6 de outubro de 2016

É bom quando ganham os melhores

Vencer na cena internacional é extremamente complexo, tal a junção de razões conjunturais e estruturais, ainda por cima num mundo mais imprevisível do que nunca. Mesmo para os melhores. Mas quando os melhores ganham é bom, é muito bom. Foi o que aconteceu neste caso.

António Guterres era e é, claramente, o melhor para o cargo. Pelas suas qualidades pessoais, pelo seu currículo na própria ONU, pela capacidade de visão e de equação dos principais problemas universais. Demonstrou-o ao longo de meses na sua candidatura. É certo que com o apoio de um esforço singular de unidade nacional, de uma solidariedade institucional absoluta, de uma diplomacia que teve no primeiro-ministro e, em especial, no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros um papel estratégico crucial, de uma equipa notável e de um protagonista de exceção, que foi o representante de Portugal na ONU, embaixador Álvaro de Mendonça e Moura. E da voz prestigiada do presidente Jorge Sampaio.

Tudo isto é verdade. Mas António Guterres foi o melhor. Pelo facto muito simples de que é o melhor. De longe. Por isso, a vitória é, em primeira linha, sua. Ou, se quisermos ser justos e prospetivos, da comunidade internacional, que soube perceber o que estava em causa. E teve a coragem de escolher em conformidade.

Termino como comecei: que bom ter ganho o melhor! Quando esse melhor é português, que honra para o Presidente da República de Portugal poder testemunhar e celebrar esse momento histórico.

Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República
DN 06.10.2016
http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/e-bom-quando-ganham-os-melhores-5426463.html

5 de outubro de 2016

Idosos precisam de assistência médica própria, como as crianças

Especialista defende que todos os hospitais deviam ter consultas e unidades de internamento em geriatria para dar “uma resposta mais adequada” aos problemas dos doentes idosos, como acontece há mais de 30 anos em Espanha e nos EUA


O médico Gorjão Clara defendeu esta terça-feira que, tal como as crianças, os idosos também precisam de ter assistência médica própria, alertando para a necessidade da geriatria ser implementada em Portugal face ao envelhecimento crescente da população.

“Hoje a esperança de vida é muito mais alta do que era há 30 anos e os hospitais e os médicos têm que estar preparados para essa realidade que é diferente”, disse o geriatra, que falava à agência Lusa a propósito do 12º Congresso Internacional da Sociedade de Medicina Geriátrica da União Europeia, que decorre entre quarta e sexta-feira no Centro de Congressos de Lisboa.

Para o coordenador da Unidade Universitária de Geriatria da Faculdade de Medicina de Lisboa e coordenador do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, o “grande desafio” é conseguir “otimizar a assistência aos idosos”.

Para isso, os idosos têm de ter “assistência própria”, uma assistência que “justifica a existência da geriatria”.

“Assim como as crianças têm que ter uma abordagem própria, porque as suas doenças são de determinado tipo e prevalência, e a maneira como devem ser tratadas tem de ser condicionada pela imaturidade do seu sistema biológico”, os idosos também precisam, porque estão numa “fase tardia da evolução biológica”, que também condiciona a prevalência e a manifestação das doenças e a opção e abordagem terapêutica.

Gorjão Clara sublinhou que é “um desafio enorme que se levanta a todos”, porque obriga “a refazer” as prioridades da medicina tradicional que tem sido as pessoas de meia-idade.

Os idosos são hoje os “maiores consumidores de medicamentos” e os que estão internados nos hospitais em maior número, disse, advertindo que esta população está a crescer e a sociedade tem de preparar-se para isso.

Além da necessidade de se otimizar a assistência aos idosos, é preciso criar “condições sociais” que melhorem a sua qualidade de vida e que passam por adaptar as cidades e os hospitais a esta realidade.

Citou como exemplos as cidades terem que ter “pisos regulares para que o idoso não tropece e não caia”, bancos onde possam descansar, casas de banho próximas, sombras nas paragens dos transportes e escadas rolantes no metro até à superfície.

Por outro lado, exemplificou, os hospitais que se constroem não podem ter as características de hospitais como o de Santa Maria, em Lisboa, que foi construído há mais 50 anos e em que a média de idade das pessoas internadas na altura era de 45, 50 anos e hoje é de 80 anos.

