18 de outubro de 2013

Póvoa de Varzim/Vila do Conde



APRe!
Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados
Núcleo Póvoa de Varzim/Vila do Conde

AOS APOSENTADOS, REFORMADOS E PENSIONISTAS – PÓVOA DE VARZIM 
E VILA DO CONDE

SESSÃO PÚBLICA EM 23 DE OUTUBRO DE 2013 -10 HORAS

Local – Universidade Sénior da Póvoa de Varzim – Avenida Mouzinho de Albuquerque, 32 - 4.º - Póvoa de Varzim (quase em frente à Igreja de S. José)

Com o objectivo de se avançar com a constituição do núcleo da Póvoa de Varzim/Vila do Conde (PV/VCD), da APRe!, convocamos e apelamos à participação de todos os reformados associados e não associados destes concelhos para a reunião a realizar no dia, hora e local acima indicados.

Principais questões a tratar: 

1 – Apresentação da APRe! e objectivos que se propõe atingir
      1.1 – Funcionamento do núcleo PV/VCD
1.2 – Angariação de novos sócios
      2 - Apresentação do Caderno Reivindicativo dos Aposentados, Pensionistas e Reformados
      2.1 – Os cortes nas pensões e as condições de vida dos reformados
      2.2 - Acções jurídicas e de luta a desenvolver para defesa dos direitos dos reformados

Nesta reunião estará presente a delegada da APRe! no Norte e um membro da Direcção da APRe!.

Apelamos, uma vez mais, à participação dos já associados e que estes ajudem a mobilizar todos os demais reformados para dar mais força a uma ASSOCIAÇÃO que já tem um trabalho imprescindível na defesa dos seus interesses e direitos. 

A Delegada da APRe!
Eduarda Neves

Algarve


Faro
Stand da APRe! na Feira de Santa Iria

17 de outubro de 2013

Porto

A "APRe!" no PORTO

Hoje, no Porto, junto à estação de metro da Trindade, entre as 14h e 30m e as 19h e 30m, a “APRe!” esteve em acção de informação (relativamente ao que este governo se prepara para fazer: o que representa a chamada “convergência” e o precedente que constituiria, em termos de princípio derrubado, caso tal intenção viesse a ser validada – a questão da retroactividade) e de divulgação – quanto ao seu objectivo primeiro de defesa de reformados, todos eles, e de resistência cívica a quantos desmandos contra eles haja ou venha a haver.
O dia não foi escolhido por acaso: depois da nossa acção de protesto, ao longo de todo o dia, no dia 10, junto à delegação da CGA, importava que se não deixasse morrer o que de mais grave esta questão suscita – e que a comunicação social tem calado, como se o que está em jogo fosse (apenas!) mais um “corte”, não distinguindo nem a sua natureza nem o que dela, em termos constitucionais, decorre. Como era hoje o dia agendado para a discussão desse projecto de lei, pareceu-nos que seria boa altura para chamar, mais uma vez, a atenção para o caso.
Temos visto como a sobreposição de casos, nos últimos dias, e a “novidade” entretanto sobrevinda (a do Orçamento de Estado para o próximo ano) acabaram por ter o efeito que o governo pretendeu – e, no meio de tanto com que somos diariamente confrontados, poucos fazem ideia do que está a ser escamoteado. Ora, o que o governo tem conseguido assim esconder, com a conivência dos “media”, é o mais grave, o inadmissível: que ali, no que está em “discussão”, se joga uma essencial fronteira entre o que é Estado de Direito e uma qualquer “república das bananas”. Temos a obrigação, pela nossa maior responsabilidade, em termos cívicos, de o desmascarar. Foi o que tentámos. 

