7 de novembro de 2013

Entrevista


Entrevista de Rosário Gama
 ao Jornal Solidariedade, da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade.

PASC


XIV Encontro PÚBLICO PASC
ORÇAMENTO DE ESTADO 2014
Que Visão para o Futuro? 

A PASC, de que a APRE é uma das Associações que a integra, tem o prazer de o(a) convidar a participar no XIV Encontro PASC sobre “ORÇAMENTO DE ESTADO 2014, QUE VISÃO PARA O FUTURO?”, a realizar no dia 11 de Novembro de 2013, pelas 9h30, no ISEG (Edifício do Quelhas, Auditório CGD, Piso 2).
Desde a sua criação em Janeiro de 2010 a PASC - Plataforma Ativa da Sociedade Civil que hoje integra 38 Associações tem, entre outros, procurado contribuir para dar expressão a questões de interesse Nacional fazendo apelo à mobilização e consciencialização dos Portugueses para uma cidadania activa e responsável, individual e colectiva. 
XIV Encontro Público PASC, subordinado ao tema “ORÇAMENTO DE ESTADO 2014, Que Visão para o Futuro?” contará com a presença de três ex-Ministros das Finanças, um ex-Secretário de Estado e o Presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal. Realizar-se-á no dia 11 de Novembro de 2013, pelas 9h30, no ISEG (Edifício do Quelhas, Auditório CGD, Piso 2). 
A entrada é gratuita, limitada à capacidade do Auditório, e requer INSCRIÇÃO até dia 8 de Novembro.

PROGRAMA:

9h30 Abertura - Maria Perpétua Rocha (Coordenadora da PASC) 
Intervenções 
Emanuel dos Santos - Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento nos XVII e XVIII Governos 
Manuela Ferreira Leite - Ministra de Estado e das Finanças no XV Governo 
António Saraiva - Presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal 
João Salgueiro - Ministro de Estado, das Finanças e do Plano no VIII Governo 
Moderador: Luis Campos e Cunha 
12h30 Encerramento

Local: ISEG – Rua do Quelhas, nº 6, Lisboa 
Estacionamento: parque do ISEG na Rua Miguel Lupi, nº 11 
(acesso pela Calçada da Estrela, entrada pela Rua Almeida Brandão)


