14 de agosto de 2017

A solidão da economia

As ciências exactas nem sempre exactamente o são. A exactidão relaciona-se com o grau de conformidade de um valor mensurável em relação a uma medida de referência padrão. Já a precisão evidencia-nos a medida da variabilidade de uma qualquer série de medições em relação a um valor médio. Por outras palavras, se a exactidão é a medida do rigor, a precisão é o detalhe da variação. Exemplificando, a simples e tradicional balança deve ser exacta (ou seja, com medidas correctas) e precisa (com o menor nível possível de variação).

Neste contexto, bem se pode discutir se as chamadas ciências humanas e sociais podem ser chamadas ciências. Não me intrometo neste labirinto científico e na divergência de opiniões. Porém, é possível afirmar, sem grande contestação, que estas disciplinas, umas mais, outras menos, também utilizam métodos considerados científicos.

Fiz esta introdução para chegar à economia, ou segundo alguns autores, à ciência económica. A palavra economia deriva etimologicamente do grego “oikos” e “nomos”, ou seja, a administração do lar, da casa. Acontece que a “casa” vem, desde o século XVIII, com Adam Smith, – considerado o pai da economia moderna – ganhando volume, complexidade e intrincadas interacções. Sobretudo em progressão geométrica alucinante, após a globalização dos mercados, dos movimentos de pessoas, bens e capitais e da diluição dos obstáculos do tempo e do espaço.

No campo económico, constata-se que regras e demonstrações empíricas, dadas antes como adquiridas, se vão esboroando face a sociedades globalizadas e a comportamentos dos agentes económicos imprevisíveis e, não raro, contraditórios e erráticos. A noção de incerteza, do ponto de vista da probabilidade de ocorrência de risco vai sendo engolida pela sua expressão mais superlativa, a da própria imprevisibilidade. Não nos esqueçamos que, regra geral, a economia não pode e não deve recorrer ao método da experimentação científica sobre pessoas e sociedades.

A economia é a ciência social mais amiga da matemática, o que não significa que esta, só por si, garanta a formulação de “leis científicas”. Daí que, embora recorrendo a métodos matemáticos e de inferência estatística, entre outros, a economia é, nesta década do novo século, cada vez mais uma disciplina comportamental e de expectativas. Logo mais dificilmente formatável, modelizável e parametrizável. Este é o grande desafio que se lhe coloca. Um desafio que terá mais a ver com a precisão do que com a exactidão, como acima enunciadas.

Ao contrário dos Prémio Nobel da Química, Física e até Medicina, o Prémio Nobel da Economia pode ser atribuído consecutivamente a economistas reputados, mas com ideias sobre o mesmo tema bastante divergentes, senão mesmo opostas ou contraditórias. A sátira atribuída a Winston Churchill de que “entre dois economistas, há pelo menos três opiniões, sendo que se um deles for Keynes haverá quatro” assume, agora, uma amplitude crescente. Se juntássemos os mais reputados economistas numa fila perfeita, arriscar-nos-íamos a vê-los apontar em todas as direcções e sentidos.

Alguém já terá chamado, exageradamente, aos economistas os “imperialistas das ciências sociais”. De facto, há quem, neste seu ofício, fale como detentor ou monopolista de “verdades” económicas. Todavia, nestes tempos de mudança veloz, bom seria perceber, com humildade, três “postulados”, não só, mas igualmente aplicados à economia: 
  • 1º) a economia é demasiado importante para só ser tratada por economistas; 
  • 2º) os economistas que só sabem de economia, arriscam-se a saber muito pouco de economia;
  • 3º) Na política económica há sempre alternativas que ofuscam qualquer TINA (“there is no alternative”).
Talvez se peça demais à “solidão” da economia. E da política económica. Ambas importantes, mas não necessariamente predominantes ou hegemónicas face ao primado das pessoas.