Aida Santos

Aqui ficam recortes, em imagens, da tarde:


16 de outubro de 2013

Pensões

AINDA SOBRE AS PENSÕES DE SOBREVIVÊNCIA 

Desculpem voltar ao tema, (...) mas a demagogia, a ignorância (?), o palavreado sem vergonha e os voluntários e enganosos discursos dos políticos e de muitos “doutos” comentadores, levam-me a sublinhar os seguintes pontos: 

1. As pensões de sobrevivência, que incluem as pensões de viuvez e de sobrevivência, integram o sistema previdencial contributivo do regime geral da segurança social, sendo de frisar que aquele sistema, além do seu auto-financiamento (receitas exclusivas do Orçamento da Segurança Social), tem por base uma relação sinalagmática entre a obrigação legal de contribuir e o direito àquelas prestações, ou seja, é condição de acesso às mesmas prestações a existência de um período prévio de descontos. 
Porque se incluem na protecção da eventualidade “morte”, esta prestação faz parte da herança do seu titular, pois a morte é o evento (ou acontecimento) que dá origem a esta prestação, que todavia é diferente do direito do beneficiário à mesma prestação (o/a viúvo/a, e/ou seus sobreviventes). 
O direito à prestação de viuvez e sobrevivência do regime contributivo, tem como objectivo compensar os familiares da perda dos rendimentos de trabalho determinada pela morte do seu titular. 

2. Assim, não é correcto falar-se aqui na acumulação de pensões, pois: 
a) O titular do direito não é o beneficiário desse mesmo direito: o titular do direito é a pessoa que faleceu (o facto jurídico ou evento que origina a prestação é a morte), e o beneficiário do direito é aquele (viúvo /viúvo ou outros descendentes ou ascendentes) que, em virtude da morte do titular, viram diminuídos os rendimentos do agregado familiar. 
b) A natureza da acumulação de pensões é obviamente distinta, porque esta supõe a mesma titularidade, ou seja, é seu pressuposto que o titular do direito é o mesmo, embora por descontos efectuados para mais do que um regime de protecção. 
c) As situações de eventual acumulação de pensões emergentes de diferentes eventualidades (caso da situação de um pensionista de velhice auferindo também uma pensão de viuvez), já se encontram regulamentadas, não podendo em caso algum, resultar da sua aplicação montante inferior ao da prestação mais elevada nem excesso sobre o valor total (conforme dispõe o artigo 67º, nº 2 da Lei de Bases da Segurança Social – Lei nº 4/2007, de 16 de Janeiro). 

3. Ora, as pensões de viuvez / sobrevivência que integram o sistema previdencial, são prestações que apresentam regras de acesso ao direito e fórmulas de cálculo que caracterizam aquele sistema, não sendo por isso compatíveis nem coerentes, na técnica da sua atribuição e na estrutura do nosso Sistema de Segurança Social, com a chamada “condição de recursos”. 
Esta condicionante da determinação do acesso ao direito e do respectivo montante tem uma lógica de prestação não contributiva (quer do sistema de cidadania quer do sistema de solidariedade, conforme a Lei de Bases da Segurança Social), cujo financiamento provém de transferências do Orçamento do Estado, e não financiadas por verbas do Orçamento da Segurança Social. 
Mas claro que existem pensões de sobrevivência atribuídas a pensionistas de regimes não contributivos, como a pensão social, e aos quais já se aplicam as “condições de recurso” legalmente fixadas. Estas verão as condições ainda mais apertadas também? 

4. Por último, a aplicação retroactiva das alterações preparadas, ofendem não apenas os vivos que as auferem por direito que lhes foi reconhecido, após a morte do titular do direito, mas ofendem a própria memória dos mortos, que deixaram as prestações aos seus familiares, na convicção de que os mesmos manteriam algo para que, com o seu trabalho, haviam adquirido sob palavra e na confiança e boa fé da actuação do Estado. 

António Lopes Dias

Algarve


Carta Aberta












OLHOS NOS OLHOS 



Exma. Sra. Dra. Judite de Sousa 

O programa Olhos nos Olhos que foi hoje para o ar (14.10.2013) ficará nos anais da televisão como um caso de estudo, pelos piores motivos. 

Foi o mais execrável exercício de demagogia a que me foi dado assistir em toda a minha vida num programa de televisão. O que os senhores Medina Carreira e Henrique Raposo disseram acerca das pensões de aposentação, de reforma e de sobrevivência é um embuste completo, como demonstrarei mais abaixo. É também um exemplo de uma das dez estratégias clássicas de manipulação do público através da comunicação social, aquela que se traduz no preceito: «dirigir-se ao espectador como se fosse uma criança de menos de 12 anos ou um débil mental». 

