ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO
COMPANHEIROS e AMIGOS,
A luta faz-se na rua e a rua tem de ser nossa. Mas saúdo com especial carinho os mais idosos, aposentados e reformados sobre os quais este Governo tem feito abater as mais iníquas medidas sociais e económicas. São medidas selectivas, porque é mais fácil, porque esperam ter alguns por eles e porque esfrangalha a coesão social. O que leva o Governo a escolher como alvo fácil este grupo social? Não é só a cobardia que explica a opção tomada; é também a soberba de quem se acha iluminado e imbuído de uma missão transcendente da qual não deve nenhuma explicação. Mas eu digo-vos qual é a transcendência; a transcendência deles é mesquinha e limita-se a uma opção ideológica: tirar, rebaixar, quebrar os costados, empobrecer. Os pobres têm menos capacidade de luta. A barriga vazia tem limites. A saúde pela qual não se cuida retira a energia. Muitos idosos não poderão vir para a rua; estão em casa, envergonhados, por trás de uma cortina de silêncio, escondem a humilhação que sentem e nós temos dificuldade em chegar até eles. Mas esta luta também é por eles. Nós não permitiremos que a coesão social seja destruída; com todas as nossas forças temos de nos opor a este estilhaçar e para isso precisamos de trabalhar nas juntas de freguesia, nas câmaras, nas associações cívicas, nos bairros. Utilizemos estas estruturas para impor a nossa vontade e as nossas escolhas.
O Governo utiliza uma linguagem perversa, mentirosa e descarada. Para eles os cortes querem dizer reforma; ao nivelamento por baixo chamam-lhe convergência. Onde diabo aprenderam a língua portuguesa?! Como os próprios têm o atrevimento de dizer, não se percebe porque andamos, nós os que estamos contra estas medidas autoritárias e autistas, tão açodados a gritar contra a reforma do Estado porque ela já está feita. Como se afoitam a dizer estas provocações? Não têm pudor e afrontam tudo e todos. Mas qual reforma? A única reforma que conhecemos é a nossa, aquela pela qual suámos e que nos é entregue como se fosse um favor, reforma que, por este andar, deixaremos de reconhecer porque qualquer semelhança entre o que nos foi prometido e o que recebemos é pura ilusão. O contrato foi quebrado; este Governo não merece a confiança do povo português e se houvesse alguma honra nem dos parceiros europeus mereceria confiança.
COMPANHEIROS, o Governo tem tentado dividir os portugueses e para isso avança com as medidas às pinguinhas, hoje uma amanhã outra, uma que vai ser assim mas afinal sai de outra forma, uma medida anunciada por um governante e desdita por outro governante, a fazer de conta que há fugas de informação. Tudo combinado, nada acontece por acaso. De publicidade e manipulação sabem muito mas de estratégia, de planeamento, dos verdadeiros interesses do país, não sabem nada. O Governo ora ataca os pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, ora os da Caixa Nacional de Pensões, ora os trabalhadores da Função Pública no activo. E os cortes não servem rigorosamente para nada; o deficit apesar dos milhões de euros que nos foram retirados não pára de crescer. Então, Companheiros, para onde vai o dinheiro? A quem serve o dinheiro? Onde se prepara o Governo a aplicar o dinheiro que quer arrecadar com mais cortes? Da direita à esquerda ouvem-se vozes contra esta política e estes cortes retroactivos com indubitáveis efeitos recessivos a agravar uma economia em espiral recessiva; é uma medida ilegítima e anticonstitucional; quem actua fora da lei tem de prestar contas, seja o Zé, o Manel, o Pedro, o Hélder ou a Maria. Tanto faz e como eles próprios diziam a lei é dura mas é a lei. Lutemos, então, pela aplicação da lei e pelo seu cumprimento.
COMPANHEIROS e AMIGOS, este Governo mente e já ultrapassou a linha vermelha que um dos seus personagens jurava que nunca cruzaria. Quem mais jura mais mente. Pisaram a linha vermelha, a partir daqui tudo é possível. Mas se é possível para eles, então, também tem de ser possível para nós. Não podemos permitir que esta questão de princípio seja posta em causa porque é a própria democracia que está ameaçada. Não nos deixemos enganar: mesmo que apenas meia dúzia de aposentados fossem atingidos, como miseravelmente alguém dizia serem apenas 10% dos reformados, porque se trata de um problema de ética diz respeito a todos, sobretudo aos que se remetem à cultura do silêncio por já não terem força física ou anímica para o combate. Eu responderia a esse comentador futebolístico lembrando-lhe o lema de um grande clube que diz ser o seu: todos por um, um por todos.
Os mais idosos entre nós, aguentaram o rescaldo da 2ª guerra, sofreram o fascismo, a guerra colonial, a imigração, as crises académicas; juntos fizemos o 25 de Abril, construímos este País. Construímo-lo uma vez, vamos voltar a construi-lo depois de ganharmos esta luta. O caminho será longo e duro mas no final só poderemos sair pela porta da frente; este Governo será vencido, na rua e nas urnas, e nós temos de ter forças para chegar a esse dia glorioso e, então, contribuir para repor a justiça e a equidade.
COMPANHEIROS e AMIGOS, termino com uma frase que explica porque chegámos até aqui e porque estamos determinados a prosseguir a nossa luta; uma frase que nos dá força e convicção e que cada um de nós personifica. Um grande artista, Almada Negreiros, disse um dia ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO. Ora, nós, quando jovens, fomos futuro; agora que temos menos força continuamos a acreditar que o futuro pode ser justo e os jovens merecem que lhes passemos o testemunho. Não nos deixaremos dobrar! PORQUE NÃO HÁ BECOS SEM SAÍDA!
Vivam os Idosos e Aposentados por muitos e bons anos!
Intervenção lida na Manifestação do QSLT, Lisboa, 26 de Outubro de 2013
Maria Luísa Cabral
Intervenção lida na Manifestação do QSLT, Lisboa, 26 de Outubro de 2013
Maria Luísa Cabral