António Bagão Félix
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/24/a-solidao-da-economia/

13 de agosto de 2017

Necrofilia, incêndios e falta de decência

A morte em vez da inteligência e a morte como espetáculo têm dominado uma boa parte do discurso mediático sobre incêndios


Quando Millán-Astray, o selvagem e necrófilo general franquista, invetivou Unamuno gritando “abaixo a inteligência, viva a morte!”, não podia decerto imaginar como tal proclamação poderia, mesmo que em circunstâncias diferentes, convocar tantos seguidores.

Quando Juvenal, no ano 100 d.C., ironizou sobre a forma como os então responsáveis políticos de Roma manipulavam a vida cívica, substituindo a discussão séria sobre os problemas reais da cidade por “pão e circo” para o povo, não podia também prever como tal ardil subsistiria até aos dias de hoje.

Nesse tempo, recordemos, o “circo” enaltecia também a morte e fazia dela um espetáculo popular.

Quem hoje vê e lê a nossa comunicação social, os discursos que veicula, os comentários que difunde, as pequenas reportagens das tragédias realizadas no momento e no local, compreenderá como, afinal, tais estratégias de comunicação se enraizaram e continuam a ser úteis.

A morte em vez da inteligência e a morte como espetáculo, para esconder a discussão séria dos problemas que, criminosamente, a causam, têm dominado, de facto, uma boa parte do discurso mediático e político dos nossos dias sobre os incêndios.

Hoje somos, na verdade, confrontados com a mais primária e despudorada estratégia de comunicação: um plano que procura comandar ou descomandar a nossa inteligência e a nossa atitude cívica ante uma tragédia com causas profundas e antigas, e consequências dramáticas.

Que algumas das vítimas se prestem a encenar pequenos sketches perante as câmaras da TV, quase convertendo em paródia aspetos trágicos da sua existência, é, na verdade, lastimável.

Mas é lastimável sobretudo para os profissionais da comunicação que a isso as incentivam e delas se aproveitam, transformando o seu desespero real em pobre arte circense, para gáudio e uso e abuso político de uns tantos.

O despudor imoral de toda esta mistificação deveria provocar a mais gritante indignação de todos quantos têm da intervenção cívica uma visão, não digo elevada, mas decente.

A situação de anomia pública a que chegámos nem sequer permite que essa necessária indignação se expresse.

Muitos – e de todos os quadrantes – a quem verdadeiramente caberia transmiti-la parecem ter-se demitido de o fazer.

Os poucos que o tentam ou são silenciados pelos meios de comunicação ou, pior, são por eles enxovalhados na arena mediática.

Alguns, raros, ainda tentam resistir; outros, vexados, claudicam e deixam, quais “prima donnas” inexperientes, o espaço público àqueles que justamente tentaram denunciar.

As instituições públicas, mais do que criticadas pelo seu desempenho, são mediaticamente achincalhadas, sem dó nem piedade, pelos “cães que ladram pelas vozes dos seus donos”, como dizia o poeta catalão Fèlix Cucurull.

O que releva é desautorizá-las, pois, em algum momento, elas podem, ainda assim, resistir à demagogia e refletir a verdade que incomoda.

Preferem, por isso, entrevistar-se uns aos outros, justificando-se mutuamente com uma indulgência que não aplicam àqueles que lhes ordenaram enxovalhar.

Talvez por isso, como em artigo recente do “El País” se dava conta, o jornalismo comece hoje a ser olhado, mais do que como um instrumento necessário da democracia, como um instrumento de dominação, apenas útil à manutenção do statu quo.

António Cluny
Jornal i 08.08.2017

12 de agosto de 2017

Governo diz que subida das pensões vai depender do PIB. Irá a economia dar uma ajuda?

Vieira da Silva afasta novos aumentos "extraordinários" mas acrescenta que eventuais aumentos reais das pensões em 2018 vão depender do nível do crescimento. Irá a economia crescer a um ritmo que o garanta?

Em resposta ao desafio de PCP e Bloco de Esquerda, Vieira da Silva lembrou esta quinta-feira, 10 de Agosto, que eventuais aumentos reais das pensões vão depender do ritmo de crescimento da economia. Mas tendo em conta a actual fórmula de actualização das pensões, seria necessário que a economia acelerasse bastante este ano para garantir aumentos reais aos pensionistas já em 2018. O mais provável, à luz da informação agora disponível, é que isso aconteça em 2019.