6 de novembro de 2013

Colóquio


COLÓQUIO INTERNACIONAL
“OS REFORMADOS NA EUROPA – QUE POLÍTICAS DE INVESTIMENTO SOCIAL?”
26 de Outubro de 2013 

SÍNTESE E CONCLUSÕES

A APRe! – Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados realizou em Lisboa um Colóquio Internacional que, para além de especialistas portugueses, contou com a participação de oradores oriundos de Espanha, Grécia, França e Grã-Bretanha.
Os principais objetivos deste Colóquio foram os seguintes:
a)     debater os problemas gerais que afetam os reformados e aposentados numa perspetiva comparada, e contribuir para a formação de uma opinião pública europeia favorável ao debate institucional e generalizado sobre os desafios emergentes nas sociedades modernas;
b)    analisar a situação dos reformados em diversos países europeus, bem como o futuro previsível dos sistemas e políticas de segurança social;
c)    contribuir para a compreensão de que, ao nível europeu, o envelhecimento das populações é um fenómeno natural que coloca às sociedades desafios e problemas novos que têm de ser equacionados através de respostas de índole económica e financeira, mas também social, sociológica e cultural, as quais devem contribuir para manter a coesão e a solidariedade entre gerações;
d)    criar condições para o desenvolvimento de uma ação da APRe! junto das instâncias europeias, congregando organizações e cidadãos de outros países igualmente afetados por medidas lesivas dos direitos dos idosos, reformados e pensionistas.
O Colóquio debateu e comparou situações diversas, analisou reformas e políticas em curso em Portugal e nos países representados, equacionou modelos de congregação de organizações e de cidadãos europeus, e discutiu formas de luta a desenvolver com vista à defesa dos direitos da população sénior.
Como conclusões e, simultaneamente, orientações para a ação futura da APRe!, isoladamente no que respeita às questões portuguesas, e em conjunto com outras organizações quando se trate de matérias de âmbito europeu, salientam-se as seguintes:
1 – A questão da sustentabilidade da Segurança Social tem sido falaciosamente apresentada pelos governos como um problema decorrente da inevitabilidade das alterações demográficas, equacionando-se a sua solução em termos meramente financeiros.
Esta perspetiva esquece que, para além do problema financeiro, a sustentabilidade da Segurança Social é também, e sobretudo, um problema económico e social, uma vez que não é possível reformar um sistema social em cenários de recuo económico e, por outro lado, um modelo de coesão e estabilidade social não é conciliável com políticas de austeridade que retirem às famílias e aos idosos a capacidade de manter níveis de vida dignos e respeitadores dos direitos fundamentais dos cidadãos, inerentes ao Estado Social e ao Modelo Social Europeu.
2 – As pensões e reformas dos regimes contributivos são o resultado dos descontos efetuados pelos cidadãos durante a sua vida ativa e foram determinadas pelas normas legais em vigor à data da sua atribuição. Ao efetuarem tais descontos, os cidadãos constituíram-se em credores do Estado, nos termos do contrato que com ele estabeleceram e com base no qual projetaram as suas vidas e planearam a fase final da sua existência. Os fundos de pensões assim acumulados não são propriedade do Estado e este não pode deles dispor sem o consentimento dos cidadãos que os constituíram, e muito menos para fins diversos daqueles a que se destinam.
Assim, qualquer corte nas pensões e reformas em pagamento constitui uma grosseira violação do contrato firmado entre os cidadãos e o Estado, uma quebra do princípio da confiança constitucionalmente consagrado e um desrespeito pelos Direitos Humanos em que se baseiam os regimes democráticos, o Estado Social e o Modelo Social Europeu.
Tais cortes constituem ainda um ataque ao direito de propriedade, consagrado na Constituição da República Portuguesa e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, pelo que os cidadãos têm o direito de demandar judicialmente os governos que os levem a efeito.
3 – Foi consensual e generalizado no Colóquio o protesto contra as medidas tomadas pelo Governo em relação aos pensionistas e reformados, designadamente as previstas no Orçamento do Estado para 2014. A expressão de protesto consubstanciada no envio deste documento aos órgãos de soberania portugueses será seguida por uma apertada vigilância deste setor social em relação às intenções governamentais de eleger os pensionistas e reformados como o alvo preferencial de uma austeridade que, sob pretexto do ajustamento financeiro do País, atenta gravemente contra os direitos e a dignidade de uma parte significativa da sociedade portuguesa.
4 – Foi unânime o entendimento do Colóquio de que as gravosas medidas contra a população idosa portuguesa têm correspondência noutros Estados-Membros da União Europeia, especialmente nos intervencionados, pelo que é urgente empreender e desenvolver a cooperação entre organizações representativas dos pensionistas e reformados de diversos países, como forma de organizar um protesto generalizado junto das instâncias europeias que fomentam e/ou caucionam este tipo de políticas governamentais.
5 – A construção europeia assenta em valores universais consagrados nos Tratados e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, pelo que, para além dos governos nacionais, cabe igualmente à União Europeia e às suas instituições a garantia desses direitos e a defesa dos interesses dos cidadãos, contra as prepotências governamentais que contra eles atentem.
O artigo 25º da Carta dos Direitos Fundamentais “reconhece e respeita o direito das pessoas idosas a uma existência condigna e independente e à sua participação na vida social e cultural”. 
Este e outros direitos, como o da dignidade do ser humano, da liberdade e da segurança, do direito de propriedade, da não discriminação em razão da idade, e da solidariedade, consagrados na mesma Carta, não são compagináveis com medidas de austeridade dirigidas especialmente aos idosos, nem com políticas que atentem contra os direitos adquiridos ao longo de toda a sua vida.
O empobrecimento progressivo que, em nome do ajustamento financeiro, está a ser imposto às sociedades europeias, para além de representar um retrocesso civilizacional incompreensível e intolerável, contraria os valores e os princípios da construção europeia e desrespeita todo o edifício jurídico e institucional que a sustenta.
6 – O Parlamento Europeu (PE), única instituição europeia eleita diretamente pelos cidadãos é, por isso mesmo, o seu legítimo representante. Nos termos do artigo 9ºA do Tratado da União Europeia (com as alterações resultantes do Tratado de Lisboa), o PE exerce funções de controlo político da vida da União. Por outro lado, nos termos do artigo 8ºB do mesmo Tratado, as instituições europeias “dão aos cidadãos e às associações representativas a possibilidade de expressarem e partilharem publicamente os seu pontos de vista sobre todos os domínios de ação da União”.
Neste termos, a APRe! pedirá imediatamente uma audição ao PE com a finalidade de apresentar estas conclusões e de defender os direitos da população sénior que representa.
7 – A APRe!, em cooperação com associações congéneres de outros países europeus, ponderará a hipótese de demandar, junto das instâncias judiciais europeias, os governos e instituições que atentem contra os direitos fundamentais das populações idosas e dos pensionistas e reformados, num claro desrespeito pelas normas e princípios consagrados nos Tratados.
8 – Para congregar esforços a nível europeu, a APRe! empreenderá ações imediatas junto de outras associações e movimentos representativos de idosos, pensionistas e reformados, em particular dos países intervencionados, mas também de outros onde o empobrecimento e a degradação das condições de vida ameaçam comprometer a dignidade da fase de envelhecimento de toda uma geração que construiu, financiou e manteve o Estado Social vigente e o legado civilizacional que ele representa.