O especialista defendeu também que deviam ser criadas consultas e unidades de internamento em geriatria em todos os hospitais do país para dar “uma resposta mais adequada” aos problemas dos doentes idosos.

Gorjão Clara criou, em 2011, uma consulta multidisciplinar de geriatria, que funciona no Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN).

Nesta consulta, uma equipa multidisciplinar avalia o doente nas mais variadas vertentes (clínica, social, emocional, intelectual e físico) para que o médico consiga responder mais adequadamente aos seus problemas, explicou o geriatra.

Há ainda a possibilidade de se marcar nesta consulta uma visita domiciliária, na qual se dá apoio terapêutico, mas também se procura detetar fatores de risco de acidentes domésticos e dar conselhos sobre alimentação, entre outras intervenções.

Para o coordenador da Unidade Universitária de Geriatria da Faculdade de Medicina de Lisboa e coordenador do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, esta consulta devia funcionar em todos os hospitais do país, tal como deviam ser criadas unidades de internamento em geriatria.

“É preciso replicar esta consulta por todos os hospitais e é preciso que todos os hospitais sintam a necessidade de criar unidades de geriatria, de 15, 20 camas, onde os doentes geriátricos tenham apoio e a possibilidade de ter otimizada a sua assistência, como acontece, por exemplo, há mais de 30 anos em Espanha e nos Estados Unidos da América”, defendeu.

Atualmente, apenas existe uma unidade de internamento em geriatria, que abriu este ano no Hospital de Vila Franca de Xira. Entretanto, também abriram consultas multidisciplinares de geriatria naquele hospital, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, e num hospital particular de Lisboa.

Sobre a realização do congresso, ao qual preside, Gorjão Clara disse que “é uma honra” realizar-se em Portugal, porque é um país onde a “geriatria ainda não está muito desenvolvida”, onde não há unidades de internamento nos grandes hospitais e a “especialidade não existe”.

“A Ordem dos Médicos reconheceu no ano passado a competência em geriatria, mas ainda não há especialidade”, sublinhou.

De acordo com o especialista, o congresso irá trazer a Portugal – o quarto país mais envelhecido da Europa – mais de 1.000 participantes de 53 países.

Sobre a escolha do tema do congresso, “Descobrindo novos caminhos no mundo da geriatria”, Gorjão Clara disse que está relacionado com os descobrimentos portugueses.

“O congresso pretende procurar novos caminhos, novas informações, novos processos e dar melhor assistência e acompanhamento aos idosos”, explicou.

Redação/AR
tvi24 04.10.2016
http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/geriatria/idosos-precisam-de-assistencia-medica-propria-como-as-criancas

4 de outubro de 2016

Cuidar dos netos é bom para os miúdos e os avós - mas não pode ser obrigação

O convívio com as crianças tem inúmeros pontos positivos para os idosos, mas os avós precisam de tempo e espaço para si e os filhos devem ter isso em conta. Deve existir uma partilha programada e não uma exigência unilateral


Quando a neta nasceu, Natércia tinha 44 anos. Hoje tem 53. Trabalha, gosta de ir ao ginásio e de sair com as amigas, pelo que nem sempre pode ficar com a neta, Lara, quando a filha lhe pede. "Ela já me disse que eu não tinha perfil para ser avó. Mas os avós não têm de ser pais. Eu já criei dois filhos. Gosto muito de estar com a minha neta. Adoro dormir com ela, fazer caminhadas, levá-la à praia, conversar. Mas também gosto de ter o meu sossego."

Hoje pode dizer "não", mas durante muito tempo Natércia tinha de ir buscar a neta à escola e dar-lhe banho e jantar, porque a filha estava a trabalhar. Para muitas famílias, o apoio dos avós no dia-a-dia é fundamental, mas, dizem os especialistas em geriatria, é preciso combater a noção de que os avós são obrigados a ter disponibilidade total para os netos.

"A ideia é que não sejam utilizados como pessoas totalmente disponíveis, sem necessidade de vida própria, mas que a sua independência e autonomia sejam respeitadas", afirma Maria João Quintela, presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia (APP). Se não fosse a ajuda dos avós, prossegue, "muitos casais não conseguiam ter vida profissional". Mas "a sua disponibilidade tem de ser valorizada e não usada de forma utilitarista".

