8 de agosto de 2016

ESTÁ DESPEDIDA, CARA COLEGA DE ESPERA

Se fosse comigo já estava despedida. Esta gente num emprego a sério não aguentava um dia.» Lá estava eu sentada ao lado da pessoa mais irritante de toda a Loja do Cidadão. À espera de vez, a sentir-me burra por não ter feito marcação pela internet, coisa tão fácil e tão eficaz, e com aquela mulher azeda sempre a resmungar. Não se calava. Agarrada ao telemóvel, jogava incessantemente e também se irritava com o jogo. «Já perdi, não passei de nível.» Eu tinha chegado antes dela, já tinha aproveitado para fazer umas compras no supermercado, tomar um café, comprar o jornal atrás e várias pessoas que compravam raspadinhas e faziam euromilhões. O jornal em papel estava lido de ponta a ponta, os números avançavam no ecrã.

Na cadeira onde a mulher jogava sem sorte, tinham passado uma jovem brasileira bonita e depois uma portuguesa que a dada altura começou a rir-se. Olhei para o que a divertia e era a cena que mais vezes se repetiu ao longo da manhã: a operação complexa de fotografar um bebé. O recém-nascido dormia profundamente. Toda a gente à volta estava a apreciar a manobra, os cuidados da mãe e do funcionário. Para os bebés mais crescidinhos, há brinquedos à mão para tentar que eles olhem em frente e sorriam. Para os miúdos com dois ou três anos ou assim, há sobretudo palavras para captar o olhar. Apareceram dois gémeos loirinhos absolutamente idênticos. Podiam ter usado a mesma para os dois, mas eles portaram-se com a maior calma. O recém-nascido ficou de olhos fechados no cartão e todos voltámos ao tédio.

«Só há um balcão para o cartão de cidadão, por isso é que nunca mais me chamam. Estou aqui há duas horas, cheguei às dez e já é meio-dia.» Nem era meio-dia, nem ela tinha chegado às dez, nem havia só um balcão, como se percebia pelos números chamados e o filho não ligava nenhuma ao que ela dizia, nem abria a boca.

Recorri ao telemóvel para ver notícias. Li mais jornais, Alepo debaixo de fogo, a escola com cem alunos na Síria que funciona numa gruta, os incêndios, tantas coisas dramáticas e a outra sempre naquilo. «Esta gente não faz nada.» Ao meu lado direito sentou-se uma mãe com um rapazinho. «No cartão antigo ainda não sabias assinar, agora já sabes. Trouxe um papel e uma caneta para ires treinando.» Chegou uma amiga mais velha, apertámo-nos e lá ficaram a falar em crioulo sobre a vida.

Mais notícias. O episódio do dia de Trump: «As eleições vão ser uma fraude para o diabo da Hillary ganhar e vai haver um banho de sangue.» Voltei a ler, estava em inglês porque eu já tinha esgotado os jornais portugueses. Bloodbath, disse ele. Preferia quando dizia «Estás despedido» e era mesmo um reality show. Parece que estás a achar que vai perder, pensei.

A minha senha foi chamada, perguntei a quem me atendeu quantas horas trabalhava. «Fazemos turnos, hoje entrei às oito e meia e saio às duas e meia da tarde, e entretanto entram os do outro turno e ficam até a Loja fechar, às oito.» E pausa para almoço? «Devíamos fazer mas não dá, isto está cheio de gente.»

OK, minha cara colega de espera, pensei um pouco no seu assunto e decidi. Está despedida. Do grupo de pessoas aceitáveis para ter ao lado enquanto aguardo a vez. Do grupo de pessoas aceitáveis para ter ao lado. E aprenda a usar o telemóvel para mais do que o Candy Crush, agende a sua próxima ida à Loja do Cidadão, vai ver que é facílimo. Não é por si, é pelas pessoas que vão suportar o seu azedume (e o seu mau cheiro, também, já que penso nisso).

Ana Sousa Dias

7 de agosto de 2016

“Até quando vais ser ovelha?”

Na maior parte das vezes, por comodismo, habituação ou apenas porque fomos obrigados a agir assim, acabamos por dar razão a Camões quando afirmou que “É covardia ser leão entre ovelhas”



Esta ovelha e esta frase, da autoria de Filipe Homem Fonseca, que é possível ver em vários locais de Lisboa e que encontrei numa passadeira, julgo que na Rua da Madalena, interrogam quem passa: “até quando vais ser ovelha?”

