7 de fevereiro de 2017

Fórum organizado pelos TSD Distrito do Porto sob o tema “Envelhecer é um privilégio”

A convite da Coordenadora do Núcleo Distrital dos Reformados, Aposentados e Pensionistas da Distrital dos TSD Porto, a Presidente da APRe! Rosário Gama, vai participar num Fórum subordinado ao tema: “Envelhecer é um privilégio”, que os TSD Distrito do Porto vão promover no próximo dia 11 de Fevereiro de 2017 pelas 10h, no Hotel Vila Galé Porto, Avenida Fernão de Magalhães, nº7, Porto.

A sessão é de entrada e participação livre, estando convidados a participar no Fórum.

6 de fevereiro de 2017

Não branquear Trump

O novo presidente dos EUA já mostrou os valores pelos quais se rege. Não são os que levaram à afirmação da democracia liberal.


Acabada a campanha eleitoral, Donald Trump foi um presidente eleito muito interventivo, contra a tradição americana. E na Casa Branca continuou a actuar, não como chefe de Estado, mas como líder de um pequeno grupo de familiares e amigos.

Viu-se quando há uma semana proibiu a entrada nos EUA de refugiados sírios e suspendeu a proveniente de sete países de maioria islâmica. Não informou (e muito menos consultou) os departamentos competentes da Administração americana, gerando a maior confusão nos aeroportos. E teve que recuar, quando percebeu que não podia impedir pessoas com licença de residência nos EUA de entrarem no país.

Escreveu o "Financial Times" em editorial: “Se Trump está preocupado com países cujos nacionais estiveram envolvidos em atrocidades recentes, a ausência (na lista das nacionalidades que não podem entrar nos EUA) de nações como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão é difícil de explicar. Que o presidente tenha interesses empresariais em vários países que curiosamente não figuram na lista, e não tenha interesses em qualquer dos incluídos, não dá à lista qualquer legitimidade”.

Cumprir as promessas

Elogia-se Trump por estar a cumprir o que anunciou na sua campanha eleitoral. Só que muitas dessas promessas são sinistras e aceder ao poder não deu a Trump um pouco mais de bom senso.

Mas não falta, mesmo em Portugal, quem ainda alimente esperanças de que o homem poderá vir a revelar-se não tão mau como isso. E quem peça mais tempo para ter uma opinião fundamentada sobre o novo presidente americano.

Sublinha-se, por exemplo, que tendências políticas, como o isolacionismo ou o proteccionismo, têm uma larga presença na tradição e na história norte-americana. Ou que o sistema político americano, com os seus “freios e contrapesos” (checks and balances), limitará o poder presidencial de Trump. É verdade, mas Trump é uma novidade absoluta.

Claro que outros políticos, que criticam o novo presidente, também mentiram; é um problema da política, desde sempre. E os adversários de Trump nem sempre têm manifestado um grande respeito pela tolerância. Mas isso não justifica Trump, que é o líder da única superpotência mundial e – até há pouco – o grande baluarte da democracia liberal e do Estado de direito.

Por cá, o Presidente da República relativizou o distanciamento de Donald Trump quanto à Europa, afirmando que existe “uma tradição isolacionista” dos presidentes norte-americanos quando iniciam funções. Só que este presidente é radicalmente diferente dos presidentes que o precederam. De Truman a Obama, os presidentes dos EUA apoiaram a integração europeia; Trump saúda o Brexit e dá-o como exemplo a seguir por outros membros da UE.

Decerto que Trump, contradizendo posições suas anteriores, criticou, com brandura, a multiplicação de colonatos por Israel; e a sua embaixadora na ONU disse que seriam mantidas as sanções à Rússia por causa da anexação da Crimeia. Resta saber qual é, de facto, a política externa de Trump, que parece algo variável e imprevisível, sem estratégia clara.