A solidariedade entre gerações é boa para todos, salienta Maria João Quintela, mas "não é bom que os avós não possam programar as suas vidas. A disponibilidade dos avós deve ser programada com tempo, deve existir uma partilha e não uma exigência unilateral. Deve repercutir-se em reconhecimento e até em reciprocidade. Nem sempre isso acontece".

Sofia von Humboldt, psicóloga clínica com investigação na área do envelhecimento, adianta que, muitas vezes, "o que é tido em conta são as necessidades da família mais jovem e não a dos avós. Há pessoas com uma vida profissional ativa depois dos 65 anos e que não têm disponibilidade para estar com os netos. Mas há muito o conceito de que têm de estar disponíveis".

Se cuidar dos netos for opcional e não uma obrigação "pela necessidade de ajudar os filhos", o convívio com as crianças tem inúmeros benefícios para os idosos. "Do ponto de vista cognitivo, a relação com pessoas mais novas estimula competências. Por outro lado, há uma integração na vida corrente, participam em atividades", exemplifica Sofia von Humboldt. Mas também existem desvantagens. "O stress ocupacional na relação frequente com crianças pode ser negativo para a saúde dos mais velhos", alerta. Além disso, acrescenta, "pode não dar tempo para os idosos exercerem as suas atividades pessoais, sejam elas quais forem. A disponibilidade total e gratuita impede os outros de ter compromissos". Quando se torna rotina, explica, pode "tirar a alegria de uma relação que pode ser facultativa. Ser avô não é profissão. Não deve ser uma obrigação".

Portugal é um dos países da Europa onde os avós passam mais tempo com os netos, mas, segundo a psicóloga, o paradigma mudou nas últimas décadas. "As pessoas envelhecem com muito mais saúde e têm mais vontade de fazer coisas. Os idosos têm cada vez menos tempo para cuidar das crianças", refere Sofia von Humboldt. Maria João Quinta reforça que "lá porque muitas vezes estão reformados, não se pode considerar que os avós são inúteis e só servem para fazer recados". Além disso, frisa, é preciso ver as suas "capacidades, a condição física, a disponibilidade financeira".

Impor limites à família

Para que cuidar dos netos não se torne um fardo, a Sociedade Espanhola de Geriatria emitiu recentemente uma série de recomendações, publicadas no El Mundo, dirigidas aos avós. "Façam o que puderem mas não se sobrecarreguem com trabalho. Imponham limites aos vossos netos, filhos, companheiros. Aprendam a dizer não. Desfrutem dos momentos que partilham com as crianças, mas não negligenciem a vossa saúde. Reservem tempo e espaço para vocês. Estabeleçam uma boa comunicação com os vossos filhos."

Joana Capucho
DN 03.10.2016

3 de outubro de 2016

Saia de casa no 5 de outubro

Esta quarta-feira é de novo feriado. Celebramos de novo com força nacional a implantação da nossa República. E nesse dia? Vamos ficar em casa? Ou festejamos na rua?

Se ficarmos em casa damos razão a quem decidiu acabar com este feriado em nome da austeridade. Se sairmos à rua, num dia que podemos ficar em casa, damos mais sentido à liberdade que a República nos trouxe.

Feriados são mais que descanso, são celebrações de pertença. São dias de festa sobre as causas em que uma sociedade escolhe acreditar. Em Portugal, como noutros países, celebramos a liberdade, o trabalho, a nacionalidade e todos os valores nos quais uma nação acredita e se revê.

É por isto que cada feriado é muito mais que uma pausa no trabalho. Muito mais que uma oportunidade de descanso. Os feriados são símbolos de unidade nacional.

Quando o Governo de Passos Coelho decidiu acabar com alguns feriados, estava a dizer às pessoas mais do que aquilo que parecia. Estava a mandar um recado claro sobre aquilo que se preparava para fazer.

Se pensarmos bem, um político que não acha importante continuar a festejar o sistema político vigente, está disposto a abrir mão de muito mais que 24 horas de descanso. Visto a esta distância, é fácil compreender o que esta atitude realmente significava. Quando o Governo anterior decidiu acabar com o feriado da implantação da República estava, acima de tudo, a anunciar as políticas que estavam para vir.

Quem aliena o significado dos valores de uma nação, também lhe aliena o património. O que aconteceu a seguir, a privatização massiva das empresas e interesses nacionais, portos, aeroportos, energia, telecomunicação e muitos outros não era mais que a crónica de uma vontade anunciada. O ultraliberalismo que assolou Portugal nos tempos da crise e nos empobreceu mais e mais.