Mas nada do que os senhores Medina Carreira e Henrique Raposo dizem ou possam dizer pode apagar os factos. Os factos são teimosos. Ficam aqui apenas os essenciais, para não me alargar muito: 

1. OS FUNDOS DO SISTEMA PREVIDENCIAL da Segurança Social (Caixa Nacional de Aposentações e Caixa Geral de Aposentações), com os quais são pagas essas pensões, NÃO PERTENCEM AO ESTADO (muito menos a este governo, ou qualquer outro). Não há neles um cêntimo que tenha vindo dos impostos cobrados aos portugueses (incluindo os aposentados e reformados). PERTENCEM EXCLUSIVAMENTE AOS SEUS ACTUAIS E FUTUROS BENEFICIÁRIOS, QUE PARA ELES CONTRIBUIRAM E CONTRIBUEM DESCONTANDO 11% dos seus salários mensais, acrescidos de mais 23,75% (também extraídos dos seus salários) que as entidades empregadoras, privadas e públicas, deveriam igualmente descontar para esse efeito (o que nem sempre fazem [voltarei a este assunto no ponto 3]). 

2. As quotizações devidas pelos trabalhadores e empregadores a este sistema previdencial, bem como os benefícios (pensões de aposentação, de reforma e sobrevivência; subsídios de desemprego, de doença e de parentalidade; formação profissional) que este sistema deve proporcionar, são fixadas por cálculos actuariais, uma técnica matemática de que o sr. Medina Carreira manifestamente não domina e de que o sr. Henrique Raposo manifestamente nunca ouviu falar. Esses cálculos são feitos tendo em conta, entre outras variáveis, o custo das despesas do sistema (as que foram acima discriminadas) cujo montante depende, por sua vez — no caso específico das pensões de aposentação, de reforma e de sobrevivência — do salário ou vencimento da pessoa e do número de anos da sua carreira contributiva. O montante destas pensões é uma percentagem ponderada desses dois factores, resultante desses cálculos actuariais. 

3. Este sistema em nada contribuiu para o défice das contas públicas e para a dívida pública. Este sistema não é insustentável (como disse repetidamente o senhor Raposo). Este sistema esteve perfeitamente equilibrado e saudável até 2011 (ano de entrada em funções do actual governo), e exibia grandes excedentes, apesar das dívidas das entidades empregadoras, tanto privadas como públicas (estimadas então em 21.940 milhões de euros) devido à evasão e à fraude contributiva por parte destas últimas. Em 2011, último ano de resultados fechados e auditados pelo Tribunal de Contas, o sistema previdencial teve como receitas das quotizações 13.757 milhões de euros, pagou de pensões 10.829 milhões de euros e 1.566 milhões de euros de subsídios de desemprego, doença e parentalidade, mais algumas despesas de outra índole. O saldo é pois largamente positivo. Mas o sistema previdencial dispõe também de reservas, para fazer face a imprevistos, que são geridas, em regime de capitalização, por um Instituto especializado (o Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social) do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social. Ora, este fundo detinha, no mesmo ano de 2011, 8.872,4 milhões de euros de activos, 5,2% do PIB da altura. 

4. É o aumento brutal do desemprego (952 mil pessoas no 1º trimestre de 2013), a emigração de centenas de milhares de jovens e menos jovens, causados ambos pela política recessiva e de empobrecimento deste governo, e a quebra brutal de receitas e o aumento concomitante das despesas com o subsídio de desemprego que estes factos acarretam, que está a pôr em perigo o regime previdencial e a Segurança Social como um todo, não a demografia, como diz o sr. Henrique Raposo. 