O problema fundamental está no carácter de Trump e nos valores que preza. Ele é presidente da mais poderosa nação do mundo; a “pós-verdade” funciona como um manto de ilusão que o faz viver num mundo virtual. Viu-se quando se empenhou em garantir que na sua tomada de posse tinha estado presente mais gente do que em qualquer outra – uma ridícula falsidade, na qual ele provavelmente acreditava.

Falta de sentido ético

Trump revela uma sensibilidade destituída de um mínimo de ética. Repare-se na questão da tortura, em que ele já teve várias e contraditórias opiniões. Só que essas opiniões nada têm a ver com os direitos humanos ou com a dignidade das pessoas, mesmo suspeitas. Para Trump, trata-se apenas de saber se a tortura é ou não eficaz (muitos militares, incluindo felizmente o novo ministro da Defesa, general Mattis, entendem que não, pois muitos torturados dizem o que for preciso para se livrarem do sofrimento). Aliás, também existem convenções internacionais que proíbem a tortura, mas direito e organizações internacionais pouco valem para Trump.

O novo presidente foi eleito graças à revolta de um grande número de americanos que se sentem marginalizados, com os seus rendimentos quase estagnados desde há décadas, enquanto um pequeno número (o tal 1%) vê a sua riqueza aumentar em flecha. Mas neste governo de multimilionários que é o de Trump não se vislumbram pessoas preocupadas com as crescentes desigualdades; ou com melhorar a vida dos pobres. O próprio Trump elogiou-se a si próprio pela sua esperteza em encontrar esquemas de fuga legal aos impostos, que outros menos ricos tiveram pagar por eles e pelo que faltou a Trump pagar.

Mais: Trump quer baixar impostos aos mais ricos e deitar para o lixo muitas das regulamentações financeiras criadas após a crise global desencadeada pelo crédito de alto risco (subprime). E houve quem se mostrasse perplexo com a alta das acções em Wall Street após a eleição de Trump…

O homem não pode ser considerado um débil mental ou pouco inteligente. É tudo menos isso, o que o torna particularmente perigoso. Há que levar a sério a ameaça que ele representa, não o branqueando.

Francisco Sarsfield Cabral
http://rr.sapo.pt/artigo/75224/nao_branquear_trump

5 de fevereiro de 2017

14 banqueiros portugueses ganharam mais de um milhão

Crise obrigou banca a cortar nas remunerações em 2015. Mas, mesmo assim, foi mais generosa para os administradores do que os bancos da Suécia, Noruega ou Dinamarca


Catorze banqueiros portugueses receberam, em 2015, mais de um milhão de euros de remunerações; no ano anterior, os banqueiros com salários milionários apenas eram dez. E em 2013 eram somente sete. Mas, apesar da subida do total de banqueiros a ganhar mais de um milhão, a remuneração média caiu a pique, devido à crise, que deixou muitas instituições financeiras a braços com prejuízos e milhões em crédito malparado nos seus balanços: os executivos da banca mais bem pagos em Portugal receberam em média 1,5 milhões de euros entre salário fixo e variável, menos 32% do que em 2014, ano em que a remuneração média rondou 2,25 milhões de euros.

Os dados dos banqueiros mais bem pagos da Europa - "Report on high earners 2015" - foram agora divulgados pela Autoridade Bancária Europeia (ABE), ou EBA na sigla em inglês. A nível europeu, mostram os números, há 5142 banqueiros remunerados com mais de um milhão de euros anuais, um crescimento de 33% face ao total apurado em 2014. Um salto justificado pela valorização da libra face ao euro, o que fez disparar o número de banqueiros milionários no Reino Unido. Em média, estes banqueiros levaram para casa nada menos de 1,98 milhões de euros em 2015.



A conjugação entre o aumento do total de banqueiros portugueses a receber mais de um milhão de euros em 2015 e a redução do valor médio que cada um destes levou para casa fez que se registasse uma ligeira descida na despesa dos bancos com estes high earners: no total, os bancos gastaram 21,3 milhões de euros com as remunerações dos seus gestores de topo, contra 22,5 milhões inscritos nas folhas salariais em 2014.