Penso que o significado desta pergunta é bastante óbvio. As ovelhas andam em rebanho e, quando uma se perde, o pastor não descansa até a encontrar e trazer de volta ao grupo. Assim, esta frase questiona-nos sobre até quando cada um vai continuar a agir como parte do «rebanho», do grupo ou dos diversos grupos em que cada pessoa se move, não adotando um pensamento próprio, não tomando posição sobre as questões que fazem parte da nossa vida e a definem em sociedade ou, mesmo, sobre assuntos mais concretos e particulares, que apenas dizem respeito à vida de cada um.

Na maior parte das vezes, por comodismo, habituação ou apenas porque fomos obrigados a agir assim, acabamos por dar razão a Camões quando afirmou que “É covardia ser leão entre ovelhas”. E preferimos não ser covardes, quando, na realidade, é sendo “ovelhas” que somos covardes…

Tal como em muitos outros casos de frases ou palavras que encontro pela rua, esta tem uma nítida conotação política ou de intervenção social, lançando um apelo a que as pessoas não vivam alheadas e anestesiadas, gastando o tempo, ou, melhor, «matando o tempo» (como, por vezes, se ouve dizer), mas, no fundo, como diz Bruno Vieira do Amaral, “matando a vida”. Efetivamente, matar o tempo é matar a vida, a própria vida, aquela de que se desiste, por cansaço, por inércia, por opção, por incapacidade; aquela que vamos gastando ou, melhor, desgastando, não usufruindo plenamente da maior riqueza que temos, e que é a própria vida.

Assim, vamo-nos arrastando, aos tombos, entre um amor e outro, entre a multidão e a solidão, entre alegrias e tristezas, até à queda final ou até que encontremos na nossa vida algo ou alguém que nos faça questionar o sentido daquilo que fazemos, da forma como vivemos. Vamos continuando, até encontrarmos alguma coisa, como esta frase, que nos leve a questionar se queremos ser apenas mais uma ovelha num vasto rebanho, protegida pelo pastor e pelo conforto de se ser só mais uma ovelha de um largo grupo. Ou se queremos ser a ovelha negra, aquela que contesta e contraria; ou se queremos, simplesmente, distanciar-nos e pensar antes de agir por impulso, antes de cair no «lugar-comum», antes de seguir o que os outros dizem ou pensam. Ou, alternativamente, a frase questiona-nos sobre se queremos continuar a ser «ovelhas», mas mudar de «pastor». Porque sabido é, como diz um provérbio árabe, que “Um exército de ovelhas liderado por um leão pode vencer um exército de leões liderado por uma ovelha”…

Independentemente da opção que fizermos, se a fizermos conscientemente, mais não fazemos do que, como diz Jorge de Sena, “uma fiel dedicação à honra de estar vivo”!

Maria Eugénia Leitão
jornal Sol 03.08.2016

6 de agosto de 2016

Sanções, FMI e cegueiras

Portugal está a ser submetido, há vários anos, a uma experiência de engenharia social. Usando de instrumentos político-institucionais e económicos, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) formaram uma Troika que, aproveitando uma imensa crise financeira internacional e as fragilidades estruturais de economias como a portuguesa, se juntaram aos representantes nacionais do neoliberalismo austeritário para impor, por muito tempo, uma economia estagnada, um desemprego acima dos 10%, uma emigração de mais de meio milhão de pessoas, salários esmagados, protecções sociais e laborais ínfimas, um Estado demasiado empobrecido para garantir serviços públicos, e uma dívida insustentável. Foram bastante bem sucedidos e não dão a experiência por terminada.

Os poderes que protagonizam esta experiência não são necessariamente loucos (por muito que se vislumbre neles laivos de sociopatia) nem incompetentes (por muito que a incerteza associada a qualquer experiência possa ser fraca desculpa). E o fanatismo com que insistem na aplicação dos seus modelos pode ser sobretudo sinal de um poder absoluto que não é politicamente partilhado nem intelectual ou socialmente contestado – pelo menos não com a força que seria necessária.

A cegueira que lhes é atribuída ao observar as consequências das suas experiências parte do princípio de que dominantes e dominados, vítimas e carrascos da austeridade, partilham os mesmos objectivos e lutam pelos mesmos interesses. Nada podia ser mais falso. E é justamente porque estamos perante profundas assimetrias de poder e interesses altamente divergentes que é tempo de percebermos que a cegueira que nos parece insensata tem atrás de si promotores altamente racionais e que é o nosso próprio direito à cegueira perante isto que deve ter limites.