Por isso é muito importante que na quarta-feira não fiquemos em casa, sentados no sofá da Liga dos Campeões. É importante que façamos com a reposição deste feriado o que ele nos merece: que celebremos a República como uma das conquistas maiores de Portugal e dos portugueses.

José Manuel Diogo
ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE
JN 02.10.2016
Leia mais: Saia de casa no 5 de outubro

2 de outubro de 2016

Anti-inflamatórios como o ibuprofeno e diclofenaco ligados a maior risco cardíaco

Estudo que envolveu 10 milhões de pessoas foi hoje revelado


Segundo o estudo hoje publicado na revista British Medical Journal, as pessoas que consomem aquela classe de medicamentos [ibuprofeno e diclofenaco] têm uma probabilidade 19% superior de ter uma falha cardíaca nos 14 dias seguintes a ingestão do medicamento.

As conclusões da equipa da Universidade Milano-Bicoca (Itália) baseiam-se em dados relativos a 10 milhões de pessoas do Reino Unido, Holanda, Itália e Alemanha, que iniciaram um tratamento com aqueles anti-inflamatórios entre 2000 e 2010.

Estudos anteriores já tinham estabelecido um vínculo entre aquele tipo de medicação e ritmos cardíacos anormais, assim como o aumento do risco de as pessoas sofrerem de ataques cardíacos e derrames cerebrais se consumidos de forma regular.

"Sabemos desde há anos que aquele tipo de medicamentos deve ser utilizado com precaução pelos pacientes com risco de sofrerem de problemas cardíacos, particularmente adultos", afirmou, em comunicado, Peter Weissberg, diretor da organização britânica, que realizou a investigação médica British Heart Foundation.

DN 29.09.2016

1 de outubro de 2016

Dia do Idoso: pensões quase estagnadas em 40 anos

A pensão mínima de velhice é hoje apenas mais três euros do que à 40 anos, se se descontar a inflação. No Dia Internacional do Idoso, o portal estatístico Pordata indica que Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais idosos a viverem sozinhos.



A pensão mínima de velhice é hoje apenas mais três euros do que há 40 anos, descontando a inflação, sendo Portugal o terceiro país da União Europeia com mais idosos a viverem sozinhos.

Os números traçam um retrato da população mais velha em Portugal, feito pelo portal estatístico Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a propósito do Dia Internacional do Idoso, que se assinala este sábado.

Dizem por exemplo que a atual pensão mínima de velhice e invalidez, de 262 euros, é muito superior aos 8 euros de 1974, mas que, descontando a inflação, os idosos do regime geral da segurança social recebem hoje apenas mais 3 euros do que há 40 anos. A preços constantes tendo como base 2011 ganhavam 251 euros em 1974, ganhavam 253,7 euros em 2015.

Pegue-se agora no total de pessoas que vivem sozinhas e olhe-se para a idade: 53% têm 65 ou mais anos. Na União Europeia só a Croácia e Malta têm mais idosos a viver sozinhos do que Portugal. A média europeia é de 40% e do outro lado da tabela está a Suécia, onde só são idosos 14% de todos os agregados domésticos unipessoais.

A isto some-se a taxa de emprego, que vai baixando à medida que as pessoas vão ficando mais velhas. Em 2015 era de 80% entre os 25 e os 44 anos, descia para 76% entre os 45 e os 54, e descia para 50% entre os 55 e os 64 anos.

E ao retrato junta-se a escolaridade. Os números dizem que entre as pessoas com 65 ou mais anos mais de uma em cada quatro não completou qualquer nível de escolaridade, uma situação que ainda assim melhorou substancialmente nos últimos 10 anos.

Com tudo junto chega-se aos números sobre a pobreza. Dizem eles que 90% das pessoas com 65 ou mais anos seriam pobres sem as transferências sociais. Ainda assim, após essas transferências a taxa de risco de pobreza para idosos é de 17%.

Portugal é o oitavo país da União Europeia com mais pessoas idosas em situação de carência económica ou de bens duradouros. São 10% dos mais velhos na lista dos 28, encabeçada pela Bulgária, com 40% de idosos em situação de privação severa.