Apesar da remuneração média dos banqueiros mais bem pagos em Portugal ficar relativamente aquém da média europeia - de 1,98 milhões de euros em 2015 -, há um detalhe dos dados publicados pela Autoridade Bancária Europeia que merece destaque: os países que menos pagam aos seus gestores bancários são precisamente aqueles que lideram os rankings do Banco Mundial relativos ao equilíbrio na distribuição de rendimentos.

Na Noruega, na Suécia e na Dinamarca, por exemplo, os bancos remuneram os seus melhores gestores com médias inferiores às pagas pelos bancos portugueses: os noruegueses pagaram em média 1,4 milhões de euros anuais a 11 banqueiros. É a 19.ª média mais baixa entre os 22 países considerados pela EBA. Atrás dos noruegueses surgem os suecos, a quem os bancos pagam 1,4 milhões anuais aos seus 28 executivos mais bem remunerados.

Já na Dinamarca o salário médio dos 41 gestores mais bem pagos da banca foi de 1,3 milhões - o valor mais baixo de todos -, ao passo que na Finlândia a questão é outra: só houve um banqueiro finlandês a ganhar mais de um milhão de euros em 2015, à imagem do que ocorreu na Grécia e na Letónia. Mas, se o finlandês em questão levou para casa 1,8 milhões, o grego levou 2,17 milhões e o letão 2,6 milhões.

Os valores publicados pela EBA abrangem os salários de banqueiros de 22 países europeus. A Bélgica é o país que mais dinheiro dá a ganhar a um gestor de um banco (18 profissionais receberam, em média, 5,8 milhões de euros cada um em 2015), com a banca espanhola, cada vez mais dominante sobre o setor português, a surgir na quinta posição, pagando, em média, 2,24 milhões de euros aos seus 126 executivos bancários mais bem remunerados.

A remuneração média anual de 1,5 milhões de euros para os banqueiros mais bem pagos deixa Portugal na 18.ª posição, tendo atrás de si, e além das já citadas Noruega, Suécia e Dinamarca, a Roménia - onde dois banqueiros ganharam 1,09 milhões de euros em 2015.

Em termos desagregados, os dados da Autoridade Bancária Europeia mostram que entre os 14 banqueiros mais bem pagos do país houve um que levou para casa mais de três milhões de euros ao longo de 2015, com os restantes a receberem entre um e dois milhões de euros anuais. Os nomes dos banqueiros nunca são revelados.

Este "gestor-exceção" acabou por levar para casa 3,55 milhões de euros em 2015 e, tal como a maioria dos high earners identificados pela EBA em Portugal, é membro de uma administração bancária - são sete ao todo. Além dos administradores, entre os executivos mais bem pagos pela banca portuguesa apenas um se dedicava à banca de investimento e outros três eram da banca de retalho. Os restantes três são colocados pela Autoridade Bancária na rubrica "outros".

Filipe Paiva Cardoso
DN 05.02.2017

4 de fevereiro de 2017

Precisamos de rugas

Só há bem pouco tempo percebi que estou a envelhecer. Acontece a todos, eu sei, mas um olhar mais atento ao espelho revelou-me inesperadamente a inevitabilidade. Pela primeira vez vi a verdadeira cor dos meus cabelos brancos. Algo que já lá está há algum tempo mas que os meus amigos têm disfarçado dizendo-me que são apenas sinais de charme. Não são! São sinais de envelhecimento. E porque é que isso tem que ser mau?


