14 de março de 2013

Carta Aberta à Troika


APRe!

CARTA ABERTA À TROIKA
(EU*FMI*BCE)

       
Caros Senhores,
     
      Quase não temos República, quase já só temos gente pobre em crise.
      A vossa incompetente intervenção na política económica do nosso país é retrógrada e abusiva para um povo com 870 anos de história. Não têm o direito de nos impor um modelo económico que o povo não escolheu e nem sequer foram eleitos para reformarem o que quer que fosse.
    Resistimos a «governantes» que traíram o voto do povo e que violam reiteradamente a Constituição, logo não têm legitimidade democrática.
    Nós, pensionistas, estamos a ser triturados como «gorduras do Estado», recebendo pensões dependentes da vontade do «senhor» e não da lei aprovada democraticamente.
    Querem reciclar o Estado social, um dos mais débeis da Europa, porque não contribui para a melhoria da Balança de Pagamentos da Alemanha, ao invés dos submarinos e porventura do equipamento ferroviário. Querem convencer-nos que não temos dinheiro para esse “luxo”, quando nós sabemos que é tudo uma questão de prioridade na afectação dos nossos recursos. O Estado social é pago com os nossos impostos e taxas para a segurança social. Os vossos caros empréstimos vão directamente para os bancos (BPN, BANIF), para as parcerias público-privadas e para os gabinetes dos advogados e das consultoras.
   Conhecemos a vossa obsoleta ortodoxia liberal e sabemos que após o Estado social, seguir-se-ia a destruição da Administração Pública, abrindo caminho à sua privatização, passando para grupos económicos sedentos de rendas públicas.
    Caros Senhores, está na hora de ganharem um novo pensamento político e de confiarem nos portugueses que dispensam as vossas visitas trimestrais (afinal não somos parceiros?) e creiam que somos um povo de pessoas sérias e honradas que gosta de pertencer à Europa, mas não a esta Europa.
   APRe! merecemos melhor sorte.

Portugal, em Fevereiro de 2013
Pel’A APRe!
Carlos Frade e  Maria do Rosário Gama

13 de março de 2013

Antena


Entrevista concedida hoje por Rosário Gama e Fernando Martins ao RCP Live

12 de março de 2013

Quotas da APRe!

PAGAMENTO DE QUOTAS – ANO 2013

Porque têm sido solicitadas várias informações sobre o pagamento de quotas referentes ao ano de  2013, informamos que o mesmo poderá ser feito anualmente ou semestralmente.
Se pretende pagar o primeiro semestre de 2013, transfira 6,00 Euros.
Se pretende pagar todo o ano de 2013, transfira 12,00 Euros.
NIB para transferência bancária: 
0035 0185 00021699 930 81
Depois, não se esqueça de enviar o comprovativo da transferência bancária para: inscricao.apre@gmail.com
ou para:
APRe! - Rua do Teodoro, n.º 72-2.º Esquerdo / 3030-213 Coimbra
indicando o seu nome e número de sócio.

11 de março de 2013

Opinião

A "maré grisalha” 