5. Em suma, é falso que o sistema previdencial seja um sistema de repartição, como gosta de repetir o sr.Medina Carreira. É, isso sim, um sistema misto, de repartição e capitalização. Está escrito com todas as letras na lei de bases da segurança social (artigo 8º, alínea C, da lei nº4/2007), que, pelos vistos, nem ele nem o senhor Henrique Raposo se deram ao trabalho de ler. É falso que o sistema previdencial faça parte das “despesas sociais” do Estado (educação e saúde) que ele (e o governo actual) gostariam de cortar em 20 mil milhões de euros. Mais especificamente, é falso que os seus benefícios façam parte das “prestações sociais” que o senhor Medina Carreira gostaria de cortar. Ele confunde deliberadamente dois subsistemas da Segurança Social: o sistema previdencial (contributivo) e o sistema de protecção da cidadania (não contributivo). É este último sistema (financiado pelos impostos que todos pagamos) que paga o rendimento social de inserção, as pensões sociais (não confundir com as pensões de aposentação e de reforma, as quais são pagas pelo sistema previdencial e nada pesam no Orçamento de Estado), o complemento solidário de idosos (não confundir com as pensões de sobrevivência, as quais são pagas pelo sistema previdencial e nada pesam no Orçamento do Estado), o abono de família, os apoios às crianças e adultos deficientes e os apoios às IPSS. 

6. É falso que o sr. Henrique Raposo (HR) esteja, como ele diz, condenado a não receber a pensão a que terá direito quando chegar a sua vez, “porque a população está a envelhecer”, “porque o sistema previdencial actual não pode pagar as pensões de aposentação futuras”, “porque o sistema não é de capitalização”. O 1º ministro polaco, disse, explicou-lhe como mudar a segurança social portuguesa para os moldes que ele, HR, deseja para Portugal. Mas HR esqueceu-se de dizer em que consiste essa mirífica “reforma”: transferir os fundos de pensões privados para dentro do Estado polaco e com eles compensar um défice das contas públicas, reduzindo nomeadamente em 1/5 a enorme dívida pública polaca. A mesma receita que Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas aplicaram em Portugal aos fundos de pensões privados dos empregados bancários! (para mais pormenores sobre o desastre financeiro que se anuncia decorrente desta aventura polaca, ver o artigo de Sujata Rao da Reuters, «With pension reform, Poland joins the sell-off», 6 de Setembro de 2013, http://blogs.reuters.com/ globalinvesting/2013/09/06/with-pension-reform-poland-joins-the-sell-off-more-to-come/; e o artigo de Monika Scislowska da Associated Press, «Poland debates controversial pension reform», 11 de Outubro de 2013, http://news.yahoo.com/poland-debates-controversial-pension-reform-092206966--finance.html). HR desconhece o que aconteceu às falências dos sistemas de capitalização individual em países como, por exemplo, o Reino Unido. HR desconhece também as perdas de 10, 20, 30, 40 por cento, e até superiores, que os aforradores americanos tiveram com os fundos privados que geriam as suas pensões, decorrentes da derrocada do banco de investimento Lehman Brothers e da crise financeira subsequente — como relembrou, num livro recente, um jornalista insuspeito de qualquer simpatia pelos aposentados e reformados. O único inimigo de HR é a sua ignorância crassa sobre a segurança social. 

Os senhores Medina Carreira e Henrique Raposo, são, em minha opinião, casos perdidos. Estão intoxicados pelas suas próprias lucubrações, irmanados no mesmo ódio ao Tribunal Constitucional («onde não há dinheiro, não há Constituição, não há Tribunal Constitucional, nem coisíssima nenhuma» disse Medina Carreira no programa «Olhos nos Olhos» de 9 de Setembro último;« O Tribunal Constitucional quer arrastar-nos para fora do euro» disse Henrique Raposo no programa de 14 de Outubro de 2013). E logo o Tribunal Constitucional ! — última e frágil antepara institucional aos desmandos e razias de um governo que não olha a meios para atingir os seus fins. Estes dois homens tinham forçosamente que se encontrar um dia, pois estão bem um para o outro: um diz “corta!”, o outro “esfola!”. Pena foi que o encontro fosse no seu programa, e não o café da esquina. 

Mas a senhora é jornalista. Não pode informar sem estar informada. Tem a obrigação de conhecer, pelo menos, os factos (pontos 1-6) que acima mencionei. Tem a obrigação de estudar os assuntos de que quer tratar «Olhos nos Olhos», de não se deixar manipular pelas declarações dos seus interlocutores. Se não se sentir capaz disso, se achar que o dr. Medina Carreira é demasiado matreiro para que lhe possa fazer frente, então demita-se do programa que anima, no seu próprio interesse. Não caia no descrédito do público que a vê, não arruíne a sua reputação. Ainda vai a tempo, mas o tempo escasseia. 