Os neoliberais austeritários, externos e domésticos, não dão mostras de se afastarem minimamente dos seus objectivos. Para eles, Portugal precisa das políticas e regras que melhor servem o sistema financeiro internacional e os bancos do centro europeu; de ter um exército de mão-de-obra barata para uma economia nacional de serviços e emigrantes exploráveis, mesmo os mais qualificados; de manter o garrote de uma dívida pública que a crise fez explodir e que canaliza capitais para os credores financeiros, não para o bem-estar social. A engenharia social da desigualdade precisa tanto de riqueza como de pobreza. Constrói polaridades, não justiça.

O inédito processo político de sanções, aberto pela Comissão Europeia, a Portugal e Espanha, ficará para a história, apesar do compreensível alívio que a ausência de uma multa suscitou, como mais um episódio da gestão da arbitrariedade do poderoso neoliberalismo europeu, que mantém toda a flexibilidade táctica sem perder o seu fito estratégico. Neste caso, o poder soberano decidiu direccionar o polegar estendido, sob os olhares ansiosos da multidão, para a não aplicação de multas, mas não deixou de avisar que, depois de os súbditos folgarem nas férias, poderá optar por suspender a atribuição de fundos estruturais. Tudo dependerá da execução orçamental e da avaliação (política) do próximo Orçamento do Estado, o de 2017.

Por agora, o governo português e as forças partidárias que o apoiam estão a responder a esta estratégia de medo, destinada a provocar conformação ao rumo político da austeridade, sem ceder a chantagens. Ameaçando até, e bem, com o recurso a tribunais. Mas a folga para melhorar efectivamente as condições de vida da maioria dos portugueses é muitíssimo reduzida, independentemente da vontade política, no quadro das regras europeias existentes e de uma dívida que não seja reestruturada em juros, montantes e prazos. Isto não significa que o próximo orçamento não deva traduzir as melhores escolhas – claro que deve – mas que a arquitectura da União Europeia neoliberal, mais ou menos punitiva, está formatada para impor a Portugal desemprego, salários baixos, emigração e, quando muito, estagnação económica.

Nada disto é novidade. Não o é para os que criticam estas políticas há décadas de forma consequente, como não o é para os que as promovem. Estes últimos são useiros e vezeiros na criação de instrumentos para lançar a dúvida (e com ela a expectativa) sobre a sua capacidade de crítica e de mudança. Fazem-no, em particular, por via de intervenções cirúrgicas na comunicação social, muitas vezes apoiadas em relatórios que assumem erros no desenho e/ou execução das políticas, sejam esses estudos elaborados pelas instituições envolvidas ou por organismos independentes.

Desde há muito que o FMI começou a aplicar os seus planos de ajustamento estrutural em diferentes partes do planeta, da América Latina a África e à Europa de Leste. E, desde cedo, habituou-se, uma vez aplicado o programa, a assumir alguns erros. Mas depois fica tudo na mesma. A partir de 2001 criou até uma estrutura independente para avaliar a aplicação dos programas, o Independent Evaluation Office (IEO), autor do mais recente relatório sobre a actuação do Fundo em Portugal e na Grécia. Publicado a 25 de Julho, o documento é tão devastador como previsivelmente inconsequente.

A aplicação do plano de austeridade a Portugal e à Grécia teve especificidades na história do FMI, desde logo por serem países integrados numa moeda única e, portanto, incapazes de responder aos efeitos do ajustamento com uma desvalorização cambial. Mas muitas das críticas à actuação do FMI que surgem no relatório repetem as de outros documentos, internos ou independentes, até mesmo sobre Portugal. Apenas a título de exemplo, quem não se lembra de o FMI ter revelado, por via de Olivier Blanchard no «World Economic Outlook (WEO)» do início de Outubro de 2012, que havia problemas com os «multiplicadores» nas políticas de ajustamento, o que ia ter impactos mais recessivos do que o previsto, apesar de tantos economistas terem alertado repetidamente para isso mesmo? Quem não se lembra de, em meados de Dezembro de 2013, o FMI afirmar, na décima avaliação do Memorando de Entendimento, que iria continuar a impor reduções salariais e outras «flexibilizações» do mercado do trabalho, apesar de até alguns patrões chamarem já a atenção para que o problema essencial era a falta de procura numa sociedade em processo de desvalorização interna? Quem não se lembra de, no final de Junho de 2014, quando o programa foi formalmente encerrado, a própria Christine Lagarde ter reconhecido que o Fundo teria feito melhor em renegociar a dívida portuguesa? No entanto, a proposta continua a ser quase demonizada aos olhos da Troika e da direita austeritária. Quem não se lembra, já em meados de Dezembro de 2015, de os peritos do mesmo FMI terem reiterados vários erros cometidos, em particular a não reestruturação da dívida, mas nada disso ter tido quaisquer consequências, inclusive para efeitos de processo de sanções?