A notícia foi dada como uma tragédia nacional esta semana. Portugal é dos países com maior percentagem de idosos na Europa. A manchete foi copiada e reproduzida como mais uma desgraça deste país desgraçado. Quase ninguém a questionou ou contrariou, porque há muito que se criou a ideia errada de que ser velho, é mau. Aceitamos estupidamente este preconceito e são, por essa razão, cada vez mais os que tudo fazem para camuflar os sinais da idade. Compreendo que seja assustador perceber que não se renovam as gerações, mas ter um país com muitos velhos não é mau. Vergonhoso sim é a forma como eles são ignorados, tratados e retratados. 

Cresce em Portugal a ideia de que ser velho é perder a utilidade para tudo. Alguém a quem o prazo de validade já expirou e que não pode ser utilizado para mais nada. Deixam de pertencer às categorias que a sociedade de consumo considera relevantes e quase desaparecem. Deixam de interessar como trabalhadores, como consumidores, como leitores, como espectadores. Na procura apenas da frescura da juventude, não percebemos que desta forma estamos a perder o que de mais valioso temos. Os mais velhos.

Ao contrário de Portugal, em muitas outras partes do planeta pensa-se exatamente o contrário. Os jornais, as televisões, a publicidade e até o mercado de trabalho começam a valorizar os que têm mais idade. Numa sociedade com menos filhos, os mais velhos passaram a ser necessários. São eles que ainda têm algum poder de compra, descobriram e utilizam a internet de forma mais eficaz e intensiva, consomem mais jornais e televisão e os que ainda podem viajam e gastam muito em lazer. 

A publicidade e a televisão foram as primeiras a perceber isso. Nos Estados Unidos há cada vez mais marketing dirigido aos maiores de 60 anos. Nas televisão as personagens principais passaram a ter mais idade, e até a Jane Fonda, com uns magníficos 77 anos, é a vedeta de uma das principais séries e fechou um contrato milionário com uma marca de produtos de beleza. Em Portugal é exatamente o oposto. Aqui vergonhosamente os mais velhos são rotulados, esquecidos e apenas servem para pagar a pesada dívida pública. 

Em vez de estigmatizarmos os mais idosos deveríamos pedir a ajuda deles, ajudando-os. Têm muito para nos ensinar e alguns são quadros experientes num país de onde quase todos fogem. Podem não ser os mais rápidos e ágeis, mas a sua sabedoria e experiência ajudam-nos a evitar erros e a ultrapassar dificuldades. Em vez de os abandonarmos à sua sorte e solidão devíamos contratar avós e avôs. Pessoas que o mercado de trabalho estupidamente rejeitou, não por falta de competência mas simplesmente pela idade. 

É urgente! Portugal tem de deixar de esconder as rugas e de pintar os cabelos. Precisamos e muito dos mais idosos. E já agora não se esqueçam que os próximos velhos… somos todos nós.

João Adelino Faria
Pivô e jornalista da RTP
Dinheiro Vivo 03.10.2014
Veja mais em: https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/precisamos-de-rugas/

3 de fevereiro de 2017

Imprensa livre uma vez mais

A saúde da democracia depende da saúde do jornalismo. A sociedade necessita que a imprensa respeite a verdade


“Nada existe, exceto átomos e vazio, tudo o demais é opinião” Assim resumia Demócrito de Abdera, filosofo grego, as suas ideias sobre a estrutura da matéria às uns 2.500 anos.

Demócrito, para muitos considerado o pai da ciência moderna, também era conhecido pelo filósofo que ri, mas o sábio estaria longe de imaginar, como a sua sentença se viria a comprovar de forma tragicamente distorcida.

É verdade, a opinião, nos dias de hoje, mais que em qualquer outra altura da história, assume um atributo identificador de personalidade e de direito, mesmo para os que não têm opinião sobre coisa nenhuma, e uma velocidade para se difundir e arregimentar seguidores em todo o planeta, que a torne elemento decisivo para o julgamento de qualquer pensamento politicamente mais elaborado.

Hoje, as ideias, foram substituídas por opiniões bastardas de pais incógnitos, são populares porque afinal todos temos opiniões. A ideia precisa de reflexão e estar suportada átomo sobre átomo, até à construção da matéria que apaixone e mobilize.

