seu direito à vida independente e a uma boa qualidade de vida na velhice. O AFE é uma condição prévia básica para as pessoas idosas poderem desfrutar dos seus direitos em igualdade de condições com as outras faixas etárias. Ademais, a criação do AFE diminuiria a pressão sobre os cuidados e assistência tradicionais e desenvolveria a economia através da demanda de soluções inovadoras.

• Acompanhar os esforços e contribuir para a reflexão da ONU sobre os direitos das pessoas idosas


Com base na resolução do Parlamento Europeu de 2016, que solicitou à UE e aos Estados-membros que incentivem ativamente o debate sobre os direitos dos idosos no âmbito do Grupo de Trabalho de Conclusão das Nações Unidas (OEWG), esperamos que o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Grupo de Trabalho dos Direitos do Homem do Conselho (COHOM) prossigam a discussão em torno de um novo instrumento internacional vinculativo sobre os direitos das pessoas idosas, para que possam gozar plenamente dos seus direitos.

• Promover ativamente uma imagem positiva do envelhecimento e reconhecer as contribuições das pessoas idosas


As contribuições das pessoas mais velhas para a sociedade são muitas vezes desvalorizadas e a velhice é frequentemente vista como sinónimo de declínio, carga e inutilidade. A UE e os Estados-membros devem sensibilizar para a diversidade das pessoas idosas em termos de necessidades, preocupações e expectativas; reconhecer as suas numerosas contribuições, nomeadamente como trabalhadores, cuidadores informais, voluntários, avós, consumidores e atores políticos; identificar as múltiplas discriminações que enfrentam ao usufruir dos seus direitos. A diversidade de todas as gerações deve ser respeitada, tratando as diferentes faixas etárias de forma equitativa em nome da igualdade e da dignidade.

Como membros da geração mais velha, temos o dever de defender os nossos valores compartilhados e o sonho europeu que nós e nossos pais construímos nas últimas décadas. O nosso objetivo é uma União Europeia de paz e solidariedade, crescimento e prosperidade para todos, respeitando a diversidade entre todas as populações e grupos etários. Juntos, queremos prosseguir os nossos esforços a favor de uma sociedade inclusiva de todos e continuaremos a unir forças para assegurar um futuro melhor e mais seguro para todas as gerações na Europa e em outras partes do mundo.

9 de junho de 2017

Prestações sociais absorveram 92,5% dos recursos da Segurança Social

As pensões de velhice sofreram um acréscimo de 3% em termos homólogos, representando a maior fatia (75,1%) do valor despendido com pensões e complementos.


As prestações sociais absorveram no ano passado 92,5% dos recursos da Segurança Social, num total de 22,3 mil milhões de euros, mais 274,1 milhões de euros (1,2%) face a 2015, segundo dados divulgados hoje pelo Tribunal de Contas (TdC).

Entre as prestações sociais, o TdC diz que merece referência a rubrica de pensões e complementos, que apresentou um aumento de 2,4% (que compara com um acréscimo de 2,5% da despesa efectiva), em termos homólogos, totalizando os 16,1 mil milhões de euros (66,8%).

Este valor representa 72,2% das prestações sociais e mais de metade (66,8%) da despesa efectiva.

As pensões de velhice sofreram um acréscimo de 3% em termos homólogos, representando a maior fatia (75,1%) do valor despendido com pensões e complementos.

De acordo com o TdC, o comportamento das despesas com pensões de velhice no ano passado incorpora, entre outros, os efeitos da restrição na atribuição de pensões antecipadas, o aumento da idade da reforma para os 66 anos em 2014, sujeita a ponderação do fator de sustentabilidade nos anos seguintes, o levantamento da suspensão do regime de atualização das pensões atribuídas pelo sistema de Segurança Social e, ainda, os efeitos da pressão demográfica sobre o sistema.

No conjunto do ano, a receita e a despesa efectivas do sistema de Segurança Social cresceram 4,5% e 2,5%, respectivamente, face ao período homólogo anterior.

O relatório hoje divulgado pelo TdC é o resultado do acompanhamento da execução provisória do orçamento da Segurança Social de 2016, incluindo as origens e aplicações de fundos, de acordo com os dados fornecidos pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, IP (IGFSS).