Na verdade, tal como a abertura de um processo de sanções por parte da Comissão Europeia se destina a manter viva a angústia da punição e o desejo de obedecer para a evitar, a publicação de relatórios de admissão de erros por parte do FMI ou das suas identidades independentes serve para acordar nos austerizados a esperança de correcção de uma trajectória política de pobreza e desigualdades. Se a resposta à primeira implica coragem e até insubmissão, a resposta ao segundo exige que deixemos de nos surpreender com o previsível e passemos a forçar mudanças reais.

Sandra Monteiro
Le Monde Diplomatic
04.08.2016

4 de agosto de 2016

Posição da APRe! sobre o Relatório da Comissão de Reforma do Modelo da ADSE


A leitura do comunicado da Comissão de Reforma do Modelo da ADSE não constituiu qualquer surpresa para a APRe! na medida em que, desde o inicio do processo, se vinha desenhando uma destas possibilidades: privatização da ADSE ou Mutualização.

Propõe a Comissão que a ADSE passe a ser uma “pessoa coletiva de direito privado, de tipo associativo, sem fins lucrativos e de utilidade pública administrativa” que passará a poder “prestar serviços a terceiros mediante a cobrança da correspondente receita a valores de mercado e que, pelo menos, terá que cobrir os custos em que ela incorre com aquela prestação”.

Apesar da possibilidade de o estado acompanhar e fiscalizar a actividade da “nova” ADSE, estamos perante um processo de privatização, (a nova entidade pode, eventualmente, ser gerida por "uma operadora de seguros de saúde privada" e prestar serviços a terceiros mediante a cobrança de correspondente receita a valores de mercado) processo esse rejeitado desde o início, pela Associação APRe!.

As duas únicas opções aceitáveis, no entendimento dos associados da APRe!, são:

  • manutenção do sistema da ADSE tal como está, mas com gestão participada dos "beneficiários" e com estatuto jurídico que assegure a autonomia financeira e patrimonial.
  • extinção da ADSE como Direcção Geral e a sua passagem a Instituto Público na tutela do Estado com gestão participada pelos representantes dos funcionários públicos no activo e dos aposentados, dotado de plena autonomia administrativa e financeira. É necessária uma forte presença pública para garantir soluções de justiça e equidade na gestão do sistema.
A longevidade contributiva dos aposentados, que durante 35 ou 40 anos contribuíram para a ADSE, enquanto trabalhadores do Estado no activo, e que continuam a contribuir, após a reforma, tem de ser protegida e salvaguardada. A saída da ADSE da esfera do Estado equivaleria, na prática, à extinção deste subsistema de saúde tal como foi originalmente concebido, em 1963.

As tentações, com que alguns já acenam, de fazer ingressar no sistema da ADSE gente nova, mesmo de fora do perímetro do Estado, poderá fazer desequilibrar as contas, que até agora têm dado e sobrado, e diminuir, por razões de "sustentabilidade", as condições de assistência médica aos reformados, numa altura em que cada vez precisam mais dela.

Pel´A Direcção da APRe!

Maria do Rosário Gama
(Presidente da Direcção)

3 de agosto de 2016

‘Ceta’ Envenenada

ESTAREMOS PERANTE ‘TRATADOS’ OU UMA ESPÉCIE DE CAPTURA DOS ESTADOS E DAS SUAS INSTITUIÇÕES E LEIS?


Enquanto vai tudo a banhos, às escondidas da sociedade civil, dos parlamentos e das obrigações ético-políticas elementares em qualquer democracia, continuam a ser negociados dois tratados — um com o Canadá (CETA — Canada-Europe Comprehensive Economic and Trade Agreement) e outro com os EUA (TTIP — Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) —, que atingem a soberania e fazem recuar o direito e a democracia para níveis inimagináveis.