Sublinhando que o aumento pontual de Agosto é realmente "extraordinário", até porque vai pesar na despesa do próximo ano, o ministro da Segurança Social afirmou que a actualização de Janeiro será discutida na elaboração do próximo Orçamento do Estado, mas deu a entender que a fórmula de actualização de pensões está estabilizada.

"O Governo repôs em plena aplicação a fórmula de cálculo da actualização das pensões", que faz depender eventuais aumentos reais da economia, disse Vieira da Silva, em resposta aos jornalistas. "Dessa evolução dependerá muito o que será também a política social no orçamento para 2018", afirmou, no final da reunião do Conselho de Ministros.

O que a fórmula prevê são dois cenários totalmente distintos caso o crescimento médio anual do PIB nos dois anos anteriores à actualização (terminados no terceiro trimestre) seja inferior ou seja igual ou superior a 2%.

Quando esse crescimento é inferior a 2% - cenário que nos últimos anos se tornou regra – só as pensões até 842,6 euros (2 IAS) são actualizadas ao nível da inflação. A inflação que conta situou-se em Julho em 1,1%, mas ainda pode evoluir. As restantes pensões têm neste cenário aumentos nominais que não chegam sequer para cobrir o poder de compra registado.

Mas se esse crescimento for igual ou superior a 2% as actualizações serão mais generosas, porque, nesse caso, no escalão até 842,6 (2 IAS) euros, à inflação registada são somados pelo menos 0,5 pontos; entre 842,6 euros (2 IAS) e 2.527,9 euros (6 IAS) é garantida a actualização ao nível da inflação registada. Só acima deste último valor se perde poder de compra.

Pode a economia acelerar tanto?


Para que fosse possível garantir aumentos reais, seria necessário que a economia acelerasse para níveis que, nesta altura, não parecem muito realistas.

Embora o crescimento tenha ganho ímpeto, a variação do PIB ao longo de 2016 foi bastante débil (média de apenas 1,2% no terceiro trimestre de 2016 face a 2015), o que penaliza estas contas, uma vez que a média é feita com base em dois anos.

Para que fosse possível atingir um valor igual ou superior a 2%, seria necessário que no ano terminado no terceiro trimestre de 2017 o PIB nacional tenha um aumento homólogo de 2,8%.

Para que isso seja possível, é necessário que a economia continue a acelerar nos próximos dois trimestres para valores superiores a 3%. E há 17 anos que não se observam taxas de crescimento desse nível.

Com os dados que estão disponíveis, o mais provável é que este cenário de aumento real das pensões se coloque em 2019, já que a fórmula de actualização das pensões para esse ano terá de levar em conta um 2017 bastante forte. Seria preciso que a economia arrefecesse significativamente em 2018 – para perto de 1% - para que o crescimento médio dos dois anos anteriores não fique acima de 2%.

Fórmula alterada duas vezes em dois anos


Mais simples do que corrigir a trajectória da economia será talvez ajustar a fórmula das pensões. Foi isso que foi feito dias antes de 2016, de forma a garantir às pensões baixas mais uma décima, e no Orçamento do Estado para 2017, de forma a tornar mais abrangente o primeiro escalão, que é o mais generoso, incluindo todas as pensões de entre 1,5 IAS (632 euros) e 2 IAS (842,6 euros).

O Governo chegou a sugerir que as próximas actualizações de Janeiro tivessem em conta o valor total de pensões recebido pela mesma pessoa, seguindo o método utilizado este mês, mas PCP e Bloco de Esquerda criticaram a intenção.

O Conselho de Ministros desta quinta-feira foi quase exclusivamente dedicado a medidas de inclusão de pessoas com deficiência. A nova legislação sobre pensões antecipadas, que beneficiará muito longas carreiras, ainda não foi aprovada.