1 - No comentário que apresentou na SIC, logo após a manifestação dos indignados do passado 2 de Março, Ricardo Costa, director do Expresso, notou que o que esta manifestação trazia de novo, e com mais significado, relativamente à anterior, de 15 de Setembro, era a presença organizada de milhares de reformados, que constituíram uma das marés autónomas em que se desdobrou a iniciativa - a “maré grisalha” - e que em muito engrossaram as fileiras dos manifestantes.
Essa mesma nota foi salientada por Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, dia 3 de Março. 
Tenho-me referido, nestas crónicas e em diversas ocasiões, ao estatuto dos reformados na sociedade e no tempo em que vivemos, em particular no contexto do discurso e da retórica públicas de desconsideração e exautoração que visa esse sector tão significativo da população – dentro das velhas técnicas da propaganda, de inventar um bode expiatório e apresentá-lo às massas ignaras como portador de uma pretensa culpa colectiva, prejudicial aos interesses mais primários dessas massas, antes de lhe desferir a estocada fatal e como justificação desta.
Afinal, tantos reformados dedicam o seu muito tempo e saber ao trabalho voluntário nas Instituições de Solidariedade, seja como dirigentes, seja em serviços sociais. 
(Ainda na crónica do mês passado tive ocasião de eu próprio dar conta aos meus leitores da indignação que senti com um deputado da maioria, que, achando que fizera um figuraço, resolveu publicar um texto em que se referia aos reformados como a “peste grisalha” – contaminando, ele sim, a conotação semântica da palavra “grisalha” com os miasmas mortais da “peste”.) 
De par com os funcionários públicos, mas mais intensamente do que eles, os reformados estão hoje colocados no mesmo pelourinho em que o anterior Governo colocara os juízes e os professores, e com idêntica finalidade: captar o apoio dos outros, dos que estão fora do âmbito dessa condenação e da “culpa” – para depois alterar as condições de estatuto, carreira ou retribuição dos condenados.
No caso, confiscando-lhes as reformas ou os salários, em nome do “ajustamento”.
2 - Creio que tem havido na actual barreira de tiro cerrado dirigido aos reformados uma grosseira incompetência sociológica.
Os jovens dos gabinetes de “agit-prop” ou das agências de comunicação que organizaram a campanha estão numa idade perigosa, entre os 40 e os 50 anos: têm uma ideia vaga do que tenha sido o 25 de Abril e não têm ideia nenhuma sobre os anos que precederam a Revolução.
Mas têm a arrogância e prosápia toda – própria de quem sempre tem vivido, esses sim, das rendas públicas, à sombra do Orçamento de Estado.
Ora, a geração que agora se tem reformado, principalmente a mais qualificada, de cerca de 60/65 anos de idade, foi a geração que se forjou no combate contra o anterior regime, nas lutas estudantis e nas empresas, nos liceus e nas universidades.
Ainda traz na alma a vivacidade – agora associada à nostalgia – dos anos que imediatamente precederam e se seguiram à Revolução de Abril.
(A escolha da entoação colectiva da canção “Grândola, Vila Morena” tem essa filiação directa nos ideais de Abril.)
É a geração que começou a trabalhar nos anos 70 do século passado; e que agora, passados 40 anos, se reforma.
Teve, na juventude, a utopia do futuro – e agora dizem-na um peso, descartável.
Com plena capacidade intelectual e, embora em menor grau, boas condições físicas.
Indignados, pelo menos os reformados da função pública, por se terem sentido empurrados por sucessivos governos para uma reforma precoce, que não queriam, mas temerosos da gradual e uniforme degradação das condições de trabalho e de aposentação, principalmente a partir de 2007, e aceleradas nos dois últimos anos.
Estes reformados não correspondem ao estereótipo dos velhos sentados à lareira, de manta nas pernas, temerosos de dar uma opinião ou formular publicamente uma crítica, formados no “país do respeitinho” de antigamente, que Alexandre O’Neill tão bem retratou (- “Neste país em diminutivo/ - Respeitinho é que é preciso”).
Vão à luta.
Ajudam os filhos desempregados e cuidam dos pais inválidos.
Dar-lhes uma motivação é um risco para os aprendizes de feiticeiro, que não sabem lidar com o fogo.
3 – Detestam, além do mais, ser tomados por parvos, ou servir de pretexto para tomar por parvo o povo.
A intensidade da ofensiva levou-os a informar-se melhor sobre os números e as contas, as políticas e os desastres.
Hoje sabem todos que não é verdade que o Orçamento da Segurança Social, na parte relativa ao sistema previdencial, financiado pelas contribuições de patrões e trabalhadores, e que suporta o pagamento das reformas, seja deficitário, ou corra o risco de o vir a ser, de forma estrutural – como agora se diz -, nas próximas décadas.
Pelo contrário, sabem que os saldos desse Orçamento têm sido preciosos para compor o défice do Orçamento do Estado.
Também sabem todos das descapitalizações que, umas vezes por boas razões, outras por más razões, diminuíram as reservas financeiras da Segurança Social:
- a que foi devida à atribuição de pensões aos trabalhadores rurais e aos trabalhadores do serviço doméstico, nos anos 70 do século passado, sem reservas específicas para tal pagamento e que foram suportadas, portanto, pelas contribuições do regime geral;
- e também a descapitalização devida à instituição da pensão social, não contributiva, para as pessoas que não eram beneficiárias de nenhum sistema de protecção social – pensão que, durante os primeiros anos, foi também assegurada pelas contribuições do regime geral, em vez de o ser, como era devido, por transferência do Orçamento do Estado; 
- para não falar, agora no que toca às más razões, das aplicações financeiras de fundos da Segurança Social no BPN – e que foram pela enxurrada;
- ou das perdas financeiras sofridas pelas reservas da Segurança Social aquando das nacionalizações posteriores ao 25 de Abril, já que as Caixas de Previdência eram accionistas de referência de várias grandes empresas, então nacionalizadas;
- ou de os Governos, durante muitos anos, não terem transferido para a Segurança Social, como a lei impunha, os valores relativos às prestações não contributivas e à acção social.
Os reformados da função pública também não o sabiam antes – mas agora já sabem que, se a Caixa Geral de Aposentações se apresenta igualmente descapitalizada, foi por o Estado não pagar as contribuições que lhe competiam, durante muitos anos – como exige aos patrões privados.
(Pagava 1% de contribuições – em vez de 23,5%.)
E por ter cessado a admissão de novos beneficiários, o que fez com que os trabalhadores da função pública admitidos nos últimos anos já não paguem as suas contribuições para a Caixa Geral de Aposentações – que deixou assim de ter receitas -, passando a contribuir para a Segurança Social.
Dizer a esta gente, que lê livros e jornais, que conhece e interpreta o mundo em que vive, que tem à flor da pele o apelo à contestação e à luta, dizer a esta gente que as pensões para que contribuíram toda a vida são “generosas” e que afinal não contribuíram devidamente para elas, ou insinuar-lhes que são um fardo e uma despesa suportada pelos filhos, é uma ofensa à verdade que não vão deixar que fique.
E é chegar o lume ao pé da estopa.
Arde.
Sempre.