José Manuel Catarino Soares 
(Professor aposentado) 
Lisboa. 15-10-2013

15 de outubro de 2013

Governação

O MODELO DE GOVERNAÇÃO - BREVE INTERPRETAÇÃO E SUGESTÕES

Em Portugal viveram-se 40 anos sob um regime autoritário, pós-feudal, retrógrado, conformista, e controlado por agentes e instituições, que aceitavam e promoviam sem  questionar o modelo político nacionalista, corporativista, e autocrata.A população vivia dispersa por todo o território, e as cidades, na grande maioria, não passavam de agregados polarizados em torno de praças medievais, e edificios públicos que acolhiam os srviços administrativos. A grande maioria dos concelhos não dispunha de liceus e hospitais, e na provincia não havia professores para todas as escolas do ensino primário (havia regentes). A população revelava uma taxa de iliteracia muito elevada e, por isso, quase nada reivindicativa. A economia assentava no sector primáio, na agricultura, na pesca, e nos seus derivados.
Com o 25 de Abril, um movimento autónomo de carácter corporativo, houve uma grande mobilização popular e assistiu-se a reformas institucionais, de que também resultou uma lei constitucional com preocupações sobre garantias básicas e igualdade de tratamento para todos os cidadãos, e decorrente disso criou-se a Segurança Social, em regime contributivo, que englobou as caixas de previdência e outras entidades complementares de menor peso; criou-se um modelar Serviço Nacional de Saúde, um projecto de longo alcance assistencial; estabeleceram-se direitos sociais. A par disso, verificou-se a nacionalização da banca e de outras grandes empresas estratégicas; e a reforma agrária, um processo de revitalização dos latifundios, que não chegou a ser convenientemente enquadrado, e ficou ao arbítrio de pessoas geralmente impulsionadas  por motivações ideológicas, de pouca experiência na lavoura, e com baixos resultados exploratórios, com excepção de uma ou outra unidade.
Destas intrincadas movimentações revolucionárias, e a partir do conceito "ao povo, o que é do povo", incrementou-se a modernização do país, iniciada uma década antes, e o aumento da procura de bens de consumo e de conforto, que decorriam de um aparente progresso económico, quase espontâneo. Progresso esse, que se verificou a partir de projectos industriais próprios de países emergentes, atraídos pelo baixo custo da mão de obra, proximidade aos mercados consumidores, e à cada vez mais habilitação do pessoal para processos de laboração mais sofisticada. Este surto de desenvolvimento foi acompanhado pelo incremento da construção e especulação imobiliária que incidiram na expansão urbana, sobretudo no litoral, onde a economia mais se destacava. 
Por essa altura o Estado também executava muitas obras de infra-estruturas, apesar da insuficiência de recursos próprios, de que o injusto e impreparado regime fiscal não era municiador das finanças suficientes. Por via disso, passou a recorrer a créditos externos, bem como a beneficiar de subsídios comunitários com vista ao desenvolvimento sócio-económico, bem como a soluções de parcerias público-privadas a partir da década de 90.
A banca, entretanto, adaptava-se ao surto de desenvolvimento, de que era simultâneamente impulsionadora e beneficiária, e era manancial de financiamentos, primeiro com os recursos próprios, depois endividando-se ela mesmo, com o aparente objectivo social de "garantir" a liquidez nos negócios, numa perspectiva de que a sociedade evoluía num crescendo imparável e sem sobressaltos (gestão à D. Branca). Copiou modelos financeiros da América, e por força do seu envolvimento com a poderosa banca estrangeira, também em Portugal foram introduzidos produtos financeiros de risco, designadamente os "estruturados", e uma multiplicidade de fundos com importante suporte na bolsa especulativa, que era suposto garantir a liquidez. 
Enquanto isso, o Banco de Portugal por força de vicicitudes várias abdicava das funções reguladoras, de controle e fiscalização da actividade bancária, e permitia livre curso de operações, entre elas, as exportações de capitais imensamente facilitadas, e que os bancos se endividassem até valores suicidas (mais de 130% dos activos financeiros, isto é, dos valores contabilizados como depósitos e créditos sobre clientes), o que permitiu aos bancos revelarem significativa expansão de negócios e lucros consideráveis. Era um processo de bola de neve, no pressuposto de que não haveria azar. Abriam novas agências por todo o lado; expandiam-se marcas bancárias com sucursais no estrangeiro; vinham bancos internacionais para a nossa praça. 