A opinião atrevida e ignorante, sustenta-se de frenesim e crença, lança-nos sobre o vazio onde ficamos iludidos e indefesos. Os sound bites onde se refugia não são mais que onomatopeia.

A imprensa tem um desafio tremendo e uma enorme responsabilidade. Em todos os momentos de grande tragédia humana, os jornalistas foram sempre chamados e estiveram presentes a dar o melhor das suas convicções e coragem.

Responderam muitas vezes em circunstancias dificílimas, a um verdadeiro sentido de missão, de procurar e escrever a verdade. Mais que uma classe, são a extensão natural da liberdade e a palavra que é a sombra da ação.

Quando homens e mulheres resistiam enterrados vivos em celas, entre as trevas e o horror dos esbirros, mas os jornais talhados a chispas de luz e esperança, nos esperavam cúmplices a cada amanhecer, então sabíamos que tínhamos ganho.

A saúde da democracia depende da saúde do jornalismo. A sociedade necessita que a imprensa respeite a verdade. A diferença entre jornalismo e a informação cidadã, é que o jornalista tem a obrigação de corroborar os dados. Só assim os meios de comunicação terão credibilidade.

Estamos imersos numa mentira global. A internet permite a falsificação da informação, desde da mentira do sujeito que finge aquilo que não é no Facebook, até à construção de uma realidade paralela, sustentada na repetição e em uma adesão massiva que confirma mais que nunca a velha teoria da espiral do silencio de Noelle Newman.

O Papa Francisco, afirmou que produzir e consumir noticias falsas é como praticar coprofagia, ou seja comer fezes e pediu maior compromisso entre a verdade e os meios de comunicação.

Agradeço muito ao Papa que tenha falado sem receio e para abanar as consciências, independente do mal-estar hipócrita dos poderes instalados.

Estamos em plena época de mudanças vertiginosas provocadas pelos ratos dos computadores. A revolução digital, depois das “primaveras”, degenerou em reações nacionalistas e xenófobas.

Nas manifestações misturam-se, os partidos, os indignados, provocadores, antissistema, e também psicopatas que praticam o ódio em relação ao outro.

Para Zygmunt Bauman, filosofo polaco, socialista: “as redes sociais são uma armadilha que expressam a desconfiança dos cidadãos não só dos políticos corruptos ou estúpidos, mas também dos que simplesmente só são incapazes”.

Gurus e utilizadores usam as redes para se encerrarem em zonas de conforto onde o único som que escutam é o eco da sua voz, e onde o único que vêm são os reflexos da sua própria cara.

Muitos dos utilizadores da “nuvem” virtual, são como o galo que acreditava que o Sol nascia só para o ouvir cantar, sentem-se enormes na sua arrogante ignorância. São reis do mambo digital.

São narcisos que se olham ao espelho dos seus écrans e em vez de caçar javalis caçam pessoas, com a metralhadora das teclas, acoberto da anónima impunidade.

A ignorância, a vaidade, a pósverdade, e a fake news são irmãs e filhas do populismo.

Falar com alguém a quem vemos os olhos, é mais instrutivo de que com um anónimo cibernético. Um provérbio chinês diz que “é melhor ver a cara que escutar o nome.”

Desta luta que se adivinha, pela liberdade e pelos direitos, vencemos se formos armados da luz das ideias contra o nevoeiro impreciso onde se acoita o caudilho de traje populista seguido da procissão de cegos que já não querem ver.

Artur Pereira
Consultor de comunicação
Jornal i 02.02.2017

2 de fevereiro de 2017

Se cá nevasse

Da próxima vez que escutar algum cidadão de provecta idade a queixar-se do frio que o atormenta em casa, pense duas vezes antes de o sujeitar ao preconceito redutor da velhice. Sim, a nossa propensão para sofrer com as baixas temperaturas aumenta ao ritmo decadente com que nos vamos despedindo das guardas pretorianas do nosso sistema imunitário, mas há, nessa chuva de lamúrias que nos salpica de enfado, uma dimensão absolutamente factual e que, muito honestamente, devia envergonhar-nos. Como é que num país ameno como o nosso há tantas vítimas do frio? E como é possível que se morra dentro de casa e não ao relento?