Henrique Rodrigues
(Jornal Solidariedade)

8 de março de 2013

Opinião

Homem enfurecido abre a boca e fecha os olhos

Semana após semana, mês após mês, ano após ano, primeiro numa estação televisiva a título de convidado em permanência do inefável Mário Crespo (quer no Jornal das Nove, quer no Plano Inclinado, por onde o encrespado “jornalista” parece ter escorregado de vez por intervenção de alguma divindade benfazeja), depois numa outra estação, Medina Carreira, confirmando a máxima de Catão, o Censor, é o exemplo acabado de que “um homem enfurecido abre a boca e fecha os olhos”, o que não deixa de ser paradoxal se se tiver em conta o nome do programa. 
Para gáudio do zé povo, encarniça-se contra todos e quaisquer governantes, o que explica a legião de dezenas de milhares de fãs que sorvem sofregamente o veneno que vai destilando, numa arenga interminável, entregando-se a paroxismos de fúria e desdém. Nos seus melhores dias não hesita perante o insulto. E a populaça rejubila. “Medina Carreira a 1º ministro!” reza uma página do Facebook. 
Diga-se em abono da verdade que, no que respeita a convidados, MC não discrimina. Basta-lhe que possam ser utilizados na sua cruzada contra “esta rapaziada”. Por ali passa de tudo, desde o mais probo ao mais repugnante. Sensatez e insensatez são ambas filtradas pela hermenêutica do rancor e do ressentimento. É esta a chave do seu êxito: ter adoptado uma versão “erudita” da linguagem radical das redes sociais, enriquecida pela opinião técnica (por vezes credível) e ilustrada por gráficos a condizer. 
Para nós, pobres desgovernados que somos, as diatribes do demagogo enfurecido soam como música aos nossos ouvidos. Dir-se-ia que somos incapazes de aprender com erros passados. Incapazes de quebrar o fascínio que sobre nós exerce o canto das sereias, sempre prontos a atirarmo-nos contra os rochedos e a afundarmo-nos na vã esperança de ilusória felicidade. Mas depressa o sedutor muda de direcção e se converte em profeta catastrofista, e passamos a ser nós o objecto das suas invectivas. Do ilusionista, esperávamos que tirasse da cartola um coelho bem esfolado, mas a cartola revela-se uma nova caixa de Pandora que, uma vez aberta, faz recair sobre nós todas as desgraças. Julgávamo-nos a salvo e somos entregues às Fúrias. Semana após semana, mês após mês, o feiticeiro lança sobre nós o mau olhado. E somos sempre nós, o zé povo que o idolatra, que, no fim do espectáculo, acabamos escaldados e esfolados. 
Na última 2ª feira, com continuação prometida para a próxima semana, os reformados estão na berlinda. E, como dizia o outro, “não havia necessidade”. Não só porque MC não deixa passar semana em que não nos mimoseie, em cenários de horror, com a promessa de um destino apocalíptico, mas também porque nos últimos tempos temos estado permanentemente na mira da odiada “rapaziada” que nos desgoverna. Esquecem-se rancores e ressentimentos e os inimigos viscerais unem-se em “santa aliança” contra os reformados, principais arguidos no processo de bancarrota do país.
Uma ex-governante vem desta feita ajudar à festa e traz consigo dados, números e estatísticas quase tão impressionantes como o seu currículo e pedigree: Maria Margarida de Lucena de Castelo Branco Corrêa de Aguiar, enxotada da sua secretaria de estado pelo respectivo ministro, Bagão Félix (caso para dizer, com o nosso Bernardim Ribeiro, que “qual fora então a causa… já então era o que agora havia de ser”). Gráfico após gráfico, empalidece a nossa Constituição, a tal que "não serve para nada [porque] não paga despesa nenhuma", e empalidecemos nós que nos julgávamos protegidos por esta última. A estatística reina sobre a lei e a política. Para estas criaturas, não somos cidadãos no pleno gozo dos direitos constitucionalmente garantidos: somos parcelas da despesa, uma peste grisalha (para usar a elegante metáfora do deputado Peixoto) que dizima a riqueza nacional, euro a euro. 
Tudo isto se passa entre sorrisos e graçolas, dichotes e gracinhas, em alegre e descontraído “tête-à-tête” com D. Judite e Dona (sim, Dona, por extenso, que o respeitinho é muito bonito) Margarida Etcetera, interrompido de quando em quando para deixar o histrião expressar os seus ressentimentos. Nada que os incomode verdadeiramente, a eles que se sabem todos ao abrigo do destino que nos auguram.

Luis Gottschalk