A média da União Europeia está nos 6,2% e o país com menos idosos nestas condições é o Luxemburgo, com apenas 0,1% que não podem, por exemplo, fazer face a uma despesa extra, ter televisão a cores ou telefone, poder comer carne e peixe duas vezes por semana ou pagar as contas mensais, entre outros itens para definir a taxa de privação material severa.

E a este quadro junta-se o acentuado envelhecimento da população. Há 30 anos os pensionistas e reformados eram uma em cada quatro pessoas ativas e hoje são praticamente uma em cada duas pessoas ativas.

Número de idosos duplicou desde 1970

Segundo a Pordata, o número de pessoas em Portugal com mais de 65 anos duplicou em relação aos anos 70 e é hoje superior a dois milhões, tendo a população com mais de 80 anos aumentado cinco vezes.

Em termos concretos, havia em 1971, em Portugal, 836.058 pessoas com 65 e mais anos. Em 1977 ultrapassaram o milhão e em 2012 os dois milhões. Em 2015 eram 2.122.996.

Quanto às pessoas com 80 ou mais anos, eram 123.592 em 1971, passando a 605.012 em 2015. Os números são sempre cruzados pelo portal estatístico Pordata, usando várias fontes, neste caso o Instituto Nacional de Estatística.

Outro dado que demonstra o envelhecimento do país compara também os anos 70 do século passado com a atualidade: nessa altura por cada pessoa com 65 ou mais anos existiam duas crianças com menos de 10 anos. Hoje é ao contrário, por cada criança com menos de 10 anos existem duas pessoas com 65 ou mais anos.

Se em termos globais os idosos são 20% da população portuguesa no Alentejo e no Centro essa percentagem é superior (24,6 e 23,2, respetivamente), destacando-se os Açores e a Madeira como as regiões mais jovens (13,4 e 15,4, respetivamente).

E olhando ainda mais em pormenor os números indicam que há municípios tão envelhecidos que os idosos ultrapassam os 40%, como os de Idanha-a-Nova, Pampilhosa da Serra, Penamacor e Vinhais. Em Alcoutim chegam mesmo aos 45,2 por cento, em contraponto com Ribeira Grande, nos Açores, onde os idosos são apenas 08% da população.

Outro facto que os números revelam é que mais de duas em cada cinco pessoas com 65 e mais anos, ou seja 42%, residem nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Essas duas regiões equivalem a cerca de 05% do território nacional mas concentram 44% do total de residentes.

E se todos os números indicam que Portugal é um país envelhecido a comparação com o resto da Europa só o confirma. No índice de envelhecimento relativamente a 2014 Portugal era o quinto país mais envelhecido.

Nesse ano Portugal tinha 138,6 idosos (65 ou mais anos) por cada 100 jovens (menos de 15 anos). A Alemanha era o país mais velho, com 159,1 idosos por cada 100 jovens, seguindo-se a Itália, com 155,9, depois a Bulgária, com 143,3, e a Grécia, com 141,8.

A média da União Europeia está nos 119,8 idosos por cada 100 jovens e a Irlanda é, de longe, o país mais jovem, com apenas 58 idosos por cada 100 menores de 15 anos.

O Dia Internacional do Idoso foi instituído pela ONU em 1991 para sensibilizar o mundo para as questões relacionadas com o envelhecimento e a proteção dos mais velhos.

tvi24 01.10.2016

Nova convenção das Nações Unidas necessária para proteger adequadamente os direitos humanos dos idosos e combater o preconceito da idade na Europa

Comunicado AGE à Imprensa

Bruxelas, 29 de Setembro de 2016

Dia Internacional das Nações Unidas das Pessoas Idosas, 1 de outubro: Seja um suporte contra o “Ageism”!

O Dia Internacional das Pessoas Idosas das Nações Unidas de 2016 "toma uma posição contra o preconceito da idade" e convida todos a repensar os nossos pontos de vista e atitudes para com a geração mais velha. Para marcar esse dia, um evento conjunto no Parlamento Europeu destacou a difusão do preconceito de idade e abriu o diálogo para uma convenção internacional sobre os direitos das pessoas idosas ao nível da UE.

"Eu não quero proteção especial, mas eu quero a mesma proteção da lei como qualquer outra pessoa."