Só em janeiro, oito portugueses pereceram em incêndios provocados por sistemas de aquecimento deficientes ou arcaicos. Só isto bastaria como retrato da perversão. Morrer entre chamas para não morrer de frio. Mas há uma fatal rotina que se cumpre à medida que vamos conhecendo as histórias. Nas causas (inalação de fumos resultante de fogueiras e braseiros em áreas mal ventiladas; cobertores elétricos demasiadas horas ligados; aquecedores que entram em curto-circuito) e nos protagonistas (quase sempre gente isolada, a viver sozinha, sem comodidades e para quem estar aquecido é tão vital como estar alimentado).

Há dias, o jornal espanhol "El País" colocava as coisas em perspetiva: na União Europeia a 15, Portugal tem a maior taxa de mortalidade por baixas temperaturas. "Morrer de frio num lugar quente" era o sugestivo título escolhido pelo jornalista Javier Martín. Aqueles que lançam as mãos às têmporas sempre que a imprensa internacional decide entalar a República na boca dos mercados financeiros, deviam também preocupar-se com a contaminação negativa destas notícias, hinos informais ao espírito do nosso subdesenvolvimento.

Múltiplas razões poderiam ser aduzidas para justificar esta pobreza energética, entre as quais a má construção das habitações. Mas, na enumeração dos motivos, avulta desde logo a circunstância de pagarmos mais pela eletricidade do que todos os outros europeus (diabolize-se a EDP à vontade, mas não nos esqueçamos que metade da fatura vai direitinha para o bolso do Estado, sob a forma de impostos e taxas) e de sermos líderes no campeonato dos pagadores de gás. Não nos admiremos, por isso, que mais de 800 mil famílias (cerca de 20% dos agregados) continuem a beneficiar da tarifa social de energia.

Querem ficar gelados com outra perversão? Na Suécia, onde a temperatura média no inverno é de -3,5 graus, há 97 mortes por 100 mil habitantes associadas ao frio; cá, onde a temperatura média no inverno ronda uns "glaciares" 13 graus, a cifra é quase cinco vezes maior.

Portugal, país ameno e melhor destino de golfe do Mundo, é o pior destino europeu para quem tem poucos cobertores em casa. A bem dizer, somos uns excêntricos.

Pedro Ivo Carvalho
Opinião JN 01.02.2017
Leia mais: Se cá nevasse

1 de fevereiro de 2017

"A Noite da Iguana", divulgação/informação espectáculo no Teatro Nacional São João

Ao abrigo do protocolo celebrado entre a APRe! e o Teatro Nacional de S. João (TNSJ) Porto, nos termos do qual os associados da APRe! passaram a usufruir de descontos na compra de bilhetes para os espectáculos, fazemos a divulgação do espectáculo "A Noite da Iguana", de Tennessee Williams com encenação de Jorge Silva Melo.

Este espectáculo será apresentado no Teatro Nacional São João, de 9 a 26 de Fevereiro.

quarta-feira, às 19h00

quinta-feira a sábado, às 21h00

sábado, às 16h00

Teatro Nacional São João

9| 26 Fevereiro

A Noite da Iguana

encenação de Jorge Silva Melo

co-produção Artistas Unidos, São Luiz Teatro Municipal e TNSJ

Para reservas e informações sobre o espectáculo, por favor, contacte a bilheteira:
Tel.: 22.340 19 00
Linha verde: 800 10 8675 (grátis a partir de qualquer rede)
E-mail: bilheteira@tnsj.pt
www.tnsj.pt