O tribunal concluiu que o Orçamento do Estado (OE) para 2016 manteve as medidas com vista à redução da despesa pública e à recuperação da receita fiscal e contributiva, tendo introduzido outras, direccionadas ao crescimento económico e ao reforço da coesão social, de que se destacam as relativas a política salarial pública e a prestações sociais (rendimento social de inserção, complemento social para idosos, prestações familiares e pensões).

O relatório faz notar que o saldo de execução efectiva no final de 2016 situou-se e 1,559 mil milhões de euros, incorporando 649,6 milhões de euros de transferência extraordinária do OE para financiamento do défice do sistema previdencial (menos 27,4% em termos homólogos).

"Desde 2012 que este sistema tem sido financiado com transferências extraordinárias do OE, sem as quais nos anos de 2012 a 2014 os saldos efectivos globais do sistema de Segurança Social seriam deficitários", sinaliza o TdC.

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) estava avaliado em 14,246 mil milhões de euros no final do ano passado, 116,4% da despesa com pensões do sistema previdencial de 2016.

Durante o ano, o fundo valorizou-se 146,4 milhões de euros (1%), relativamente ao período homólogo, mas menos 0,6%, se não forem consideradas as dotações recebidas que atingiram 227,5 milhões de euros, e diminuiu (2,3 pontos percentuais) a concentração da carteira em dívida emitida ou garantida pelo Estado Português (75,8%).

Ainda de acordo com o relatório, a receita e a despesa efectivas da Caixa Geral de Aposentações cresceram, face ao período homólogo anterior, 0,7% e 0,1%, respectivamente, relevando pelo seu peso, na primeira, as contribuições e quotizações e as transferências do OE (90,7%) e, na segunda, as pensões (98,0%).

Em 2016, a receita proveniente de contribuições e quotizações apenas cobriu 41,0% da despesa com pensões.

A reposição da regra de actualização de pensões, a regressão gradual das medidas restritivas aplicadas e a diminuição do número de beneficiários passivos com pensões médias atribuídas no ano a apresentarem um desvio para menos face ao total na ordem dos 27,1% (menos 347,8 milhões de euros em termos absolutos) "foram factores determinantes para o comportamento da despesa com pensões que regista uma variação de 0,03%", refere o TdC.

As reservas relativas aos fundos de pensões transferidos para a CGA decresceram relativamente ao período homólogo, representando, no final do ano, 85,9% das reservas iniciais (87,6% em 2015) e o esforço do Estado e da CGA para financiamento de pensões de beneficiários dos fundos cujas reservas se esgotaram totalizaram, em 2016, 204 milhões de euros.

LUSA

7 de junho de 2017

A APRe! designada como membro do Conselho Nacional para as Políticas de Solidariedade e Segurança Social


Na sequência da entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 48/2017 que define a composição, as competências e o modo de funcionamento do Conselho Nacional para as Políticas de Solidariedade, Voluntariado, Famílias, Reabilitação e Segurança Social (CNPSSS), a APRe! foi designada para fazer parte do conselho como um dos membros representantes dos aposentados, pensionistas e reformados.

A APRe! indicou o seu Vice-Presidente Fernando Martins, como seu representante no Conselho Nacional para as Políticas de Solidariedade e Segurança Social.

25 de maio de 2017

Como foi a assinatura do protocolo entre a ANAI e a APRe!

Tal como informado, decorreu no passado dia 23 de Maio de 2017 no café Santa Cruz em Coimbra, pelas 18h30, a assinatura do protocolo entre a ANAI e a APRe! pelos seus respectivos Presidentes.

Maria do Rosário Gama e José Ribeiro Ferreira, presidentes da APRe! e da ANAI, respectivamente, salientaram na sua curta intervenção, a missão e valores comuns na defesa dos direitos das pessoas idosas e de um envelhecimento com respeito e dignidade.

A Professora Doutora Margarida Pedroso Lima convidou-nos, durante 30 minutos, a uma reflexão sobre a nossa personalidade ao longo do processo de envelhecimento e de que forma podemos "ser" para melhorarmos a nossa qualidade de vida.

A cerimónia que teve uma assistência diversificada e interessada, foi encerrada pelo Coro APRe! Coimbra com uma interessante interpretação de três peças musicais, sob a direcção da maestrina Susana Teixeira.