Catarina Almeida Pereira
Nuno Aguiar
Ler mais em: Negócios 10.08.2017

11 de agosto de 2017

Roma não paga a traidores. Mas Lisboa paga

Rogoff deu uma entrevista ao Expresso, publicada na edição em papel este sábado, que deixou muito bem impressionada metade do País, Nicolau Santos incluído.

Pode ser um problema de falta de memória.

Reinhart e Rogoff, sim, era este mesmo Rogoff, publicaram o seu o “Crescimento em um tempo de dívida” mesmo na altura exacta para servir de suporte conceptual a austeritários com uma agenda radical de neoliberalismo misturado com desmantelamento do Estado Social e promoção de transferência de rendimentos do trabalho para o capital, e de empresas públicas para capitais privados, amigos dos seus amigos.

A tese, curta, era que a dívida pública é que impedia o crescimento das economias, logo no patamar dos 90% do PIB, e essa foi a alavanca para se assumir que era preciso cortar despesa pública, desse por onde desse.

Depois de verem a sua tese desmontada por flagrantes e indesculpáveis erros de cálculo e análise tenham feito um esforço de se reabilitarem, nunca desautorizaram os que em nome da sua suposta ciência se dedicaram fanaticamente à prática da austeridade expansionista, seja lá o que isso for.

Tanto quanto me lembro, nem Reinhart nem Rogoff se opuseram à citação dos seus trabalhos por políticos pró-austeridade, como Osborne, Paul Ryan e Olli Rehn, ex-comissário de assuntos económicos da zona do euro. Por cá, Vítor Gaspar prefaciava um livro dos mesmos autores. Todos filhos intelectuais da mesma ideia.

Para lá dos erros de cálculo e análise, a própria conclusão de que dívidas superiores a 90% do PIB criavam fracos crescimentos da Economia seria sempre discutível. As elevadas dívidas causam baixo crescimento, ou vice-versa?

Teoricamente, a causalidade pode ser revertida. Os altos níveis de dívida pública, através do seu impacto nas taxas de juros e na confiança das empresas, podem afastar as despesas do setor privado e reduzir o crescimento. Mas, o baixo crescimento deprime as receitas fiscais e obriga o governo a gastar mais em coisas como o subsídio de desemprego, Rendimento Social de Inserção e outras políticas sociais. Isso aumenta o défice orçamental, o que exige a emissão de mais dívida.

Mas essa é uma discussão para melhores dias. Por hoje chega esta: quem deu suporte académico e pseudo-cíentifico à austeridade não pode agora vir passar-se por apoiante das políticas que tentam minorar os efeitos perversos da mesma. Quer dizer, poder pode. Nós é que escusamos de pagar a traidores. Duas vezes. Ademais, esta coisa de ficarmos muito impressionados com os que, por serem estrangeiros, ou por lá terem passado, não são de “cá”, é um nadinha provinciana. Para não dizer parola.

Marco Capitão Ferreira
Expresso Diário 09.08.2017

10 de agosto de 2017

Dois terços dos pensionistas com aumento extraordinário recebem dia 10

Ministério do Trabalho fez uma infografia para explicar o aumento extraordinário que vai abranger cerca de dois milhões de pensionistas já este mês.


Dos cerca de dois milhões de pensionistas abrangidos pelo aumento extraordinário das reformas, cerca de 70% recebem já o novo valor na próxima quinta-feira. Em causa estão os reformados do regime geral da Segurança Social que recebem a pensão através de transferência bancária, informou o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

Os restantes pensionistas recebem por vale postal ou pertencem à Caixa Geral de Aposentações (CGA), cujo processamento ocorre no dia 18, diz a mesma fonte.

O aumento extraordinário chega em agosto para aqueles que recebem, no conjunto das suas pensões, até 631,98 euros (1,5 Indexantes dos Apoios Sociais). Para explicar este aumento extraordinário, o Ministério de Vieira da Silva disponibilizou uma infografia:


O aumento não é igual para todos, já que pode totalizar seis ou dez euros, incorporando já a atualização de janeiro. Portanto, pensionistas que não viram nenhuma das suas pensões aumentar entre 2011 e 2015 vão ter direito a uma subida que perfaz dez euros face ao valor total recebido em dezembro de 2016. Quer isto dizer que o aumento vai ter em conta a atualização que estas pessoas já tiveram em janeiro. Uma pensão que já cresceu 2,5 euros no início do ano, por exemplo, sobe 7,5 euros agora.