Os governos não intervinham na definição do modelo sócio-económico imprimido pela ganância bancária, salvo na medida em que recorriam à receita pública (e à privada, através de empréstimos obrigacionistas, na falta daquela) para a facilitação do modelo expansionista e construção de infra-estruturas, de tal modo que não deve haver um município sem parque industrial. Esse modelo era precedido pela edificação de um aparelho legislativo adequado ao liberalismo reinante e próspero. 
Com o 25 de Abril caíu o regime autocrático, e por força da actividade partidária nascente, então concorrencial e efervescente, gerou-se o nosso modelo de democracia. A Lei Constitucional revelou-se uma fusão ideológica, e com as revisões subsequentes acentuou a expressão ao modelo político-social que emergia do liberalismo. 
Então foram muitos os que aderiram às máquinas partidárias que, talvez em consequência do conturbado PREC, ambicionavam o controle da Administração Pública e do regular funcionamento das instituições, que, por sua vez, reflectiam nos partidos o poder dominante sobre a vida portuguesa. 
Ao voluntarismo inicial dos militantes sucedeu uma autêntica escola e orquestração de poder, que evoluíu para a descoberta de novos pólos de influência, de que as empresas públicas, as empresas mistas, as fundações, os institutos, e outros organismos, administrados e com pessoal recrutado entre as estruturas partidárias, são reflexo do poder tentacular que os partidos alcançaram em Portugal, abrangendo, praticamente, todas as áreas de decisão com influência nas actividades económicas e sociais. 
Os partidos, quando eleitos, passam a decidir sobre os destinos do País. Donde, o voluntarismo da militância inicial passou a consagrar o determinismo estratégico que mais interessa cada partido e facção, em que para manter o emprego naquelas áreas, torna-se necessária a obediência cega às decisões das cúpulas. O mesmo se diga em relação a fornecedores e outras relações comerciais. Desse jogo de influências resulta a subversão do sistema democrático. 
Até que... Puumm! 
Rebentou a bolha na América com repercussões pelo rendilhado sistema de dependências financeiras, que veio a afectar principalmente as economias mais dependentes de créditos externos e de produtos de risco ou estruturados, como foi o caso português. 
O governo da época rapidamente decidiu apoiar os banqueiros (mais do que os bancos, como decorre da impunidade relativa aos gestores de BPN, BPP, CGD, BCP, etc), e assim foram transferidos elevados montantes dos recursos públicos para os privados, enquanto disparava a recessão e o desemprego, e aumentavam as fornadas de jovens, no geral bem qualificados, que não têm trabalho, nem direito a subsídio. Por isso, muitos aceitam trabalhar a baixo custo, muitas vezes no limiar da sobrevivência, e na dependência familiar, e de entre os mais qualificados assiste-se ao escape da emigração, com o consequente desperdício nacional e perda de competências. Em paralelo, com os temores que se acentuam sobre o regime laboral e a pressão sobre o desemprego, muitos trabalhadores optam por reformas antecipadas, apesar de penalizadas, do que resulta o estrangulamento orçamental, e o acentuar da recessão, em virtude da redução de rendimento das classes trabalhadoras. O sistema político falhou. 
Falhou, porque durante a bebedeira "expansionista", os partidos foram conquistados por aqueles jotas que assistiram às fórmulas de domínio, e não cuidaram para além disso, nem tiveram visão para introduzir as necessárias reformas ao funcionamento institucional, nem incrementaram a educação cívica, nem os valores da solidariedade, que são o cimento das comunidades. Cada vez que houve novos governantes, deslumbraram-se, revelaram-se ambiciosos e, por inerência, quando a ambição é desmedida, tornaram-se arrogantes e autoritários, recorreram a truques para chegar ao poder, e as eleições foram o mecanismo necessário, que lhes conferiu a "legitimidade" para a tomada de decisões, que as bases de seguidores se apressavam a abraçar, consubstanciando um regime viciado e vicioso. 