29 de Outubro de 2013
A Presidente da APRe!
Maria do Rosário Gama

4 de novembro de 2013

Greve

Uma greve pela justiça, pelo Estado social, contra a possibilidade de se cortarem salários, contra a brutalidade de trabalho que ficou nas mãos de quem ainda está empregado. É isto que creio, se anuncia na justiça. Esperemos desta vez não ter que ouvir os outros trabalhadores dizer que estes, do sector da justiça, são corporativos ou privilegiados.
O salário corresponde em Portugal, salvo raras excepções, aquilo que é necessário para reproduzir aquela força de trabalho. O facto de alguém não ser miserável e não ter que «roubar», legitimamente, electricidade, por exemplo, ou só comer pão para estar vivo, ou deixar de passear, viver como humano digno e não como animal acossado, não faz dele um privilegiado mas apenas um trabalhador que mesmo se ganhasse mais, dentro de um tecto razoável, estaria a ganhar aquilo que é fruto do seu trabalho, aqui visto como trabalho colectivo, riqueza social.
Em Portugal não é privilegiado quem ganha 3000 euros – porque esse valor é comportado pelo conjunto da produção nacional, calculando a riqueza produzida e a produtividade do trabalho. É privilegiado quem vive à sombra de monopólios privados protegidos pelo Estado, como a EDP; quem gere empresas em que o Estado o Estado assume os deficits ou a recapitalização, como a PT; empresas que usam força de trabalho paga pela segurança social, como sectores da Banca; empresas que vivem de contratações milionários, como a Mota Engil no Porto de Lisboa ou nas autoestradas; empresas que não assumem riscos porque sorvem impostos, como o Grupo Melo e o Grupo Espírito Santo na saúde. Tudo isto se traduz em privilégios, benefícios, que estão espelhados na distribuição de dividendos, que em certos casos alcançam os milhões de euros de «salário» por ano.
Já não há nada que justifique a ignorância do que se está a passar no país. Esta greve da justiça não é só por salários (que podia ser, e seria, claro, justa) mas é uma greve que assume uma linguagem lindíssima – o termo é mesmo este, creio -, de defesa de uma «sociedade mais justa». É uma greve que coloca os magistrados na luta pelo Estado social, contra o corte de salários, pelo acesso de todos à justiça, estou a citar.
Esquecemos muitas vezes que o Estado Social também é o acesso à justiça, à não arbitrariedade. O Estado pode devolver os nossos impostos e contribuições em saúde, em educação, em segurança social, justiça, habitação, cultura, espaços verdes, transportes públicos. Pode devolvê-los sob a forma de polícias, balas e repressão. Pode devolvê-los sob a forma de fiscalização para arrecadar ainda mais impostos. Pode nem os devolver, mas é só enquanto o permitirmos.