Mas porque é que estes tratados não podem vir a público e ser objeto de debate transparente e alargado? A resposta infelizmente é simples: sob pretexto à partida razoável de remover barreiras alfandegárias e aproximar a legislação entre os dois lados do Atlântico, acabam por permitir que as grandes corporações mundiais usurpem funções soberanas dos Estados, desde a justiça até às decisões essenciais para acautelar o ambiente, a saúde pública e o direito. Por isso, estaremos perante ‘tratados’, ou de uma espécie de captura dos Estados e das suas instituições e leis?

O CETA e o TTIP, alegando que vão facilitar trocas comerciais, parecem estar a preparar-se para mutilar direitos públicos e de cidadania decisivos. Por exemplo, se as corporações se sentirem lesadas na sua expectativa de lucro devido a mudanças legislativas nas áreas de ambiente, saúde pública e direitos laborais, podem processar os Estados, que serão julgados por tribunais arbitrais sem qualquer garantia de independência (a Philip Morris já processou o Uruguai por colocar avisos antitabágicos nos maços de cigarros).

Cerceia-se a liberdade dos cidadãos para escolher, limitando informação nas rotulagens, e a autonomia dos Estados para tomarem iniciativas locais contrárias aos interesses dessas corporações: por exemplo dificultando práticas de agricultura sustentável menos dependente de agroquímicos, ou pequenos circuitos locais de alimentos, ou até projetos de microgeração de escala local com energias renováveis. Tudo isto prejudicará as pequenas e médias empresas.

Liquida-se um valor central das políticas ambientais e de saúde pública na Europa, que é o ‘princípio da precaução’. Por exemplo, prevê-se que seja facilitada a entrada de organismos geneticamente modificados (OGM), que na UE têm fortes restrições à sua produção e introdução na cadeia alimentar. Tal como os pesticidas: os EUA permitem 82 já banidos na UE por serem muito perigosos, entre eles alguns com capacidade para desregular o sistema hormonal. E também várias substâncias químicas usadas em cosméticos, das quais a UE baniu 1378 e os EUA apenas 11. Tudo situações graves que interferem no ambiente e na saúde. A pretexto de harmonização, a tendência será nivelar as exigências por baixo.

Em suma, o que está em jogo é demasiado complexo para dizer em poucas palavras, mas fica o alerta: com estes Tratados, abre-se uma perigosa porta para o cidadão passar a ser um mero subordinado às decisões despóticas das grandes corporações que ganham uma prevalência enorme sobre as decisões dos Estados. Há um risco significativo de transferência de soberania dos Estados democráticos para as grandes empresas, seus acionistas, gestores e lóbis bem apetrechados de recursos jurídicos, liquidando a defesa dos interesses públicos e dos bens comuns face aos interesses privados.

Neste momento existe já um texto acordado com o Canadá e pretende-se, à pressa, uma aplicação provisional antes de ser discutido pelos Parlamentos nacionais. Impõe-se urgente clarificação por parte dos órgãos de soberania — da Presidência ao Parlamento. Mesmo que fosse para lhes reconhecer vantagens, não é possível que decisões desta envergadura sejam tomadas à porta fechada. É que os cidadãos podem ir para a praias, mas os órgãos de soberania têm por missão garantir o Estado e o direito, faça sol ou chuva.

Luísa Schmidt
Expresso 30.07.2016

2 de agosto de 2016

Os falhanços da “troika"

Apesar dos erros assumidos, o FMI mantém o rumo nos países resgatados.


Tem sido largamente comentado o último exercício de autocrítica do FMI. Este documento, de um organismo interno (mas independente) do próprio FMI, formula críticas arrasadoras à participação do Fundo nos três resgates a países do euro: Grécia, Irlanda e Portugal.

O relatório acusa particularmente alegados erros do FMI na Grécia, mas também aponta alguns em Portugal, como a falta de atenção aos problemas da banca portuguesa.

Não é a primeira vez que o FMI torna públicas autocríticas. Por exemplo, o anterior economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard, havia levantado dúvidas sobre as previsões optimistas do FMI. Também a directora do FMI, Christine Lagarde, exprimira reparos a um possível excesso de austeridade.

Só que estas críticas não tiveram eco nas equipes do FMI junto dos países resgatados… Afinal, quem manda no FMI?