Esta citação da Declaração dos Direitos das Pessoas Idosas do País de Gales é amplamente compartilhada por organizações de idosos em toda a Europa. Eles não reivindicam um tratamento especial, novos direitos ou mais direitos do que os outros, mas querem ter a certeza de que os seus direitos inerentes não diminuem ou se tornam menos importantes com a idade .

No entanto, os idosos enfrentam desafios particulares na realização dos seus inalienáveis direitos humanos, como confirmaram  recentes estudos de peritos independentes da ONU. Ms. Kornfeld-Matte ainda instou os Estados membros a considerar a elaboração de uma nova convenção da ONU para este grupo.

O "peso dos idosos" é uma expressão que surge frequentemente nos media e os trabalhadores mais velhos são muitas vezes vistos como tendo falta de competências digitais e de flexibilidade, como, por exemplo, revelou uma estudo recente do Centro Belga da Igualdade de Oportunidades UNIA  para a Bélgica. Estes são apenas alguns exemplos dos estereótipos mais relevantes ligados à idade avançada em muitas áreas da vida. De acordo com os resultados do Inquérito Social Europeu [1], o preconceito da idade é a forma mais frequentemente vivida de discriminação.

"O critério da idade é uma erosão dos direitos humanos", destacou Anne-Sophie Parent, Secretária-Geral da Plataforma AGE Europa, num evento conjunto organizado pela AGE, pela Rede Europeia de de Instituições Nacionais de Direitos Humanas (ENNHRI) e pelo grupo PPE do Parlamento Europeu, em 28 de setembro. Com base no "pressuposto de que a vida das pessoas mais velhas é menos digna e que a velhice significa declínio e inutilidade", o preconceito da idade leva ao tratamento degradante das pessoas mais velhas e limita o potencial dos idosos, tem impactos na sua saúde e bem-estar e dificulta as suas contribuições para o desenvolvimento social, económica, cultural e político, como Ms Parent explicou.

O Ageism estrutural é amplamente tolerado pelas nossas sociedades, essas mesmas sociedades que, em paralelo, reconhecem a necessidade de aumentar a participação social e económica das pessoas mais velhas, a fim de abordar o rápido envelhecimento da população europeia. Não é este um comportamento esquizofrénico?

A Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde têm vindo a promover campanhas mundiais contra o preconceito da idade. No entanto, como observou a secretária-geral da AGE, apesar de um número crescente de resoluções do Parlamento Europeu, reconhecendo a especificidade dos desafios dos direitos humanos enfrentados pela população mais velha, a União Europeia, até à data, não tem prestado atenção especial ao preconceito da idade e os direitos dos idosos não são tratados de forma adequada no seu programa de trabalho.

"Empreender a luta contra o preconceito da idade é uma prioridade política e traria definitivamente mais coerência e eficácia às políticas da UE que abordam a evolução demográfica", acrescentou Anne-Sophie Parent.

Apesar do um número de convenções internacionais e regionais de direitos humanos juridicamente vinculativos protegerem os direitos humanos de todos os indivíduos, esses tratados não abordam especificamente a discriminação da idade nem protegem os direitos dos idosos de forma sistemática ou de forma abrangente. A Rede Europeia de de Instituições Nacionais de Direitos Humanas (ENNHRI), está a realizar um projeto financiado pela UE, que inclui a monitorização por Instituições Nacionais de Direitos Humanos da situação dos direitos humanos dos idosos em cuidados de longa duração em vários países europeus.

"Nós identificamos algumas práticas que podem conduzir a violações dos direitos humanos, por exemplo, a liberdade de circulação, o direito à privacidade e à autonomia, bem como o direito ao acesso serviços de saúde mais avançados. Estou confiante de que todas as partes interessadas irão responder às nossas recomendações com vista a melhorar a situação dos direitos humanos dos idosos nos cuidados de longo prazo”, disse Lora Vidović, da provedoria croata e presidente da ENNHRI.

"Ainda que os direitos humanos se apliquem a todos, o facto de as pessoas idosas não serem explicitamente referidas nos tratados, pode representar um desafio para a sua proteção, o que poderia ser reforçado com uma Convenção sobre os Direitos Humanos dos Idosos" , concluiu Vidović.

[1] O critério da idade na Europa - Os resultados do Inquérito Social Europeu: http://www.ageuk.org.uk/Documents/EN-GB/For-professionals/ageism_across_europe_report_interactive.pdf?dtrk=true


Links úteis