Raquel Varela

2 de novembro de 2013

Convergência

A LEI DA SELVA

Com os votos dos partidos da maioria – PSD e CDS – , a Assembleia da República aprovou hoje a chamada “lei da convergência” – sofisma linguístico com que o Governo pretende iludir a opinião pública, convencendo-a de que com a lei se promove a aproximação da forma de cálculo das pensões de aposentação atribuídas pela Caixa Geral de Aposentações aos funcionários públicos à da forma como são calculadas as pensões de reforma atribuídas pelo Centro Nacional de Pensões aos trabalhadores do sector privado.
Segundo o discurso do Governo – falso, como dissemos –, o objectivo seria tratar com igualdade os dois sistemas, público e privado, de pensões.
O Governo consumou, assim, com a docilidade dos deputados da maioria, e ocultada pelo agendamento da sua votação final global para o mesmo dia da votação na generalidade do Orçamento, perante o silêncio quase geral, uma estratégia que durou vários meses e que se destinou a enganar os portugueses sobre o sentido e alcance das medidas – e que contou com a cumplicidade e colaboração de vários dos jornalistas cortesãos ao seu serviço, como é exemplo típico José Manuel Fernandes (veja-se jornal “Público, hoje mesmo). 
O objectivo dessa estratégia foi, como sempre sucede nesses casos, o de conseguir apoio popular para as medidas que se pretende tomar, para tanto falsificando a realidade e procurando atribuir justificações virtuosas para actos, em substância, iníquos e imorais, como os classificou a insuspeita Drª Manuela Ferreira Leite.
Desde o início da campanha de terrorismo informativo do Governo e dos seus comissários, procurando apresentar razões aparentemente respeitáveis para este corte retroactivo das pensões dos funcionários públicos, não deixou a APRe! de ir denunciando e desmistificando esta manobra vulgar – não deixando na gaveta este tema, a que deu a importância que ele merecia. 
Assim, logo na Concentração de 6 de Junho, junto ao Ministério da Solidariedade e da Segurança Social, se entregou um texto que acabava deste modo:
«A partir do próximo ano, tanto quanto se consegue perceber através das suas parcas e dissimuladas afirmações, o Governo prepara-se para aplicar um corte permanente e retroactivo nas pensões dos aposentados da CGA, tendo a encenação em torno de um novo imposto, designado eufemisticamente por “contribuição ou factor de sustentabilidade”, que substituiria a actual CES, sido utilizada como cortina de fumo para encobrir este novo corte. Tudo isto, utilizando uma vez mais a táctica de fomentar a divisão, procurando isolar os aposentados da CGA dos pensionistas do CNP, disso tentando tirar partido».
Isto é: logo que se começou a saber do que se preparava, a nossa associação alertou para a infâmia daquela enormidade legal.
No início desta semana, escrevia eu aqui (texto “ Lutando pelos nossos direitos, é pelo Direito que lutamos”) :
«A “APRe!” não pode deixar isto em branco. A mesma “APRe!” que se insurgiu, desde o primeiro dia, contra esta barbaridade, do ponto de vista legal – que sempre afirmou a sua firme oposição a ela e insistiu no que significaria a sua aprovação: que, logo no mês seguinte, em Julho, já ciente do que o Governo preparava, encetou diligências com outras organizações para uma acção comum, neste âmbito – com vista a «uma resposta conjunta e mais eficaz que possa travar esta onda»; que deu o seu parecer jurídico para a discussão pública, na Assembleia da República; que foi depois ouvida, em audiência junto da Comissão competente, relativamente a ele; que marcou a sua posição, nesse mesmo dia, com uma “Nota à Imprensa” enviada para a Comunicação Social; que reuniu com o Provedor de Justiça, os grupos parlamentares e até com o secretário de Estado responsável por esta Proposta de Lei; que foi recebida pelo Presidente da República, tendo-lhe manifestado a sua posição, quanto ao que se preparava; que promoveu manifestação de protesto junto à CGA, tendo muitos dos seus associados advertido a mesma CGA (formalmente, por escrito) de que nunca aceitariam tal recontagem, à sua revelia; que esteve presente na aprovação, na generalidade, desta infamante Proposta de Lei, na Assembleia da República, enquanto no Porto se distribuía à população um “flyer” sobre o assunto… A mesma “APRe!”, dizia, terá de estar até ao fim contra este atentado ao regime.» 