Ontem (10NOV), durante o noticiário, fiquei a saber de uma petição para que listas independentes possam concorrer às legislativas. Mas essa, só por si, não será a solução, se os seus interpretes não apresentarem ideias inovadoras nos domínios da economia, da educação, da justiça, da administração, da segurança social,  e não assumirem atitudes de servir o País. Na minha opinião, o mais importante será que os políticos, quer independentes, quer integrados em partidos, não tenham tanto poder discricionário, nem disponham de tão elevadas quantias orçamentadas, tanto para campanhas junto da comunidade, como para consumos próprios, o que implica redução de equipes de apoio e atribuição de subsídios que só beneficiam os partidos e os seus membros, para além de outras formas privilegiadas de viver sob o manto do erário público. Há, também, que rever a legislação que garante o financiamento aos partidos, que devem viver exclusivamente das receitas dos associados. Assim como, torna-se imperativo acabar com a subsídio-dependência institucionalizada, como acontece com alguma iniciativa privada (pasme-se), com empresas públicas, com empresas mistas, com fundações, com institutos, etc. A sociedade tem que ter outra arrumação, e os políticos deverão passar por um período de nojo, antes de integrarem funções determinantes em entidades relacionadas com o Estado. 
Todos os políticos afirmam com "bom-senso", que o interesse público está acima de todos os interesses e presente nas suas preocupações. No entanto, frequentemente, são perversos, quando autorizam uma actividade privada  à custa do interesse público, a título de incremento económico e criação de emprego, e os activos dessa actividade passam a integrar o património privado, para além de vantagens fiscais e bonificações acessórias. No entanto, muitas vezes nem chegam a incrementar actividades económicas, apenas promovem acções especulativas, de que se destacam as fantasias e valorizações sucessivas no imobiliário. 
Em Inglaterra e na Alemanha demitiram-se 2 ministros, respectivamente, porque o inglês foi denunciado pela mulher de ter conduzido em excesso de velocidade, e para não prejudicar a carreira política, ela assumiu a infração (do que resultou ambos serem judicialmente punidos); e o alemão por se ter sabido que tinha plagiado uma tese. O 1º. ministro inglês ainda comentou, que em Inglaterra, é bom que todos saibam, que ninguém está acima da lei. Numa sociedade justa, decente e organizada, que resvalasse para uma crise recessiva com o seu cortejo de misérias como consequência de sucessivos actos governativos, o 1º. ministro não chegaria a dizer, maliciosamente e com inversão da verdade, que a crise resultava de gastos excessivos do povo, e se o dissesse, seria compelido a demitir-se. Aqui, são os governantes responsáveis pelo sofrimento colectivo, os mesmos que se propõem resolver a situação, embora evidenciando o contrário. 
Decorrente da sociedade de vícios e práticas oportunistas, em Portugal não poderá haver um regime democrático, que interrompa o acentuar de desigualdades a favor dos poderosos, enquanto a sociedade não dispuser de um mecanismo legal, que permita o controle e fiscalização dos actos políticos e do funcionamento das instituições, quadro esse que se me afigura muito fácil de criar e aplicar, com eficácia dissuasora da corrupção e preventiva da incompetência. Apelo à reivindicação da convergência para a justiça, para a equidade, e para a igualdade. Em todo o mundo "os manifestantes, porventura mais do que os políticos, perceberam o que se estava a passar. De certo modo pedem muito pouco: uma oportunidade para usarem as suas capacidades, o direito a terem um emprego decente com uma remuneração decente, uma economia e uma sociedade mais justas, que os tratem com dignidade"- J. E. Stiglitz, 2012, Nobel da economia em 2001. 
Assim, parece  impor-se aos portugueses a capacidade para exercer pressão sobre os poderes constituídos, quer através de movimentos espontâneos, quer apoiando entidades reconhecidamente independentes, mas sempre de modo organizado, no sentido da adopção das medidas necessárias à regeneração nacional, com a restituição do poder ao povo, o único e legítimo soberano.  Mas as pessoas não podem ficar no conforto de casa, e esperar que os governos se tornem altruístas, devem tornar ostensivamente pública a sua insatisfação e repúdio.
JD