Recorde-se que, dos três membros da “troika – Comissão Europeia, BCE e FMI – só este último tinha experiência de resgates financeiros. Ora, se o FMI demonstrou tanta incompetência, bem pior terão sido os outros dois. Lamentável.

Francisco Sarsfield Cabral

1 de agosto de 2016

Desculpem qualquer coisinha

O relatório, pedido pelo FMI, sobre o programa da troika em Portugal não diz nada que muita gente já não tivesse dito. Foram muitas as vozes a chamar à atenção dos erros flagrantes do chamado plano de resgate, das prioridades trocadas, da destruição do tecido económico que inevitavelmente aconteceria, do desemprego e emigração que provocaria, da negligência criminosa com que olhava para o sistema financeiro.

Essas e muitas outras críticas foram feitas antes da sua implementação e, sobretudo, durante, quando eram já mais que óbvias as falhas do programa. O próprio Vítor Gaspar, campeão do projeto, as reconheceu na sua célebre carta de despedida. Mais, o próprio FMI já tinha noutras ocasiões admitido vários erros.

Tudo isto será verdade, mas não chega para evitar um novo arrepio quando se lê o dito relatório. Não é bem um arrepio, é um enorme murro no estômago.

Em poucas palavras o que lá está é o seguinte: o programa da troika falhou em toda a linha. Os pressupostos estavam errados (não se conhecia minimamente o país, nem tecido económico, nem realidades sociais), enganaram-se na fórmulas e nos seus efeitos (o caso multiplicador é de bradar aos céus) e, claro, nenhum dos problemas estruturais da nossa economia melhorou, a sustentabilidade da dívida pública e da balança líquida continua tão débil como antes e até o crescimento das exportações - visto como um dos sucessos do programa - ou o celebrado regresso aos mercados - os autores do relatório com uma mal disfarçada vergonha sugerem que não será evidente que isso não tenha sido consequência das políticas do BCE - em nada esteve relacionado com a malfadada receita. O óbvio ululante também é dito, ou seja, ajudou-se a destruir o nosso sistema bancário e, surpresa das surpresas, chega-se à conclusão de que uma restruturação da dívida teria sido uma medida avisada. Lembro-me bem da chuva de insultos que caíram sobre quem subscreveu um documento que pedia exatamente essa negociação. Enfim.

O pior de tudo não é perceber que se mandaram para o desemprego milhares de pessoas, não foi termos perdido 600 000 jovens para a emigração, não foi só ver o trabalho degradado a apenas mais um fator de produção, não foi só ter-se apostado em salários baixos, não terá sido a aposta no empobrecimento, não foi por a receita ter produzido um país ainda mais desigual e mais injusto.

Sim, cada uma destas razões seria suficiente para chegarmos à conclusão de que o programa da troika tinha sido um desastre, seria bastante para não perdoarmos aos executores políticos nacionais dessas políticas que, é bom lembrar, queriam ir para além das políticas troikianas. Mas não seria a primeira vez que os decisores políticos se enganavam, que, com as melhores intenções, se causavam verdadeiros desastres.

O que mais choca no relatório não é a assunção dos erros, é perceber a descontração com que se fizeram experiências com as vidas pessoas, como se decidiu verificar como uma comunidade reagiria a um plano revolucionário nunca testado, como se decidiu friamente perceber se nós aguentávamos, como nos trataram como meras cobaias ao serviço de uns senhores que nunca tinham testado uma fórmula e que encontraram os ratinhos certos: obedientes, submissos e a sentir-se culpados (alguém os tratou de convencer) porque tinham feito muitas maldades, plasmas, viagens, carros fantásticos e por aí fora.

Sabendo e voltando a saber tudo isto, surge ainda mais insultuoso que se tenham discutido as sanções, que tenham existido representantes de países a insistir em penalizar países por, tão-somente, terem sido sujeitos a testes lunáticos e a receitas comprovadamente erradas. É verdade que a não aplicação de sanções e a nova tolerância do défice podem ser considerados sinais de que algo pode está a mudar, mas é pouco, muitíssimo pouco. O essencial continua lá. Quem, de facto, manda na Europa continua a acreditar em soluções que destruíram e continuam a destruir países como Portugal.

Contra todas as evidências, contra até as suas próprias grelhas de análise. Ou é loucura ou fanatismo. Não sei o que será o pior.

Pedro Marques Lopes
Opinião DN 31.07.2016