Já os pensionistas que recebam pelo menos uma pensão que tenha sido atualizada entre 2011 e 2015 vão ter direito a uma subida que perfaz seis euros face ao valor total recebido em dezembro de 2016, contando, também aqui, com o aumento de janeiro.

Já o aumento referente ao subsídio de Natal será pago por inteiro em novembro (CGA) ou dezembro (Segurança Social).

Cristina Oliveira da Silva
Ler mais em: eco 08.08.2017

9 de agosto de 2017

Quem cassa algumas carteiras de pseudo-jornalistas?

Não pode valer tudo. A menos que queiramos cultivar um monstro: um povo de tal forma embrutecido que já não reage a nada, não se escandaliza com nada, não se indigna com nada e engole tudo da mais estúpida novela à mais violenta cena de crime. São povos assim que elegem os ditadores patetas que por aí começam a proliferar.



Talvez não se conseguisse ver nada a não ser a morte. Talvez a morte seja grande demais para se perceber, em 90 segundos, que por detrás dela estava um homem e uma criança vivas e despreocupadas no areal. Talvez o mar de gente e o mar azul não se distinguissem aos olhos de quem caía do céu, e já sentia o aperto do seu abraço. Talvez o piloto tivesse feito o possível para se afastar da praia e não o tenha conseguido com a morte a zumbir-lhes aos ouvidos num terramoto que apenas dura dez segundos. S. João da Caparica não é a minha praia. Julgar também não.

Não sei. Não estava lá. E, depois de ler o relato de duas testemunhas credíveis: a blogger do "A mãe já vai", que confessa que entrou em pânico, e o jornalista Enrique Pinto Coelho que a SIC serenamente entrevistou, continuo sem saber. Os vídeos que as TVs passaram à exaustão não mostram nada, não dizem nada, não provam nada. São pura tragédia. Contam-nos apenas a estória do bom gigante: o homem, um jogador de basquetebol, que soube descobrir o seu lugar na cena da desgraça para evitar outra maior e perante o qual a populaça, agindo em rebanho, sedenta de mais sangue, se acobardou.

Mas uma coisa sei. Sei de fonte segura que ninguém que se diga jornalista pode entrevistar um pai a quem a filha de oito anos acaba de morrer atropelada, escasso tempo antes, por uma avioneta que cai no areal onde brincava.

Esse ou essa (não identificarei nem o nome nem o meio para não publicitar) - e confio mais uma vez no relato de Enrique - não pode manter a carteira profissional sem que lhe dêem a ler o código deontológico e o/a obriguem a copiá-lo vinte, trinta, cinquenta vezes. Quantas forem necessárias até que perceba esta regra básica: ninguém pode espetar um microfone à frente de um pai perturbado por uma dor tão profunda. Alguém a quem a emoção e o choque tolde de tal forma o juízo que, por mais estruturado que ele pareça, não pode em caso algum ser pedido e muito menos ainda reproduzível. É como entrevistar o cadáver. É como dar voz à própria morte. E se o jornalista é tão jovem que não consegue perceber o que é perder um filho, que haja uma chefia co-responsável.

Para que serve a ERC? E a comissão da Carteira? E o Sindicato de Jornalistas, se não servem para esta coisa básica que é mostrar que na guerra de audiências não vale tudo? Não pode valer tudo. A menos que queiramos cultivar um monstro: um povo de tal forma embrutecido que já não reage a nada, não se escandaliza com nada, não se indigna com nada e engole tudo da mais estúpida novela à mais violenta cena de crime. São povos assim que elegem os ditadores patetas que por aí começam a proliferar.