E dizia também temer que, sem sobressalto nem indignação visível, tivéssemos de assistir, “no mesmo dia 1”, e pela primeira vez, aqui ou noutro país tido por “Estado de Direito”, a essa machadada que seria a votação final e global de uma lei impensável: restritiva de direitos, com carácter retroactivo. Machadada que abre uma enorme brecha – na democracia e na legitimidade do governo. Precedente inadmissível em qualquer país civilizado.
Uma lei que sempre se tentou escamotear: nos pretextos, na sua Exposição de Motivos e inconsequentes Disposições Legais; nos recados à Comunicação Social; na sobreposição permanente de factos novos que a deixassem na sombra e viessem distrair dela as atenções…; e agora, finalmente, até no agendamento da sua aprovação, feito um tanto “às ocultas”. 
Escrevia eu:
«Pareceu-me estranha, a sequência – e o provável cruzamento dos processos, que estão em andamento diferente, nessa data. A infeliz coincidência revela até que ponto podemos ser levados – enquanto nos concentramos numa coisa, outra avança, inexoravelmente. Sempre contra nós – como tem sido o caso. 
Entendo – e sempre aqui o disse – ser mais grave, em termos reais e simbólicos, a aprovação da dita “convergência”. Independentemente dos montantes em jogo, individualmente considerados – bem sabemos que se trata de “cortes” que serão, em geral e “grosso modo”, idênticos ao abuso da CES. A questão é, todavia, outra – e é princípio de que não podemos abdicar. Enquanto se trata, para a CES, de mais um “imposto”, arbitrário, encapotado (que não altera o montante ilíquido atribuído um dia àquela pessoa, em função dos critérios legais), neste caso trata-se, antes, de proceder a um recálculo, acabando com o que fora estipulado. E é só essa retroactividade (que serve esse carácter definitivo do “corte”) que ali se joga – na nossa frente, de forma legalmente despudorada. Pela primeira vez – note-se bem! – num “Estado de direito”, como se suporia ser o nosso… até à data!» 
Acrescentando, a seguir: 
« Porém, eis o que entendo: na 6ª feira, enquanto se protesta, a pretexto da aprovação na generalidade do Orçamento, contra quase tudo quanto nele cabe, há-de estar esta Proposta a ser aprovada – em votação final! Não vejo quem disso fale. Na própria AR, mal vejo onde isso vai caber. Nem a CGTP se lhe refere. E contudo… – é a primeira vez que assim se enterra o regime: nem a aparência de democracia, de “Estado de direito”, esta lei salva.» 
Por isso, concluía: 
«É aí que a “APRe” deve estar – contra o que ali, concretamente, desta vez se joga. De acordo com o que sempre disse da “convergência” e o que são os seus princípios:
«E não abandonaremos nenhuma das formas de luta ao nosso alcance para evitar que se consume a destruição do Estado de Direito. Lutando pelos nossos direitos, é pelo Direito que lutamos.» 
Companheiros: tenho de concluir, agora, com todo o desalento que este dia por isso me merece: infelizmente, não esteve. A “APre!” não assinalou hoje a sua indignação – a marcar devidamente este dia. Hoje mesmo, que para mim datas são datas, sinto-me eu muito mal. Aqui sozinha, não posso deixar de vos dizer da minha decepção pelo que ali, na Assembleia, em nome do povo, esta maioria votou. O acto é, para mim, inqualificável.
Um abraço de solidariedade a todos.