Um povo que Enrique Pinto Coelho descreve, no seu sereno texto no Observador, pela chocante "indiferença com que muitos banhistas encararam a tragédia: namorados aos beijos a cem metros do local do acidente, pessoas a beber 'cocktails' nos bares com vista para o Cessna".

Esse povo que eu vi, não sei se no mesmo dia se na véspera, numas outras imagens da TV, em que o pessoal da emergência médica retirava das águas o cadáver de um jovem de 16 anos que tinha saltado de uma prancha e desaparecido, numa outra terra algures neste país. Velhos, jovens e crianças encavalitados na amurada, sem deixar de lamber os gelados que tinham entre mãos, sem o mais leve trejeito de respeito e dor pela vida perdida do adolescente morto.

A morte que seguia de maca, embalada de branco, passava perante a mesma indiferença que se viu naquele areal da praia de S. João quando a tarde de praia não se tornou insuportável para os restantes banhistas. Deixando a triste impressão de que a morte caída do céu se tornara apenas numa nova estória para apimentar o jantar. Talvez seja por isso que as vidas dos outros se tenham tornado pequenas demais para poderem brilhar como estrelas num mar de gente na zona de rebentação do mar da morte.

Esta sexta-feira, em Diavolezza, nos Alpes Suiços, outra avioneta caiu sobre um campo de férias frequentado por cerca de duas centenas de adolescentes. O piloto/instrutor e duas crianças de 14 anos morreram, enquanto outra de 17 ficou ferida em estado grave. A experiência da aviação, segundo o jornal Suiço " 20 minuten", fazia parte das actividades do campo. Espero, sinceramente, que as férias de todos se tenham interrompido o tempo suficiente para que possam viver o luto pelos seus companheiros. O mundo andará muito mal se as férias (imagino que já pagas e suficientemente caras) simplesmente continuarem.

Graça Franco
Ler mais em: RR opinião 04.08.2017

8 de agosto de 2017

Eleições para o Conselho Geral e de Supervisão da ADSE


Se tem ADSE, deve ter recebido esta informação por mail, se não recebeu, fica aqui a informação para poder votar no dia 19 de Setembro, numa das listas de beneficiários, concorrentes ao Conselho Geral e de Supervisão da ADSE.


Consulte se o seu nome consta do Caderno Eleitoral


Entre os dias 7 e 11 de agosto de 2017, consulte se o seu nome consta do Caderno Eleitoral do processo eleitoral dos membros representantes dos beneficiários titulares da ADSE no Conselho Geral e de Supervisão da ADSE, I.P.. O seu nome deverá constar no Caderno Eleitoral caso seja beneficiário titular e tenha a inscrição válida e em vigor junto da ADSE, I.P. em 19 de julho de 2017.
Para tal, aceda à ADSE DIRETA e na sua área autenticada encontrará uma mensagem com esta informação. Poderá também aceder através da página do Processo Eleitoral, a qual disponibiliza um acesso à ADSE DIRETA.

Caso a informação sobre a sua situação não esteja correta, poderá reclamar entre os dias 7 e 11 de agosto de 2017 para o endereço de correio eletrónico comissao.eleitoral@adse.pt.
Participe no ato eleitoral a decorrer no próximo dia 19 de setembro de 2017.

Para mais informações sobre este ato eleitoral, consulte a página do Processo Eleitoral no portal da ADSE.

Para votar, atualize os seus dados pessoais!


Para que possa participar no Processo Eleitoral dos Membros Representantes dos Beneficiários Titulares da ADSE, I.P. no Conselho Geral e de Supervisão da ADSE, I.P., confirme ou atualize os seus dados pessoais na ADSE DIRETA em www.adse.pt.

Mantenha os seus dados pessoais atualizados na ADSE, designadamente a sua morada postal, endereços de correio eletrónico e número de telemóvel.

Poderá fazê-lo:
  • Na ADSE DIRETA em www.adse.pt
  • Na App MyADSE
  • Nos Espaços Cidadão
  • Na Loja ADSE
  • No seu Empregador, se estiver no ativo