Aida Santos

31 de outubro de 2013

Luísa Cabral


ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO

COMPANHEIROS e AMIGOS, 

A luta faz-se na rua e a rua tem de ser nossa. Mas saúdo com especial carinho os mais idosos, aposentados e reformados sobre os quais este Governo tem feito abater as mais iníquas medidas sociais e económicas. São medidas selectivas, porque é mais fácil, porque esperam ter alguns por eles e porque esfrangalha a coesão social. O que leva o Governo a escolher como alvo fácil este grupo social? Não é só a cobardia que explica a opção tomada; é também a soberba de quem se acha iluminado e imbuído de uma missão transcendente da qual não deve nenhuma explicação. Mas eu digo-vos qual é a transcendência; a transcendência deles é mesquinha e limita-se a uma opção ideológica: tirar, rebaixar, quebrar os costados, empobrecer. Os pobres têm menos capacidade de luta. A barriga vazia tem limites. A saúde pela qual não se cuida retira a energia. Muitos idosos não poderão vir para a rua; estão em casa, envergonhados, por trás de uma cortina de silêncio, escondem a humilhação que sentem e nós temos dificuldade em chegar até eles. Mas esta luta também é por eles. Nós não permitiremos que a coesão social seja destruída; com todas as nossas forças temos de nos opor a este estilhaçar e para isso precisamos de trabalhar nas juntas de freguesia, nas câmaras, nas associações cívicas, nos bairros. Utilizemos estas estruturas para impor a nossa vontade e as nossas escolhas.
O Governo utiliza uma linguagem perversa, mentirosa e descarada. Para eles os cortes querem dizer reforma; ao nivelamento por baixo chamam-lhe convergência. Onde diabo aprenderam a língua portuguesa?! Como os próprios têm o atrevimento de dizer, não se percebe porque andamos, nós os que estamos contra estas medidas autoritárias e autistas, tão açodados a gritar contra a reforma do Estado porque ela já está feita. Como se afoitam a dizer estas provocações? Não têm pudor e afrontam tudo e todos. Mas qual reforma? A única reforma que conhecemos é a nossa, aquela pela qual suámos e que nos é entregue como se fosse um favor, reforma que, por este andar, deixaremos de reconhecer porque qualquer semelhança entre o que nos foi prometido e o que recebemos é pura ilusão. O contrato foi quebrado; este Governo não merece a confiança do povo português e se houvesse alguma honra nem dos parceiros europeus mereceria confiança.
COMPANHEIROS, o Governo tem tentado dividir os portugueses e para isso avança com as medidas às pinguinhas, hoje uma amanhã outra, uma que vai ser assim mas afinal sai de outra forma, uma medida anunciada por um governante e desdita por outro governante, a fazer de conta que há fugas de informação. Tudo combinado, nada acontece por acaso. De publicidade e manipulação sabem muito mas de estratégia, de planeamento, dos verdadeiros interesses do país, não sabem nada. O Governo ora ataca os pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, ora os da Caixa Nacional de Pensões, ora os trabalhadores da Função Pública no activo. E os cortes não servem rigorosamente para nada; o deficit apesar dos milhões de euros que nos foram retirados não pára de crescer. Então, Companheiros, para onde vai o dinheiro? A quem serve o dinheiro? Onde se prepara o Governo a aplicar o dinheiro que quer arrecadar com mais cortes? Da direita à esquerda ouvem-se vozes contra esta política e estes cortes retroactivos com indubitáveis efeitos recessivos a agravar uma economia em espiral recessiva; é uma medida ilegítima e anticonstitucional; quem actua fora da lei tem de prestar contas, seja o Zé, o Manel, o Pedro, o Hélder ou a Maria. Tanto faz e como eles próprios diziam a lei é dura mas é a lei. Lutemos, então, pela aplicação da lei e pelo seu cumprimento.
COMPANHEIROS e AMIGOS, este Governo mente e já ultrapassou a linha vermelha que um dos seus personagens jurava que nunca cruzaria. Quem mais jura mais mente. Pisaram a linha vermelha, a partir daqui tudo é possível. Mas se é possível para eles, então, também tem de ser possível para nós. Não podemos permitir que esta questão de princípio seja posta em causa porque é a própria democracia que está ameaçada. Não nos deixemos enganar: mesmo que apenas meia dúzia de aposentados fossem atingidos, como miseravelmente alguém dizia serem apenas 10% dos reformados, porque se trata de um problema de ética diz respeito a todos, sobretudo aos que se remetem à cultura do silêncio por já não terem força física ou anímica para o combate. Eu responderia a esse comentador futebolístico lembrando-lhe o lema de um grande clube que diz ser o seu: todos por um, um por todos.
Os mais idosos entre nós, aguentaram o rescaldo da 2ª guerra, sofreram o fascismo, a guerra colonial, a imigração, as crises académicas; juntos fizemos o 25 de Abril, construímos este País. Construímo-lo uma vez, vamos voltar a construi-lo depois de ganharmos esta luta. O caminho será longo e duro mas no final só poderemos sair pela porta da frente; este Governo será vencido, na rua e nas urnas, e nós temos de ter forças para chegar a esse dia glorioso e, então, contribuir para repor a justiça e a equidade.
COMPANHEIROS e AMIGOS, termino com uma frase que explica porque chegámos até aqui e porque estamos determinados a prosseguir a nossa luta; uma frase que nos dá força e convicção e que cada um de nós personifica. Um grande artista, Almada Negreiros, disse um dia ATÉ HOJE FUI SEMPRE FUTURO. Ora, nós, quando jovens, fomos futuro; agora que temos menos força continuamos a acreditar que o futuro pode ser justo e os jovens merecem que lhes passemos o testemunho. Não nos deixaremos dobrar! PORQUE NÃO HÁ BECOS SEM SAÍDA!

Vivam os Idosos e Aposentados por muitos e bons anos!

Intervenção lida na Manifestação do QSLT, Lisboa, 26 de Outubro de 2013
Maria Luísa Cabral